HUMANISMO ( 1418-1527 )
O Humanismo caracteriza-se por uma nova visão do homem em
relação a Deus e, em relação a si mesmo. Essa nova visão
decorre diante da nova realidade social e econômica vivida
na época.
A pirâmide social da era Medieval, já não existe mais ( essa
pirâmide era formada pelos Nobres / Clero / e Povo ), graças
ao surgimento de uma nova classe social: a Burguesia, cujo
nome se origina da palavra burgos que quer dizer cidade.
O surgimento das cidades deve-se ao incremento do comércio
que era a base de sustentação dessa nova classe social. As
cidades por sua vez, oferecem uma nova opção de vida para os
camponeses que abandonam o campo. Esse fato iniciou o
afrouxamento do regime feudal de servidão.
Nessa época também tem início as grandes navegações, que
levam as pessoas a valorizar crescentemente as conquista
humanas. Esses fatores combinados levam a um processo que
atinge seu ponto máximo no Renascimento.
Como conseqüência dessa nova realidade social, o
Teocentrismo pregado e defendido durante tantos anos pelas
classes anteriores, passa a dar lugar para o
Antropocentrismo, nova visão onde o homem se coloca como
sendo o centro do Universo.
Na cultura, esse processo de mudanças também tem efeitos
culturais pois, o homem passa a se encarar como ser humano,
e não mais como a imagem de Deus.
Todas as Artes passam a expressar novas partículas que
apareceram com essa nova visão, as pinturas os poemas e as
músicas da época por exemplo, tornam-se mais humanas, passam
a retratar mais o ser humano em sua formação.
Essa nova concepção, não significa que a religião estava
acabando mas, apenas que agora os artistas passavam a
embutir em suas obras também o lado humano derivado desse
novo regime social.
As obras dessa época, vão refletir em sua formação esse
momento de transição de uma mentalidade para outra, ou seja,
a passagem de uma visão Teocêntrica para a visão
antropocêntrica do mundo.
Portanto o Humanismo é considerado como um período de
transição.
A prosa, a poesia e principalmente o teatro produzidos nesse
período refletem essa transição.
Texto: Reinaldo Dias, Adaptado do livro Língua e Literatura
Autores: Carlos Faraco e Francisco Moura
Editora Ática Vol.1 6. Ed., 1983
À poesia do período humanista compreende a chamada poesia
palaciana, documentada através de uma coletânea feita por
Garcia de Resende e publicada em 1516 com o nome Cancioneiro
Geral. A leitura dessa coletânea mergulha-nos em plena vida
palaciana. A corte ainda concentrada em torno do rei buscava
novas formas de diversão e passatempos. A maioria das
composições do Cancioneiro Geral destinava-se aos serões do
paço, onde se recitava, disputavam concursos poéticos,
ouviam música, galanteavam, jogavam, realizavam pequenos
espetáculos de alegorias ou paródias. Tudo isso feito pelos
nobres, tendia a apurar-se, os vestuários, os gestos, os
penteados e a linguagem mantendo forte influência da corte.
Nessa época a poesia, enfim, pode ter sua autonomia e
separar-se da música, ou seja, até então todas as poesias
eram feitas para serem musicadas, e a partir desse momento,
as poesias puderam ser apenas declamadas, sem acompanhamento
usando apenas a voz do poeta.
Texto: Reinaldo Dias, Adaptado do livro Língua e Literatura
Autores: Carlos Faraco e Francisco Moura
Editora Ática Vol.1 6. Ed., 1983
PROSA
1. Prosa doutrinária: Dirigida principalmente à nobreza,
com finalidade fundamentalmente didática, como atestam os
títulos das obras: O livro da Falcoaria, Livro da Montaria,
Ensinança de Bem Cavalgar Toda a Sela.
2. Crônica: O cronista medieval não passava de um
compilador, que ordenava os fatos em ordem cronológica, ou
seja, pegavam um texto e faziam um resumo desse texto usando
as próprias palavras do texto escrito, colocando em ordem,
sem nenhuma crítica por parte do cronista. Não expressavam
sentimentos seus em seus escritos.
Fernão Lopes é o grande cronista dessa época, ele mudou essa
concepção ao fazer uma crônica crítica, que resultou de
investigação própria. Merecem destaque ainda nesse período
como cronistas: Rui de Pina e Gomes Eanes de Zurara.
TEATRO
A característica fundamental desse período de transição
aparece na obra daquele que é considerado o criador do
teatro escrito em língua portuguesa: Gil Vicente (
1465?-1536? ).
Sua produção literária apresenta, ao lado do espírito
religioso que caracteriza a 1ª fase medieval, uma novidade:
a crítica à sociedade da época.
Literatura Medieval
Humanismo (século XV) INÍCIO: nomeação de Fernão Lopes para
cronista-mor da Torre do Tombo. (1418)
TÉRMINO: Sá de Miranda traz da Itália a Medida Nova e outras
inovações
PAINEL DE ÉPOCA
antropocentrismo: homem como centro do universo.
a poesia independe da música.
transição entre a Idade Média e o Renascimento.
início da ascensão da burguesia.
nova realidade Mercantil.
crise do sistema feudal.
crise na Igreja.
fortalecimento da figura do rei.
revolução de Avis em Portugal.
PRODUÇÃO LITERÁRIA
I) Historiografia Portuguesa: Fernão Lopes
união do literário e do histórico.
crônica histórica.
imparcialidade na visão dos acontecimentos.
interesse pelo lado humano dos acontecimentos que
determinaram a história.
critica o rei e os nobres em seus textos.
causas econômicas e psicológicas do processo histórico.
estilo coloquial.
retrato psocológico dos personagens.
três importantes crônicas: Crônica del-Rei D. Pedro, Crônica
del-Rei D. Fernando e Crônica del-Rei D. João I
II) Teatro Popular: Gil Vicente
iniciador do teatro popular em Portugal: Auto da Visitação.
influência de Juan del Encina.
satiriza o clero, a nobreza e o povo.
retrata os valores populares e cristãos da vida medieval.
critica, de forma contundente, a sociedade.
temas de caráter universal.
tipos humanos: o papa, o clero, o rei, a mulher adúltera, a
beata, diabos, velho inocente, judeus, etc.
peças de caráter crítico-social: Quem tem farelos?, O Velho
da horta, A Farsa de Inês Pereira, etc.
peças religiosas: Auto da Alma, Trilogia das barcas, etc.
Quadro cronológico da literatura portuguesa
O desenvolvimento do comércio, o crescimento das cidades e a
prosperidade da burguesia mercante tornaram anacrônica a
antiga ordem feudal (fechada, teocêntrica, agrária e
descentralizada). A burguesia tinha outros interesses
nacionais (unificação da moeda, transportes, segurança) e
por isso alia-se à monarquia, fortalecendo o poder do rei, a
quem dá sustentação política e paga impostos. É o embrião
das monarquias nacionais, do regime absolutista.
A Revolução de Avis (1383 - 1385) marca o início do processo
de centralização monárquica e a consolidação do Estado
Nacional Português, em direção ao absolutismo e ao
mercantilismo, com a aliança entre a monarquia e a burguesia
ascendente.
Com a morte de D. Fernando, em 1383, ficou como regente do
trono D. Leonor Teles, até que a infanta D. Beatriz tivesse
um filho varão, maior de quatorze anos. A regente,
influenciada por um aventureiro galego, o Conde de Andeiro,
desenvolveu uma política de aproximação com os reinos
castelhanos, contrariando as tendências autonomistas de
parte da nobreza lusitana e dos grandes burgueses,
especialmente de Lisboa, que escolheram como líder, D. João,
Mestre da Ordem Militar de Avis, filho bastardo de D. Pedro
I (o amante de Inês de Castro). O Conde de Andeiro é
condenado à morte e há grande agitação popular em várias
cidades e vilas. Em Lisboa, o "povo miúdo" proclama D. João,
o Mestre de Avis, "regedor e defensor do reino".
O rei de Castela, a pedido da regente Leonor Teles, entra em
Portugal para sufocar a revolta de Lisboa. um jovem nobre,
Nuno Álvares Pereira, liderou a resistência popular contra
os castelhanos e seus aliados, mobilizando o povo a favor do
Mestre de Avis. Em abril de 1385, reúnem-se as cortes em
Coimbra. Por pressão dos representantes dos conselhos,
dirigidos pelo jurista João das Regras, D. João, o Mestre de
Avis, é proclamado rei, apesar da oposição dos nobres. As
cortes decidem que o Conselho do Rei seja formado por dois
representantes de cada um dos grupos sociais: clero,
nobreza, letrados e cidadãos.
Os exércitos do rei de Castela, que novamente invadiram
Portugal, foram derrotados em 14 de agosto de 1385, na
Batalha de Aljubarrota (última batalha da Revolução de Avis).
A ação de Nuno Álvares, já então condestável do exército,
foi decisiva, arrasando a cavalaria feudal. A guerra
arrastou-se, ainda, por alguns anos, mas as conseqüências
políticas foram irreversíveis: a queda da Dinastia de
Borgonha e da nobreza feudal; a ascensão da dinastia de Avis,
compromissada com a burguesia mercantilista, compromisso do
qual decorre a Tomada de Ceuta, em 1415, primeira conquista
ultramarina; a consolidação do Estado Nacional Português,
que adquire autonomia no contexto ibérico e a definição de
um espírito nacionalista luso.
1434: Nomeação de Fernão Lopes como Primeiro Cronista-Mor do
Reino.
Destacaram-se: Fernão Lopes, Gomes Eanes Zurara, Rui de
Pina, Duarte de Brito, Diogo Brandão, João Ruiz de Castelo
Branco, Jorge Aguiar, Álvaro de Brito, Luis Anriques, Conde
Vimioso, Aires Teles e Gil Vicente. Cancioneiro Geral
Redondilhos e Medida Velha. Oposição à medida nova.
Mote glosado. O poeta vale-se de um tema desenvolvido ou
poetado, na glosa.
Poesia para ler. A poesia separa-se da música; o trovador
cede lugar ao poeta.
Temas: lirismo amoroso.
Teatro medieval e popular de Gil Vicente
Visão medieval do mundo renascentista. Crítica ao
utilitarismo burguês. Interpretação idealista, ingênua,
transcendente. Emprego de redondilhas.
Prosa
Prosa historiográfica de Fernão Lopes. Estilo simples,
elegante e coloquial.
Humanismo e Renascimento
O Renascimento
Para a mentalidade medieval, a desigualdade proporcional
era um bem e não uma injustiça, pois era baseada não no amor
próprio, mas na humildade de reconhecer as carências
individuais de cada um e a superioridade de outros. De
maneira que a regra é a admiração às superioridades de cada
um (pois cada pessoa representa em si algo da perfeição de
Deus, e representa esta perfeição melhor do que qualquer
outra). Em se admirando, algo daquilo a que se admira passa
para quem admira, e assim sucessivamente, existe uma
constante progressão social para o mais alto, para o mais
belo, para o mais perfeito. A função da elite é, pois, a de
elevar constantemente a sociedade e não, como querem os
socialistas, oprimir e destruir.
Com o advento do Renascimento, esta "atitude de alma"
admirativa, gradativamente, vai se transformando em inveja;
e do ideal de desigualdades harmônicas, passa-se a uma busca
constante de igualdade e liberdade. Igualdade fruto do
orgulho que não aceita superioridade. Liberdade que não
aceita a imposição de regras sociais e morais, que, segundo
os revolucionários, aprisionariam o homem . Da união destes
dois princípios revolucionários, somos todos iguais e
livres, surge a fraternidade ecumênica e niveladora, onde a
verdade é subjetiva e a moral apenas social (pelo menos até
o advento das chamadas sociedades alternativas, que
praticamente preceituam a inexistência da moral).
"A partir do século XIV, começam a surgir fissuras no
grandioso edifício da Idade Média: uma gradual e profunda
mudança de mentalidade começa a se operar na Cristandade."
Essa mudança não ocorreu - principalmente, pelo menos - de
forma explícita ainda no Renascimento, a transformação foi
muito mais tendencial do que ideológica.
A Revolução Tendencial
Segundo o já citado pensador católico brasileiro, Plinio
Corrêa de Oliveira, em seu livro, Revolução e
Contra-Revolução:
"No século XIV começa a observar-se na Europa cristã, uma
transformação de mentalidade que ao longo do século XV
cresce cada vez mais em nitidez. (...) Este novo estado de
alma continha um desejo possante, se bem que mais ou menos
inconfessado, de uma ordem de coisas fundamentalmente
diversa da que chegara a seu apogeu nos séculos XII e XIII".
"Subrepticiamente, Nosso Senhor foi sendo afastado como guia
e inspirador da vida social. Embora ainda não negado
frontalmente, Seu papel na vida cotidianaa foi-se
desvanecendo. Tendo decaído o amor à Cruz, foi arrefecendo
na alma do homem do fim da Idade Média a aspiração ao
heroísmo, ao sacrifício e ao desprendimento. Os espíritos
foram-se deixando levar pelo desejo dos prazeres terrenos,
pela fantasia e pelos sofistas".
Paul Faure, historiador e escritor francês, aponta sinais
da modificação progressiva do espírito medieval:
"Cada vez mais se descobrem no século XIV sinais do espírito
novo. É-se sensível aos contrastes de uma vasta cultura sem
ordem nem regras, muito diferente neste ponto da unidade
cristã, tal como a tinha sonhado a Idade Média. (...)
Discernem-se aí, na literatura, na filosofia, nas artes,
etc., uma corrente racionalista e crítica e uma corrente
metafísica e mística; uma corrente de ascese e de
austeridade e uma corrente de indulgência e de leviandade;
muita fé e muito ceticismo. (...)
Entretanto, a Renascença tem esta unidade: a que é
assegurada por um amor extremo da independência em todas as
sua formas. A procura e o culto da riqueza; o individualismo
artístico ou religioso, o nacionalismo; a curiosidade
erudita; o recurso aos textos que se libertam da glosa, do
rito ou da rotina; o amor ao luxo e à carne; em suma, à
vida, são manifestações diversas deste único espírito de
liberdade. (...)
Os costumes mudam, isto é, a maneira de viver, mas também as
de pensar e de crer. Em princípio, na Idade Média, a
autoridade da Igreja se exerce em todos os domínios. Ela é a
primeira classe da sociedade, ou melhor, é a própria
sociedade, representada e conduzida por seus sacerdotes.
(...) Ela ignora as fronteiras. Utiliza uma língua
internacional, o latim evoluído da Idade Média".
Essas tendências se acentuaram no século XV e produziram
profunda metamorfose nos espíritos, conforme assinala o
renomado historiador dos Papas, Ludwig Von Pastor:
"O século XV, principalmente em sua segunda metade, e o
começo do XVI, foram para a Europa em geral, e
particularmente para a Itália, uma época de transição dos
antigos modos de ser para outra disposição de coisas
totalmente diversa.
Em todos os campos da vida operou-se uma profunda
transformação, na qual se manifestaram os mais rudes
contrastes, de modo que o político e o social, a literatura
e a arte, e os próprios assuntos eclesiásticos, achavam-se
em estado de fermentação que pressagiava a aurora de um novo
período".
Na História da Humanidade, continua Pastor, depois da época
em que se realizou a transformação do antigo mundo pagão
numa sociedade cristã, não existe outro período mais digno
de consideração do que aquele em que se verifica a passagem
da Idade Média para a Moderna.
Um dos mais poderosos fatores desse período, repleto dos
mais acentuados contrastes, foi o profundo e amplo estudo
das coisas antigas, que se costuma designar com o nome de
Renascimento da Antigüidade clássica."
Essa transformação foi realizada paulatinamente e de um
modo quase imperceptível, como ressalta o historiador alemão
Wilhelm Oncken (1838-1905):
"A passagem da Idade Média para a Moderna se realiza de modo
tão paulatino e imperceptível, que não se pode fixar
exatamente este período da história, menos ainda assinalar
um fato determinado como ponto divisório entre as duas
idades.(...)
[A fase final da Idade Média] deverá ser dividida em
períodos de caráter diferente e de tendências inteiramente
opostas.
As mais importantes destas tendências são aquelas que se
propunham despojar-se do espírito e das idéias da Idade
Média, e colocar-se, em troca, em contato com as
manifestações intelectuais e artísticas da Antigüidade".
Com o Renascimento começa um lento abandono da austeridade
medieval e uma alucinada procura dos prazeres, como no caso
da corte dos Valois. Bruxarias, cabalas, cortesãs que
aparecem com um obscuro mundo de feitiçarias e bruxedos, a
arte começa a se paganizar e a buscar cada vez mais o culto
do corpo humano, etc.
Vários tipos humanos podem ser colocados como símbolos da
Renascença, entre eles citamos, por exemplo, Francisco I , o
Papa Júlio II, Cosme de Médicis, etc.
A isso se soma a decadência do clero e o aparecimento de
uma série de movimentos paralelos, como os legistas no
campo político e jurídico, os trovadores nas artes, a
literatura sentimental e amorosa...
No nível filosófico, diversas foram as doutrinas que
eclodiram. A principal foi o Nominalismo, que tentava
quebrar certos pressupostos da escolástica, como a "união
objetiva" entre o sujeito e o objeto.
Desta forma, a Renascença foi quebrando a base de
sustentação da Idade Média, que era, sobretudo, hierárquica,
austera e sacral.
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Capítulo 3
Petrarca, Mestre dos Humanistas, Arauto da "Consciência
Moderna"
Francisco Petrarca, poeta e escritor, nasceu em Arezzo em
20 de julho de 1304 de Petracco e Eletta Canigiani; morreu
em Acqua sui Colli Euganci em 19 de julho de 1374.
Petrarca pode ser considerado o mestre do Humanismo,
enquanto soube traduzir em forma clara certas intuições
presentes no pré-Humanismo de Albertino Mussato, Ferreto de
Ferreti e outros, aprofundando-as notavelmente no seu
conteúdo ideal.
Ele, com efeito, viu nos Studia humanitatis ["Estudos de
humanidades"] não uma orientação cultural e filológica, um
fim em si mesmo ou um retorno ideal ao passado, mas um
instrumento eficacíssimo e uma nova força espiritual para
criar uma nova cultura e uma nova concepção de vida.
O culto da antigüidade clássica não é mais unicamente amor
e interesse vivíssimo por uma poesia e por um mundo
historicamente circunscrito, nem só ânsia de ampliar e de
aprofundar o patrimônio cultural; é sobretudo a crítica e o
julgamento da Idade Média, e a descoberta, numa formulação
inicial, das linhas ideológicas e programáticas da
consciência moderna.
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Capítulo 4
A Cavalaria Medieval, Um Estudo de Caso
"A Cavalaria, outrora uma das mais altas expressões da
austeridade cristã, se torna amorosa e sentimental, a
literatura de amor invade todos os países, os excessos de
luxo e a conseqüente avidez de lucros se estendem por todas
as classes sociais".
O ideal religioso e temporal do homem medieval estava em
larga medida consubstanciado na Cavalaria. As noções de
piedade, sacralidade, honra, combatividade a serviço do Bem,
encontravam no Cavaleiro sua personificação. Ele era antes
de tudo o defensor da Fé, o gládio a serviço da Igreja
contra hereges e infiéis.
O cavaleiro medieval era, sobretudo, o leal vassalo que
prestava submissão ao seu senhor e por ele combatia. O lema
do brasão de um nobre espanhol, o Duque de Tebas, bem
exprime esse ideal: "Meu Rei, mais do que meu sangue".
O historiador flamengo Johan Huizinga apresenta alguns
traços da concepção que o homem medieval fazia da Cavalaria:
"O pensamento medieval estava na generalidade saturado das
concepções da fé cristã. De igual modo, e numa esfera mais
limitada, o pensamento de todos aqueles que viviam nos
círculos da corte ou dos castelos estava impregnado do ideal
da cavalaria. (...)
Esta concepção tende mesmo a invadir o domínio do
transcendente. O feito de armas primordial de São Miguel
Arcanjo é glorificado por Jean Molinet como "o maior feito
de cavalaria e das proezas cavalheirescas jamais realizado".
Foi do arcanjo que "a cavalaria terrestre e as proezas
cavalheirescas" extraíram a sua origem, e por isso imitam as
hostes angélicas em volta do trono de Deus".
Um conhecido compêndio católico de História Universal
apresenta outros aspectos da Cavalaria, em seu período de
esplendor na Idade Média:
"Essa associação guerreira, espécie de sacerdócio militar,
era assim chamada porque os nobres só combatiam a cavalo.
Já aos sete anos de idade, o futuro cavaleiro deixava o
castelo paterno e entrava no serviço do senhor suserano.
Estudava o manejo da lança e o da espada, tornando-se
sucessivamente pequeno vassalo, pequeno senhor, pagem,
escudeiro, enfim aos vinte anos era feito cavaleiro. O
senhor lhe impunha o gládio e lhe dava o abraço. Depois
batia-lhe três vezes no ombro dizendo: "Eu te faço cavaleiro
em nome do Padre e do Filho e do Espírito Santo, de São
Miguel e de São Jorge. Sê valente, destemido e leal".
Um torneio encerrava de ordinário a cerimônia. A Cavalaria
gerou uma pléiade de heróis católicos; veio a ser um como
vínculo de parentesco e de honra entre os povos do
Ocidente."
Mas as novas doutrinas em voga investiram contra a
Cavalaria, que não soube defender-se como nos campos de
batalha. O texto seguinte é do escritor francês Puy de
Clichamps:
"O cavaleiro que deseja continuar a ser campeão dos combates
singulares que compunham a guerra, terá apenas o pálido
derivativo numa coisa semelhante: os torneios. (...)
Mas, também aí, onde está o velho ideal cavalheiresco, que
era servir a Deus, à Igreja e àqueles a quem a desgraça
perseguir? E, se não estiver totalmente esquecida, já não
está muito na moda a velha oração, rezada no dia da
investidura de armas, sobre a espada nova:
"Que o teu servo não se sirva nunca dessa espada... para
lesar impunemente alguém, mas que se sirva dela para
defender a justiça e o direito".
A Cavalaria tornou-se apenas uma palavra. (...)
A lenta pacificação dos reinos tinha dado lugar, além da
formação e promoção da burguesia, ao início de uma nova
força: a mulher. (...)
À falta de poderem lançar-se ao assalto uns aos outros, os
cavaleiros, entre dois torneios disputados, de resto, sob o
olhar da castelã, tentarão tudo para obter de sua dama uma
fita, uma manga ou um anel. A Cavalaria submeteu-se de tal
maneira ao poder feminino que podemos ver em canções de
gesta, como "Doon de Mayence" (século XIII) ou "Gaufrey"
(século XIII), mulheres armarem cavaleiros aos seus
pretendentes. (...) Assim pode ler-se no "Joudain de
Blaivies" (século XIII):
‘E a jovem traz-lhe a espada/ Ela própria lha coloca à
cinta. (...) Agora dá-lhe a "colée"/ ‘Sede cavaleiro, diz a
dama de gentil figura/ Que Deus te conceda honra e coragem/
e se tiverdes vontade de um beijo/ tomai esse e outros
também/ Então Jourdain diz: "Obrigado lhe digo cem vezes". /
Beija-a por três vezes (...)"
A cena, que pode parecer infantil à primeira vista, é
encantadora, até talvez demasiadamente encantadora e
transparece dela uma ironia apenas camuflada que
ridiculariza um pouco o apaixonado cavaleiro. Hércules
fiando aos pés de Onfala faz pelo menos sorrir.
Mas podemos verificar que mais uma vez estamos bem longe da
sólida virilidade da primeira Cavalaria. Esta intromissão da
mulher na velha instituição guerreira é sinal (...) de que a
instituição perdeu a força - um sinal e em parte uma das
causas dessa perda de força".
Debilitado o espírito de abnegação, a Cavalaria
transformou-se gradualmente numa indigna caricatura de si
mesma. Os romances que escolheram a Cavalaria como tema
exprimem bem essa transformação: já não é por Deus e pelos
desvalidos que luta o cavaleiro, mas pelos belos olhos de
uma dama... Abel Lefranc descreve o triste sucesso do
protótipo desses romances, o "Amadis de Gaule":
"Dentre os romances de cavalaria o que conheceu uma mais
firme e duradoura aceitação, (...) foi certamente o ‘Amadis
de Gaule’.
‘Amadis’ é filho de Périon, fabuloso rei da Gália, e da bela
Elisène, filha de Garinter, rei da pequena Bretanha. A dama
dos seus pensamentos é Oriana, filha do rei da Dinamarca.
Para obter a sua mão, trava combates sem conta, através dos
quais se cobre de glória. Arrisca-se, diversas vezes, a
perder para sempre aquela que ama, mas sua coragem e
constância triunfam de todos os obstáculos. Vencedor de
tantas provas, torna-se finalmente o esposo de Oriana.
De 1540 a 1556, aparecem doze livros de ‘Amadis’, em igual
número de volumes in-fólio [formato de um livro, no qual a
folha de impressão é dobrada apenas em duas e não forma por
conseguinte senão quatro páginas], com numerosas e notáveis
gravuras em madeira. Todos estes belos volumes cedo foram
reimpressos, alguns deles mesmo várias vezes. (...)
Enfim, de 1561 a 1615 foram publicados, (...) traduções
francesas de romances espanhóis ou romances compostos em
francês imitando o ‘Amadis’.
Esta simples enumeração, que não abarca as numerosíssimas
reimpressões das edições citadas, permite fazer uma idéia da
prodigiosa difusão das diversas partes do romance e das
seqüências que lhe foram dadas em italiano, alemão, inglês,
holandês e até em hebraico. (...)
Desde o início, foi imenso o sucesso desta obra. A versão
francesa do ‘Amadis’ penetrou em toda parte, na corte, nos
meios aristocráticos e burgueses e até nos conventos.
Durante um longo período, tornou-se o código da cavalaria, o
"breviário" mundano, um verdadeiro livro de cabeceira para
uma infinidade de leitores e leitoras, que ele seduziu e
encantou. (...)
Mas não devemos esperar encontrar ali um modelo de virtudes,
muito menos de austeridade, nem sequer uma disciplina moral:
os costumes revelam-se bastante fáceis e as personagens não
opõem grande resistência ao ímpeto das paixões amorosas.
Nenhum outro romance parece ter exercido tamanha influência
sobre a sensibilidade e a imaginação dos homens da época
durante quase meio século. Os contemporâneos de Francisco I
e de Henrique II aprenderam nestes livros a pensar e a
sentir de uma outra maneira.
Como refere ainda Bourciez, ‘sendo embora este romance,
menos o espelho em que se reflete uma geração do que o
modelo por ela seguido, nem por isso deixa de existir entre
ambos certa conformidade. Neste sentido, o ‘Amadis’ é, pois,
um documento".
Pari passu com os romances de Cavalaria, outra influência
deletéria corrompe os costumes: a poesia cortês dos
trovadores provençais . Semelhante literatura, túmida de
sentimentalismo, abre caminho para a literatura
"erótico-espiritual". Esse processo é descrito pelo
historiador flamengo Johan Huizinga:
"Quando, no século XII, o desejo insatisfeito foi colocado
pelos ‘Trovadores da Provença’ no centro da concepção
poética do amor, deu-se uma virada importante na história da
civilização.
A Antigüidade também tinha cantado os sofrimentos do amor,
mas, nunca os tinha concebido como esperanças de felicidade
ou como frustrações lamentáveis dela. (...)
A poesia cortês, por outro lado, faz do próprio desejo o
motivo essencial e cria assim uma concepção do amor com uma
nota de fundo negativo. (...) O amor tornou-se então terreno
onde todas as perfeições morais e culturais floresceram.
Devido a este amor o amante cortesão é puro e virtuoso. O
elemento espiritual domina cada vez mais até os fins do
século XIII, o ‘dolce stil nuovo’ de Dante e dos seus amigos
termina por atribuir ao amor o dom de provocar um estado de
piedade e santa intuição. Atingiu-se um ponto extremo.
Não tarda que o sistema artificial do amor cortesão seja
abandonado, e as suas sutis distinções não serão renovadas
quando o platonismo do Renascimento, já latente na concepção
cortesã, der lugar a novas formas de poesia erótica com uma
tendência espiritual.
O ‘Roman de la Rose’ (...) começado antes de 1240 por
Guillaume de Lourris, estava completo, antes de 1280, por
Jean Chopinel. Poucos livros têm exercido uma influência
mais profunda e duradoura na vida dum período do que o
‘Roman de la Rose’. A sua popularidade durou pelo menos dois
séculos. Ele determinou a concepção aristocrática do amor
dos fins da Idade Média. Em virtude do seu alcance
enciclopédico tornou-se o manancial de onde a sociedade
laica tirou a melhor parte de sua erudição. (...)
É surpreendente que a Igreja, que tão rigorosamente reprimiu
os mais leves desvios do dogma em casos de caráter
especulativo, permitisse que o ensino deste breviário da
aristocracia fosse disseminado impunemente."
Influenciada pelo clima geral de decadência, a Cavalaria
torna-se uma instituição mundana. As proezas em defesa da Fé
já não são seu principal objetivo. Os torneios e as
exibições vaidosas ocupam agora lugar preponderante. A
libertação da Terra Santa é substituída pela conquista
amorosa de uma dama...
"Que seria do jovem nobre, ao receber o cavalo e a lança,
sem a Cavalaria? Um soldado mais afortunado ou menos, mais
sanguinário ou menos... A Igreja soube transformar um ato
puramente militar e feudal num ato religioso. Ela disse aos
bárbaros do século IX: ‘Regulai vossa coragem’. Eles a
regulam e sua selvajeria pouco a pouco se tornou proeza.
‘Não há cavaleiro sem proeza’, diz um velho provérbio. Todas
as outras virtudes virão depois e se darão as mãos:
lealdade, liberalidade, moderação, cortesia e honra, que a
tudo coroa; toda a cavalaria está contida nestas seis
palavras. O cavaleiro autêntico é já um eleito, mas em toda
a sua vida deve merecer a felicidade futura, lutando
duramente contra si mesmo e contra os outros. Tudo pode
estar perdido para ele, exceto a honra e a eternidade..."
Formação da Mentalidade Antropocêntrica
"Tal clima moral, penetrando nas esferas intelectuais,
produziu claras manifestações de orgulho, como o gosto pelas
disputas aparatosas e vazias, pelas argúcias inconsistentes,
pelas exibições fátuas de erudição, e lisonjeou velhas
tendências filosóficas, das quais triunfara a Escolástica, e
que já agora, relaxado o antigo zelo pela integridade da Fé,
renasciam em aspectos novos.
"O apetite dos prazeres terrenos se vai transformando em
ânsia. As diversões se vão tornando mais freqüentes e mais
suntuosas. Os homens se preocupam sempre mais com elas.
Nos trajes, nas maneiras, na linguagem, na literatura e na
arte o anelo crescente por uma vida cheia de deleites da
fantasia e dos sentidos vai produzindo progressivas
manifestações de sensualidade e moleza.
Há um paulatino deperecimento da seriedade e da austeridade
dos antigos tempos. Tudo tende ao risonho, ao gracioso, ao
festivo."
O historiador já citado, Wilhelm Oncken - aliás
protestante -, aponta as características da civilização
moderna, surgida com o Renascimento:
Esta civilização, nascida na Itália, que desde o século XIII
se tinha colocado à frente do progresso intelectual (cuja
liderança tinha sido exercida até então pela França),
recebeu o nome de Renascimento; na realidade não foi nenhum
renascimento da Antigüidade clássica como o teriam desejado
seus adeptos mais ardentes, mas tão-só a transição da
sociedade para um estado intelectual, social e político
inteiramente novo. Com a transformação da Cristandade em
vários estados políticos modernos, o Cristianismo parecia
transformar-se em um estado intelectual que cifrava sua
religião, não tanto na fé na divindade, como na fé na
humanidade. (...)
Aquela civilização moderna, no seu verdadeiro fundo, não
tinha afinidade com a essência do Cristianismo, nem nada que
ver com os ideais da Igreja na Idade Média."
Desta forma, a mentalidade medieval - sobretudo de
austeridade, sacrifício e seriedade - começa, primeiramente
no nível tendencial, a ser transformada. Da busca incessante
da glória de Deus, o ser humano passa a procurar a sua
glória; do sacrifício, começa-se, paulatinamente, a
buscar-se o gozo; da seriedade medieval, chega-se ao riso
renascentista, etc. Toda a civilização é transformada em
seus costumes.
Surgem, no contexto das novas tendências, diversas
teorias. Cada uma, a seu modo, começa a demolir os
pressupostos transcendentes e naturais da Idade Média. A
vida não mais foi feita para o heroísmo e para a santidade,
mas para o prazer. A felicidade não está em servir a Deus e
ao seu rei, mas no prazer e nos divertimentos da vida.
O entusiasmo pela religião esfria, a admiração cede lugar
às questões pessoais, a Cruz perde o seu significado. Enfim,
o homem Renascentista não entende mais a transcendência que
a Idade Média conferia à vida.
A arte, antes tendo como objeto a sacralidade, passa a
retratar o cotidiano da vida humana.
"Antes, [na Idade Média], conhecer significava apreender a
essência das coisas, chegar até elas como se chega ao
pensamento divino. Agora [na Idade Moderna], porém, o
conhecimento liga-se intimamente à produção: a procura das
leis da natureza é feita em função do seu aproveitamento
para satisfazer às necessidades do homem. Procura-se
conhecer a movimentação das águas e os ventos para se
construir navios; investiga-se a lei do movimento dos corpos
para a produção de máquinas de trabalho e de guerra.
A ciência liga-se definitivamente à técnica, passando da
mera contemplação da essência das coisas para a intervenção
direta na natureza.
A arte, de simbólica, passa a ser representativa, já que a
presença de Deus não é mais a única imagem digna de ser
figurada. (...)
O que importa, agora, é criar a ilusão de um mundo
imaginário que, de repente, adquire vida própria. Em lugar
de se justaporem uns aos outros, os personagens e as cenas
subordinam-se ao tema central. Tudo passa a girar em torno
da criação e de um universo imaginário, paralelo ao mundo
cotidiano, que revela, porém, sua essência e a maneira
peculiar pela qual o artista o percebe, vê e analisa. (...)
O Cristianismo sempre professara a criação do homem à imagem
e semelhança de Deus; mas, a partir do Renascimento, a
ênfase é dada muito mais à imagem do que ao próprio
original. Esse processo foi denominado Humanismo. Nos
primeiros tempos, os humanistas eram eruditos que
transferiram os métodos de interpretação da Bíblia para os
textos greco-latinos, mantendo a mesma posição servil diante
da palavra escrita. Logo, porém, percebem a insistência com
que os gregos representavam sues deuses sob formas humanas,
o valor que conferiam aos acontecimentos da vida eterna e a
atitude racionalista com a qual tratavam esses episódios;
encontram, assim, os padrões nos quais puderam projetar seus
próprios ideais de racionalidade e de solidariedade humana.
É com esse espírito que o artista do Renascimento procura,
na Antigüidade, os temas para a literatura e as formas para
a escultura e a pintura" .
Retratando mais os valores da vida humana - naturalmente
falando - do que os da sacralidade medieval - sobrenatural
em sua essência, os humanistas quebraram os costumes
medievais. Mas não quebraram apenas os costumes, houve uma
verdadeira Revolução em todos os campos da sociedade. O
homem renascentista não podia mais entender a civilização
medieval, não podia mais compreender a finalidade medieval
da vida.
Do Renascimento ouve-se o grito, no começo surdo, do
Protestantismo: "Cristo sim, Igreja não". Na Revolução
Francesa o brado que se ouve é outro: "Deus sim, Cristo
não". Durante o Comunismo, alardeia-se a "nova" "moral":
"Deus não existe". Chega-se à Pós-modernidade, quando em
1968, na Sorbonne, se diz: "Se Deus existir, é preciso
matá-lo".