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  Matérias :: Português :: Literatura

  Autoria: Samuel dos Santos Shiguemoto
 

A Lira dos Vinte Anos
(Álvares de Azevedo ( 1831-1852) )

Pequena Biografia:
Manuel Antônio Álvares de Azevedo nasceu, no dia 12 de setembro de 1831, em São Paulo; morreu aos 20 anos e sete meses no dia 25 de abril de 1852, no Rio de Janeiro. Leia o que os professores Antônio Cândido e Aderaldo Castelo escrevem sobre o autor em Presença da Literatura Brasileira II:
"Com a transferência da família para o Rio de Janeiro, aí fez seus estudos iniciais, ingressando depois na Faculdade de Direito de São Paulo. Surpreendido pela morte, não chegou a concluir o curso. Deixou fama de grande curiosidade intelectual, tendo participado ativamente de agremiações literárias e se imposto entre os de sua geração, por ele tão bem representada. Acumulou impressionante leitura de antigos e modernos, com preferência por Byron, Mussett, Chatterton; cultuou Bocage e louvou a Werther.
No que escreveu como poeta e ensaísta, revelou uma sensibilidade aguda, fortemente impressionável, enriquecida pela imaginação viva e pela inteligência. Era natural que se deixasse arrebatar, num processo de múltiplas interferências, pela confusão e ao mesmo tempo conflito entre o real e o imaginado, bipartindo-se a sua personalidade, acentuando a sentimentalidade doentia. Deu-se a criações mórbidas e desesperadas e muitas vezes maculou a visão idealizada da mulher com impulsos e desejos exacerbados. Deixou-se conduzir pela angústia, pelos equívocos, até ao delírio da embriaguez, à aspiração e ao temor da morte, numa atitude adolescente do dilaceramento íntimo, que teria sacrificado a sua plena realização como poeta. Esse traço marcante de sua obra poética é reconhecido igualmente nas suas incursões no teatro e na ficção, e em páginas de reflexões críticas, estas, sobretudo, de grande importância para a compreensão da atitude byroniana que foi a marca da sua geração."
Os poemas do autor revelam um pessimismo crônico, por influência que teve de Lord Byron e do poeta francês Alfred de Mussett.
Pouco se sabe sobre sua verdadeira biografia, endeusado que foi depois de morrer tão prematuramente. Há notícias que dão como certo o fato dele ter nascido, por exemplo, na biblioteca da casa do avô; outras afirmam peremptoriamente ter nascido o poeta dentro da Biblioteca da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco...
Quando Álvares de Azevedo nasceu, isso é certo, o pai era ainda quintanista da faculdade de Direito; concluídos os estudos, muda-se com a família para o Rio de Janeiro.
Quando o poeta tinha 4 anos, morre-lhe o irmão Manuel Inácio, em decorrência do que Álvares de Azevedo passa a ter surtos de febre e dando-lhe preocupação freqüente sobre a finitude e transitoridade humanas.
Em virtude das doenças, da inquietude e da fragilidade, entra para o Colégio Stoll com 9 anos; de início é aluno medíocre, mas aos poucos começa a se destacar pela habilidade do raciocínio e facilidade em aprender línguas. Pouco depois, vai para o Colégio D. Pedro, onde aprenderá latim, grego e alemão. Naquela ocasião, foi aluno de Gonçalves de Magalhães, o iniciador do Romantismo no Brasil.
Em 1847 conclui o segundo grau e recebe o título, juntamente com uma menção honrosa, de Bacharel em Letras.
Não gostava de São Paulo, onde nascera, e era freqüente queixar-se , em cartas, aos pais e amigos, sobre o tédio que sentia ao morar na "pequena cidade sempre coberta por uma neblina quase londrina, com suas ruas péssimas e ladeiras íngremes."
Foram seus companheiros dessa época Bernardo Guimarães e Aureliano Lessa, que mais tarde também seriam reconhecidos como importantes intelectuais brasileiros. São Paulo desse tempo tremia de medo das lendas que circulavam ao redor da Sociedade Epicuréia, uma sociedade secreta formada por estudantes que fora fundada em 1845. Lá, cada estudante tinha, no batismo, o nome de uma das personagens de Lord Byron, fantasiavam extravagantemente e realizavam cerimônias macabras nos cemitérios da cidade.
Mas não há notícia de que o poeta dela tenha participado. Álvares de Azevedo era um tímido, introvertido, recém-saído do lar do amor materno. Estudioso, lia em várias línguas e escreveu toda a sua obra nos quatro anos que esteve em São Paulo.
Ao morrer, no entanto, nada havia publicado senão esparsos poemas e alguns discursos acadêmicos, poucas apreciações críticas, tudo anotado em cadernos prestimosamente preenchidos.
Sobre sua morte, os biógrafos divergem. Mas o certo é que ela se deu em decorrência de uma queda de um cavalo seguida do aparecimento de um tumor instalado na fossa ilíaca. Agonizou, literalmente, cerca de 50 dias. E neles lamentou arrancar o coração ao pai desesperado, que não media esforços para mantê-lo vivo ( "Que desgraça, meu pai!").
A morte prematura alçou-o definiticamente à condição de gênio:
Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
- Foi poeta, sonhou e amou na vida. _
Sombras do vale, noites da montanha,
Que minh’alma cantou e amava tanto,
Protejei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe um canto!
Podemos encontrar a obra de Álvares de Azevedo inserida no segundo momento da poesia romântica no Brasil; portanto, no ultra-romantismo, conhecido também como byronismo ou poesia do mal-do-século, permeado do spleen ( melancolia inexplicável e doentia).
E embora o poeta morresse extremamente jovem, aos vinte anos, pode ser soberanamente considerado como o mais importante escritor de sua época. Toda sua obra foi publicada postumamente ( A Lira dos Vinte anos( 1853), Noite na Taverna, contos ( 1855) e Macário, teatro ( 1855)).

A Lira dos Vinte Anos
"A poesia é de certo uma loucura"
A Lira dos Vinte Anos compõe-se do que há de melhor na produção de Álvares de Azevedo. Estruturalmente divide-se em três partes ; mas do ponto de vista temático, em apenas duas. Por quê?
A primeira e terceira partes têm temas assemelhados: a morte, a família, os temas da adolescência, o sonho, a religiosidade, a forma feminina como obsessão; a segunda parte, no entanto, traz o irônico, o "satânico", a mulher, ainda que em sonho, aproximada do erótico, carnal.
PARTE I
Composta por 33 poemas, inicia-ae por um prefácio que tem epíteto sugestivo de Bocage:
"Cantando a vida, como o cisne a morte."
O poeta nos adverte:
"São os primeiros cantos de um pobre poeta. Desculpai-os. As primeiras vozes do sabiá não têm a doçura dos seus cânticos de amor.
É uma lira, mas sem cordas; uma primavera, mas sem flores; uma coroa de folhas, mas sem viço.
Cantos espontâneos do coração, vibrações doridas da lira interna que agitava um sonho, notas que o vento levou, _ como isso, dou a lume essas harmonias.
São as páginas despedaçadas de um livro não lido...
E agora que despi a minha musa saudosa dos véus do mistério do meu amor e da minha solidão, agora que ela vai seminua e tímida por entre vós, derramar em vossas almas os últimos perfumes de seu coração – ó meus amigos, recebei-a no peito, e amai-a como o consolo que foi de uma alma esperançosa, que depunha fé na poesia e no amor – esses dous raios luminosos do coração de Deus."
A primeira parte da Lira contém poemas cuja temática é intimista: dores do coração, medo da morte, a mulher que ora se mostra, ora se esconde, a família, o sonho e a fantasia que se misturam principalmente através do jogo metafórico na erotização da mulher. Há nessa parte o aparecimento de símbolos que deixam entrever a sexualidade reprimida, a mulher sensualizada é apresentada sempre através das metáforas sonho, fantasia, nuvens. Ou seja: ela se insere nas visões ora esfumaçadas, ora na perspectiva da perda e do imaginário onírico. Parte disso se deve ao fato de que o Romantismo trouxera para seus textos literários a chamada perspectiva nostálgica , que se resume ao distanciamento do que causa prazer; por outro lado, há de se contar com o fato de o poeta ser muito jovem ainda, portanto também distanciado das experiências do amor e da paixão definitivos.
Perturbado pelo imaginário, o desejo que se apresenta nos poemas é oscilante, medroso, contido e tangenciando ao juvenil.
PARTE II
A segunda parte da Lira dos Vinte Anos é composta por 14 poemas e não se identifica tematicamente com a primeira e a terceira. Inicia-se também por um prefácio:
"Cuidado, leitor, ao voltar esta página!
Aqui dissipa-se o mundo visionário e platônico. Vamos entrar num mundo novo, terra fantástica, verdadeira ilha Baratária de D. Quixote, onde Sancho é rei; (...)
Quase que depois de Ariel esbarramos em Caliban.
A razão é simples. É que a unidade deste livro funda-se numa binomia. Duas almas que moram nas cavernas de um cérebro pouco mais ou menos de poeta escreveram este livro, verdadeira medalha de duas faces.
Demais, perdoem-me o poetas do tempo, isto aqui é um tema, senão mais novo, menos esgotado ao menos que o sentimentalismo tão fashionable desde Werther e René.
Por um espírito de contradição, quando os homens se vêem inundados de páginas amorosas, preferem um conto de Bocáccio, uma caricatura de Rabelais, uma cena de Falstaff, no Henrique IV de Shakespeare, um provérbio fantástico daquele polisson Alfred de Musset, e todas as ternuras elegíacas dessa poesia de arremedo que anda em moda, e reduz as moedas de oito sem liga dos grandes poetas ao troco de cobre, divisível até o extremo, dos liliputianos poetastros. Antes da Quaresma há o Carnaval.
Há uma crise nos séculos como nos homens. É quando a poesia cegou deslumbrada de fitar-se no misticismo, e caiu do céu sentindo exaustas as suas asas de oiro.
O poeta acorda na terra. Demais, o poeta é homem, Homo sum, como dizia o célebre Romano. Vê, ouve, sente e, o que é mais, sonha de noite as belas visões palpáveis de acordado. Tem nervos, tem fibra e tem artérias – isto é, antes e depois de ser um ente idealista, é um ente que tem corpo. E digam o que quiserem, sem esses elementos, que sou o primeiro a reconhecer muito prosaicos, não há poesia.
O que acontece? Na exaustão causada pelo sentimentalismo, a alma ainda trêmula e ressoante da febre do sangue, a alma que ama e canta porque sua vida é amor e canto, o que pode fazer senão o poema dos amores da vida real? Poema, talvez novo, mas que encerra em si muita verdade e muita natureza, e que sem ser obsceno pode ser erótico sem ser monótono.Digam e creiam o que quiserem. Todo o vaporoso da visão abstrata não interessa tanto como a realidade formosa da bela mulher a quem amamos.
O poema então começa pelos últimos crepúsculos do misticismo, brilhando sobre a vida como a tarde sobre a terra. A poesia puríssima banha com seu reflexo ideal a poesia sensível e nua.
Depois a doença da vida, que não dá ao mundo objetivo cores tão azuladas como o nome britânico de blue devils, descarna e injeta de fel cada vez mais o coração. Nos mesmos lábios onde suspirava a monodia amorosa, vem a sátira que morde.
É assim. Depois dos poemas épicos Homero escreveu o poema irônico. Goethe depois de Werther criou Faust. Depois de Parisina e o Giaour de Byron vem Cain e Don Juan pelo amor, e acaba como ele pela descrença venenosa e sarcástica.
Agora basta.
Ficarás tão adiantado agora, meu leitor, como se não lesses essas páginas, destinadas a não ser lidas. Deus me perdoe! assim é tudo! até os prefácios!
A primeira pergunta que nos ocorre é: quem são Ariel e Caliban, marcas nas quais o poeta se escora, indicando mudanças? São personagens da peça A Tempestade, de Shakespeare. Ariel representa o Equilíbrio, o Bem, a Harmonia, a face clara e afável dos seres, enquanto que Caliban simboliza o Mal, o lado escuro dos seres, a desordem, o desequilíbrio.
Dito isso, está claro que o Álvares de Azevedo quer fazer ressaltar algo: na Parte II estão contidos os poemas irônicos, as paródias, um suposto "satanismo" somente encontrado em Noite na Taverna.
III PARTE
Trinta poemas formam a terceira parte do livro, formado, ao todo, de 77 composições poéticas. Nenhum prefácio, nenhuma indicação de abertura; mas sabemos que , tematicamente, encontraremos a mesma intenção da Parte I: devaneios adolescentes, amor inacessível, erotização metaforizada, família, os temas da morte e do sofrimento, o poeta tão jovem... e o mesmo intimismo, o tom inquieto e confessional.
A Lira dos Vinte Anos foi publicada um ano após a morte do poeta ( 1853), organizada pelo amigo Domingos Jacy Monteiro a partir de anotações que Álvares de Azevedo deixara em cadernos esparsos. Não era apenas a Lira que se publicava e o volume ganhou o nome de Obras de Manuel Antônio Álvares de Azevedo.
Naquela época, a Lira estava dividida em apenas duas partes, sem os prefácios escritos pelo ultra-romântico brasileiro. Em 1873, uma nova edição organizada por Joaquim Norberto de Sousa e Silva acresceu-os à obra que desta vez vinha dividida tal como hoje se apresenta, em três partes.
Somente em 1942, através de Homero Pires , é que a obra ganha versão definitiva.
A virgem pálida, o amor platônico, a morte iminente são os temas que regem a primeira parte deste livro de um adolescente. A noite, o lamento pela distância do ser amado, misturados às culpas pelos desejos carnais aparecem em quase todos os poemas.
É preciso observar que a morte não é a evasão romântica na acepção que se dá ao termo: ela é temida, mas também fascina o poeta, o que dá um tom singular aos poemas. É como se o próprio poeta dele mesmo tivesse profunda pena, sabendo que ia morrer, distanciar-se de tudo que amava na vida: mãe, pai, irmã.
A segunda parte da Lira desanda para o que há de ironia e sarcasmo ultra-românticos. Não que o poeta abandone os temas relacionados ao amor e à morte; mas é nessa segunda parte que aparecem as zombarias irônicas, que quase beiram ao humor corrosivo de que É ela, é ela, é ela , é ela é máximo representante. Queda de um cavalo, charutos e o spleen somam-se aos temas do amor e, ainda, da morte, da desesperança e do tédio ( ver os poemas).
A terceira partição, como já frisamos no início deste trabalho, contém os temas que repetem os da primeira parte: o onírico reinstala a mulher do sonho, a fantasia erótica não concretizada, a morte, o lamento pela morte transbordam em seus versos queixosos.
Gênio de seu tempo?
Talvez.
Mas a poesia de Álvares de Azevedo, se comparada aos seus companheiros de Ultra-romantismo, reina soberana. Ele é, sem dúvida, o expoente máximo de sua época no Brasil.

 
 

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