Literatura Brasileira
Origens
O estudo sobre as origens da literatura brasileira deve ser feito levando-se
em conta duas vertentes: a histórica e a estética. O ponto de vista histórico
orienta no sentido de que a literatura brasileira é uma expressão de cultura
gerada no seio da literatura portuguesa. Como até bem pouco tempo eram muito
pequenas as diferenças entre a literatura dos dois países, os historiadores
acabaram enaltecendo o processo da formação literária brasileira, a partir de
uma multiplicidade de coincidências formais e temáticas.
A outra vertente (aquela que salienta a estética como pressuposto para a análise
literária brasileira) ressalta as divergências que desde o primeiro instante
se acumularam no comportamento (como nativo e colonizado) do homem americano,
influindo na composição da obra literária. Em outras palavras, considerando
que a situação do colono tinha de resultar numa nova concepção da vida e das
relações humanas, com uma visão própria da realidade, a corrente estética
valoriza o esforço pelo desenvolvimento das formas literárias no Brasil, em
busca de uma expressão própria, tanto quanto possível original
Em resumo: estabelecer a autonomia literária é descobrir os momentos em que as
formas e artifícios literários se prestam a fixar a nova visão estética da
nova realidade. Assim, a literatura, ao invés de períodos cronológicos, deverá
ser dividida, desde o seu nascedouro, de acordo com os estilos correspondentes
às suas diversas fases, do Quinhentismo ao Modernismo, até a fase da
contemporaneidade.
Duas eras - A literatura brasileira tem sua história dividida em duas
grandes eras, que acompanham a evolução política e econômica do país: a Era
Colonial e a Era Nacional, separadas por um período de transição, que
corresponde à emancipação política do Brasil. As eras apresentam subdivisões
chamadas escolas literárias ou estilos de época.
A Era Colonial abrange o Quinhentismo (de 1500, ano do descobrimento, a
1601), o Seiscentismo ou Barroco (de 1601 a 1768), o Setecentismo (de 1768 a
1808) e o período de Transição (de 1808 a 1836). A Era Nacional, por sua vez,
envolve o Romantismo (de 1836 a 1881), o Realismo (de 1881 a 1893), o Simbolismo
(de 1893 a 1922) e o Modernismo (de 1922 a 1945). A partir daí, o que está em
estudo é a contemporaneidade da literatura brasileira.
O Quinhentismo
Esta expressão é a denominação genérica de todas as manifestações
literárias ocorridas no Brasil durante o século XVI, correspondendo à introdução
da cultura eu-ropéia em terras brasileiras. Não se pode falar em uma
literatura "do" Brasil, como característica do país naquele período,
mas sim em literatura "no" Brasil - uma literatura ligada ao Brasil,
mas que denota as ambições e as intenções do homem europeu.
No Quinhentismo, o que se demonstrava era o momento histórico vivido pela
Península Ibérica, que abrangia uma literatura informativa e uma literatura
dos jesuítas, como principais manifestações literárias no século XVI. Quem
produzia literatura naquele período estava com os olhos voltados para as
riquezas materiais (ouro, prata, ferro, madeira, etc.), enquanto a literatura
dos jesuítas se preocupava com o trabalho de catequese.
Com exceção da carta de Pero Vaz de Caminha, considerada o primeiro documento
da literatura no Brasil, as principais crônicas da literatura informativa datam
da segunda metade do século XVI, fato compreensível, já que a colonização só
pode ser contada a partir de 1530. A literatura jesuítica, por seu lado, também
caracteriza o final do Quinhentismo, tendo esses religiosos pisado o solo
brasileiro somente em 1549.
A literatura informativa, também chamada de literatura dos viajantes ou dos
cronistas, reflexo das grandes navegações, empenha-se em fazer um levantamento
da terra nova, de sua flora, fauna, de sua gente. É, portanto, uma literatura
meramente descritiva e, como tal, sem grande valor literário
A principal característica dessa manifestação é a exaltação da terra,
resultante do assombro do europeu que vinha de um mundo temperado e se
defrontava com o exotismo e a exuberância de um mundo tropical. Com relação
à linguagem, o louvor à terra aparece no uso exagerado de adjetivos, quase
sempre empregados no superlativo (belo é belíssimo, lindo é lindíssimo etc.)
O melhor exemplo da escola quinhentista brasileira é Pero Vaz de Caminha.
Sua "Carta ao Eu Rei Dom Manuel sobre o acuamento do Brasil", além do
inestimável valor histórico, é um trabalho de bom nível literário. O texto
da carta mostra clara-mente o duplo objetivo que, segundo Caminha, impulsionava
os portugueses para as aventuras marítimas, isto é, a conquista dos bens
materiais e a dilatação da fé cristã.
Literatura jesuíta - Conseqüência da contra-reforma, a principal preocupação
dos jesuítas era o trabalho de catequese, objetivo que determinou toda a sua
produção literária, tanto na poesia quanto no teatro. Mesmo assim, do ponto
de vista estético, foi a melhor produção literária do Quinhentismo
brasileiro. Além da poesia de devoção, os jesuítas cultivaram o teatro de
caráter pedagógico, baseado em trechos bíblicos, e as cartas que informavam
aos superiores na Europa sobre o andamento dos trabalhos na colônia.
Não se pode comentar, no entanto, a literatura dos jesuítas sem referências
ao que o padre José de Anchieta representa para o Quinhentismo brasileiro.
Chamado pelos índios de "Grande Peai" (supremo pajé branco),
Anchieta veio para o Brasil em 1553 e, no ano seguinte, fundou um colégio no
planalto paulista, a partir do qual surgiu a cidade de São Paulo.
Ao realizar um exaustivo trabalho de catequese, José de Anchieta deixou uma
fabulosa herança literária: a primeira gramática do tupi-guarani, insuperável
cartilha para o ensino da língua dos nativos; várias poesias no estilo do
verso medieval; e diversos autos, segundo o modelo deixado pelo poeta português
Gil Vicente, que agrega à moral religiosa católica os costumes dos indígenas,
sempre com a preocupação de caracterizar os extremos, como o bem e o mal, o
anjo e o diabo.
O Barroco
O Barroco no Brasil tem seu marco inicial em 1601, com a publicação do
poe-ma épico "Prosopopéia", de Bento Teixeira, que introduz
definitivamente o modelo da poesia camoniana em nossa literatura. Estende-se por
todo o século XVII e início do XVIII.
Embora o Barroco brasileiro seja datado de 1768, com a fundação da Arcádia
Ultramarina e a publicação do livro "Obras", de Cláudio Manuel da
Costa, o movimento academicista ganha corpo a partir de 1724, com a fundação
da Academia Brasílica dos Esquecidos. Este fato assinala a decadência dos
valores defendidos pelo Barroco e a ascensão do movimento árcade. O termo
barroco denomina genericamente todas as manifestações artísticas dos anos de
1600 e início dos anos de 1700. Além da literatura, estende-se à música,
pintura, escultura e arquitetura da época.
Antes do texto de Bento Teixeira, os sinais mais evidentes da influência da poesia
barroca no Brasil surgiram a partir de 1580 e começaram a crescer nos anos seguintes
ao domínio espanhol na Península Ibérica, já que é a Espanha a responsável
pela unificação dos reinos da região, o principal foco irradiador do novo
estilo poético.
O quadro brasileiro se completa no século XVII, com a presença cada vez
mais forte dos comerciantes, com as transformações ocorridas no Nordeste em conseqüência
das invasões holandesas e, finalmente, com o apogeu e a decadência da
cana-de-açúcar.
Uma das principais referências do barroco brasileiro é Gregório de Matos
Guerra, poeta baiano que cultivou com a mesma beleza tanto o estilo contesta
quanto o concertista (o cultismo é marcado pela linguagem rebuscada,
extravagante, enquanto o concretismo caracteriza-se pelo jogo de idéias, de
conceitos. O primeiro valoriza o pormenor, enquanto o segundo segue um raciocínio
lógico, racionalista)
Na poesia lírica e religiosa, Gregório de Matos deixa claro certo idealismo
renascentista, colocado ao lado do conflito (como de hábito na época) entre o
pecado e o perdão, buscando a pureza da fé, mas tendo ao mesmo tempo
necessidade de viver a vida mundana. Contradição que o situava com perfeição
na escola barroca do Brasil.
Antônio Vieira - Se por um lado, Gregório de Matos mexeu com as estruturas
morais e a tolerância de muita gente - como o administrador português, o próprio
rei, o clero e os costumes da própria sociedade baiana do século XVII - por
outro, ninguém angariou tantas críticas e inimizades quanto o
"impiedoso" Padre Antônio Vieira, detentor de um invejável volume de
obras literárias, inquietantes para os padrões da época.
Politicamente, Vieira tinha contra si a pequena burguesia cristã (por
defender o capitalismo judaico e os cristãos-novos); os pequenos comerciantes
(por defender o monopólio comercial); e os administradores e colonos (por
defender os índios). Essas posições, principalmente a defesa dos cristãos-novos,
custaram a Vieira uma condenação da Inquisição, ficando preso de 1665 a
1667.
A obra do Padre Antônio Vieira pode ser dividida em três tipos de
trabalhos: Profecias, Cartas e Sermões.
As Profecias constam de três obras: "História do futuro",
"Esperanças de Portugal" e "Caves Prophetarum". Nelas se
notam o sebastianismo e as esperanças de que Portugal se tornaria o
"quinto império do Mundo". Segundo ele, tal fato estaria escrito na Bíblia.
Aqui ele demonstra bem seu estilo alegórico de interpretação bíblica (uma
característica quase que constante de religiosos brasileiros íntimos da
literatura barroca). Além, é claro, de revelar um nacionalismo megalomaníaco
e servidão incomum.
O grosso da produção literária do Padre Antônio Vieira está nas cerca de
500 cartas. Elas versam sobre o relacionamento entre Portugal e Holanda, sobre a
Inquisição e os cristãos novos e sobre a situação da colônia,
transformando-se em importantes documentos históricos.
O melhor de sua obra, no entanto, está nos 200 sermões. De estilo barroco concertista,
totalmente oposto ao Gongorismo, o pregador português joga com as idéias e os
conceitos, segundo os ensinamentos de retórica dos jesuítas. Um dos seus
principais trabalhos é o "Sermão da Sexagésima", pregado na capela
Real de Lisboa, em 1655. A obra também ficou conhecida como "A palavra de
Deus". Polêmico, este sermão resume a arte de pregar. Com ele, Vieira
procurou atingir seus adversários católicos, os gongóricos dominicanos,
analisando no sermão "Por que não frutificava a Palavra de Deus na
terra", atribuindo-lhes culpa.
O Arcadismo
O Arcadismo no Brasil começa no ano de 1768, com dois fatos marcantes: a
fundação da Arcádia Ultramarina e a publicação de "Obras", de Cláudio
Manuel da Costa. A escola setecentista, por sinal, desenvolve-se até 1808, com
a chegada da Família Real ao Rio de Janeiro, que, com suas medidas político-administrativas,
permite a introdução do pensamento pré-romântico no Brasil.
No início do século XVIII dá-se a decadência do pensamento barroco, para
a qual vários fatores colaboraram, entre eles o cansaço do público com o
exagero da ex-pressão barroca e da chamada arte cortesã, que se desenvolvera
desde a Renascença e atinge em meados do século um estágio estacionário (e
até decadente), perdendo terreno para o subjetivismo burguês; o problema da
ascensão burguesa superou o problema religioso; surgem as primeiras arcadas,
que procuram a pureza e a simplicidade das formas clássicas; os burgueses, como
forma de combate ao poder monárquico, começam a cultuar o "bom
selvagem", em oposição ao homem corrompido pela sociedade.
Gosto burguês - Assim, a burguesia atinge uma posição de domínio no campo
econômico e passa a lutar pelo poder político, então em mãos da monarquia.
Isso se reflete claramente no campo social e das artes: a antiga arte cerimonial
das cortes cede lugar ao poder do gosto burguês.
Pode-se dizer que a falta de substitutos para o Padre Antônio Vieira e Gregório
de Matos, mortos nos últimos cinco anos do século XVII, foi também um aspecto
motivador do surgimento do Arcadismo no Brasil. De qualquer forma, suas características
no país seguem a linha européia: a volta aos padrões clássicos da Antigüidade
e do Renascimento; a simplicidade; a poesia bucólica, pastoril; o fingimento poético
e o uso de pseudônimos. Quanto ao aspecto formal, a escola é marcada pelo
soneto, os versos decassílabos, a rima optativa e a tradição da poesia épica.
O Arcadismo tem como principais nomes: Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio
Gonzaga, José de Santa Rita Durão e Basílio da Gama.
O Romantismo
O Romantismo se inicia no Brasil em 1836, quando Gonçalves de Magalhães
publica na França a "Niterói - Revista Brasiliense", e, no mesmo
ano, lança um livro de poesias românticas intitulado "Suspiros poéticos
e saudades".
Em 1822, Dom Pedro I concretiza um movimento que se fazia sentir, de forma
mais imediata, desde 1808: a independência do Brasil. A partir desse momento, o
novo país necessita inserir-se no modelo moderno, acompanhando as nações
independentes da Europa e América. A imagem do português conquistador deveria
ser varrida. Há a necessidade de auto-afirmação da pátria que se formava. O
ciclo da mineração havia dado condições para que as famílias mais abastadas
mandassem seus filhos à Europa, em particular França e Inglaterra, onde buscam
soluções para os problemas brasileiros. O Brasil de então nem chegava perto
da formação social dos países industrializados da Europa
(burguesia/proletariado). A estrutura social do passado próximo (aristocracia/escravo)
ainda prevalecia. Nesse Brasil, segundo o historiador José de Nicola, "o
ser burguês ainda não era uma posição econômica e social, mas mero estado
de espírito, norma de comportamento".
Marco final - Nesse período, Gonçalves de Magalhães viajava pela Europa.
Em 1836, ele funda a revista Niterói, da qual circularam apenas dois números,
em Paris. Nela, ele publica o "Ensaio sobre a história da literatura
brasileira", considerado o nosso primeiro manifesto romântico. Essa escola
literária só teve seu marco final no ano de 1881, quando foram lançados os
primeiros romances de tendência naturalista e realista, como "O
mulato", de Aluízio Azevedo, e "Memórias póstumas de Brás
Cubas", de Machado de Assis. Manifestações do movimento realista, aliás,
já vinham ocorrendo bem antes do início da decadência do Romantismo, como,
por exemplo, o liderado por Tobias Barreto desde 1870, na Escola de Recife.
O Romantismo, como se sabe, define-se como modismo nas letras universais a
partir dos últimos 25 anos do século XVIII. A segunda metade daquele século,
com a industrialização modificando as antigas relações econômicas, leva a
Europa a uma nova composição do quadro político e social, que tanto
influenciaria os tempos modernos. Daí a importância que os modernistas deram
à Revolução Francesa, tão exaltada por Gonçalves de Magalhães. Em seu
"Discurso sobre a história da literatura do Brasil", ele diz:
"...Eis aqui como o Brasil deixou de ser colônia e foi depois elevado à
categoria de Reino Unido. Sem a Revolução Francesa, que tanto esclareceu os
povos, esse passo tão cedo se não daria...".
A classe social delineia-se em duas classes distintas e antagônicas, embora atochassem
paralelas durante a Revolução Francesa: a classe dominante, agora representada
pela burguesia capitalista industrial, e a classe dominada, representada pelo proletariado.
O Romantismo foi uma escola burguesa de caráter ideológico, a favor da classe
dominante. Daí porque o nacionalismo, o sentimentalismo, o subjetivismo e o irracionalismo
- características marcantes do Romantismo inicial - não podem ser analisados
isoladamente, sem se fazer menção à sua carga ideológica.
Novas influências - No Brasil, o momento histórico em que ocorre o Romantismo
tem que ser visto a partir das últimas produções árcades, caracterizadas
pela sátira política de Gonzaga e Silva Alvarenga. Com a chegada da Corte, o
Rio de Janeiro passa por um processo de urbanização, tornando-se um campo propício
à divulgação das novas influências européias. A colônia caminhava no rumo
da independência.
Após 1822, cresce no Brasil independente o sentimento de nacionalismo, bus-ca-se
o passado histórico, exalta-se a natureza pátria. Na realidade, características
já cultivadas na Europa, e que se encaixaram perfeitamente à necessidade
brasileira de ofuscar profundas crises sociais, financeiras e econômicas.
De 1823 a 1831, o Brasil viveu um período conturbado, como reflexo do autoritarismo
de D. Pedro I: a dissolução da Assembléia Constituinte; a Constituição outorgada;
a Confederação do Equador; a luta pelo trono português contra seu irmão D.
Miguel; a acusação de ter mandado assassinar Líbero Badaró e, finalmente, a
abolição da escravatura. Segue-se o período regencial e a maioridade
prematura de Pedro II. É neste ambiente confuso e inseguro que surge o
Romantismo brasileiro, carregado de lusofobia e, principalmente, de
nacionalismo.
No final do Romantismo brasileiro, a partir de 1860, as transformações econômicas,
políticas e sociais levam a uma literatura mais próxima da realidade; a poesia
reflete as grandes agitações, como a luta abolicionista, a Guerra do Paraguai,
o ideal de República. É a decadência do regime monárquico e o aparecimento
da poesia social de Castro Alves. No fundo, uma transição para o Realismo.
O Romantismo apresenta uma característica inusitada: revela nitidamente uma
evolução no comportamento dos autores românticos. A comparação entre os
primeiros e os últimos representantes dessa escola mostra traços peculiares a
cada fase, mas discrepantes entre si. No caso brasileiro, por exemplo, há uma
distância considerável entre a poesia de Gonçalves Dias e a de Castro Alves.
Daí a necessidade de se dividir o Romantismo em fases ou gerações. No
romantismo brasileiro podemos reconhecer três gerações: geração
nacionalista ou indianista; geração do "mal do século" e a
"geração condoreira".
A primeira (nacionalista ou indianista) é marcada pela exaltação da
natureza, volta ao passado histórico, medievalismo, criação do herói
nacional na figura do índio, de onde surgiu a denominação "geração
indianista". O sentimentalismo e a religiosidade são outras características
presentes. Entre os principais autores, destacam-se Gonçalves de Magalhães,
Gonçalves Dias e Araújo Porto.
Egocentrismo - A segunda (do "mal do século", também chamada de
geração byroniana, de Lorde Byron) é impregnada de egocentrismo, negativismo
boêmio, pessimismo, dúvida, desilusão adolescente e tédio constante. Seu
tema preferido é a fuga da realidade, que se manifesta na idealização da infância,
nas virgens sonhadas e na exaltação da morte. Os principais poetas dessa geração
foram Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Junqueira Freire e Fagundes
Varela.
A geração condoreira, caracterizada pela poesia social e libertária,
reflete as lutas internas da segunda metade do reinado de D. Pedro II. Essa geração
sofreu intensamente a influência de Victor Hugo e de sua poesia político-social,
daí ser conhecida como geração iguana. O termo condoreirismo é conseqüência
do símbolo de liberdade adotado pelos jovens românticos: o condor, águia que
habita o alto da cordilheira dos Andes. Seu principal representante foi Castro
Alves, seguido por Tobias Barreto e Sousândrade.
Duas outras variações literárias do Romantismo merecem destaque: a prosa e
o teatro romântico. José de Nicola demonstrou quais as explicações para o
aparecimento e desenvolvimento do romance no Brasil: "A importação ou
simples tradução de romances europeus; a urbanização do Rio de Janeiro,
transformado, então, em Corte, criando uma sociedade consumidora representada
pela aristocracia rural, profissionais liberais, jovens estudantes, todos em
busca de entretenimento; o espírito nacionalista em conseqüência da independência
política a exigir uma "cor local" para os enredos; o jornalismo
vivendo o seu primeiro grande impulso e a divulgação em massa de folhetins; o
avanço do teatro nacional".
Os romances respondiam às exigências daquele público leitor; giravam em Torino
da descrição dos costumes urbanos, ou de amenidades das zonas rurais, ou de imponentes
selvagens, apresentando personagens idealizados pela imaginação e ideologia
românticas com os quais o leitor se identificava, vivendo uma realidade que lhe
convenha. Algumas poucas obras, porém, fugiram desse esquema, como "Memórias
de um Sargento de Milícias", de Manuel Antônio de Almeida, e até
"Inocência", do Visconde de Taunay.
Ao se considerar a mera cronologia, o primeiro romance brasileiro foi "O
filho do pescador", publicado em 1843, de autoria de Teixeira de Souza
(1812-1881). Mas se tratava de um romance sentimentalóide, de trama confusa e
que não serve para definir as linhas que o romance romântico seguiria na
literatura brasileira.
Por esta razão, sobretudo pela aceitação obtida junto ao público leitor,
justa-mente por ter moldado o gosto deste público ou correspondido às suas
expectativas, convencionou-se adotar o romance "A Moreninha", de
Joaquim Manuel de Macedo, publicado em 1844, como o primeiro romance brasileiro.
Dentro das características básicas da prosa romântica, destacam-se, além
de Joaquim Manuel de Macedo, Manuel Antônio de Almeida e José de Alencar.
Almeida, por sinal, com as "Memórias de um Sargento de Milícias"
realizou uma obra total-mente inovadora para sua época, exatamente quando
Macedo dominava o ambiente literário. As peripécias de um sargento descritas
por ele podem ser consideradas como o verdadeiro romance de costumes do
Romantismo brasileiro, pois abandona a visão da burguesia urbana, para retratar
o povo com toda a sua simplicidade.
"Casamento" - José de Alencar, por sua vez, aparece na literatura
brasileira como o consolidado do romance, um ficcionista que cai no gosto
popular. Sua obra é um retrato fiel de suas posições políticas e sociais.
Ele defendia o "casamento" entre o nativo e o europeu colonizador,
numa troca de favores: uns ofereciam a natureza virgem, um solo esplêndido;
outros a cultura. Da soma desses fatores resultaria um Brasil independente.
"O guarani" é o melhor exemplo, ao se observar a relação do
principal personagem da obra, o índio Fere, com a família de D. Antônio de Maces.
Este jogo de interesses entre o índio e o europeu, proposto por Alencar, aparece
também em "Iracema" (um anagrama da palavra América), na relação
da índia com o português Martim. Moacir, filho de Iracema e Martim, é o
primeiro brasileiro fruto desse casamento.
José de Alencar diversificou tanto sua obra que tornou possível uma classificação
por modalidades: romances urbanos ou de costumes (retratando a sociedade carioca
de sua época - o Rio do II Reinado); romances históricos (dois, na verdade, volta-los
para o período colonial brasileiro - "As minas de prata" e "A
guerra dos mascastes"); romances regionais ("O sertanejo" e
"O gaúcho" são as duas obras regionais de Alencar); romances rurais
( como "Til" e "O tronco do ipê"; e romances indianistas,
que trouxeram maior popularidade para o escritor, como "O Guarani",
"Iracema" e "Ubirajara".
Realismo e Naturalismo
"O Realismo é uma reação contra o Romantismo: o Romantismo era a apoteose
do sentimento - o Realismo é a anatomia do caráter. É a crítica do homem. É
a arte que nos pinta a nossos próprios olhos - para condenar o que houve de mau
na nossa sociedade." Ao cunhar este conceito, Eça de Queiroz sintetizou a
visão de vida que os autores da escola realista tinham do homem durante e logo
após o declínio do Romantismo.
Este estilo de época teve uma prévia: os românticos Castro Alves, Sousândrade
e Tobias Barreto, embora fizessem uma poesia romântica na forma e na expressão,
utilizavam temas voltados para a realidade político-social da época (final da
década de 1860). Da mesma forma, algumas produções do romance romântico já
apontavam para um novo estilo na literatura brasileira, como algumas obras de
Manuel Antônio de Almeida, Franklin Távora e Visconde de Taunay. Começava-se
o abandono do Romantismo enquanto surgiam os primeiros sinais do Realismo.
Na década de 70 surge a chamada Escola de Recife, com Tobias Barreto, Silvio
Romero e outros, aproximando-se das idéias européias ligadas ao positivismo,
ao evolucionismo e, principalmente, à filosofia. São os ideais do Realismo que
encontravam ressonância no conturbado momento histórico vivido pelo Brasil,
sob o signo do abolicionismo, do ideal republicano e da crise da Monarquia.
No Brasil, considera-se 1881 como o ano inaugural do Realismo. De fato, esse
foi um ano fértil para a literatura brasileira, com a publicação de dois
romances fundamentais, que modificaram o curso de nossas letras: Aluízio
Azevedo publica "O mulato", considerado o primeiro romance naturalista
do Brasil; Machado de Assis publica "Memórias Póstumas de Brás
Cubas", o primeiro romance realista de nossa literatura.
Na divisão tradicional da história da literatura brasileira, o ano
considerado data final do Realismo é 1893, com a publicação de
"Missal" e "Broqueis", ambos de Cruz e Sousa, obras
inaugurais do Simbolismo, mas não o término do Realismo e suas manifestações
na prosa - com os romances realistas e naturalistas - e na poesia, com o
Parnasianismo.
"Príncipe dos poetas" - Da mesma forma, o início do Simbolismo,
em 1893, não representou o fim do Realismo, porque obras realistas foram
publicadas posteriormente a essa data, como "Dom Casmurro", de Machado
de Assis, em 1900, e "Esaú e Jacó", do mesmo autor, em 1904. Olavo
Bilac, chamado "príncipe dos poetas", obteve esta distinção em
1907. A Academia Brasileira de Letras, templo do Realismo, também foi
inaugurada posteriormente à data-marco do fim do Realismo: 1897. Na realidade,
nos últimos vinte anos do século XIX e nos primeiros do século XX, três estéticas
se desenvolvem paralelamente: o Realismo e suas manifestações, o Simbolismo e
o Pré-Modernismo, que só conhecem o golpe fatal em 1922, com a Semana de Arte
Moderna.
O Realismo reflete as profundas transformações econômicas, políticas,
sociais e culturais da segunda metade do século XIX. A Revolução Industrial,
iniciada no século XVIII, entra numa nova fase, caracterizada pela utilização
do aço, do petróleo e da eletricidade; ao mesmo tempo, o avanço científico
leva a novas descobertas nos campos da física e da química. O capitalismo se
estrutura em moldes modernos, com o surgimento de grandes complexos industriais,
aumentando a massa operária urbana, e formando uma população marginalizada,
que não partilha dos benefícios do progresso industrial, mas, pelo contrário,
é explorada e sujeita a condições subumanas de trabalho.
O Brasil também passa por mudanças radicais tanto no campo econômico
quanto no político-social, no período compreendido entre 1850 e 1900, embora
com profundas diferenças materiais, se comparadas às da Europa. A campanha
abolicionista intensifica-se a partir de 1850; a Guerra do Paraguai (1864/1870)
tem como conseqüência o pensamento republicano (o Partido Republicano foi
fundado no ano em que essa guerra terminou); a Monarquia vive uma vertiginosa
decadência. A Lei Áurea, de 1888, não resolveu o problema dos negros, mas
criou uma nova realidade: o fim da mão-de-obra escrava e sua substituição
pela mão-de-obra assalariada, então representada pelas levas de imigrantes
europeus que vinham trabalhar na lavoura cafeeira, o que originou uma nova
economia voltada para o mercado externo, mas agora sem a estrutura colonialista.
Raul Pompéia, Machado de Assis e Aluízio Azevedo transformaram-se nos
principais representantes da escola realista no Brasil. Ideologicamente, os
autores desce período são antimonárquicos, assumindo uma defesa clara do
ideal republicano, como nos romances "O mulato", "O cortiço"
e "O Ateneu". Eles negam a burguesia a partir da família. A expressão
Realismo é uma denominação genérica da escola literária, que abriga três
tendências distintas: "romance realista", "romance
naturalista" e "poesia parnasiana".
O romance realista foi exaustivamente cultivado no
Brasil por Machado de Asses. Trata-se de uma narrativa mais preocupada com a análise
psicológica, fazendo a crítica à sociedade a partir do comportamento de
determinados personagens. Para se ter uma idéia, os cinco romances da fase
realista de Machado de Assis apresentam nomes próprios em seus títulos
("Brás Cubas"; "Quincas Borba"; "Dom Casmurro",
"Esaú e Jacó"; e "Aires"). Isto revela uma clara preocupação
com o indivíduo. O romance realista analisa a sociedade por cima.
Em outras palavras: seus personagens são capitalistas, pertencem à classe
dominante. O romance realista é documental, retrato de uma época.
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