Considerações sobre "A literatura no
Brasil"
A
crítica literária brasileira tem passado por nítidas mudanças nos últimos
40 anos. Dentro do âmbito acadêmico, duas figuras marcaram o pensamento crítico
brasileiro da segunda metade do século XX: Afrânio Coutinho e Antonio Candido.
Nas décadas de 80 e 90, a tendência da crítica, nas universidades
brasileiras, foi de retomada e releitura da historiografia e crítica realizada
desde os primeiros românticos com seus bosquejos e florilégios, passando pela
geração do realismo-naturalismo de Sílvio Romero, Araripe Jr. e José Veríssimo,
até os dias de Antonio Candido. Sobre o trabalho crítico deste último, foram
publicados estudos de relevo como Antonio Candido: a palavra empenhada,
de Célia Pedrosa ou "Antonio Candido: formação da literatura
brasileira", de Benjamin Abdala.
Mesmo
Alfredo Bosi vem merecendo várias reflexões do seu trabalho de crítico, como
bem o demonstram, por exemplo, os excelentes artigos de Roberto Reis "A
redoma e o bumerangue: assédios à cultura brasileira", e o de Roberto
Schwarz, "Discutindo com Alfredo Bosi". Mas sobre Afrânio Coutinho
encontramos parcos comentários e miúdas menções, sempre em comparação ao
trabalho de Antonio Candido, em estudos que resumem os passos que tem dado a
historiografia literária no Brasil. Podemos citar entre outros: "Rodapés,
tratados e ensaios: a formação da crítica brasileira moderna", de Flora
Sussekind; "Historiografia literária do Brasil", de Benedito Nunes;
além do artigo de Luís Roberto Veloso Cairo intitulado "História da
Literatura, Literatura Comparada e Crítica Literária: frágeis fronteiras
disciplinares."
Diante
da carência de trabalhos de peso sobre Afrânio Coutinho, justifica-se a
pretensão de fazer algumas considerações, ainda que de forma preliminar,
sobre as idéias e pretensões do autor nos prefácios e introdução da
monumental obra que organizou, dirigiu e publicou em seis volumes: A
literatura no Brasil. Em 1952, Afrânio foi encarregado pelo professor Leonídio
Ribeiro, diretor do Instituto Larragoiti, de planejar e dirigir a publicação
de uma história literária, A literatura no Brasil, com a colaboração
de uma equipe de especialistas. A obra foi publicada, em quatro volumes, de 1955
a 1959, sendo ampliada para seis volumes na edição de 1968 –71, revista e
atualizada em 1986.
Afrânio
Coutinho nasceu em Salvador, Bahia, a 15 de março de 1911, filho de família
tradicional, fez os cursos primário e secundário em sua terra natal, onde também
se formou em Medicina em 1931. Não seguiu a carreira de médico, mas exerceu a
função de professor do ensino secundário e de bibliotecário até 1942. Após
cinco anos nos Estados Unidos, trabalhando como redator-secretário da revista Seleções
do Reader’s Digest, foi nomeado professor catedrático de literatura no
Colégio D. Pedro II. Em 1948, inaugurou, no Suplemento Literário do Diário
de Notícias, a seção "Correntes Cruzadas", que manteve até
1961, debatendo problemas de crítica e teoria literária. Em 1940, publicou seu
primeiro livro de crítica: A filosofia de Machado de Assis. Em 1958, fez
concurso para livre docente da cadeira de Literatura Brasileira na Faculdade de
Filosofia da Universidade do Brasil, hoje UFRJ. Em 1967, consegue criar a
Faculdade de Letras e foi seu primeiro diretor, função que exerceu até 1980,
quando se aposentou.
Em
seu artigo "Rodapés, tratados e ensaios...", acima citado, Flora
Sussekind traça em linhas gerais, as transformações por que tem passado a crítica
literária brasileira nas últimas quatro décadas. Ela descreve três modelos
de crítico na história da crítica no Brasil: o crítico de rodapé, o crítico
universitário e o crítico teórico. O primeiro, muito popular nos anos 40 e
50, era o homem de letras, o bacharel, tinha como veículo privilegiado o
jornal, era cultivador da eloqüência, adaptado às exigências e ao rimo
industrial da imprensa, acostumado a ter uma publicidade muito grande e um diálogo
estreito com o mercado e com o movimento editorial. O crítico universitário,
que apareceu nos meados dos anos 40, era o tipo ligado à especialização acadêmica,
o homem formado e pós-graduado em Letras, cujas formas de expressão dominantes
seriam o livro e a cátedra; e, por fim, o crítico teórico, "um
desdobramento do personagem anterior e tendo como marca distintiva indescartável
a auto-reflexão", porque, nas décadas de 60 e 70, dificultado o acesso à
imprensa, a crítica universitária se vê restrita à população acadêmica
mesmo.
Afrânio
Coutinho se encaixava entre os críticos do segundo modelo, tendo feito parte de
"uma geração de críticos, e críticos-scholars, que passa a olhar com
desconfiança crescente para o modelo tradicional do ‘homem de letras’ e
para o tratamento anedótico-biográfico em geral concedido à literatura na
imprensa." O organizador de A literatura no Brasil defendia
ardorosamente a habilitação específica para o crítico literário:
"Formação tão ampla e complicada só pode ser adquirida no lugar
adequado que são as universidades e faculdades de letras." (Jornal de
letras, agosto de 1957). Em razão dessa postura, Afrânio protagonizou um
combate, que durou quase uma década, à critica de rodapé, nos anos 50,
tomando Álvaro Lins como alvo predileto.
Uma
vez delineado o perfil do crítico, Flora Sussekind tece considerações sobre a
obra A literatura no Brasil. A autora afirma que Afrânio defendia a
autonomia plena do literário, fazendo uma supressão parcial da história em
seus estudos literários. Ele reclamava que a crítica até então tinha sido
dominada pelos fatores extrínsecos ou externos condicionantes da gênese do fenômeno
literário. Afrânio delineia para a história literária um desenvolvimento
imanente, interno, não condicionado por influências extraliterárias. Isto
porque, para ele, o processo social se apresenta como fator eminentemente
externo, ‘moldura’ para o que se desenrola no campo de produção cultural.
Enfim, Afrânio propunha o privilégio de uma crítica estética.
De
fato, Afrânio alega no prefácio à segunda edição de A literatura no
Brasil que a obra é "uma história da literatura e não da cultura
brasileira. O conceito dominante no livro é literário, isto é, encara a
literatura como literatura, reduzindo-se por isso aos gêneros propriamente
literários". Além de defender a supremacia da literatura sobre a história:
"Se examinarmos as nossas obras, no particular, veremos que as domina o espírito
histórico e não o espírito literário. São obras de história e não de
literatura (...) Nossos historiadores conservando uma ilustre tradição, sempre
se mostram com veleidades de fazer história literária, à maneira histórica,
e não literária, é claro." (ALB, p. 61).
Deixando
a história num lugar secundário, Afrânio declarava fazer uma história da
literatura baseada na crítica estética e definia: "O estético é aquilo
a que aspiram atualmente os estudiosos do problema em todo o mundo. A concepção
estética da crítica impõe o reconhecimento do primado do texto. Parte do
pressuposto de que o estético reside na obra, e não no autor ou no meio, o que
leva a colocar em segundo plano os métodos extrínsecos de abordagem da
literatura, como os históricos, sociológicos, biográficos, eruditos, válidos
somente na medida em que proporcionam esclarecimentos sobre a obra." (ALB,
p. 63)
Contudo,
a história não parece ter ocupado um lugar assim tão secundário no projeto
de Afrânio. Sobre o assunto, assegura Benedito Nunes que "dois critérios
distintos presidem a historiografia de Afrânio Coutinho: um propriamente
histórico, que leva à investigação dos traços nativistas; outro, estilístico,
enquadrando, esteticamente, a periodologia literária."
Quanto
à periodização, João Alexandre Barbosa a considera um dos pontos altos do
trabalho de Afrânio Coutinho. Ele comenta em "Ensaio de historiografia
literária brasileira" que "o maior valor da obra organizada e
dirigida por Afrânio Coutinho reside na tentativa de elucidar modernamente
alguns dos problemas fundamentais da Historiografia Literária, sobressaindo o
da periodização que, na obra, obedeceu a critérios estilístico-sociológicos."
João Alexandre observa que Afrânio procurou uniformidade na denominação de
épocas, segundo uma determinante espiritual, inspiradora do estilo artístico,
em lugar das tradicionais demarcações políticas de período colonial e
nacional. Além disso, com a periodização estilística foi possível a Afrânio
resgatar o Barroco brasileiro.
Realmente,
Afrânio declara que "o princípio periodológico, tanto quanto o próprio
princípio da história literária, deve decorrer de um conceito geral de
literatura" (ALB, p. 14). Ele organizou sua história da literatura
reagindo aos métodos historicistas dos historiadores anteriores, principalmente
Sílvio Romero, porque a crença dominante até então era de que "a
literatura é uma simples divisão da história geral" (ALB, p. 13).
Enquanto a crítica estética adotada por Afrânio "considera a literatura
com natureza e finalidades específicas, com valor próprio e exigindo escala de
padrões própria para ser devidamente julgada" (ALB, p. 11).
Para
Afrânio, na literatura brasileira, como na portuguesa, as divisões
tradicionais dos períodos literários referem-se, com ligeiras diferenças, a
critérios políticos e históricos, com subdivisões arbitrárias, por séculos,
decênios ou escolas literárias. Também sempre houve uma mistura na utilização
dos termos indicadores do tempo; era, fase época, período, idade e, como
conseqüência, a falta de critério científico no estabelecimento dos períodos
acarreta o ceticismo de muitos (ALB, p. 14). Afrânio, então, descreve as soluções
brasileiras para o problema da história da literatura e para a periodologia
encontradas pelos críticos anteriores: a utilização da fórmula cronológica
e da conceituação sociológica e historicista (ALB, p. 20). Afrânio faz um
relato resumido do que tem sido a prática da historiografia literária no
Brasil desde os românticos, com ênfase no em Sílvio Romero, duramente
criticado por ter concebido a literatura apenas como resultante de forças
exteriores determinantes (meio, raça e momento). Afirma que o maior problema
para os historiadores anteriores foi a periodologia; em seguida, descreve com
detalhes, as divisões periódicas feitas por Wolf, o cônego Fernandes
Pinheiro, Sílvio Romero (novamente criticado com dureza, por ter apresentado
uma primeira divisão como definitiva e em edições posteriores de sua história
da literatura apareceu com mais três), José Veríssimo, Ronald de Carvalho,
Artur Mota e Afrânio Peixoto. Todos igualmente pecaram por incidirem no critério
político, misturando-o com a pura cronologia (ALB, p. 23).
Para
Afrânio, de Wolf a Sílvio Romero, e de José Veríssimo a Ronald de Carvalho,
o problema da periodização vincula-se ao conteúdo nacional da literatura. Sem
condenar o nacionalismo, Afrânio declara que a verdadeira solução está na
historiografia literária que seja a descrição do processo evolutivo como
integração dos estilos artísticos. Assim, as divisões de A literatura no
Brasil correspondem aos grandes estilos artísticos que tiveram representação
no Brasil. Para Afrânio, a evolução das formas estéticas no Brasil
corporificou-se nos seguintes estilos: barroquismo, neoclassicismo, arcadismo,
romantismo, realismo, naturalismo, parnasianismo, simbolismo, impressionismo,
modernismo (ALB, p. 23-24). E foi dessa forma que fez a divisão em sua obra,
utilizando o termo ‘era’, temos no volume dois as eras barroca e neoclássica,
o volume três trata da era romântica, as eras realistas e de transição estão
nos volume quatro, a era modernista preenche todo o volume cinco, sendo o volume
seis todo dedicado para o contemporâneo na literatura, contendo a evolução do
conto, da literatura dramática e da lírica e um capítulo para a literatura
infantil, entre outros.
Flora
Sussekind considera que a periodização de Afrânio apresenta alguns problemas
exatamente porque, quando ele fala da sucessão de estilos estéticos que compõem
a sua obra, refere-se a uma escalada evolutiva linear cujo cume estaria na
solidificação da ‘consciência nacional’. A autora observa que ‘evolução’
e ‘nacionalidade’ parecem ser as noções chaves para Afrânio, parecendo
por sua vez insinuar que Afrânio continua, como seus antecessores, preso à
história e à crolonogia, repetindo na sua história da literatura o que havia
condenado nos outros. Mas Afrânio explica nas páginas iniciais de seu primeiro
prefácio que "a crítica estética não implica o afastamento ou
isolamento de outros conhecimentos necessários à situação da obra literária
e à compreensão de suas relações no tempo e no espaço. São conhecimentos
secundários, subsidiários, auxiliares, mas que não se podem omitir" (ALB,
p. 12). Afrânio nunca pretendeu expulsar os elementos histórico e temporal de
sua obra, somente tentou lhes dar um papel apenas secundário.
Não
se pode tirar o crédito de Afrânio Coutinho ter percebido que a periodização
era um dos problemas nevrálgicos da historiografia literária brasileira e ele
feriu todos os pontos fundamentais do assunto: a) que os critérios político e
cronológico não ofereciam qualquer orientação para a caracterização literária
do período; b) que tais critérios implicavam o reconhecimento da dependência
e determinação da literatura pelos acontecimentos políticos ou sociais; c) a
ausência de limites precisos e absolutos entre os períodos; d) que os períodos
são unidades vitais, dotados de realidade, não existindo entre eles fronteiras
nítidas, nem marcos iniciais e términos fixos; e) que dificilmente uma obra se
poderia definir como totalmente pertencente a um estilo. Afrânio buscava uma
atualização metodológica constante, mas sobretudo queria tornar a literatura
independente da história, da política e outros elementos que a pudessem manter
atrelada. Ele desejava a autonomia da literatura, ele acreditava que ela poderia
ser autônoma. Afrânio percebeu que a crítica só funcionava quando estudava a
literatura atrelada a elementos extrínsecos: o método histórico, o
biografismo, língua, raça, meio geográfico e social, momento. Afrânio alega
que "os conhecimentos da história econômica, social, política, da história
das idéias, história das outras artes, etnologia, antropologia, filosofia são
colaterais ou auxiliares. A literatura está para os outros fenômenos da vida
em posição de relação, não de dependência ou submissão (...) tendo o
mesmo valor que as demais expressões da atividade humana" (ALB, p. 12).
Situação parecida vive a crítica contemporânea, quando os críticos
universitários que adotam a literatura comparada como campo de estudos realizam
sua pesquisa atrelando a literatura aos estudos culturais.
Os
três prefácios e a introdução de Afrânio Coutinho para a obra A
literatura no Brasil contém um material riquíssimo para análise e reflexão.
Os dois primeiros prefácios são bem extensos e detalhados, com cerca de 50 páginas
cada um, sendo que o prefácio para a 3ª edição só contém três parágrafos.
O prefácio à primeira edição está dividido em 6 partes: a questão da história
da literatura, a periodização, as soluções brasileiras, definição e
caracteres da literatura brasileira, as influências estrangeiras e, finalmente,
o conceito e plano da obra. Cada parte é cuidadosamente trabalhada para mostrar
ao leitor a importância e conveniência da crítica estética. Nesse mesmo prefácio,
Afrânio se utiliza muito da história para apontar os fatos marcantes da
historiografia literária brasileira desde seus inícios e para elucidar os
problemas fundamentais da mesma. Se no prefácio não foi possível abrir mão
do elemento histórico, muito menos no desenvolvimento total da obra e Afrânio
era consciente disso. Como já foram apontados, os pontos altos da obra são a
renovação da periodologia, o resgate do Barroco, percepção aguçada dos
principais problemas que afligiam o fazer da historiografia literária e o
trabalho em equipe. É importante ressaltar que Afrânio não convocou a
colaboração de críticos apenas do eixo Rio-São Paulo, mas também de outros
estados do Brasil, como o baiano Herom de Alencar, valorizando e resgatando os
estudos críticos em âmbito nacional.
Também
vale a pena destacar o fato de que Afrânio não ignorou a questão da formação
da literatura brasileira. Flora Sussekind é da opinião de que o interesse de
Antonio Candido ao escrever a Formação da literatura brasileira foi
detectar o momento em que a literatura brasileira passou a constituir um sistema
por aqui, e que para Afrânio "a constituição de um sistema literário não
é propriamente uma questão, trata-se, na verdade, de registrar as diferentes
manifestações literárias que se sucederam no Brasil". Ele estaria
interessado apenas na literatura que circula no país. Mas Afrânio descreve ou
tenta descrever o que ele chama de drama da formação da literatura brasileira.
O
assunto para o qual Antonio Candido dedicou todo um livro, ocupa umas quinze páginas
do prefácio à primeira edição, mas é bastante curioso observar as considerações
feitas por Afrânio Coutinho sobre as características que marcam a evolução
da literatura brasileira (ALB, p. 25-39): predomínio do lirismo, exaltação da
natureza, ausência de tradição, alienação do escritor, divórcio
com o povo, ausência de consciência técnica, culto da improvisação,
literatura e política, imitação e originalidade, metrópole e província
(grifo nosso). São dez ao todo. Quatro se destacam porque já antecipavam as
insatisfações da atualidade com as exclusões e elitismo do cânone literário
nacional. Afrânio descreve o escritores como alienados porque vivem divorciados
de uma tradição, separados dos predecessores, da sociedade que o desconhece,
ignorante de seus pares aos quais não presta atenção. Esses elementos
resultam em marginalidade, isolamento, esquecimento após a morte, sendo que
atualmente sabemos que tais condições atingiram principalmente as escritoras.
Outro
ponto relevante destacado por Afrânio é o da ausência de tradição. A luta
entre a tradição importada e uma possível tradição nova se constituiu no
grande drama de nossa evolução intelectual, não permitindo que vingasse uma
tradição por aqui, que se constituísse num ‘passado útil’ para a inspiração
dos escritores. Cada escritor, cada geração sente-se obrigada a partir do começo
(ALB, p.36). Além disso, permanece hoje o divórcio com o povo, Afrânio foi
atualíssimo em afirmar que a literatura no Brasil sempre foi destinada a um público
reduzido, de elite. O conteúdo de A literatura no Brasil mostra isso: o
cânone apresentado no livro está ampliado, resgatando a literatura de várias
regiões do Brasil, nunca antes estudadas ou catalogadas por nenhum estudioso,
mas ainda de caráter elitista, privilegiando a literatura erudita, mas não a
literatura popular ou a de massa. Entramos o século XXI e o povo continua sem
poder aquisitivo para comprar livros, como disse Afrânio: "povo distante,
deserdado e analfabeto".
No
prefácio à segunda edição, publicada uns dez anos depois da primeira,
encontramos um Afrânio Coutinho bem mais cauteloso. Esse prefácio se inicia
com Afrânio apresentando suas credenciais de professor catedrático e
habilitado a organizar tal obra de historiografia por convite de Leonídio
Ribeiro, pessoa de autoridade e respeito na época. Receber um convite dessa
natureza já demonstravam o prestígio e a qualificação de Afrânio para a
realização da empreitada de uma publicação de uma história da literatura
brasileira. O prefácio é tão ou mais longo que o primeiro, contendo 28 partes
de poucos parágrafos cada uma. De antemão, Afrânio avisa aos leitores que vai
discutir os pontos de doutrina da obra e responder às críticas emitidas quando
da sua primeira publicação. Em seguida discorre cuidadosamente sobre a nova
critica, o conceito de estética, a periodização, as relações entre
literatura e história, entre história e crítica, a autonomia da literatura,
espírito profissional, concepção estilística, literatura e vida, o demônio
da cronologia e o barroco, entre outros assuntos. Ou seja, tudo o que já havia
mencionado na primeira edição, acrescido de outros elementos considerados
relevantes para legitimar seu ponto de vista de que o melhor método a ser
adotado era o da crítica estética.
O
prefácio à terceira edição ocupa meia página, com três curtíssimos parágrafos,
apenas para informar que o modernismo tinha chegado ao seu término por volta de
1960 e os novos rumos abriam um período já cognominado de pós-modernismo; que
a Literatura Brasileira atingira o estágio de total identidade e autonomia
nacional na década de 80 e que as edições anteriores há muito esgotadas
justificam a republicação de A literatura no Brasil. Parece bem patente
que nesse momento, sendo a terceira edição de 1986, Afrânio, já aposentado,
considere que já disse o que tinha para dizer e sabendo que a crítica estética
já está ultrapassada, não sente necessidade de acrescentar mais nada aos
leitores em termos de prefácio.
Finalmente,
importa observar que Afrânio bem registrou que "a vida brasileira
exerce-se como num balanço em que as duas pontas são a metrópole e as províncias
(...) o regionalismo é uma constante em nossa literatura das camadas periféricas,
surgindo sempre movimentos de renovação literária. Os diversos focos
regionais de cultura e civilização têm também personalidade estética".
Afrânio constatava na década de 50 um problema que permanece vivo no Brasil: o
desequilíbrio em todos os aspectos entre os centros culturais e as regiões
mais longínquas do país. Tem sido efervescente nos últimos anos, dentro das
universidades brasileiras, a quantidade de estudos e pesquisas de resgate da
literatura de negros, de autoria feminina, de homossexuais, de regiões
distantes e esquecidas do Brasil, como Acre, Roraima e Rondônia, por exemplo.
É
bem verdade que A literatura no Brasil não contempla e nem registra a
literatura desses estados, mas é o primeiro manual de literatura brasileira a
fazer um estudo mais apurado de autores do Amazonas, Pará desde os tempos mais
remotos. Também é a obra que reúne, senão ainda todas, mas o maior número
de escritoras brasileiras, até da região norte e nordeste. Tudo isso já
constituía grande inovação do Cânone para a época, com ampliações nas
segunda e terceira edições, valendo dizer que A literatura no Brasil
mesmo que ainda bastante inserida na visão homocêntrica, etnocêntrica e
elitista tradicionais, o é em escala bem menor que as historiografias
anteriores e mesmo posteriores como as obras de Massaud Moisés, José Aderaldo
Castello, Luciana Stegagno Picchio e Luiz Roncari.