Camões e Os Lusíadas
DIMENSÃO
EXEMPLAR DA
HISTÓRIA NARRADA
A
história narrada
em Os
Lusíadas tem uma
dimensão
exemplar,
por
apresentar factos e
figuras
como
modelos a
seguir,
bem
como
atitudes a
evitar (estas
em
menor
número).
Quem
são as
personagens
agentes de
feitos
ilustres
notáveis?
São
muitas.
São os
heróis da
navegação, da
conquista, os
reis portugueses
que dilataram a
Fé e o
Império,
que difundiram a
civilização nas
terras de África e Ásia;
são
também
aqueles
cujo
nome ficou na
História
por actos de excepção…
(cf.
Canto I, 1-2)
Em
Os
Lusíadas,
especialmente a
partir do
Canto V, no
final de
cada
Canto, há
partes
que
não
são
narrativas,
porque o
poeta aproveita
para
tecer os
seus
comentários e
críticas.
Contudo,
segundo os
cânones da epopeia, o
Poema de Camões deveria
ser
alheio à
pessoa do
poeta. É neste
sentido
que Luís António
Verney, no séc. XVIII, faz as
seguintes
críticas:
“Errou o Camões
em
não
sustentar
sempre o carácter e
grandeza do
seu
herói,
que
abaixa sensivelmente no
canto VIII, do
meio
para
diante. Errou nas enfadonhas
digressões
que introduz
por
toda a
parte. Errou
em
acabar
quase
todos os
Cantos
com
exclamações
mui
fora de
propósito e
muito
contra o
estilo da epopeia.”
(in
Carta VII do
Verdadeiro
Método de
Estudar,
Editorial
Presença, p. 168).
De
opinião
oposta à
anterior, Eduardo
Lourenço,
dois
séculos
mais
tarde, diz o
seguinte:
“Os
Lusíadas
não
são a
primeira epopeia
realista dos
tempos
modernos,
mas a
primeira
que
nada perdeu da
sua
força,
graças ao
fulgor da
sua
forma,
quer
dizer,
graças à
sua
autonomia de
poema
humanista, de
realidade
escrita”
(“Camões e o
tempo
ou a
razão
oscilante” in
Poesia e
Metafísica, Lisboa,
Sá da
Costa
Editora, 1983, p. 34)
Um
dos
propósitos de
tais
intromissões do
poeta é o de
doutrinar e
construir,
por
cima do tradicional
herói
guerreiro,
um
novo
tipo de
herói, o
humanista.
O
HERÓI
POSSÍVEL
Camões,
em Os
Lusíadas, apresenta o
heroísmo
em
termos
teóricos, programáticos,
havendo uma
distância
entre a
perfeição idealizada e o
plano da
realidade.
Primeiro,
Camões anuncia as
formas de
comportamento
que o
herói deve
evitar
(Canto VI,
95-96):
não
descansar à
sombra dos
louros conquistados
pelos
seus
antecessores e
evitar a
ociosidade,
inércia e comodismo.
Depois,
anuncia o
programa
em
forma
afirmativa
(Canto VI,
97-99):
necessidade de
exercício,
esforço da
coragem e
capacidade de
enfrentar
todo o
tipo de sofrimento.
Assim,
advêm-lhe
não
só
honras próprias,
isto é, do
seu
próprio
mérito,
como
também
coragem
para
enfrentar os
perigos de
guerra e
para
dominar o
medo e a
comoção –
manifestações
exteriores
que se forem moldadas
dão-lhe uma
superioridade
moral e uma
serenidade
intelectual.
Numa
sociedade
justa e
bem organizada,
um
homem destes será chamado
ao
desempenho
de
cargos de
responsabilidade: será
chamado “contra
vontade
sua, e
não rogando”
(Canto
VI, 99).
Requer-se
um
homem
desprendido do
poder,
que
aceite
exercer
cargos
mesmo
sem o
desejar,
apenas movido
por uma
consciência
cívica de
servir a
pátria.
O
bom
herói,
ou
bom
português, deve
renunciar a
tirania, a
ociosidade, a
cobiça, as “honras
vãs”,
o
“ouro
puro” (cf.
Canto IX, 92-95)
–
pois,
Melhor
é merecê-los
sem os
ter,
Que
possuí-los
sem os
merecer.
Cumpridos
estes
preceitos,
Sereis
entre
Heróis
esclarecidos
E nesta
Ilha de Vénus recebidos
(Canto IX,
95)
Apesar
de
tal prémio,
este
tipo de
herói
ainda
não corresponde,
por
completo, ao
ideal
ético do
poeta dos
tempos
novos.
O
PODER DO
POETA
Em
última
análise,
quem premeia os
nautas
com uma
ilha
mitológica é o
próprio
vate ao resgatá-los do
esquecimento (da
lei
leteia), dispensando-lhes a
fama e
imortalidade no e
através do
seu
canto.
O rudo
canto
meu,
que ressuscita
as
honras sepultadas,
as
palmas
já
passadas
dos
belicosos
nossos
Lusitanos,
para
tesouro dos
futuros
anos,
convosco
se defende
da
lei leteia, à
qual
tudo se rende.
(Ode VII)
Nas
estâncias 83 a 87 do
Canto VII, Camões
chega a
enumerar as
pessoas
que
não merecem a
glória
que o
canto do
poeta dá: os
lisonjeiros; os
que actuam movidos
por
um
interesse
pessoal
em
prejuízo de
um
bem
comum e do
seu
rei; os
que actuam movidos
pela
ambição (os
que sobem ao
poder
por
influências,
compra de
cargos de
importância), permitindo
dar largas aos
seus
vícios; e os
que exercem
despoticamente o
poder.
O
poeta
chega ao
ponto de se queixar do facto de a
aristocracia portuguesa, representada na
pessoa de
Vasco da
Gama,
não
ser
amiga das
Musas:
Que
ele,
nem
quem, na
estirpe,
seu se
chama,
Calíope
não tem
por
tão
amiga
(Canto V,
99)
Por
isso, diz,
não é
por
Vasco da
Gama
que as
Musas (o
poeta) cantam; é
pela
pátria:
Às
Musas agradeça o
nosso
Gama
O
muito
amor da
pátria,
que as obriga
A
dar aos
seus, na
lira,
nome e
fama
De
toda a
ilustre e
bélica
fadiga
E
mais: “se
este
costume
dura”
Portugal ficará
pobre
em
heróis:
Sem
vergonha o
não digo,
que a
razão
De
algum
não
ser
por
versos
excelente
É
não se
ver
prezado o
verso e
rima,
Porque
quem
não sabe
arte,
não na
estima.
Por
isso, e
não
por
falta de
natura,
Não
há
também Virgílios
nem Homeros;
Nem
haverá, se
este
costume
dura,
Pios
Eneias
nem Aquiles
feros.
(Canto V,
97-98)
Sem
Virgílio
não há Eneias,
sem Camões,
Gama.
Em
toda a
sua
poesia, a
começar no
canto
épico, há a
expressão,
quase cansativa, de uma
decepção causada
por uma
crise
inerente à
sua
época.
O
HERÓI
HUMANISTA
“A
melhor
forma de
serviço
público e de empenhamento
cívico, aquela
em
que se
logra a desejada
simbiose
entre a
vida activa e a
vida contemplativa, é a
do
homem de
intelecto, do
humanista,
que é simultaneamente
um
homem de acção,
um
soldado.
Por
isso
tanta
importância tem no
nosso
discurso
histórico-literário o
topos das
Armas e
Letras.
Doravante
a ideia de
mérito e
experiência
individual,
sempre
que se trate de
eleger
alguém
para
lugares de
responsabilidade
pública, vai sobrepor-se
à ideia de
linhagem e
privilégio de nascimento.”
(Luís de Sousa Rebelo, A
tradição
clássica na
literatura portuguesa, Lisboa,
Livros
Horizonte, 1982).
Nesta
ordem de ideias, há
uma
visão de
conjunto
sobre os
heróis portugueses
como sendo
imperfeitos
(cf.
Canto V, 92-97),
por
não ultrapassarem o
desenho tradicional do
herói cavaleiresco.
O
poeta diz
ter
vergonha destes
heróis,
porque
são
ignorantes, ao
contrário dos
Antigos,
como Octávio
que,
[…]
entre as
maiores
opressões,
Compunha
versos
doutos e venustos
(Canto V,
95)
As
figuras da
Antiguidade
são o
paradigma
humanista da
associação das
ARMAS e das
LETRAS.
Da
galeria de
heróis de Os
Lusíadas, Nuno Álvares
Pereira é
aquele
que Camões decide
construir à
medida do
novo
conceito de
herói,
pois é representado
como
excelente na
capacidade de
discursar
(cf.
Canto IV, 14-21)
e
excelente no
campo de
batalha
(cf.
Canto IV, 28-44).
Mesmo
que historicamente Nuno Álvares
Pereira tenha sido
um
bom estratega e
orador,
naturalmente
que o
épico o estilizou
tão à
maneira de Fernão Lopes
que,
por
sua
vez,
já o havia
tornado
lendário.
Na
verdade,
em Os
Lusíadas,
Camões é o
único
que
comporta
majestosamente estas duas
qualidades: a
conciliação das
Armas e das
Letras.
Se repararem,
quando se
fala de Os
Lusíadas o
nome
que vem
imediatamente à
mente é o de Camões e
não o de
um
herói
literário. Os
Lusíadas
não
nos remetem
senão
para o
seu
autor.
Mas, no
que
toca a outras epopeias, ocorrem-nos
os
nomes de Ulisses, Eneias, El Cid, Tristão, Hamlet,
D.
Quixote,
isto é, os
respectivos
heróis
literários.
“Para
compensar uma
tal
ausência –
cujo
mistério se repercute
sobre a
imagem
global da
nossa
literatura – temos uma
espécie de herói-vivo,
cuja
lenda
verídica teve o
condão de se
converter
em
existência
ideal,
como é
apanágio da
ficção
perfeita. Referimo-nos,
naturalmente, ao
próprio Camões,
herói da
sua
própria
ficção, e
que se tornou
para
um
povo
inteiro
bem
mais mítico e,
mesmo,
bem
mais
heróico
que os
heróis exaltados
pelo
seu
Poema.”
(Eduardo Lourenço, op. cit.)
AUTOMITIFICAÇÃO
“Com
efeito, o
esforço
original de
automitificação
através do
qual Camões
tenta
escapar à
insignificância e ao
esquecimento […]
não é uma
descoberta de Camões.
Constitui a
vivência
mais inovadora do
seu
tempo cultural.”
(Eduardo Lourenço, op. cit.)
Na
estância 154 do
Canto X, o
poeta caracteriza-se:
Mas
eu
que
falo,
humilde, baxo e rudo,
De
vós
não
conhecido
nem sonhado?
[…]
Nem
me
falta na
vida
honesto
estudo,
Com
longa
experiência misturado,
Nem
engenho,
que
aqui vereis
presente,
Cousas
que
juntas se acham
raramente.
A
seguir, na
estância 155, pede
para
servir o
rei e a
pátria
através do
seu
canto.
Em
Os
Lusíadas, podemos
ver a
encarnação dos ideias do
humanismo
cívico na
figura do
poeta, numa
associação do homo
politicus e homo theoreticus.
O
poeta apresenta-se
com os
mesmos
termos
que refere César:
|
 |
Vai César sojugando
toda França
E as
armas
não
lhe impedem a
ciência;
Mas,
nũa
mão a
pena e noutra a
lança,
Igualava de
Cícero a
eloquência.
(Canto
V, 96)
Olhai
que há
tanto
tempo
que, cantando
O
vosso Tejo e os
vossos
Lusitanos,
A
Fortuna
me traz
peregrinando,
[…]
Nũa
mão
sempre a
espada e noutra a
pena
(Canto
VII, 79) |
Aliás,
o
naufrágio do
próprio
poeta é tomado
como objecto
quer da
narração
épica
quer do
canto da deusa Tethis: