Macunaíma - rapsódia (Mário
de Andrade)
RESUMO
DA OBRA
Macunaíma
nasceu numa tribo amazônica. Lá passa sua infância, mas não é uma criança
igual as outras do lugar. É um menino mentiroso, traidor, pratica muitas
safadezas, fala muitos palavrões, além de ser extremamente preguiçoso. Tem
dois irmãos, Maanape e Jiguê.
Vai
vivendo assim a sua meninice. Cresce e se apaixona pela índia Ci, A Mãe do
Mato, seu único amor, que lhe deu um filho, um menino morto. Depois da morte de
sua mulher, Macunaíma perde um amuleto que um dia ela havia lhe dado de
presente, era a pedra "muiraquitã". Fica desesperado com esta perda,
até que descobre que a sua muiraquitã havia sido levada por um mascate
peruano, Vesceslau Pietra, o gigante Piamã, que morava em São Paulo. Depois da
descoberta do destino de sua pedra, Macunaíma e seus irmãos resolvem ir atrás
dela para recuperá-la. Piamã era o famoso comedor de gente, mas mesmo assim
ele vai atrás de sua pedra.
A
história, a partir daí, começa a discorrer contando as aventuras de Macunaíma
na tentativa de reaver a sua "muiraquitã" que fôra roubada pelo Piamã,
um comerciante. Após conseguir a pedra, Macunaíma regressa para a sua tribo,
onde após uma série de aventuras finais, finalizando novamente na perda de sua
pedra. Então, ele desanima, pois sem o seu talismã, que, no fundo, é o seu próprio
ideal, o herói reconhece a inutilidade de continuar a sua procura, se
transforma na constelação Ursa Maior, que para ele, significava se transformar
em nada que servisse aos homens, por isso, vai parar no campo vasto do céu, sem
dar calor nem vida a ninguém.
ANÁLISE
LITERÁRIA DA OBRA
LINGUAGEM
A
linguagem é metafórica e postiça para a comunicação diária. No plano das
aparências, esta primitividade é que adere a civilização urbana, mas no
plano das intenções, Mário de Andrade satiriza a linguagem através de Macunáima,
devido ao seu desajuste apresentando um propósito de colocar em ridículo a
norma culta que não corresponde a realidade brasileira e sim à realidade
Portuguesa.
No
livro Macunaíma, encontramos a ausência de vírgulas, numa série enumerativa,
normalmente se referindo às riquezas brasileiras. A ruptura da sintaxe e da
pontuação que é uma característica do modernismo. Quando Mário de Andrade
eliminou as vírgulas, ele estava usando o recurso do futurismo e ao mesmo tempo
acrescentando a imaginação poética, que é a decodificadora das intenções
poéticas, pois quem lê decodifica o pensamento.
HISTÓRIA
Este
romance é escrito depois da Semana de Arte Moderna e está dentro da história
da Literatura Brasileira na 1ª geração modernista que caracteriza com a
preocupação da ruptura, rejeição da herança do passado.
Na
mitologia indígena, tudo se transforma em alguma coisa, pois a morte não é
encarada com o desaparecimento total. Já o modernismo pregava a modernidade, a
liberdade de expressão, contestação do passado, pois o passado é apenas uma
simples imitação do que lhes foram impostas. Há também o aparecimento da
antropofagia através do personagem, Piamã, comedor de gente.
Macunaíma
é um romance nacionalista. Neste livro, a ausência de vírgulas e pontuação,
é uma influência das vanguardas européias, causando efeito melódico e era o
que pretendiam alcançar.
Mário
de Andrade tentou explorar na Literatura uma idéia obsessiva, de modo que a
superposição de 2 signos, formaria outro signo (música).
Nesta
obra, apresenta o aspecto, do princípio que é o indianismo "Herói de
nossa gente", semelhança com José de Alencar em Iracema.
O
autor deixou indefinido o espaço e o tempo em que se passa a ação. A
literatura moderna queria a origem popular e o apego as lendas não só com
palavras, mas também com o modo de expressar: "No fundo do Mato-
Virgem", expressão "fundo" designa fazenda, que é uma
nomenclatura de onde ainda não penetrou a civilização, estando sem contato
com a raça invasora.
O
nome Macunaíma, que significa o grande mal, coisa ruim, já é o primeiro dado
da sátira, de crítica, mas por outro lado tem "Herói de nossa
gente", com tom profético ironizando, pois Cristo é o salvador. Isso
aparece como um visão de um herói pícaro ou de um herói às avessas, pois a
caracterização dos heróis em outras obras são lindos, belos e perfeitos e já
em Macunaíma, os seus defeitos estão mais exaltados, ou seja, mais evidentes
do que as suas qualidades.
A
cor preta é insólito, ou seja, não é comum, devido ao fato de Macunáima não
ser um índio comum. Quando Mário de Andrade retrata Macunaíma sendo de cor
preta, ele conta a história brasileira, devido a fuga dos escravos que se
misturaram com os índios, resultando no índio negro.
A
ÚNICA LÓGICA DE MACUNAÍMA, É NÃO TER LÓGICA NENHUMA.
No
nascimento de Macunaíma, a natureza foi narrada como se tudo tivesse parado
para ver o menino nascer. Encontramos também neste episódio o verbo Parir,
sendo que este verbo é utilizado para animais irracionais. Neste ponto, Mário
de Andrade está usando o eufemismo, ou seja, a linguagem que parece querer
acentuar ainda mais a feiura do personagem.
Macunaíma
é um hipodigma (tipo ideal) do homem da América Latina, preguiçoso... Mário
de Andrade procura colocar em primeiro plano os defeitos do personagem "Ai
que preguiça!".
A
leitura de Macunaíma é a visão da luta do colonizador e o colonizado. O índio
é o colonizado e o colonizador é o antagonista. A mensagem deste livro faz
referência a nossa cultura, que se afastou da sua origem, e com isso, o
modernista aparece para tentar conscientizar as pessoas para voltar às origens
e o amor a terra, sendo assim, Macunaíma é uma lenda amazônica.
Será
feita, a seguir, a explanação de alguns capítulos do livro para que possamos
dar uma idéia geral de alguns acontecimentos que foram destacados dentro da
obra.
CAPÍTULO
I
MACUNAÍMA
Este
capítulo mostra o conflito de Macunaíma e Jiguê, mas Macunaíma rouba-lhe a
mulher. Ele derrota o irmão não pela força e sim pela astúcia.
Há
também neste capítulo, vários elementos ligados ao folclore brasileiro, como
por exemplo a pajelância (cerimônia que o pajê faz para curar alguém).
Ocorre a mistura do folclore Africano com o índio. A transformação do índio
lindo é característico dos contos de fadas ibéricas.
Encontramos
as 3 fontes da origem do folclore brasileiro: 1) Fonte Africana; 2) Indígena;
3) ibérica.
CAPÍTULO
II
MAIORIDADE
Neste
capítulo ele torna a conquistar a mulher do irmão, consolidando o poder de
Macunaíma sobre Jiguê.
No
2º capítulo é a maioridade que é assegurada à Macunaíma com um balde de
caldo de aipim e se transforma num homem adulto e neste capítulo também mata a
mãe.
CAPÍTULO
III
CI,
MÃE DO MATO
Neste
capítulo, conta a lenda dos índios da Amazônia. As Amazonas eram mulheres
guerreiras que erão chamadas de Icamiabas. Um viajante espanhol encontrou estas
índia guerreiras e deu origem ao Estado do Amazonas. Macunaíma tentou conquistá-la,
apanhou muito e pediu ajuda aos irmãos, com esse auxílio, ele consegue conter
a índia rainha do Amazonas e é aclamado como Imperador do mato. Estas índias
não poderiam se casar mas esta índia se casa. Antes de ela se transformar numa
estrela, ela dá a Macunaíma uma pedra que é chamada "muiraquitã" e
é esta pedra que impulsiona todo o restante do livro.
CAPÍTULO
IV
BOIÚNA
LUNA
Neste
capítulo, Macunaíma correndo da Capri passeia pelo Brasil e encontra um
bacharel do século XVI. Neste encontro, há um irrealismo temporário. Nesta
corrida ele perde a "muiraquitã", esta pedra pode representar a
identidade do brasileiro. No fim desse capítulo, ele reza para o Negrinho do
Pastoreiro para ajudá-lo a encontrar a pedra e este lhe conta o destino da
"muiraquitã". Negrinho do Pastoreiro lhe conta que a pedra está com
Venceslau que morava na cidade de São Paulo, num local aristocrático.
Macunaíma
decide então, procurar a sua pedra que pertenceu a sua mulher. Vai com os irmãos
e desce para o Rio Araguaia, vai ao Rio Tietê e até a cidade de São Paulo. Lá
em São Paulo o dinheiro que ele trouxe era pouco e precisava trabalhar. Macunaíma
fica triste com isso.
Nesta
aventura, ele é assassinado perto do Mercado, e é ressuscitado por Maanape e
fica a espera da vingança. Ele se disfarça de francesa e foi travestido para
ver se roubava a pedra de Venceslau, mas apanha dele.
CAPÍTULO
V
PIAIMÃ
Neste
capítulo começa a ação, pois aqui Macunaíma viaja para São Paulo atrás da
sua pedra Muiraquitã, que fôra roubada por PIAIMÃ. Aqui também encontramos
um trecho do texto que seria a lenda da origem das três raça.
A ORIGEM DAS TRÊS RAÇAS TAMBÉM TEM A SUA LENDA
"Uma
feita a Sol cobrira os três manos duma escaminha de suor e Macunaíma se
lembrou de tomar banho. Porém no rio era impossível por causa das piranhas tão
vorazes que de quando em quando na luta pra pegar um naco de irmã espedaçada,
pulavam aos cachos pra fora d’água metro e mais. Então Macunaíma enxergou
numa lapa bem no meio do rio uma cova cheia d’água. E a cova era que-nem a
marca dum pé-gigante. Abicaram. O herói depois de muitos gritos por causa do
frio da água entrou na cova e se lavou inteirinho. Mas a água era encantada
porque aquele buraco na lapa era marca do pezão do Sumé, do tempo em que
andava pregando o evangelho de Jesus pra indiada brasileira. Quando o herói
saiu do banho estava branco, louro e de olhos azuizinhos, água lavara o pretume
dele. E ninguém não seria capaz mais de indicar nele um filho da tribo retinta
dos Tapanhumas.
Nem
bem Jiguê percebeu o milagre, se atirou na marca do pezão do Sumé. Porém a
água já estava muito suja da negrura do herói e por mais que Jiguê
esfregasse feito maluco atirando água pra todos os lados só conseguiu ficar da
cor do bronze novo. Macunaíma teve dó e consolou:
_Olhe,
mano Jiguê, branco você ficou não, porém pretume foi-se e ante fanhoso que
sem nariz.
Maanape
então é que foi se lavar, mas Jiguê esborrifara toda a água encantada pra
fora da cova. Tinha só um bocado lá no fundo e Maanape conseguiu molhar só a
palma dos pés e das mãos. Por isso ficou negro bem filho da tribo dos
Tapanhumas. Só que as palmas das mãos e dos pés dele são vermelhas por terem
se limpado na água santa. Macunaíma teve dó e consolou:
_Não
se avexe, mano Maanape, não se avexe não, mais sofreu nosso tio Judas!
CAPÍTULO
VII
MACUMBA
Neste
capítulo temos o envolvimento com a questão religiosa. Na macumba fica claro
que Macunaíma é filho de EXU e é rezado o Pai Nosso do diabo que é um dado
curioso da nossa cultura popular.
CAPÍTULO
VIII
VEI,
A SOL
Há
neste capítulo uma referência às filhas da terra. Macunaíma despreza as
filhas da terra e se encanta com uma estrangeira.
Há
também referência "MUITA SAÚVA, POUCA SAÚDE". Nesta colocação, Mário
de Andrade nos mostra que dentro de uma sociedade agrária, qualquer praga que
prejudique a produção, passa a prejudicar muito o povo. Dentro dessa
estrutura, a saúva era considerada um mal nacional e a saúva é uma formiga
cortadeira, ela corta as folhas e as árvores secam.
No
começo do século houve uma campanha nacional de saúde. Entre muita saúva e
pouca saúde, há uma rima, que passa a ser uma frase de efeito. Muita saúva é
um problema nacional, que tinha na saúva como um inimigo. E a saúde está
ligada aos problemas da saúde do povo.
Neste
capítulo também decide voltar para São Paulo atrás de sua pedra "muiraquitã".
CAPÍTULO
IX
CARTA
PRAS ICAMIABAS
Este
capítulo é o mais destacado neste livro porque reflete vários itens quanto à
linguagem, o significado das origens de um povo e a personificação de Macunaíma
em relação a sua identificação pessoal, ou seja, a sua identificação como
um índio.
A
carta é dirigida por Macunaíma, às Icamiabas, o emissor aparece como
Imperador e as destinatárias como súditas. O termo súbditas são as senhoras
amazonas, e o termo é erudito e a forma popular súdita.
A
forma erudita é característica da linguagem culta (escrita), normalmente a
linguagem escrita representa a norma culta e a oral, popular. O livro até aqui,
vem escrito numa linguagem que tem como padrão, a oral. Até as grafias se
prendem na linguagem popular. Observada a grafia da conjunção se,
e escreve si,. pois na linguagem oral é si. Observando isso,
concluímos que na carta, há a tentativa de Macunáima em expressar uma
linguagem culta. Esta tentativa de Macunaíma em escrever usando uma linguagem
culta, tem por finalidade a carnavalização da norma culta, ou seja, uma sátira
da linguagem culta. A ridicularização aparece pelos recursos da hiper correção
(ex.: não devemos desperdiçarmos). O próprio Macunaíma está a representar
aquelas pessoas nativas, que não têm uma linguagem culta, por ex.: usa testículos,
ao invés de versículos), discrição e não discreção.
Suas
textualidades são maiores do que suas qualidades. Sempre há alguém que diz
que Macunaíma é inteligente. Ele tem mais defeitos do que qualidades. Ao
descrevê-lo, Mário de Andrade procura identificar o homem latino americano e não
o índio.
Nesta
carta há um antinorma, praticamente o exagero da norma culta., pois quem
escreve tentando escrever de uma forma culta é o analfabeto Macunaíma. Temos
aqui uma paródia, pois a antinorma não é para ser levada a sério, é uma
ironia somente, uma imitação grotesca, que é o exagero da norma, ou uso de
palavras fora de seu contexto (Ex.: testículos)
Macunaíma
se apresenta às Icamiabas como Imperador. O tratamento às Amazonas é um
distanciamento entre o mais importante e o sem importância. Esta carta é também
paródia de uma outra carta de Pero Vaz Caminha, mas como é uma paródia, a
carta em relação a Caminha, via sua carta o civilizado mostra ao rei o
primitivismo encontrado, e Macunaíma é um imperador que escreve ao Rei. Pero
Vaz descreve terra primitiva, Macunaíma descreve a cidade civilizada. Ha um
contraste entre primitivismo e civilização.
Nesta
carta, Macunaíma pede dinheiro às índia Icamiabas porque o que ele havia
trazido estava no fim e ele não queria trabalhar.
É
também um contexto altamente irônico para aquelas pessoas que perdem a noção
de sua origem e tentam incorporar um outro modelo de comportamento no qual não
dominam. Exatamente como o povo da época, que deixava a cultura brasileira,
para incorporar a de Portugal.
Este
capítulo está preso a norma culta. Um outro ponto que distingue o texto da
obra é o foco narrativo antes e depois. O foco narrativo é do narrador
enquanto que na carta, o foco narrativo é do personagem, ou seja, do Macunaíma.
A
visão da linguagem em Macunaíma tem uma intenção, escreve uma carta às índias
Icamiabas para pedir dinheiro e para disfarçar esse pedido, usa seus palavrórios
e elementos de alusão eróticas. O objetivo da carta está no fecho, nos 2 últimos
parágrafos.
Nesta
carta, ocorre a quebra da norma culta. Há também, uma proposta de sátira ao
homem e a linguagem. É uma caricatura da linguagem culta. O exagero da
tentativa de perfeição utilizado por Macunaíma, é a confirmação da
caricatura, pois há uma preocupação de mostrar a erudição e a distorção
da norma clássica provando que o personagem não tem força intelectual
suficiente, cai no ridículo.
Mostra-nos
que a intenção de Mário de Andrade é ridicularizar as normas cultas dos
Parnasianos e também uma crítica ao homem de Letras do Brasil, porque ao invés
de colocar sua linguagem local, vai procurar esta linguagem fora daqui.
Macróbios
e micróbios, essas confusões feitas por Macunaíma é que geram o humor, que
é próprio da sátira. O narrador é que critica a carta e não Macunaíma. Não
há qualquer compromisso de lógica com a verossimilhança. No plano da
realidade, seria impossível Macunaíma escrever uma carta dessa, mas mesmo
assim, ele quer mostrar-se às índias como perfeitamente identificado com a
civilização urbana. Então, usa a língua da sociedade. Ele se tornou branco
como os demais, pois a cor o ajuda muito nesta identificação com a sociedade
da época ainda muito próxima à escravatura, prova disso, os irmãos que não
conseguiram mudar a cor e que também foram junto com ele para São Paulo, não
tiveram sucesso.
Para
Macunaíma integrar-se nesse meio, bastava a língua mas, só com o dinheiro é
que iria proporcionar essa participação e é por isso, que escreve a carta
cheia de alusões eróticas.
Esta
atitude é pedante e o pedantismo é uma técnica do distanciamento. Outra prova
do pedantismo, é a desvalorização do que é seu e super valorização do que
é dos outros.
Outra
característica que o liga à sociedade é o apego ao dinheiro, pois sem
dinheiro, Macunaíma não conseguiria fazer parte socialmente daquele contexto.
Havia também o deslumbramento com os homens públicos, os policiais. Ao
conseguir o domínio da língua, procura apresentar-se diante das Icamiabas,
como um poderoso, que é para mascarar a situação social anterior, que foi a
surra que levou de Piamã. Com essa instrução, é uma crítica de Mário de
Andrade daquele brasileiro que ganha muito dinheiro e depois começa a esnobar.
A
citação das palavras estrangeiras é intencional. "Carta pras Icamiabas"
apresenta duas versões da língua brasileira: a oralizada que é falada por
Macunaíma e o da carta que é culta. Há intencionalidade em colocar a distância
do receptor para o interlocutor. Apresentamos aqui alguns aspectos da linguagem
na carta:
1)
"Nem 5 sois...- Tenho uma pastite (imitação burlesca, intencionalmente
mal feita do autor Camões). Presença de Camões, que dentro da literatura
Portuguesa é considerada o Clássico dos Clássicos. Neste aspecto, Mário de
Andrade está criticando a cultura Portuguesa no Brasil. - "sois"-
significa dia.
2)
"idos de maio" - "idos (latinismo-Que no calendário latino se
dava os dias do mês)
3)
"ano translato"- ano passado
4)
"súbditas"- seria a preocupação com a etimologia da palavra, mas
com intenção de paródia.
5)
"Trompas de Eustáquio"- é um termo científico, portanto não
deveria estar na carta.
6)
"mui"- termo arcaico que em determinadas circunstâncias são usadas.
7)
"saùdade"- erro ortográfico
8)
"devido ás oscilações do Cámbio e á baixa do cacau"- erros ortográficos
e tetativa de mostrar conhecimentos nos assuntos financeiros da cidade.
9)
"diligentes edis, uns antropóides, monstros hipocentáureos azulegos e monótonos..."-
"..per amica silentia lunae"- uso de uma linguagem postiça para
impressionar as Icamiabas,
Deveria
haver uma adequação de linguagem na "Carta pras Icamiabas", porque
usar termo técnico não seria entendido por elas. Quando a linguagem não é
adequada à realidade, ela é burlesca e no momento que encontramos um termo
científico não adequado ao texto, há uma quebra do entendimento, portanto
passando a ser uma sátira. O uso do científico se transforma em pedantismo.
O
uso da vírgula está coerente com a intenção formal da carta e nos outros
temas do livro, não há esta preocupação. Há uma excessiva preocupação com
a gramática, a ponto de interromper a história para se ater na linguagem.
CAPÍTULO
X
PAUI-PÓDOLE
Neste
capítulo encontramos novamente referências lendárias do Mutum que virou
estrela.
Mutum
é uma ave.
URARICOERA
É
uma cidade em Roraima, no extremo norte, nas proximidades da Venezuela (Símbolo
do Paraíso)
PEDRA
MUIRAQUITÃ
Símbolo
de união entre Macunaíma e Ci e também como identidade nacional presente
daquela sociedade primitiva a qual ele pertencia.
EPITÁFIO
"ESCREVEU
NA PEDRA QUE FORA JABUTI"
Na
lenda, as pedras já foram seres vivos que se tornaram pedra. E Macunaíma vai
ser estrela. É um epitáfio que Macunaíma grava para ele mesmo.
A
escrita de Macunaíma apóia-se no pensamento selvagem, na idéia de que tudo
vira tudo e na capacidade de compor e recompor configurações a partir de conteúdos
díspares, esvaziados de suas primitivas funções. Daí a técnica caleidoscópica,
onde as idéias e imagens projetam-se arbitrariamente, inclusive nos modos de
contar, nos estilos narrativos:
Alfredo
Bosi destaca três estilos de narrar:
-
Um estilo de lenda, épico-lírico, solene:
"No
fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto
e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande
escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia Tapanhumas pariu uma criança
feia. Essa criança é que chamara de Macunaíma"
-
Um estilo de crônica, cômico, despachado, solto:
"Já
na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis anos não
falando. Si o incitava a falar exclamava:
_Ai!
que preguiça!...
E
não dizia mais nada. Ficava no canto da maloca, trepado no jirau de paxiúba,
espiando o trabalho dos outros e principalmente os dois manos que tinha, Maanape
já velhinho e Jiguê na força de homem. O divertimento dele era decepar cabeça
de saúva. Vivia deita mas si punha os olhos em dinheiro, Macunaíma dandava pra
ganhar vintém. E também espertava quando a família ia tomar banho no rio,
todos juntos e nus (...)
Então
adormecia sonhando palavras feias, imoralidades estrambólicas e dava patadas no
ar.
-
Um estilo de paródia, retomando, satiricamente, a linguagem empolada e pedante
dos parnasianos e dos cultores de Rui Barbosa e Coelho Neto. É o que se vê na
Carta pras Icamiabas, que o herói escreve no capítulo IX, focalizando a
duplicidade no uso de nossa língua.
"Mas
cair-nos-iam as faces, si ocultássemos no silêncio, uma curiosidade original
deste povo. Ora sabereis que a sua riqueza de expressão intelectual é tão
prodigiosa, que falam numa língua e escrevem noutra (...)
Nas
conversas, utilizam-se os paulistanos dum linguajar bárbaro e multifário,
crasso de feição e impuro na vernaculidade, mas que não deixa de ter seu
sabor e força nas apóstrofes, e também nas vozes do brincar. Destas e
daquelas nos inteiramos, solícito; e nos será grata empresa vô-las ensinarmos
aí chegado. Mas si tal desprezível língua se utilizam na conversação da
pena, se despojam de tanta asperidade, e surge o Homem Latino de Lineu,
exprimindo-se numa outra linguagem, mui próxima da vergiliana, no dizer dum
panegirista, meigo idioma, que, com imperecível galhardia, se intitula: língua
de Camões"
EPÍLOGO
RAPSÓDIA
Rapsódia-
narrativa popular
Rapsodo-
é quem transmite a narrativa
Este
último capítulo é a explicação do porquê, o livro Macunaíma é
considerado uma rapsódia.
Rapsódia
é um canto épico e normalmente é cantado em verso, mas a epopéia desaparecerá
no sec. XVIII e a sociedade não aceitará mais o herói épico. O rapsodo é um
Aedo, ou seja, um cantor popular que era um homem do povo cantando textos épicos
e ia de cidade em cidade cantando a história de seu povo.
Diante
destas definições, Macunaíma teria que ser em verso, para ser uma rapsódia,
mas neste capítulo, fica expresso como se fosse uma história que o papagaio
contou para o narrador. Neste artifício Mário de Andrade disfarçou como se
fosse uma pseudo-rapsódia.
Rapsodo
liga a narrativa popular, folclórica. Uma narrativa folclórica tem que ser
antiga e a via de transmissão deve ser por via oral. Então, Mário de Andrade
inventa que essa história, o Rapsodo, que é aquele violeiro que ouviu o
papagaio contar a história e o papagaio, por sua vez, ouvira de Macunaíma.
Seguindo esta linha de raciocínio, Macunaíma contou a história para o
papagaio que ia contando para todos as pessoas e isso garante a antigüidade, o
anonimato. Ele contou a história e por isso é chamado de Rapsódia.
Dentro
do Modernismo, Mário de Andrade pode colocar como sendo sem verso, devido a
ruptura com o parnasianismo.