Modernismo
- Obras
Amar,
Verbo Intransitivo
Por
Mário de Andrade
Em Amar, Verbo Intransitivo
o autor mostra a iniciação sexual e amorosa do jovem Carlos. Seu pai,
Felisberto Sousa e Costa, contrata Elza (quase sempre chamada de "Fräulein")
para fazer essa iniciação. Ela ensina alemão a Carlos e suas três irmãs
menores enquanto vai, lentamente, o seduzindo. Os dois começam um caso (Laura,
mãe de Carlos, fica chocada quando descobre e pede para Elza ir, mas Sousa e
Costa explica a situação) que, não sendo tórrido, ainda é sexual; mas tem
um tom de quase incesto, já que Fräulein é quase maternal com Carlos. O pai
do jovem prepara-se para separá-los como inicialmente planejado quando Fräulein
engravida e acaba saindo, após paga os oito contos combinados, acabando a
primeira parte do romance, chamada Idílio. A segunda parte, sem nome (Idílio
é na verdade o subtítulo do romance) mostra Carlos mais amadurecido, enquanto
Fräulein já tem um novo menino sob instrução. O título do livro é na
verdade uma de suas temáticas principais: verbo intransitivo é aquele que não
precisa de complemento, e Fräulein Elza está na residência burguesa dos Sousa
e Costa, em São Paulo, para ensinar Carlos a amar; nenhum dos dois realment se
apaixona um pelo outro na verdade. Ela repudia o sentimento o quanto pode, na
verdade, e no final o que resta é apenas uma vaga melancolia, enquanto o que
ele achava ser amor é extremamente passageiro. No livro Mário de Andrade faz
também muitas digressões, identificando seus pensamentos, sentimentos e opiniões
com os dos personagens. O livro também tem uma estrutura incomum: não há capítulos
em si, apenas espaços em branco que separam passagens; e enquanto a palavra FIM
aparece após o Idílio, apenas após isso dá-se a conclusão da história.
Macunaíma
Por
Mário de Andrade
O enredo de Macunaíma o herói
sem nenhum caráter é o seguinte: Macunaíma, um ameríndio, após sair de sua
aldeia com os dois irmãos, casa-se e ganha de sua esposa, Ci, um amuleto
chamado muiraquitã, que ele perde. Esse amuleto aparece nas mãos de um mascate
em São Paulo, Venceslau Pietro Pietra, que é na verdade Piaimã, um gigante
devorador de gente. Ele e seus irmãos Maanape e Jiguê vivem várias aventuras
após mudarem-se para São Paulo (numa das quais torna-se branco, assim como
seus dois irmãos assumem a cor da pele das outras etnias formadoras de nossa
gente), e mata Venceslau e recupera o amuleto, que perde novamente. Perseguido
pelo minhocão Oibê, volta depois para o Amazonas, onde, ficando cada vez mais
triste e solitário por causa da morte da esposa, ascende aos céus e torna-se a
constelação de Ursa Maior. Mas mais do que só a história é importante ver o
estilo: classificado pelo autor como uma rapsódia, a obra é realmente uma
montagem de vários acontecimentos na vida de Macunaíma, que são basicamente
folclore puro. Várias pequenas histórias são contadas, da cultura popular de
muitas partes do Brasil, e a própria linguagem remete a essa "brasileiridade":
com sua linguagem dinâmica e natural, o autor ao mesmo tempo usa regionalismos
de todo país, desde o falar do gaúcho até o do amazonense. Assim, o Mário de
Andrade vai construindo seu personagem, o brincalhão (o verbo
"brincar" era usado, e muitas vezes, significando "fazer
sexo") herói sem caráter. As primeiras palavras de Macunaíma, assim como
seu dístico, estão na biografia do autor.
Memórias
Sentimentais de João Miramar
Por
Oswald de Andrade
Nos 163 curtos fragmentos
desta obra, Oswald de Andrade constrói um personagem semi-autobiográfico, o
referido João Miramar. Frenético, seu estilo telegráfico é cheio de
neologismos e estrutura fraseal incomum e inovadora. Ao contar a história de
Miramar, da infância, casamento e amantes, viagens à Europa e aventuras
financeiras no cinema até sua viuvez na época do armistício (o livro na
maioria se passa de em São Paulo de 1912 a 1918), Oswald cria um romance
futurista, Aqui, prosa e poesia se confundem totalmente; alguns dos fragmentos
*são* poesia. O livro tem prefácio de um personagem fictício do livro:
Machado Penumbra, uma sátira aos "intelectuais" de sua época, com
estilo pedante, gente que Oswald tanto combateu.
Capitães
da Areia
Por
Jorge Amado
Os Capitães da Areia são um
grupo de meninos de rua. O livro é dividido em três partes. Antes delas, no
entanto, via uma seqüência de pseudo-reportagens, explica-se que os Capitães
da Areia são um grupo de menores abandonados e marginalizados, que aterrorizam
Salvador. Os únicos que se relacionam com eles são Padre José Pedro e uma mãe-de-santo.
O Reformatório é um antro de crueldades, e a polícia os caçam como os
adultos antes do tempo que são. A primeira parte em si, "Sob a lua, num
velho trapiche abandonado" conta algumas histórias quase independentes
sobre alguns dos principais Capitães da Areia (o grupo chegava a quase cem,
morando num trapiche abandonado, mas tinha líderes). Pedro Bala, o líder, de
longos cabelos loiros e uma cicatriz no rosto, uma espécie de pai para os
garotos, mesmo sendo tão jovem quanto os outros, e depois descobre ser filho de
um líder sindical morto durante uma greve; Volta Seca, afilhado de Lampião,
que tem ódio das autoridades e o desejo de se tornar cangaceiro; Professor, que
lê e desenha vorazmente, sendo muito talentoso; Gato, que com seu jeito
malandro acaba conquistando uma prostituta, Dalva; Sem-Pernas, o garoto coxo que
serve de espião se fingindo de órfão desamparado (e numa das casas que vai é
bem acolhido, mas trai a família ainda assim, mesmo sem querer fazê-lo de
verdade); João Grande, o "negro bom" como diz Pedro Bala, segundo em
comando; Querido-de-Deus, um capoeirista que é só amigo do grupo; e Pirulito,
que em grande fervor religioso. O ápice da primeira parte vem em duas partes:
quando os meninos se envolvem com um carrossel mambembe que chegou na cidade, e
exercem sua meninez; e quando a varíola ataca a cidade e acaba matando um
deles, mesmo com Padre José Pedro tentando ajudá-los e se encrencando por
isso. A segunda parte, "Noite da Grande Paz, da Grande Paz dos teus
olhos", surge uma história de amor quando a menina Dora torna-se a
primeira "Capitã da Areia", e mesmo que inicialmente os garotos
tentem tomá-la a força, ela se torna como mãe e irmã para todos. (O
homossexualismo é comum no grupo, mesmo que em dado momento Pedro Bala tente
impêdi-lo de continuar, e todos eles costumam "derrubar negrinhas" na
orla.) Mas Professor e Pedro bala se apaixonam por ela, e Dora se apaixona por
Pedro Bala. Quando Pedro e ela são capturados (ela em pouco tempo passa a
roubar como um dos meninos), eles são muito castigados, respectivamente no
Reformatório e no Orfanato. Quando escapam, muito enfraquecidos, se amam pela
primeira vez na praia e ela morre, marcando o começo do fim para os principais
membros do grupo. "Canção da Bahia, Canção da Liberdade", a
terceira parte, vai nos mostrando a desintegração dos líderes. Sem-Pernas se
mata antes de ser capturado pela polícia que odeia; Professor parte para o RJ
para se tornar um pintor de sucesso, entristecido coma morte de Dora; Gato se
torna uma malandro de verdade, abandonando eventualmente sua amante Dalva, e
passando por ilhéus; Pirulito se torna frade; Padre José Pedro finalmente
consegue uma paróquia no interior, e vai para lá ajudar os desgarrados do
rebanho do Sertão; Volta Seca se torna um cangaceiro do grupo de Lampião e
mata mais de 60 soldados antes de ser capturado e condenado; João Grande
torna-se marinheiro; Querido-de-Deus continua sua vida de capoeirista e
malandro; Pedro Bala, cada vez mais fascinado com as histórias de seu pai
sindicalista, vai se envolvendo com os doqueiros e finalmente os Capitães da
Areia ajudam numa greve. Pedro Bala abandona a liderança do grupo, mas antes os
transforma numa espécie de grupo de choque. Assim Pedro Bala deixa de ser o líder
dos Capitães da Areia e se torna um líder revolucionário comunista. Este
livro foi escrito na primeira fase da carreira de Jorge Amado, e nota-se grandes
preocupações sociais. As autoridades e o clero são sempre retratados como
opressores (Padre José Pedro é uma exceção mas nem tanto; antes de ser um
bom padre foi um operário), cruéis e responsáveis pelos males. Os Capitães
de Areia são heróicos, "Robin Hood"'s que tiram dos ricos e guardam
para si (os pobres). O Comunismo é mostrado como algo bom, e o Padre José
Pedro tem dúvidas quanto a posição da Igreja quanto ao assunto. No geral, as
preocupações sociais dominam, mas os problemas existenciais dos garotos os
transforma em personagens únicos e corajosos, corajosos Capitães da Areia de
Salvador.
Gabriela
Cravo e Canela
Por
Jorge Amado
Modernismo de segunda fase. Gabriela
Cravo e Canela é dividido em duas partes, que são em si divididas em
outras duas. A história começa em 1925, na cidade de Ilhéus. A primeira parte
é Um Brasileiro das Arábias e sua primeira divisão é O langor de
Ofenísia. Vai centrando-se a história nesta parte em dois personagens:
Mundinho Falcão e Nacib. Mundinho é um jovem carioca que emigrou para Ilhéus
e lá enriqueceu como exportador e planeja acelerar o desenvolvimento da cidade,
melhorar os portos e derrubar Bastos, o inepto governante. Nacib é um sírio
("turco é a mãe!") dono do bar Vesúvio, que se vê em meio a uma
grande tragédia pessoal: a cozinheira de seu partiu para ir morar com o filho e
ele precisa entregar um jantar para 30 pessoas em comemoração a inauguração
de uma linha automotiva regular para a cidade de Itabuna. Ele encomenda com um
par de gêmeas careiras, mas passa toda a parte procurando por uma nova
cozinheira. No final desta pequena parte aparece Gabriela, uma retirante que
planeja estabelecer-se em Ilhéus como cozinheira ou doméstica, apesar dos
pedidos do amante que planeja ganhar dinheiro plantando cacau. A segunda parte
desta primeira parte é A solidão de Glória e passa-se apenas em um
dia. O dia começa com o amanhecer de dois corpos na praia, frutos de um crime
passional (todo mundo dá razão ao marido traído/assassino), segue com as
preparações do jantar e a contratação de Gabriela por Nacib. No jantar
acirram-se as diferenças políticas e, na prática, declara-se a guerra pelo
poder em Ilhéus entre Mundinho Falcão (oposição) e os Bastos (governo).
Quando o jantar acaba (em paz), Nacib volta para casa e, quando ia deixar um
presente para Gabriela silenciosa mas não inocentemente, tem com ela a primeira
noite de amor/luxúria. A segunda parte chama-se propriamente Gabriela Cravo
e Canela e sua primeira parte, o capítulo terceiro, chama-se O segredo
de Malvina, terceiro capítulo, passa-se cerca de três meses após o fim do
outro capítulo, e três problemas existem: o caso Malvina-Josué-Glória-Rômulo,
as complicações políticas e o ciúmes de Nacib. Vamos pela ordem. Josué era
admirador de Malvina, filha de um coronel com espírito livre. Esta começa a
namorar Rômulo, um engenheiro chamado por Mundinho Falcão para estudar o caso
da barra (que impedia que navios grandes atracassem no porto de Ilhéus). Josué
se desaponta e se interessa por Glória, amante de um outro coronel. Rômulo
foge após um escândalo feito pelo machista (tão machista quanto o resto da
sociedade ilheense) pai de Malvina, Malvina faz planos de se libertar e Josué
começa um caso em segredo com Glória. Na política, acirra-se a disputa por
votos ao ponto do coronel Bastos mandar queimar toda uma tiragem do jornal de
Mundinho. Mas Mundinho ganha terreno com a chegada do engenheiro. E perde quando
esse foge covarde. E ganha com a promessa da chegada de dragas a Ilhéus. Nacib
enquanto isso desenvolveu um caso com Gabriela. Mas está sendo atacado pelo ciúmes
(todos querem Gabriela, perfume de cravo, cor de canela). Aos poucos ele percebe
que é amor e acaba propondo casamento a Gabriela após a última investida do
juiz (alarme falso, ele já havia desistido). Mas foi a tempo, já que até roças
do poderoso cacau de Ilhéus já haviam sido oferecidas a Gabriela. O capítulo
acaba durante a festa de casamento de Nacib e Gabriela (no civil, já que Nacib
é muçulmano não-praticante), quando chegam as dragas no porto de Ilhéus. A
quarta e última parte chama-se O luar de Gabriela. Nesta resolvem-se
todos os casos. Pela ordem: Josué e Glória oficializam a relação e Glória
é expulsa de sua casa por seu coronel. Na parte da política, após o coronel
Ramiro Bastos perder o apoio de Itabuna (e mandar matar, sem sucesso, seu
ex-aliado; o quase assassino foge com a ajuda de Gabriela, que o conhecia), ele
morre placidamente em seu sono, seus aliados reconhecem que estavam errados (a
lealdade era com o homem, não suas idéias) e a guerra política acaba com
Mundinho e seus candidatos vencedores. Quanto a Nacib e Gabriela... Gabriela não
se adapta de jeito nenhum à vida de "senhora Saad", para desespero de
Nacib. Nacib acaba anulando o casamento ao pegá-la na cama com Tonico Bastos,
seu padrinho de casamento. Mas ninguém ri de Nacib; pelo contrário, Tonico é
humilhado e sai da cidade, o casamento é anulado sem complicações (os papéis
de Gabriela eram falsos) e Gabriela sai de casa. Nacib fica amargurado e vai se
recuperando. As obras na barra se completam com sucesso e Nacib e Mundinho abrem
um restaurante juntos. O cozinheiro chamado pelos dois é... convidado a se
retirar da cidade por admiradores de Gabriela, que acaba sendo recontratada por
Nacib. Semanas depois, Nacib e ela reiniciam seu caso, tão ardente como era no
começo e deixara e ser após o casamento. Num epílogo, o coronel, assassino
dos dois amante da primeira parte, é condenado à prisão. Cheio de uma crítica
à sociedade ilheense, a própria linguagem do autor muda quando foca-se a atenção
em Gabriela. Torna-se mais cantada, mais típica da região (como é a fala de
todos), deixando a leitura cada vez mais saborosa.
Dona
Flor e seus Dois Maridos
Por
Jorge Amado
Modernismo de segunda fase. A
história é dividida em 5 partes (cada uma aberta por uma lição de culinária
de Flor, que é professora desta arte, com exceção da quarta parte, aberta por
um programa para o concerto de Teodoro) e um intervalo. A primeira começa com a
morte de Vadinho em pleno Domingo de Carnaval. Vestido de baiana, Vadinho cai
enquanto dançava e seu funeral é MUITO concorrido. Nele voltam as lembranças
de todos sobre o falecido: os amigos de farra, as possíveis (prováveis)
amantes, os conhecidos e principalmente da esposa, Flor. Flor lembra do marido
infiel, cheio de lábia, espertalhão, jogador e malicioso que era Vadinho, mas
ainda assim extremamente adorável. Na definição de um dos presentes no
funeral, Vadinho "Era um porreta". O anteriormente referido intervalo
se trata da discussão que ocorreu na cidade sobre a autoria da elegia a
Vadinho, poesia anônima picante. A segunda parte passasse-se durante o período
de luto de Flor. Inconsolável com a morte de Vadinho, sua mãe volta para a
cidade e a situação piora. Dona Rozilda é o mais perfeito modelo de sogra:
odeia o genro, é chata, controladora, exibida e pretende sempre escalar na vida
social. Passa a fazer intriga sobre o falecido ("era morte para
festa") com várias beatas, enquanto algumas poucas defendem Vadinho (não
seus atos) por ele ser uma pessoa excepcional (no sentido de incomum, não o de
maravilhoso ou com deficiência mental). Assim em flashback é mais detalhado o
passado do casal. A mãe de Flor queria que as filhas se casassem com homens
ricos, e Vadinho apareceu. Eles se conheceram numa festa chique (Vadinho entrou
de penetra, com a ajuda do tio) e começaram o namoro com a benção de Dona
Rozilda, até que ela descobriu quem era o genro. Mais tarde Flor sai de casa e
se casa (de azul, porque não teve coragem de por o branco) e começa o
casamento. Vadinho é um marido ausente, sempre gastando o dinheiro (dos outros)
no jogo e nas mulheres. Certa vez Flor quase adotou um menino que ela achava ser
filho de Vadinho (Flor é estéril; o filho era do "xará"). E assim são
mostrados os vários acontecimentos, em flashback, da vida matrimonial com
aquele adorável cafajeste, generoso gastador, infiel e amantíssimo marido que
era Vadinho. O capítulo acaba com Flor pondo flores sobre o túmulo do
falecido, superando melhor o passamento dele. A terceira parte é passada nos
meses seguintes. Flor está mais alegre, apesar de manter ainda a fachada de viúva.
Todas as beatas competem para achar-lhe um bom pretendente e quem aparece é
Eduardo, o Príncipe, calhorda que enganava viúvas para roubar-lhes as
economias. Descoberto, Flor passa a se retrair. Seu sono torna-se mais agitado,
seu desejo cresce na medida em que ela deixa os homens fora de sua vida pessoal.
Mas então o farmacêutico Teodoro Madureira, respeitado solteirão (ele ficara
solteiro para cuidar da mãe paralítica, que morreu pouco antes), ele propõe
casamento a Dona Flor e eles tem o mais casto dos noivados, nunca ficando juntos
sozinhos. O capítulo acaba com o casamento de Flor, desta vez aprovado por sua
mãe (que havia saído da cidade no começo do capítulo; nem as outras beatas
agüentavam Dona Rozilda). A quarta parte começa com a lua-de-mel de Dona Flor.
Teodoro é diferente do falecido em tudo. Fiel (não compreende mesmo quando uma
cliente da farmácia levanta o vestido BEM alto para tentá-lo), regular (sexo
às quartas e sábados, bis aos sábados e facultativo às quartas) e
inteligente, Teodoro trás a paz de volta à vida de Dona Flor. Teodoro toca
fagote numa orquestra de amadores e o maestro compõem uma linda música para
ela que Teodoro toca solo (o convite abre o capítulo) e no dia do aniversário
de casamento, após os convidados partirem Flor vê Vadinho, nu como o viu na
cama no dia de sua morte, a puxá-la e tentá-la. Ela se recusa naquele momento,
fiel ao marido. Teodoro vai dormir e Vadinho sai logo depois, qundo Flor ia
procurá-lo. Começa aqui a parte do livro que o deixou famoso: Flor, Teodoro e
Vadinho, vivendo em matrimônio ao mesmo tempo, Vadinho nu, invisível a todos
menos Flor. A quinta parte, que tornou famoso livro, filme, seriado e tantas
quanto foram as adaptações desta obra, começa com o Vadinho vindo de volta
dos mortos, tentando Flor. Flor sente-se dividida entre o esposo atual e
Vadinho, mas este diz-lhe que não há por que o estar: são colegas, casados
frente ao juiz e ao padre. Flor vai aos poucos perdendo a resistência e chega a
encomendar um trabalho para mandar Vadinho de volta para onde estava. Enquanto
isso se passa Vadinho vai manipulando as mesas de jogo, favorecendo velhos
amigos, levando Pellanchi Moulas, rei do jogo em Salvador, ao desespero e a
todos os "místicos" da Bahia para se livrar do azar. Vadinho só para
quando seus amigos cansam (Mirandão, companheiro seu quando era vivo, para de
jogar definitivamente, assustado com o repetir de vezes que caía no 17, número
de sorte de Vadinho). Por fim Dona Flor sucumbe a Vadinho e passam a viver
harmoniosamente os três uma vida conjugal (mesmo que Teodoro não o saiba).
Vadinho chega a fazer o milagre de expulsar a sogra quando ela chega de mala e
cuia para ficar. Vadinho começa então a desaparecer e Flor se dá conta de que
era por causa do feitiço por ela encomendado. Há uma batalha entre vários
deuses contra Exu (identificado por alguns como sendo o diabo católico), que
protege Vadinho. Quando Exu estava perdendo, o amor e a volúpia de Vadinho
ganham a batalha. A obra acaba com Flor andando feliz com Teodoro e Vadinho (nu,
como sempre) ao seu lado, pelas ruas de Salvador. Esta parte acentua duas
características gerais da obra: a religiosidade que mistura ao mesmo tempo o
catolicismo e o candomblé, pondo todas as figuras míticas das duas religiões
junto e eficientemente simultâneas (algo como é a religiosidade baiana, já
que Salvador tem mais igrejas que qualquer outra cidade do Brasil e ainda assim
é centro das religiões de origem africana). A outra característica vem a ser
o fato de que Vadinho e Teodoro são metáforas para o id e o superego,
respectivamente. Vadinho é rebelde, impulsivo, espontâneo e dado ao caos (no
seu caso, o jogo); Teodoro é metódico e controlado ("Um lugar para cada
coisa e cada coisa em seu lugar" é seu lema, pendurado na farmácia).
Assim, a imagem de Flor pacificamente com os dois, totalmente feliz, invoca o
ideal de equilíbrio entre os dois.
São
Bernardo
Por
Graciliano Ramos
São Bernardo conta em seus
curtos 36 capítulos a história da ascensão de Paulo Honório. Ele mesmo está
"escrevendo", aos cinqüenta anos de idade, o livro com sua linguagem
seca e direta, por vezes brutal. Ele vai primeiro de um menino sem pai nem mãe
que vendia doces (fabricados por uma velhinha que agora mora em sua fazenda) a
um homem que pode emprestar dinheiro a um herdeiro decadente, Padilha. As dívidas
de Padilha eventualmente se transformam na aquisição de sua fazenda, São
Bernardo, que é consolidada quando o dono da fazenda ao lado, Mendonça, é
assassinado (possivelmente por Paulo Honório, apesar dele nunca o dizer). A
fazenda consolidada, Paulo Honório começa a construir uma escola para poder
ter eleitores, e acaba por se casar com a professora, a culta Madalena. Mais
velho do que ela 18 anos (nessa altura ele já tem 45), com pouca experiência
(apesar de ter uma amante, Rosa, esposa do caboclo Marciano) e com baixa
auto-estima quanto à aparência, ele é muito ciumento. Madalena faz caridade e
tem idéias socialistas, e assim simpatiza com Padilha, que agora é
mestre-escola e ensina caboclos sobre socialismo. O ciúme de Paulo Honório
eventualmente leva Madalena, que já tinha engravidado e tido um filho que
permanece sem nome e é cuidado por um empregado, a se suicidar e deixar para
ele uma carta (a carta que ele achou foi o motivo da última briga deles), carta
essa que ele não consegue compreender direito (aprendeu a ler na prisão aos 18
anos). Depois da morte de Madalena há uma revolução, seus empregados vão lhe
abandonando e ele vai empobrecendo. Triste e solitário mesmo com o filho
pequeno, começa a escrever o romance.
Clarissa
Por
Érico Veríssimo
Modernismo de segunda fase.
Clarissa é uma jovem de 13 anos que mora na pensão da tia enquanto estuda em
Porto Alegre. Ela é uma jovem curiosa, descobrindo o mundo, a adolescência e a
vida. Não gosta muito de escola, sente saudades da fazenda em sua cidade natal,
Jacarecanga e observa as pessoas que moram na pensão da tia e na vizinhança:
Ondina, a infiel esposa de Barata; Amaro, o músico triste e contemplativo; o
distraído major; a conservadora tia e seu desempregado marido; a família rica
que mora ao lado e a viúva com o filho mutilado. Este último, Tonico, perdeu
as duas pernas num acidente de bonde e sonha em marchar com exércitos. Frágil,
acaba morrendo. Quanto a Amaro, este sempre contempla Clarissa, sua juventude,
sua inocência, sua beleza aflorando da menina que vai se tornando moça.
Clarissa faz 14 anos (e ganha permissão para usar salto alto) e passa na
escola. O livro acaba com Clarissa voltando para Jacarecanga (e encontrar o
primo Vasco) enquanto Amaro fica triste na pensão a pensar nela. O primeiro
romance de Érico Veríssimo, Clarissa apresenta um panorama da vida de
uma jovem na Porto Alegre de 1932 e começa a história que se estenderá por
seus romances da primeira fase.
Olhai
os Lírios do Campo
Por
Érico Veríssimo
Modernismo da segunda fase. Olhai
os Lírios do Campo é dividido em duas partes de doze capítulos cada. Na
primeira parte Eugênio, o personagem principal, vai tendo flashbacks de seu
passado enquanto se dirige ao hospital onde está Olívia. Vai lembrando sua infância
pobre, quando tinha pena de seu pai e era humilhado na escola por sua condição
social, a escola de Medicina (o preço dele ir à escola de Medicina foi não
esmerarem-se na educação de seu irmão Ernesto, que se torna um vagabundo). Na
faculdade conhece Olívia, que se torna uma grande amiga e com quem tem uma
noite de amor no dia do estopim da Revolução de 30. Eugênio conhece a futura
esposa, Eunice, num atendimento a uma empregada desta e casa-se com ela apenas
para ascender socialmente, sem ter nenhum amor. Preso num casamento sem amor,
num emprego de fachada na fábrica do sogro rico e com uma amante a quem não
ama, Eugênio reencontra Olívia, que estava numa colônia de italianos. Ela
apresenta-lhe Anamaria, sua filha. No presente (finais da década de 1930), ao
chegar ao hospital já mais otimista sobre o estado de saúde de Olívia do que
na partida, Eugênio recebe a notícia de que ela morreu. A Segunda parte,
passada no presente após a morte de Olívia, é no presente e intercalada por
partes de algumas das cartas que Olívia escreveu para Eugênio e nunca lhe
enviou. Eugênio toma coragem e separa-se da esposa, abandona a amante, vai
viver com a filha (na casa onde Olívia morava com um casal de alemães) e volta
a clinicar para os pobres. Eugênio vai assim, sempre com a memória de Olívia,
mesmo que ela vá desaparecendo aos poucos, redimindo-se e vendo melhor a
pobreza de que sempre tinha tanto asco. Mas não sem seus momentos negros, como
o caso de Simão e Dora. Dora é a filha de sua amante (que é uma mãe
negligente) com um engenheiro fascista e workaholic que dá mais importância ao
prédio que está construindo do que a ela. Ela se apaixona por Simão, um jovem
e pobre estudante judeu. A união é desaprovada pelos pais e ela acaba morrendo
num aborto feito por uma parteira após Eugênio negar-lhes o ato. Mas por todo
o tempo Eugênio vai se ligando a uma vida mais simples, a amigos mais simples e
verdadeiros como o céptico Dr. Seixas a quem admirava quando criança. A história
acaba com ele e Anamaria saindo para passear num ensolarado dia de verão de
Porto Alegre.
Saga
Por
Érico Veríssimo
Segunda Fase do Modernismo. Saga
tem como subtítulo "Um Testemunho Humanista", é narrado em primeira
pessoa e é dividido em quatro partes. "Círculo de giz" é a primeira
das quatro partes ; mostra Vasco Bruno, o personagem principal, ao chegar na
Espanha durante a Guerra Civil para lutar nas forças governistas contra as do
general Francisco Franco (que se tornou, após vencer esta guerra, um dos mais
cruéis ditadores da história e colaborou com Hitler na segunda Guerra) na
Brigada Internacional. Vasco vai treinando para se tornar um guerreiro apesar de
abominar a violência e vai conhecendo amigos: o chileno Garcia, obcecado por
Cervantes, a quem passa a abominar de certo modo após constatar um certo
sadismo; Axel, o escandinavo muitas vezes avesso às mulheres que acaba morto e
mutilado na sua frente, que diz a frase que inspirou o título do livro: "a
vida é a mais estranha de todas as sagas"; DeNicola, o sargento experiente
que tanto os ensinou; Green, o americano que torrou sua fortuna e lutava com
coragem e acabou fuzilado por tentar reunir uma fuga; Brown, o negro do Sul dos
Estados Unidos que tinha pensamentos estranhos sobre a morte e agonizou
lentamente na última batalha de Vasco; Pepino, o palhaço sem graça que é
fuzilado por violar uma menina catalã. Vasco é ferido duas vezes: na primeira
vez um tiro na perna sem muita gravidade o deixa em Barcelona, onde conhece uma
jovem desconhecida chamada Juana com quem tem o caso e nunca mais vê; na
segunda, durante a batalha onde morre Sebastian Brown, é ferido na perna e no
pulmão. Após este último conhece um doutor e, assim como na última vez que
esteve num hospital, sente saudades ainda mais fortes de casa. Por fim não
volta ao fronte e fica a ajudar pessoas que sofrem com a guerra em Barcelona.
Por toda esta parte da história Vasco, um artista (pintor) avesso a violência,
sente saudades de casa e de sua amada Clarissa, o horror à guerra (retratada
com muito realismo), observa tipos humanos, filosofa sobre a miséria, sente a
morte perto e percebe que, apesar de ter pulado o círculo de giz (ele se sentia
como um peru que, preso a um círculo de giz, sente-se irremediavelmente preso)
que o prendia, caiu apenas dentro de outro. A segunda parte, "Sórdido
Interlúdio", é um único capítulo relatando a estada de Vasco Bruno no
campo de concentração de Argelès-sur-Mer, em meio a espanhóis e
estrangeiros, numa miséria e sofrimento que faz os vivos invejarem os mortos.
Vasco pena neste campo até que é chamado pelo alto-falante, no fim do capítulo.
"O Destino bate à porta" é a terceira parte. Narrado por Vasco assim
como todas as outras partes, mostra sua chegada a Porto Alegre no começo de
1939 (onde é questionado pelas autoridades por suspeita de comunismo) e o
reencontro com Clarissa. Vasco reencontra velhos conhecidos: Fernanda, Noel,
Seixas e Pedrinho. Fernanda, casada com Noel, recebeu uma herança logo antes de
Vasco partir para a Espanha e fundou uma revista infantil, um hospital infantil
e alugou um cinema. Seixas é o velho médico da família que morre semanas após
a chegada de Vasco. Pedrinho é o irmão de Fernanda, preso num casamento
infeliz, que parasita a irmã assim como a família da esposa, tão infiel
quanto ele. Acaba assassinado pelo amante da esposa após provocar briga. A
partir de certo ponto desta parte Vasco passa a narrar tudo sob a forma de diário,
aparecendo então o tempo entre 16/05/1939 a 21/10/1939 cronologicamente mais
exato. Vasco sente os fantasmas da Guerra, as mudanças que passou nela, uma
opressão da vida na cidade e de seus cidadãos, as disputas mercantilistas
(Almiro Cambará, rival de Fernanda nos cinemas, a ataca baixamente em seu
jornal; Vasco e ele brigam) e uma vontade de voltar à vida simples com contato
com a terra como seu vizinho de cama no hospital de Barcelona havia sugerido. No
final Vasco casa-se com Clarissa e decide ficar na chácara de campo de
Fernanda. "Pastoral", estruturado como "Sórdido Interlúdio",
é o exato oposto daquela parte: a vida de Vasco com Clarissa no campo, felizes,
ela grávida, ambos a sonhar com um mundo melhor.
Os
Ratos
Por
Dyonélio Machado
Modernismo de segunda fase. A
história começa com o leiteiro ameaçando cortar o fornecimento caso
Naziazeno, um modesto funcionário público, não lhe pague os 53$000 (cinquenta
e três mil-réis). Naziazeno passa então o dia atormentado, tentando conseguir
o dinheiro: pede emprestado ao chefe (que lhe nega), joga (não consegue na
roleta ou no bicho) e acaba conseguindo um empréstimo como amigo Alcides. À
noite, não consegue dormir preocupado com o dinheiro e com a idéia (quase
certeza) de que os ratos roem o dinheiro para o leite de seu filho. Só dorme
quando ouve o leiteiro despejar o leite. Numa prosa urbana (a história se passa
na cidade), regionalista (porto-alegrenses reconhecem facilmente sua cidade) e
intimista (o drama de Naziazeno, embora banal, é sempre apresentado
detalhadamente), Os Ratos passa-se apenas em um dia de muito drama para
seu protagonista.
Perto
do Coração Selvagem
Por
Clarice Lispector
A história é dividida em
duas partes. Na primeira, os capítulos são divididos em apresentar em
flashback partes do passado de Joana, a personagem principal. Ela era uma menina
estranha, introvertida, dizendo e fazendo as coisas mais estranhas. Seu pai
morre (ela não chega a conhecer a mãe) e ela vai morar com a tia, mas seu
estranho senso de moral (nessa idade ela, por exemplo, não achava errado
roubar) faz com que a tia a ponha em um internato. Mais tarde conhece um
professor, um homem mais velho, por quem tem sua primeira paixão (platônica)
que sinaliza o fim da infância e começo da puberdade. Enquanto isso, no
presente, ela vai levando sua vida triste de casada, e se descobre grávida. Já
na segunda continua o tema do introvertimento, e a vida de casada dela vai se
mostrando cada vez mais triste: Otávio, seu marido, tem uma amante, Lídia, que
também está grávida. Joana e Lídia se conhecem e conversam, e a incapacidade
de Otávio de compreender e se comunicar com Joana eventualmente o leva a se
separar de Joana. Mas o mais importante desta obra é que ela já manifesta as
características comuns da obra de Lispector, da reflexão sendo mais importante
que a ação, e ter em seus longos parágrafos textos de cunho emocional que
levam o leitor mais Perto do Coração Selvagem.
A
Hora da Estrela
Por
Clarice Lispector
Neste, que foi seu último
livro publicado em vida, Clarice constrói a personagem de Macabéa como vista
pelo fictício, irônico e auto-depreciativo escritor/narrador Rodrigo S.M.
Macabéa era uma miserável alagoana vriada por uma cruel e ignorante tia beata
(os pais, cujo nome Macabéa ignora, morreram quando ela tinha dois anos). Macabéa
cresce vazia e sem ciência da própria existência ou de sua finitude. Após
ser despedida e a tia morrer, ela emigra para o RJ, onde passa a morar num cubículo
com quatro colegas de seu novo trabalho (é datilógrafa) e começa a namorar um
paraibano chamado Olímpico de Jesus. O ganancioso Olímpico, que não media
esforços para ascender socialmente, a troca por Glória, sua colega de
trabalho, que lhe possibilitaria esta ascensão. Depois de um pouco tempo ela
visita Carlota, uma cartomante, que lhe prevê um belo futuro. Ao sair da
cartomante "grávida do futuro", como diz a autora, ou seja, ciente de
algo além do presente, é atropelada por um carro de luxo e morre. Mas a história
em si tem menor importância no todo: para Clarice Lispector, a reflexão é
mais importante do que a ação. Macabéa é uma personagem sem conteúdo, pobre
de alma, um acaso que ensaia agir e pensar, mas com pouco sucesso. Ela pouco
faz, simplesmente reage e por vezes se indaga perguntas cuja resposta ela não
consegue. Isto vai até o momento de sua morte, quando está mais ciente de si;
ao ser atropelada torna-se a estrela do que acontece: é sua hora de estrela.