“NOITE NA TAVERNA” DE ÁLVARES DE AZEVEDO
UMA ANÁLISE CRÍTICA
O
ROMANTISMO
Nas últimas décadas do século XVIII, o
Romantismo já está mais ou menos anunciado pelas obras do
filósofo Rousseau, especialmente por sua teoria do bom
selvagem e pelo movimento Sturm und Drang
(Tempestade e Ímpeto). A publicação de Os Cantos de
Ossian pelo inglês Macpherson, em 1760, torna-se uma
referência fundamental. O livro apresenta forte apelo
emotivo e abre duas das mais valorizadas tendências
românticas: o culto pelo antigo, em especial pela Idade
Média e o gosto pela prosa poética.
No entanto, a antecipação mais genial de um novo espírito de
época, centrado no exagero da faculdade imaginativa e no
transbordamento das paixões, ocorre em 1774, com a
publicação, sob forma de cartas, do romance Os
Sofrimentos do Jovem Werther. Seu autor, Goethe, então
com apenas vinte e quatro anos, produzirá uma das maiores
comoções já ocorridas na História, provocada por uma obra
literária. O livro desencadeia uma incontável onda de
suicídios na Europa, causados pela identificação entre os
fatos da narrativa e as paixões não correspondidas dos
leitores. O Werther transformou-se no símbolo dos
novos tempos sentimentais e subjetivos.
Entre as características principais do Romantismo,
encontram-se:
-
O individualismo e
subjetivismo, apoiados na glorificação do particular, do
singular, do íntimo, daquilo que diferencia uma pessoa de
outra;
-
A síndrome do mal do século,
uma enfermidade moral e não física, resultante do tédio (ennui,
spleen), mas não do tédio comum, que é o enfado
diante da chatice da vida; o tédio romântico aponta para um
aborrecimento desolado e cínico, que ressalta tanto a falta
de grandeza da existência cotidiana quanto o vazio dos
corações juvenis; o eu oprimido esmagado pela solidão e pela
brutalidade do mundo torna-se presa de uma espessa
melancolia que se apossa dos corações, fazendo com que, por
todos os lados, sobressaia apenas o lado sombrio e inútil da
existência;
-
A evasão, na qual a
inconformidade do artista romântico com o mundo cruel
leva-o a uma série de procedimentos de fuga; a evasão mais
comum dá-se através da fantasia, do devaneio no qual o poeta
cria universos imaginários, onde encontra a luz e a alegria
que a sociedade burguesa não lhe oferece;
-
A liberdade de expressão
mostrada como aversão ao purismo e formalismo clássicos e
neoclássicos; o conteúdo passa a ter mais importância do que
a forma;
-
O culto do passado, em
contraponto ao presente insatisfatório, no qual o romântico
encontra ideais sublimes e valores modelares; o tempo
pretérito dá-se em dois planos: passado histórico,
com textos sobre a Idade Média e passado individual,
acerca da infância e adolescência dos escritores; indianismo
e nacionalismo são facetas dessa característica;
-
Um espírito revolucionário que
almeja reformas na estrutura da sociedade, embora esta
atitude nada representasse de prático na solução de
problemas, restringindo-se a meros lamentos (em alguns
casos, denúncias) e busca de asilo no sonho.
Estilisticamente, o Romantismo apresenta:
-
Uma expressão artística movida
mais pela inspiração do que pela pesquisa formal, dando a
impressão de descuido e excesso;
-
Na poesia, grande variedade
métrica, de ritmos e rimas indicando a liberdade de
composição que os autores experimentam;
-
O uso intenso de adjetivos, em
função de sua força expressiva;
-
Abundância de interjeições e
exclamações, criando um tom de exaltação retórica.
ROMANTISMO NO BRASIL
No Brasil,
o movimento romântico procura exprimir as peculiaridades da
natureza, história, costumes e língua brasileiros, o ideal
da pureza amorosa contraposto às convenções sociais, o
sentimento da natureza como um refúgio e o gosto pelas
paisagens exóticas, a valorização do passado e do
individualismo. A imitação de gregos e latinos é deixada de
lado e passa-se a cultivar as próprias tradições, os
próprios valores. O marco inicial do movimento no Brasil é a
publicação dos Suspiros Poéticos e Saudades (1839),
de Domingos Gonçalves de Magalhães. O primeiro grande
romântico brasileiro é Antônio Gonçalves Dias. Na prosa,
Joaquim Manuel de Macedo (A Moreninha) formula as
bases para o romance de costumes nacional: sentimentos
inflamados, situações complexas, realismo de ambientação,
bom humor e hábil uso da linguagem coloquial.
O
ULTRA-ROMANTISMO BRASILEIRO
Por volta
de 1850, forma-se nos meios universitários de São Paulo e
Rio de Janeiro, um novo grupo de poetas que vai dar origem à
segunda geração da poesia romântica no Brasil. Eram, na
maioria, jovens que levavam uma vida desregrada, dividida
entre os estudos acadêmicos, o ócio, os casos amorosos e a
leitura de obras literárias européias. Muitos morreram com
pouco mais de vinte anos de idade.
Copiando o
estilo de vida dos escritores românticos europeus Byron e
Musset, essa geração caracterizava-se pelo espírito do
mal do século, isto é, por um pessimismo mórbido que se
traduzia no apego a vícios como a bebida, na licenciosidade
e na atração pela noite e pela morte. Acentuam, dessa forma,
traços como o subjetivismo e o sentimentalismo já
preexistentes no Romantismo. Os ultra-românticos desprezam
os temas da primeira geração, como o nacionalismo e o
indianismo.
Os autores
ultra-românticos possuem uma visão dualista do amor, que
envolve atração e medo, desejo e culpa. Tanto românticos
quanto ultra-românticos temem a realização amorosa. O ideal
feminino é associado, quase sempre, a figuras incorpóreas ou
assexuadas como anjo, criança ou virgem
e as referências ao amor físico aparecem apenas de modo
indireto, sugestivo ou superficial. Entre os
ultra-românticos brasileiros estão Casimiro de Abreu,
Fagundes Varela, Junqueira Freire e Álvares de Azevedo.
ÁLVARES
DE AZEVEDO
Manuel
Antonio Álvares de Azevedo nasceu em São Paulo a 12 de
setembro de 1831, filho do então estudante de Direito Inácio
Manuel Álvares de Azevedo e de Maria Luisa Mota Azevedo,
ambos de famílias ilustres. Segundo afirmação de alguns de
seus biógrafos, teria nascido na sala da biblioteca da
Faculdade de Direito de São Paulo; averiguou-se, porém, ter
sido na casa do avô materno, Severo Mota. Escritor e poeta
romântico, foi em tudo coerente com as opções estéticas do
Romantismo: foi genial, culto, precoce e construiu uma obra
pequena, porém clássica, dentro da Língua Portuguesa,
morrendo, provavelmente, de complicações da tuberculose, aos
vinte e um anos incompletos.
Aos dez
anos já falava inglês, francês e latim. Cursou Letras no
Imperial Colégio de D. Pedro II, no Rio de Janeiro, e em
1848, matriculou-se na Faculdade de Direito de São Paulo,
onde foi estudante aplicadíssimo e de cuja intensa vida
literária participou ativamente, fundando, inclusive, a
Revista Mensal da Sociedade Ensaio Filosófico Paulistano.
Entre seus contemporâneos, encontravam-se José Bonifácio (o
Moço), Aureliano Lessa e Bernardo Guimarães, estes dois
últimos suas maiores amizades em São Paulo, com os quais
constituiu uma república de estudantes.
Em quatro
anos, Álvares de Azevedo redigiu A Noite na Taverna,
o drama Macário e ensaios literários sobre Bocage,
George Sand e Musset. Em 1849, discursou na sessão acadêmica
comemorativa do aniversário da criação dos cursos jurídicos
no Brasil. Sua obra que abrange também os poemas da Lira
dos Vinte Anos e a prosa do Livro de Fra Gondicario,
foi reunida e publicada em 1942. Há também textos como
Cartas, a série humorística Spleen e Charutos,
Poemas do Frade e Conde Lopo. É, quase toda,
póstuma. Discursos, 1849, foi seu único texto
publicado em vida.
O meio
literário paulistano, impregnado de afetação byroniana,
teria favorecido, em Álvares de Azevedo, componentes de
melancolia, sobretudo a previsão da morte que parece tê-lo
acompanhado como um demônio familiar desde que, aos quatro
anos de idade, assistiu ao enterro do irmão menor. Imitador
da escola de Byron, Musset e Heine, tina sempre na
cabeceira, os poemas desse trio de românticos por excelência
e ainda obras de Shakespeare, Dante e Goethe.
Era de
pouca vitalidade e de compleição delicada; o desconforto das
repúblicas e o esforço intelectual minaram-lhe a
saúde. Nas férias de 1851-52 manifestou-se a tuberculose
pulmonar, agravada por um tumor na fossa ilíaca, ocasionado
por uma queda de cavalo. A dolorosa operação a que se
submeteu não fez efeito. Alguns autores sugerem também um
diagnóstico de apendicite. Falece às 17 horas do dia 25 de
abril de 1852, domingo da Ressurreição. Como quem anunciasse
a própria morte, no mês anterior escrevera a última poesia
sob o título Se Eu Morresse Amanhã, que foi lida, no
dia de seu enterro, por Joaquim Manuel de Macedo. É patrono
da cadeira número 2 da Academia Brasileira de Letras, por
indicação de Coelho Neto.
A NOITE
NA TAVERNA
Noite na
Taverna é uma coletânea de
narrativas construída em sete partes. Traz epígrafes e usa
os nomes de cada um dos narradores como subtítulos,
antecedendo as histórias. Constitui a mais original produção
em prosa de Álvares de Azevedo e insere-se perfeitamente no
clima romântico byroniano, refletindo também as
influências deixadas no autor pela leitura das novelas
mórbidas do século XIX. Os capítulos de Noite na Taverna
são Uma Noite do Século, Solfieri, Bertram, Gennaro,
Claudius Hermann, Johann e Último Beijo de Amor.
UMA NOITE
DO SÉCULO
Uma espécie
de introdução apresentando o ambiente da taverna, a roda de
bebedeira e de devassidão em que se encontram os personagens
e o tom notívago e vampiresco em que se desenrolarão os
fatos narrados.
Bertram,
Archibald, Solfieri, Johann, Arnold e os outros companheiros
estão na taverna, dialogando sobre loucuras noturnas,
enquanto as mulheres dormem ébria sobre as mesas. Falam das
noites passadas em embriaguez e pura orgia. Solfieri os
questiona a respeito da imortalidade da alma, e parece não
crer nela. Por isso, Archibald o censura pelo materialismo.
Solfieri acredita na libertinagem, na bebida e na mulher
sobre o colo do amado. Os homens só se voltam para Deus
quando estão próximos da morte. Deus é, pois, a “utopia
do bem absoluto”.
-
Silêncio, moço! Acabai com essas cantilenas horríveis! Não
vedes que as mulheres dormem ébrias, macilentas como
defuntos? Não sentis que o sono da embriaguez pesa negro
naquelas pálpebras onde a beleza sigilou os olhares da
volúpia?
-
Cala-te, Johann! Enquanto as mulheres dormem e Arnold - o
loiro - cambaleia e adormece murmurando as canções de orgia
de Tieck, que música mais bela que o alarido da saturnal?
Quando as nuvens correm negras no céu como um bando de
corvos errantes, e a lua desmaia sobre a alvura de uma
beleza que dorme, que melhor noite que a passada ao reflexo
das taças?
- És um
louco, Bertram? Não é a lua que lá vai macilenta: é o
relâmpago que passa e ri de escárnio às agonias do povo que
morrem aos soluços que seguem as mortualhas do cólera!
As primeiras páginas deixam antever o clima da geração do
mal do século, a irreverência incontida, a tendência às
divagações literário-filosóficas, a vivência sôfrega e,
principalmente,a morbidez e a lascívia.
-Estás
ébrio, Johann! O ateísmo é a insânia como o idealismo
místico de Schelling, o panteísmo de Spinoza - o judeu, e o
histerismo crente de Malebranche nos seus sonhos da visão de
Deus. A verdadeira filosofia é o epicurismo. Hume bem o
disse: o fim do homem é o prazer. Daí vede que é o elemento
sensível uem domina.E pois, ergamo-nos, nós que amarelecemos
nas noites desbotadas de estudo insano, e vimos que a
ciência é falsa e esquiva, que ela mente e embriaga como um
beijo de mulher.
A vivência
que o escritor demonstra é mais cultural que real, daí
buscar
constantemente o reforço nas idéias de filósofos e
literatos, reflexo do impacto de suas diversas leituras.
SOLFIERI
Relata uma
viagem a Roma, a “cidade do fanatismo e da perdição, onde
na alcova do sacerdote dorme a gosto a amásia, no leito da
vendida se pendura o crucifixo lívido”. Certa noite,
Solfieri vê um vulto de mulher. Segue-a até um cemitério; o
vulto desaparece e ele adormece sob o frio da noite e
umidade da chuva. A visão desse vulto atordoa o personagem
durante um ano. Nem o amor o satisfaz mais. Uma noite, após
prolongada orgia, sai vagando pelas ruas e acaba “entre
as luzes de quatro círios que iluminavam um caixão
entreaberto.” Lá estava a mulher que lhe provocara
tantas alucinações e insônias Era agora uma defunta. Toma o
cadáver em seus braços, despe-lhe o véu e faz sexo com ela.
A mulher, no entanto, não estava morta, apenas sofrera um
ataque de catalepsia. Solfieri leva-a então para seu leito.
Depois de dois dias de delírio, ela morre realmente.
Solfieri chama um escultor e manda fazer uma estátua de cera
da mulher profanada, guardando-a em seu quarto. Conserva
para sempre, junto ao peito, uma grinalda de flores,
lembrança do caixão da defunta.
BERTRAM
Bertram, um
dinamarquês ruivo, de olhos verdes, conta que, também uma
mulher, Ângela, o levou à bebida e a duelar com seus três
melhores amigos e a enterrá-los. Quando decide casar com ela
e consegue lhe dar o primeiro beijo, recebe carta do pai,
pedindo seu retorna à Dinamarca. Encontra o velho já
moribundo. Chora, mas por saudade de Ângela. Dois anos
depois, volta para a Espanha. Encontra a moça casada e mãe
de um filho. A paixão persiste e os amantes passam a se
encontrar às escondidas, até que o marido, enciumado,
descobre tudo. Uma noite, Ângela, com a mão ensangüentada,
pede ao rapaz para subir até sua casa e por entre a
penumbra, ele encontra o marido degolado e sobre seu peito,
o filho de bruços, sangrando. Saem pelo mundo em grandes
orgias. Ela foge mais tarde, deixando Bertram entregue às
paixões e vícios. Bêbado e ferido, é atropelado por uma
carruagem. É socorrido por um velho fidalgo, pai de uma bela
menina que, mais tarde, foge para casar-se com Bertram. Ele
a vende em uma mesa de jogo a Siegfried, o pirata. Ela mata
Siegfried, afogando-se em seguida. De dissipação em
dissipação, o rapaz resolve matar-se no mar da Itália, mas é
salvo por marinheiros, fica sabendo que a pessoa que o
salvou foi, acidentalmente, morta por ele. São socorridos
por um navio e Bertram é aceito a bordo em troca de que
combatesse, se necessário. Mas apaixona-se pela pálida
mulher do comandante e, durante uma batalha, ele o trai,
tomando-lhe a mulher. O navio encalha em um banco de areia,
despedaçando-se - os náufragos agarram-se a uma jangada e,
em meio à tempestade, vagam pelo mar as três figuras (o
comandante, a mulher e Bertram), sobrevivendo de bolachas e,
mais tarde, tiram a sorte para ver quem morrerá para servir
de alimento para os outros. O comandante perde, clama por
piedade, mas Bertram se nega a ouvi-lo, prefere a luta. Mata
o comandante, que serve por dois dias de alimento à Bertram
e à mulher. Ele propõe morrerem juntos, ele aceita. O casal
gasta as últimas energias no amor. A mulher, enlouquecida,
começa a gargalhar. Bertram a mata. Alimenta-se dela também.
Depois, é salvo por um navio inglês.
GENNARO
Gennaro
conta que entrou como aprendiz do velho pintor Godofredo
Walsh, casado em segundas núpcias com Nauza, uma jovem de
vinte anos, que lhe servia de modelo. Com Godofredo, vive
também Laura, de quinze anos, filha de seu primeiro
casamento. Gennaro seduz Laura, que durante três meses
freqüenta o quarto do rapaz. Grávida, ela implora para que
ele a peça em casamento. Ele recusa porque apaixonara-se por
Nauza, a esposa do pintor. Laura enfraquece.
Uma
noite...foi horrível...vieram chamar-me: Laura morria. Na
febre murmurava meu nome e palavras que ninguém podia reter,
tão apressadas e confusas soavam. Entrei no quarto dela: a
doente conheceu-me. Ergueu-se branca, com a face úmida de um
suor copioso: chamou-me. Sentei-me junto ao leito dele.
Apertou minha mão nas suas mãos frias e murmurou em meu
ouvido:- Gennaro, eu te perdôo: eu te perdôo tudo...Eras um
infame...Morrerei...Fui uma louca...Morrerei por tua
causa...teu filhos...o meu...vou vê-lo ainda...mas no
céu...meu filho que matei...antes de nascer...
Gennaro torna-se amante de Nauza. Certa noite fria e escura
saíram o mestre e o aprendiz. Godofredo pôs-se a contar uma
história (a real) de sua vida, expondo o conhecimento que
tinha dos fatos, sabendo que Gennaro fora amante da filha e
agora é amante da mulher. Musculoso e forte, Godofredo
prostrou Gennaro, que caiu em um despenhadeiro. Só não
morreu porque ficou preso em uma árvore. Após um dia e uma
noite de delírios, acordou na casa de camponeses que o
haviam socorrido e, logo que sarou, partiu. Encontrou no
caminho o punhal com que o mestre tentara matá-lo. Munido da
arma, procurou a casa de Godofredo, que parecia abandonada.
Entrou pelos quartos escuros, tateando até a sala do pintor.
Encontrando-a vazia, dirigiu-se ao quarto de Nauza e
encontrou-a morta, envenenada pelo marido, que jazia morto
também e de sua boca “corria uma escuma esverdeada.”
CLAUDIUS HERMANN
Viciado em jogo, Claudius Hermann chegou a apostar toda a
sua fortuna. Em uma das corridas, viu uma mulher passar a
cavalo. Tal foi o fascínio que a dama exerceu sobre ele,
que, quase com obsessão, persegui-a. Descobriu que a mulher
misteriosa era a duquesa Eleonora. Um dia, encorajado,
abordou-a. Eleonora era casada. Uma noite, após um baile,
aproveitou-se do cansaço e sonolência da mulher e, com a
chave comprada de um criado, entrou em seu quarto e lhe deu
um narcótico misturado ao vinho. Em seguida, seduziu-a.
Uma
semana se passou assim: todas as noites eu bebia nos lábios
da dormida um século de gozo. Um mês delirantes iam aos
bailes do entrudo, em que mais cheia de febre ela adormecia
quente, com as faces em fogo...
O
marido, o belo e jovem Maffio, uma noite prometeu visitá-la
em seu leito. O amante, corroído de ciúme, resolveu fugir
com a mulher. Após ministrar-lhe o narcótico, saiu com a
inconsciente pelos corredores, e partiram de carruagem. Ao
acordar, Eleonora percebeu que estava em um local estranho
com um desconhecido. Ficou desesperada. Claudius decidiu
revelar-lhe o segredo. A mulher argumentou ser impossível
amá-lo, ele contra-argumentou dizendo-lhe não ser possível a
vida dela nos padrões da normalidade, uma vez que estava
desonrada. Ninguém a perdoaria. Eleonora, então, concorda em
viver com ele.
(...) um
dia Claudius entrou em casa. Encontrou o leito ensopado de
sangue e num recanto escuro da alcova um doido abraçado com
um cadáver. O cadáver era o de Eleonora: o doido n em o
poderíeis conhecer tanto a agonia o desfigurava. Era uma
cabeça hirta e desgrenhada, uma tez esverdeada, uns olhos
fundos e baços onde o lume da insânia cintilava a furto,
como a emanação luminosa dos puis entre as trevas...Mas ele
o conheceu...era o Duque Maffio.
JOHANN
O
cenário é Paris. Johann e Artur jogavam num bilhar. Ao
faltar um ponto para Artur ganhar e ao narrador muitos,
houve um desvio da bola e Johann exaltou-se, provocando o
adversário para um duelo de morte. Artur aceitou, mas antes
de partirem para a morte, escreveu algumas linhas e pediu
para Johann entregá-las juntamente com um anel, caso viesse
a ser a a vítima. No duelo morreu Artur. Johann, como havia
prometido, tirou o anel do defunto, recolheu dois bilhetes.
O primeiro era uma carta para a mãe; o segundo continha
apenas um endereço e um horário. A assinatura era apenas um
G. Johann foi ao encontro. “Era escuro. Tinha no
dedo o anel que trouxera do morto...Senti uma mãozinha
acetinada tomar-me pela mão...subi. A porta fechou-se.
Ele seduziu
a virgem. Ao sair, topou com um vulto à porta, voz levemente
familiar. Desceu as escadas e sentiu uma lâmina resvalar-lhe
os ombros. Uma luta terrível foi travada e houve mais um
assassinato.
Ao sair
tropecei num objeto sonoro. Abaixei-me para ver o que era.
Era uma lanterna furta-fogo. Quis ver quem era o homem.
Ergui a lâmpada...O último clarão dela banhou a cabeça do
defunto...a apagou-se...Eu não podia crer: era um sonho
fantástico toda aquela noite. Arrastei o cadáver pelos
ombros...levei-o pela laje da calçada até o lampião da rua,
levantei-lhe os cabelos ensangüentados do rosto (...) Aquele
homem - sabei-o!? era do sangue do meu sangue, filho das
entranhas de minha mãe como eu...era meu irmão!
Mas a desgraça maior ainda estava por ser revelada: Johann
havia possuído sua própria irmã.
ÚLTIMO BEIJO DE AMOR
A
noite ia alta e a orgia findara, os convivas dormiam
embriagados. Entrou na taverna uma mulher vestida de negro,
procurando um rosto conhecido. Quando a luz bateu em Arnold,
a mulher ajoelhou-se, em seguida ergueu-se, dirigindo-se a
Johann.
(...) A
fronte da mulher pendeu e sua mão pousou na garganta dele.
Um soluço rouco e sufocado ofegou daí. A desconhecida
levantou-se. Tremia; ao segurar na lanterna ressoou-lhe na
mão um ferro...era um punhal...Atirou-o no chão. Viu que
tinha as mãos vermelhas, enxugou-as nos longos cabelos de
Johann.
Voltando-se para Arnold, fez-se reconhecer. Era Geórgia que
voltava, depois de cinco anos. Arnold pediu que o chamasse
como antes - Artur - e pede-lhe beijos, enquanto ambos
lamentam a sorte. A mulher somente vinha para dizer-lhe
adeus e depois fecharia a porta de sua própria sepultura.
Confessa a morte de Johann para vingar-se daquele que a
levou a prostituir-se. Geórgia prostituta vingou nele
Geórgia - a virgem. Esse homem foi quem a desonrou,
desonrou-a a ela que era sua irmã.
ESTRUTURA NARRATIVA
No final da peça Macário, Álvares de Azevedo
apresenta a personagem título aproximando-se de uma janela e
observando, dentro de uma taverna, vários jovens
conversando. Assim, na verdade, inicia-se o livro A Noite
na Taverna. Seu começo é encadeado à peça, mas não se
trata de um texto dramatúrgico. É um livro de narrativas
curta em prosa, e não teatro. A obra é estruturada em
abismo. Cada capítulo é uma história contada dentro de outra
história. São, portanto, contos ligados através da estrutura
conhecida como moldura narrativa - uma narrativa
geral une todas as outras. Tal recurso, conhecido também
como contos enquadrados, remete às mais antigas
coletâneas de contos da literatura universal, como As Mil
e Uma Noites, o Decameron, de Bocaccio e os
Contos de Canterbury, de Chaucer.
Em Noite na Taverna, cada conto tem um narrador
diferente. Cada um dos homens conta a sua história
medonha, afirmando que “não é um conto, é uma
lembrança do passado”. Afirmações como essa são típicas
do Romantismo. Procuram, assim, estabelecer a veracidade de
textos bastante inverossímeis, histórias fantásticas,
impossíveis de acontecer na realidade. Os homens reunidos na
taverna procuram impressionar seus ouvintes, acrescentando
detalhes cada vez mais imaginativos, macabros e chocantes a
seus relatos amorosos, ditos pessoais e verídicos. Antônio
Cândido explica que, em Álvares de Azevedo, “elementos
macabros estariam compondo com estes, de maneira peculiar, o
par romântico Amor e Morte.”
A
obra está dividida em dois planos: uma narrativa externa,
que apresenta os rapazes já bêbados na taverna e prestes a
contar cada um sua história, e as várias narrativas
internas ou aventuras apresentadas - os contos são
nomeados segundo o nome daquele que os narra e também
protagoniza - Solfieri, Bertram, Gennaro, Claudius Hermann e
Johann, diferenciando-se desse esquema a introdução e a
finalização, chamadas respectivamente Uma Noite do Século
e Último Beijo de Amor.
TEMÁTICA
Os contos giram em torno dos temas do amor e da morte, que
são relacionados pela presença de momentos de necrofilia,
incesto, assassinatos, canibalismo, loucuras várias. Assim,
o amor está sempre na fronteira com a morte e a sexualidade
se reveste de culpas e punições. O tema não envereda, de
fato, pela senda do sobrenatural, mas sim pelo extravagante
e hiperbólico. Necrofilia, catalepsia, amor obsessivo,
infanticídio, assassinato do esposo, ingratidão, aborto,
adultério, sonambulismo, suicídio, emprego de narcótico como
recurso amoroso, incesto e fratricídio são as matérias
primas para as histórias contadas pelos personagens. E tudo
isso, precedido por um vivo debate filosófico.
Capítulo 1 A temática desenvolvida aqui é a oposição entre
a imortalidade/mortalidade da alma, a afirmação do prazer
versus a negação do prazer, a existência de Deus versus a
inexistência de Deus. Daí o autor colecionar uma série muito
grande de citações filosóficas, que remtem para um ou outro
dos temas, deixando o leitor suspenso entre dois termos.
Capítulo 2 - O tema é a necrofilia, a morte, a catalepsia e
o amor obsessivo.
Capítulo 3
- O amor obsessivo, o adultério, o ciúme, o assassinato do
marido, a miséria de uma vida desregrada e o amor
exclusivamente carnal que logo finda constituem-se na
temática deste capítulo.
Capítulo 4 - A temática é o desencontro, a ingratidão, o
aborto, o adultério, o sonambulismo, o a amor obsessivo, o
suicídio e o arrependimento.
Capítulo 5 - Traz uma simetria interessante entre a conduta
do personagem Claudius Hermann e a do Duque Maffio.
temática deste capítulo é o amor obsessivo e a perversão
sexual.
Capítulo 6 - Os temas são o incesto e o fratricídio.
Capítulo 7 - A temática do último capítulo é a vingança do
destino, a fatalidade da ignorância e o suicídio.
Ao longo de Noite na Taverna são introduzidos, na
literatura brasileira, temas relacionados ao fantástico e ao
macabro. No todo, predomina a intenção de fugir da realidade
na bebida e na fantasia. Os personagens estão saturados de
extrema melancolia e pessimismo, características dominantes
do Ultra-Romantismo, no qual os autores se preocupavam em
descrever paisagens sombrias e acontecimentos misteriosos.
RECURSOS DE
EXPRESSÃO
Ao longo de Noite na Taverna, Álvares de Azevedo
emprega diversos recursos expressivos. Entre eles,
destacam-se os diálogos intertextuais. O autor dialoga com
autores e textos vários, os quais demonstra conhecer
profundamente.
Na primeira parte da obra, o autor faz referências às
canções de Tieck, à filosofia de Fichte, Shelling, Epicuro,
Hume, Spinoza e de Schiller. Refere-se à poesia épica de
Homero: “(...)aí, há folhas inspiradas pela natureza
ardente daquela terra como nem Homero as sonhou (...)”.
E à literatura de Hoffmann: “(...) uma história
sanguinolenta, um daqueles contos fantásticos - como
Hoffmann (...)”.
A parte 3 também é
recheada de diálogos entre o autor e outros autores e/ou
obras, tais como o Otelo, de Shakespeare, a novela
Dom Juan, Dante, Byron, o Fausto, de Goethe, o
Hamlet, de Shakespeare e o poeta português Bocage. O
próprio nome do livro, a ação dos personagens dialogando em
uma taverna, pode ser uma referência direta à vida e obra do
poeta português. Álvares de Azevedo interage com a Bíblia:
(...)
como Satã quarenta séculos depois fez a Cristo e disse-lhe:
Vê, tudo isso é belo - vales, montanhas, águas do mar que
espumam, folhas das florestas que tremem e sussurram como as
asas dos meus anjos - tudo isso é teu...”
A
parte 6 parece toda inspirada na tragédia Édipo Rei.
Sem ter conhecimento, Édipo mata o pai e se casa com a mãe;
por ignorância, Johann torna-se amante da irmã e mata o
irmão. Quando toma conhecimento do infortúnio, Édipo vaza os
próprios olhos, o que de certa maneira, faz Johann ao
transformar-se em um ébrio para esquecer seu destino. Por
fim, ambos sofrem por não darem atenção à lição do oráculo
de Delfos: conhece-te a ti mesmo.
PROTAGONISTAS
O
protagonistas ou personagens principais de Noite na
Taverna são, basicamente, os jovens Solfieri, Bertram,
Gennaro, Claudius Hermann, Johann e Artur que se encontram
reunidos na taverna. Além deles, Geórgia, que reaparecendo
já no final do livro, acrescenta uma nota de plausibilidade
às histórias narradas. Todos os protagonistas são do tipo
anti-herói, pois que, mesmo em posição de herói pelas coisas
que contam, mostram-se iguais ou inferiores aos outros
componentes do grupo. Ou são vítimas da adversidade ou são
presa de seus próprios defeitos de caráter.
PERSONAGENS SECUNDÁRIOS
Os personagens secundários vão sendo introduzidos no enredo
através das narrativas dos convivas, com exceção da
taverneira, do velho que interrompe Bertram e de
Geórgia, que participam da ação na taverna. Assim,
temos a moça do cemitério, o guarda, o
ébrio, o ébrio, os companheiros, o
escultor. Ângela, o pai de Bertram, o
esposo de Ângela, o filho de Ângela, o velho
nobre, a filha do nobre, o pirata Siegfried,
o homem que tenta salvá-lo e é morto, a amante do
velho que interrompe a narrativa, o dono do cérebro
que preencheu a caveira exibida pelo velho, o capitão
da corveta, a esposa do capitão, os
marinheiros, os piratas do barco que ataca a corveta.
Godofredo Walsh, Laura, Nauza, a velha da cabana,
os camponeses. Eleonora, o criado venal, o Duque
Maffio, a dona da estalagem, os amigos no bilhar, a mãe de
Artur, G. (irmã), o desconhecido (irmão).
A falta de
indicação de nome e caracterização dos personagens
secundários confere aos personagens principais um
individualismo acentuado. É como se eles não tivesses suas
próprias vidas, existindo apenas em função dos
narradores.Pode-se perceber que, quase sempre, os
personagens secundários são planos, pois que caracterizados,
no máximo, com um pequeno número de atributos.Comumente, são
personagens plano tipo, isto é, personagens reconhecidos
apenas por determinado acento invariável, como por exemplo,
o guarda, o escultor, etc.
CARACTERIZAÇÃO DOS PERSONAGENS
SOLFIERI
- Um jovem boêmio, alcoólatra, persistente, pois que faz de
tudo para alcançar o amor da mulher.
A MULHER
AMADA POR SOLFIERI - Era como
um anjo para ele, uma pessoa que sofria de catalepsia e
depressão.
BERTRAM
- Ruivo, de pele branca e olhos verdes. Alcoólatra e boêmio.
Influenciado pela amada, muda seu jeito de ser,
transformando-se em um ser obscuro e viciado, provocando a
própria decadência.
ÂNGELA
- Morena andaluza, calma e pura na visão de Bertram. No
decorrer da história, mostra seu lado agressivo e malévolo.
A MULHER
DO COMANDANTE - Branca,
melancólica, triste e carente. Era pura, mas no
desenvolvimento da trama, mostra seu lado infiel.
O
COMANDANTE - Um homem bonito,
com rosto rosado, de cabelos crespos e loiros, valente e
brutal, mas um bom marido.
GENNARO
- Um pintor bonito quando jovem, puro, pensativo e
melancólico. Cínico e despreocupado acerca dos sentimentos
alheios. Devotado à Nauza.
LAURA
- Filha de Godofredo do primeiro casamento. Pálida, de
cabelos castanhos e olhos azuis. Amava Gennaro, de uma forma
pura e sem malícia.
GODOFREDO WALSH - Professor de
pintura de Gennaro. Era robusto, alto e forte. Agia por
impulso, vingativo.
NAUZA
- Jovem e bonita, era a mulher de Godofredo. Carente,
encontrava carinho nos braços de Gennaro.
CLAUDIUS
HERMANN - Muito rico, não se
importava com a desonra nem com o adultério. Só pensava na
amada Eleonora.
A
DUQUESA ELEONORA - Bela, pura
e vaidosa. Pele alva e cabelos negros. Amava o marido, mas
resolve fugir com Claudius porque não queria ser acusada de
adultério pela sociedade que tanto prezava.
O DUQUE
MAFFIO - Marido de Eleonora.
Amava-a tanto que foi levado ao assassinato e ao suicídio.
JOHANN
- Jovem boêmio, obsessivo, curioso e nervoso. Desonra a
própria irmã e mata o irmão sem o saber.
ARTUR OU
ARNOLD - Loiro, de feições
delicadas, possuía o rosto oval e faces avermelhadas. Amava
muito Geórgia.
GEÓRGIA
- Irmã de Johann. Pura, inocente e apaixonada. No decorrer
da história, entrega-se para o irmão, pensando que ele era o
amado. Volta, no final, para vingar-se.
O IRMÃO
DE JOHANN - Protetor, tenta
matar o homem que desonrou a irmã.
TEMPO
O texto
apresenta basicamente, três tempos:
1)
A conversa entre
os convivas, na taverna, ocorre no presente, tempo que
predomina nos capítulos 1 e 7;
2)
As histórias
contadas pelos rapazes situam-se no passado, que predomina
nos capítulos 2, 3, 4, 5 e 6, se bem que no início, durante
e no fim de cada narrativa, os personagens retornam
rapidamente para a taverna. A interação dos tempos
(presente, passado e presente do passado) produz no leitor a
impressão de estar se movendo em um mundo estranho, mágico,
no qual acaba sendo introduzido, ao sabor da narrativa;
3)
Os diálogos
existentes em todas as narrativas conferem atualidade às
histórias narradas pelos personagens principais.
A única
referência histórica que dá uma vaga noção de localização
cronológica do encontro na taverna está presente no relato
do velho que interrompe a narrativa de Bertram: (...) e
banhei minha fronte juvenil nos últimos raios de sol da
águia de Waterloo - Apertei ao fogo da batalha a mão do
homem do século. Assim, o velho seria jovem em 18 de
junho de 1815, quando Napoleão enfrentava o Duque de
Wellington, em Waterloo. Em razão desta referência, pode-se
situar o encontro fictício na taverna mais ou menor na época
em que o texto foi escrito.
No livro de
Álvares de Azevedo, nada há de seguro ou definitivo em
relação ao tempo. Datas, épocas ou duração dos fatos são
apenas superficialmente sugeridos. Foi escrito tanto em
tempo cronológico quanto em tempo psicológico. O tempo que
decorre dentro da taverna é real: (...)Cala-te,Johann!
Enquanto as mulheres dormem(...) Ocorre o que chamamos
de flash back. A partir do momento em que os jovens
começam a contar suas histórias, eles mergulham nas
lembranças do passado e o tempo passa a ser psicológico:
Era em Roma. Uma noite a lua ia bela como vai ela no
verão(...) No decorrer do enredo, há uma alternância
entre passado, presente e futuro, tempo real e tempo
psicológico. Quando um personagem faz sua narrativa,
retorna, uma vez ou outra, ao ambiente da taverna, não
permanecendo sempre no tempo psicológico.
ESPAÇO
Espaço é o
local onde se passa a ação. É ele que dá conta do lugar
físico onde ocorrem os fatos. Se a ação for concentrada, com
poucos fatos narrados ou quando o enredo é psicológico,
haverá menos variedade de espaços. Em Noite na Taverna,
muito ao contrário, tem-se uma narrativa cheia de
peripécias, com grande afluência de espaços diferentes.
De início,
o espaço é a própria taverna, onde o diálogo é travado. A
medida que se desenvolve a trama e as histórias de cada um
vão sendo contadas, temos como espaço da narrativa: o
palácio, o cemitério, a igreja, a ponte e as ruas da cidade;
a casa, o quarto da casa (Solfieri); a casa do pai, o jardim
da casa de Ângela, a casa dela, diversos locais pelos quais
viajam juntos (não especificados), o palácio do nobre, o
local onde joga com o pirata Siegfried (não especificado), o
rochedo de onde salta para a morte, os diversos locais
citados pelo velho que interrompe o narrador (Waterloo,
Bélgica, taverna em Portugal, túmulo de Dante na Itália,
Grécia e outros não especificados), a corveta, o mar, a
cabine do comandante (sugerida), o navio pirata, a jangada e
o brigue inglês Swalow (Bertram); a casa do mestre, o quarto
de Gennaro, o quarto de Laura, o quarto do casal, a cabana
na montanha, a cabana dos camponeses (Gennaro); o teatro, o
palácio de Eleonora, o quarto dela, as ruas da cidade, os
corredores e o pátio do castelo, o carro, a estalagem, o
quarto alugado, a casa do casal Claudius e Eleonora, o
quarto do casal (Claudius Hermann); o bilhar, o hotel, o
quarto de Artur, fora da cidade, o sobrado da amante de
Artur, a escada da casa, a porta de saída, a calçada na rua,
o quarto da irmã (Johann).
AMBIENTE
É o
conjunto de espaço acrescido de suas características
socioeconômicas, morais, psicológicas, em que vivem os
personagens. Em resumo, ambiente é um conceito que aproxima
tempo e espaço, recheados de um clima.
Em Noite
na Taverna, o ambiente é macabro, projeção dos conflitos
vivenciados, ele reflete o pensamento mórbido e alucinado
dos personagens. Todo o clima, como o tema, é noturno:
histórias que e desenrolam na calada da noite, penumbra,
melancolia, fumo, álcool, depressão e, por analogia, as
características morais, religiosas e psicológicas traduzem o
mesmo tom: são depravados, ébrios, assassino e boêmios.
NARRADOR
O livro é,
inicialmente, narrado em terceira pessoa, apresentando os
personagens na taverna. Após essa introdução, passa a ser
narrado em primeira pessoa, na qual cada personagem tece sua
trama.
CONCLUSÃO
Álvares de
Azevedo revolveu delicadas feridas da sociedade brasileira
da época e a afrontou tabus, e com isso - assim como em
diversos outros pontos - ele seguiu as pegadas de Lord Byron
- em cujas obras aparecem também traços não-conformistas e
anti-sociais. Em Noite na Taverna não há justiça,
probidade, remorso nem compaixão. Os rapazes na taverna,
enquanto contam suas aventuras, são como anjos da morte e da
destruição semeando a ruína e o desastre por onde passam.
Sua postura é narcisista. Apenas buscam o prazer e a
satisfação dos próprios desejos.
O texto não
está construído de forma a incutir susto ou medo no leitor
(como seria o caso na literatura de horror ou sobrenatural),
mas antes, provocar o estranhamento e a repulsa. No entanto,
uma das suas qualidades é, justamente, prender a atenção,
página a página, através do emaranhado das situações
descritas . Sem dúvida, as noites de vícios e devassidão
narradas por Álvares de Azevedo, chamaram a atenção e
chocaram o público leitor da década de 1850.
Noite na
Taverna apresenta um mundo que
não era o de Álvares de Azevedo, nem o de sua infância em
família, nem o de sua mocidade e amadurecimento. Sua
biografia deixa claro o tipo de valores nos quais ele foi
criado: os da sólida e tradicional família brasileira,
abastada, convencional e letrada. Orgias, a crueldade, a
fealdade e os vícios de seus personagens em nada
correspondem à realidade ou à vida do poeta. Somente o
desejo de fuga da realidade explica tal escrito em que o
amor é encarado pelo autor de maneira pervertida. Na vida
real, nada mais era do que filho e irmão dedicado. Os
sentimentos expostos em Noite na Taverna são
puramente intelectuais.
Álvares de
Azevedo inscreve sua obra na tradição do romance gótico.
Pode-se avaliar como provenientes do romance gótico inglês,
não apenas vários dos temas de Azevedo, como incesto e
assassinato entre familiares, como ainda o gosto pelos
incidentes sensacionais - raptos, fugas, aventuras em rápida
sucessão, etc. Provavelmente, esses são elementos que foram
injetados na poética de Álvares de Azevedo não apenas
através de Hoffmann (Contos Fantásticos), mas também
de Byron, de quem era assíduo leitor. O poeta inglês
derramou pelo mundo uma mensagem de decadência e melancolia,
erotismo e depravação, rebeldia e morbidez, que afinal
alcançou e estudante paulista e toda uma geração brasileira.
Os valores góticos fizeram de Noite na Taverna uma
coletânea de brutalidades e perversões, cujas sementes são a
descrença, o cinismo e o deboche. Em Azeved