O Auto da Barca
do Inferno
I - O nobre pecador.
Estavam o Diabo e
seu companheiro a arrumar a barca que transportaria os condenados ao fogo do
inferno. Os dois estavam colocando várias bandeiras e fazendo os últimos
preparativos para a triste viagem , muito satisfeitos com a arrumação , quando
vêem chegar à embarcação um fidalgo , acompanhado de um pajem , que lhe
segurava o manto , e carregando uma cadeira de encostar. Este fidalgo tinha por
nome Dom Henrique. Ele se dirigiu ao Diabo , querendo saber para onde ia uma
barca tão enfeitada. O Diabo fingiu surpresa ao vê-lo chegar , pois , na
verdade já sabia que ele iria naquela barca , já que o fidalgo tinha sido um
homem muito vaidoso e presunçoso em vida.
Então , o
barqueiro infernal respondeu ao nobre que a barca iria para o fogo do inferno.
O fidalgo duvidou do que lhe foi dito , mas ficou muito espantado quando soube
que ele também iria na barca infernal. Ele tentou se salvar, dizendo que deixou
na terra uma mulher desesperada , que queria se matar por ele.
O Diabo , irônico
, disse que ele era um verdadeiro tolo por acreditar na mulher , e ainda
completou dizendo que , no momento em que o nobre morria , ela já estaria com
outro.
O fidalgo ainda recusou -se a entrar na barca do Diabo , e foi tentar encontrar
um lugar na barca do Anjo , que era a barca que ia para o Paraíso.
Chegando lá ,o
fidalgo começou a gritar e a bater palmas , esperando ser atendido , mas ficou
muito indignado com a demora pois julgava- se muito importante para ser
ignorado.
De repente ,
apareceu o Anjo , e lhe perguntou o que ele desejava. O fidalgo rogou que o
deixassem ir na barca do Paraíso , apelando ainda para sua condição de nobre
, esperando atingir seu objetivo com esses argumentos.
Mas o Anjo disse
que , para um "senhor tão nobre" como o fidalgo, aquela barca era
muito pequena para tanta vaidade .O fidalgo então voltou para a barca do Diabo
, furioso , mas por fim aceitou seu triste destino.
II - O
agiota.
Enquanto o
fidalgo se lamentava , chegou à barca um agiota , carregando uma enorme bolsa
de dinheiro , e querendo saber para onde ia a barca. Quando o Diabo o viu ali ,
tornou a fingir surpresa , chamando o agiota de "seu parente " , e
comentando o atraso dele. O agiota , então , explicou que , por ele, "se
atrasaria" mais , já que morrera bem na época de receber seus lucros.
O Diabo
perguntou-lhe se nem o dinheiro o salvara da morte , com um tom irônico.
Completando , mandou que o agiota entrasse logo na barca , ao que o recém
chegado ficou desconfiado , e perguntou novamente o destino da barca. Indagou
também se partiriam logo.
O Diabo se
prontificou a responder que a barca iria para o fogo do inferno. Foi o
suficiente para que o agiota dissesse um sonoro "não" , e se
dirigisse à barca do Anjo sem demora.
Lá chegando ,
perguntou ao barqueiro dos Céus se poderia ir com ele . O Anjo se recusou a levá
-lo , alegando que sua bolsa de dinheiro ocuparia todo o espaço da barca. O
agiota jurava que vinha sem nada , mas o barqueiro ainda se recusava a levá -lo
, porque , em vida , ele havia sido muito materialista e ganancioso , não
poderia ir ao Paraíso.
Tentando resolver
o problema , o agiota voltou à barca do Inferno , pedindo ao Demônio que o
deixasse voltar ao mundo para trazer todo o dinheiro que lá deixara ,
acreditando ter sido essa a razão pela qual o Anjo tê-lo recusado na barca
celestial , mas também este pedido lhe foi negado. O agiota ainda pediu e pediu
, mas , vendo que não adiantava , entrou na barca infernal para aguardar a
partida.
Ele se espantou
muito ao ver o fidalgo Dom Henrique ali também , condenado. Viu que não era o
único pecador.
III - João
, o tolo.
Enquanto o agiota
conversava com o fidalgo , apareceu diante da barca um homem com ar apatetado ,
um tolo que tinha por nome João .
João , o tolo ,
nem bem havia chegado , perguntou ao Diabo se aquela era a barca dos tolos e
para onde ia. O barqueiro do inferno respondeu-lhe que aquela barca era , sim ,
a dos tolos, cínico , e que estava de partida para o porto infernal.
Ao ouvir aquilo ,
o tolo João começou a proferir insultos contra o Diabo , e cada um mais
absurdo e sem sentido do que o outro. Dirigiu- se ,então, à barca do Anjo.
Quando perguntado quem ele era , respondeu , humildemente , que não era ninguém.
Após ouvir o que o tolo disse , o Anjo deu -lhe a permissão de entrar na barca
, dizendo que , de tudo o que ele fizera em vida , nada teve maldade , e que sua
simplicidade já lhe bastava.
O tolo entrou na
barca , e permaneceu ao lado do Anjo , com a intenção de avaliar todas as
pessoas que chegavam , para ver se alguma delas tinha méritos para ir ao Céu.
IV - O
sapateiro ladrão.
Carregado de
todos os seus utensílios de trabalho , chegou na barca um sapateiro , que
perguntou ao Demônio qual era seu destino. Este , então , ironizou mais uma
vez , comentando como o sapateiro era honrado e como vinha carregado. Respondeu
-lhe , então , que a barca ia ao cais infernal , ao que o outro , indignado ,
perguntou para onde iriam os que haviam comungado e confessado , como ele , o
que era uma grande mentira.
O barqueiro do
inferno confirmou que aquela mesmo era a barca do sapateiro , que voltou a
mentir ,dizendo que , antes de morrer ,havia se confessado.
O Diabo o
desmentiu , dizendo que bem sabia de todo o dinheiro que ele roubara do povo com
seus serviços de sapataria. O ladrão continuou tentando encontrar motivos que
o livrassem de tão horrorosa viagem , mas nada adiantava.
Como continuava a
recusar o inferno , dirigiu- se à barca do Anjo , mas lá não conseguiu sua
vaga , pois quem roubou tão descaradamente , no Paraíso não merecia lugar.
Por fim , o
sapateiro , sem ver outra saída , voltou ao Diabo , entrou na barca e pediu que
não perdessem mais tempo com ele.
V - O padre.
Embarcado o
sapateiro , chegou à embarcação um padre , acompanhado de uma mulher ,
portando um escudo e uma espada.
Sem dúvida , era
uma padre pecador.
O Diabo , vendo
aquele padre acompanhado por uma mulher , começou a rir , e perguntou a ele se
, no convento onde ele vivia , nunca lhe perguntaram sobre sua vida nada celibatária
. O padre , muito alegre , respondeu que ele não era o único pecador na Igreja
, e perguntou para onde ia a barca , sem desconfiar que ela ia para o inferno.
Porém ,quando soube , ficou muito desorientado , pois julgava que só pelo fato
de ser padre , já estaria livre de todo o mal.
O Diabo ordenou
-lhe que entrasse na barca , ao que o padre recusou .
O barqueiro do
inferno então percebeu que o padre tinha com ele uma espada e um escudo.
Concluiu que ele praticava esgrima , um esporte proibido para os padres ,
portanto , outro pecado. Pediu ao padre que lhe desse uma lição de esgrima ,
pedido que foi aceito com entusiasmo. E começaram a esgrimir .
Acabada a lição
, o padre foi até a barca do Anjo , acreditando que lá iria conseguir lugar.
Estava enganado. Não pôde entrar porque pecara , tendo uma mulher , e ainda
praticando um esporte proibido . Finalmente , aceitou ir com o Diabo para o
inferno.
VI - A prostituta mentirosa.
Assim que o padre
embarcou , chegou à barca a prostituta Brísida Vaz . Quando o Diabo lhe pediu
que entrasse em sua barca infernal , ela retrucou , dizendo que aquela não era
a barca que procurava. O Diabo lhe perguntou o que ela trazia da vida ,ao que Brísida
contou que trazia a sua experiência na prostituição , as moças que ela
vendera , suas mentiras e seus feitiços , pois além de prostituta ,ela era
também feiticeira.
Ela ainda afirmou
que sua maior bagagem se constituía das moças que ela vendeu. Ouvindo tantos
pecados , o Diabo ordenou -lhe sem demora que subisse na barca. Brísida se
negou a entrar , dizendo que merecia o Paraíso , já que ,em sua vida ,
suportara tantos tormentos e castigos , que convertera ao bem várias moças ,
como se fosse uma santa. E foi- se à barca do Anjo pedir ajuda.
Mas de nada
adiantou-lhe dizer ao Anjo que ela criava as moças para os padres , e que por
obra dela , nenhuma moça se perdeu na vida. O Anjo não queria levá -la . Brísida
então reclamou que ,sendo assim , não lhe foi útil tudo o que fizera. As
mentiras que ela contou ao Anjo de nada valeram. Voltou , então , à barca do
Diabo e lá embarcou.
VII - O judeu que ninguém queria levar.
Estando Brísida
embarcada , chegou um judeu , carregando um bode nas costas. O judeu perguntou
se poderia embarcar na barca do Diabo , nem que tivesse de pagar para entrar. O
Diabo perguntou se o bode iria também, o judeu disse que sim ,que sem seu bode
não iria. Porém, nem mesmo o Diabo quis levar o judeu , de tão ruim que ele
foi em vida , mandando -o à barca do Anjo . Nem bem lá chegou o judeu , e João
, o tolo ,que lá estava , não o deixou embarcar , dizendo que ele era um
pecador , um homem mau , desqualificado. Ninguém queria levar o judeu e seu
bode , mas o Diabo acabou concordando em levá-lo , ainda que a reboque. E o
judeu foi embarcado junto com o bode.
VIII - O
juiz corrupto.
Embarcado o judeu
, chegou à barca do inferno um juiz , carregado de processos. O juiz perguntou
ao Diabo para onde ia a barca , ao que o Diabo rebateu , perguntando ,
cinicamente , mais uma vez , "como andava o direito" .
Disse então que
a barca ia para o inferno ,e que o juiz deveria entrar. De forma alguma o juiz
quis entrar , porque acreditava que , ao trabalhar com as leis , não poderia
ser um pecador. O Diabo acusou o juiz de aceitar suborno ,só atendendo às
pessoas que lhe pagavam mais ,e sendo muito injusto ,agindo assim. O juiz mentiu
que sua mulher era quem aceitava os subornos ,mas o Diabo ordenou-lhe que
entrasse na barca sem demora. Ainda disse que o papel dos processos seria um ótimo
combustível para o fogo do inferno.
IX - O
procurador.
Estavam o Diabo e
o juiz nessa discussão , quando chegou um procurador , carregado de livros ,
que se dirigiu ao juiz ,seu conhecido , querendo saber o que o Diabo dizia. Este
entrou na conversa e disse que , tanto o juiz como o procurador seriam ótimos
remadores rumo ao inferno.
O procurador
achou que aquilo era uma brincadeira de muito mau gosto , e então ele e o juiz
foram até a barca do Anjo. A caminho da barca celestial , o juiz disse ao
procurador que ,antes de morrer , havia se confessado , mas não confessara tudo
o que já havia roubado em vida.
Ao chegarem ao
Anjo e pedirem lugar na barca, tudo o que ouviram foram insultos do Anjo e de João
, o tolo , reforçando o vexame. Voltaram à barca do Diabo , muito aborrecidos
. O procurador ainda tentou consultar as leis ,mas o Diabo os mandou entrar
antes que isso fosse possível. E embarcaram.
X - O
enforcado.
Nisso, chegou à
barca do inferno um homem que morrera enforcado , e mal chegou , já ouviu a
ordem do Diabo para que entrasse na embarcação . O enforcado se espantou muito
, pois, antes de ser executado , lhe disseram que , por morrer na forca, merecia
ir ao Céu. O Diabo então lhe perguntou se não haviam lhe falado no purgatório
, se o enforcado não fizera confusão , ao que ele respondeu que não.
O Diabo o mandou
novamente entrar na barca , mas , como esta já estava tão cheia , acabou por
deixar o enforcado ir para onde bem quisesse , sendo que não cabia mais nenhum
passageiro na embarcação. E o enforcado foi embora.
XI - Os Quatro Cavaleiros.
Assim que o
enforcado se foi , passaram em frente à barca do Diabo , quatro cavaleiros,
carregando uma cruz de Cristo. Nem bem os viu chegar, o barqueiro do inferno
perguntou quem eles eram. Um deles respondeu que eram cavaleiros que morreram
lutando. O Diabo ordena que todos entrem ,mas prontamente eles se recusam ,
dizendo que , quem morre defendendo o cristianismo e a Igreja Católica , não
iria jamais ao porto infernal. E seguiram caminho até a barca do Anjo , que ,
ao vê-los , disse que os estava esperando para irem ao Paraíso , livres de
todo o mal. E assim , os honrados cavaleiros embarcaram , e as duas barcas , a
do inferno e a do céu , partiram.