Os "Olhos" nos
sonetos de Camões
A
comunicação entre os homens tem grande importância pelo poder de aproximação
que exerce entre as pessoas e comumente se faz uso da palavra, do diálogo, para
a transmissão de idéias e expressão de sentimentos.
Entendemos
que no processo amoroso a comunicação assume um valor especial e, como recurso
aproximativo, o olhar favorece a comunicação de pensamentos e emoções e também
motiva prazer ou, noutro extremo, causa tormento e angústia. A linguagem do
olhar como meio de comunicação, substitui as palavras ou as supera, quando
expressa o que não é possível se colocar verbalmente.
Em
determinadas situações o olhar adquire um papel de destaque devido a sua
extraordinária expressividade. Em outros tempos, a obediência às convenções
era uma norma a qual não se podia escapar e conseqüentemente as diferenças
entre amante frustrado e Amada inacessível tornava o amor, por princípio,
irrealizável. Julga-se então, que esta seja a explicação para a origem da tônica
dos olhos, do ver, do olhar e contemplar na poesia lírica de Camões.
Entende-se perfeitamente esta explicação, considerando que o
"amador" é ciente de que não poderá desejar do amor mais do que a
linguagem do olhar permitir.
A
análise do papel e do sentido do elemento "olhos" nos Sonetos
de Camões será o objeto deste estudo.
Na
lírica camoniana é constante e evidente o desencadeamento do amor, a sua
continuidade, os conflitos resultantes dele ou o fenecimento deste sentimento
serem decorrentes de processos relacionados ao fenômeno da visão, portanto,
analisar este elemento é de grande importância para a caracterização do
processo amoroso em si ou para o desvendar do estado de espírito e dos
sentimentos do amante diante de sua Amada.
I – Os olhos como elemento ornamental da beleza da Mulher
Observamos,
logo de início, que na poesia camoniana o Poeta se refere insistentemente aos
olhos da Amada, falando de sua beleza, inspirando-se e atribuindo-lhes um valor
ornamental, conseqüentemente, estético:
"Fermosos
olhos (...)" p. 30, v.1.
"Olhos
fermosos (...)" p. 31, v.1.
"O
lindo ser de vossos olhos" p. 21, v.2.
Há
uma freqüência no que se refere à utilização do termo "claros
olhos":
"Aqueles
claros olhos (...)".p. 144, v.1 e p. 146, v. 4.
Segundo os cânones tradicionais, os olhos verdes eram os mais belos, assim
pode-se achar que a designação "claros olhos" supõe também
a beleza dos olhos, resultando a referência num elogio. Há também nos
Sonetos, uma exceção a essa norma quando o Poeta faz um elogio aos olhos
negros, menosprezando os verdes que, segundo ele, se turvam por inveja da beleza
superior daqueles:
"Olhos
onde tem feito tal mistura
Em cristal
branco e preto marchetado
Que vemos já
no verde delicado
Não esperança,
mas inveja escura" p. 61, vv. 5-8.
Justifica-se
isto pelo fato de que a Musa Inspiradora deste Soneto parecer ter sido uma
escrava de olhos escuros. Esta variação acidental do conceito de beleza
ocorreu por ser uma característica própria da Dama que foi objeto dos amores
do Poeta.
Na
Renascença era comum valorizar os olhos de acordo com seu brilho: Petrarca faz
referência aos "begli occhi lucenti" de sua Musa, e Camões não
fugiu a regra quando, expressivamente, evidenciou os olhos da Amada através de
metáforas, imagens e comparações:
"Quem
pode livre ser, gentil senhora,
Se por entre
esta luz a vista passa
Raios de ouro
verá, que as duvidosas
Almas estão
no peito traspassado
Assi(m) como
um cristal o Sol traspassa." p. 29, vv. 1, 11-14
"Dos
vosso olhos essa luz febéia" p.78, v. 5.
O
brilho dos olhos da Amada assume proporções que podem ser comparados ao sol ou
até mesmo superá-lo:
"Mas nos
olhos mostrou quanto podia,
E fez deles um
sol, onde se apura
A luz mais
clara que a do claro dia" p. 79, vv. 9-11
E noutro Soneto vai além do estético e passa a ser uma qualidade moral, um indício
de inocência e candura:
"Movei
dos lindos rostos a luz pura
De vossos
olhos belos (...)" p. 72, vv. 9 e 10.
É
interessante notar que estas figuras têm a característica de hipérbole por
enfatizarem o brilho dos olhos relacionando-os com outros brilhos mais intensos,
dando-lhes, portanto, um alto valor.
II – A função de revelar as características da Dama.
O
poeta se impressiona ainda mais pelo fato dos olhos possuírem não só um valor
estético, mas por deixarem transparecer características espirituais das suas
musas inspiradoras. Assim, os olhos nos são apresentados revelando diferentes
aspectos da dama, como uma criatura meiga e afável que se compadece do amante
sofredor:
"Um mover
dos olhos brando e piedoso" p. 77, v. 1.
Ou outra que, ciente de sua condição superior, mesmo expressando rigor não
esconde sua meiguice:
"De vossa
vista branda e rigorosa" p. 15, v. 10.
Encontramos também, verso que revela nobreza:
"Aqueles
reais olhos(...)" p. 241, v. 4.
E outro que transmite superioridade social:
"(...)uns
olhos de que eu não era digno" p. 50, v. 7.
E ainda temos aquela dama que cativa e destrói corações:
"(...)
olhos(...) que triunfando
Derrubam corações
(...)" p. 71, vv. 7 e 8.
Nessa
poesia o elemento "olhos" freqüentemente revela-nos Damas de
grande perfeição e quase sempre idealizadas.
III
– O efeito dos olhos da Dama sobre o Poeta.
Analisando
agora a atuação do elemento em estudo, temos a influência dos olhos da mulher
sobre quem a ama.
Olhos
que expressam ora meiguice, ora altivez, desencadeiam no "Amador"
sentimentos contraditórios:
"Os
olhos(...) (que o conquistaram)
(...) foram
causa do mal que vou passando." p. 32, vv 9 e 10:
Ele procura fuga, mas não encontra firmeza e acaba vencido:
"Vossos
olhos, Senhora(...)
Meus sentidos
vencidos se so(b)metem
Assi(m) cegos
a tanta divindade" p.28, vv. 1, 5, 6.
Rendendo todo seu ser:
"Os olhos
com que todo nos roubaste" p. 32, v. 9.
Chegando a torna-se uma obra resultante do poder desses olhos.
"Olhos
fermosos (...)
Se quiserdes
saber quanto possais
vede-me a
mi(m) que sou vossa feitura" p. 31, vv. 1, 3, 4.
Apesar de todo sofrimento pelo qual o Amador passa, ele demonstra uma atitude
pacífica, não se revoltando contra a Dama , atribuindo a culpa não a ela, mas
a beleza de seus olhos:
"Ditoso
seja o dia e hora, quando
Tão delicados
olhos me feriam" (p.186, vv. 5 e 6)
Ou ao Amor que causa desventuras:
"(...)
quando o Amor virou
a roda à
esperança que corria
tão ligeira
que quase era invisível
converteu-se-me
em noite o claro dia" (p. vv. 9 a 12)
E noutras vezes o destino é o grande culpado de tudo:
"Fortuna
(...)
Em verde derrubou minha alegria" (p. 198, vv. 1 e 2)
Em
dois Sonetos encontramos uma rebelação a atitude da Amada. No primeiro ele
reage, armando-se de força:
e,
no segundo, diante da não correspondência amorosa o Poeta faz-lhe um ultimato
para que ela permita-o desfrutar do seu amor.
IV – Os olhos do Amador
Passando
ao estudo do valor dos olhos do amante, notamos que esse elemento aparece como
veículo revelador do que vai na alma do Poeta no processo amoroso, expressando
ora alegria, ora revelando sentimentos de amor, manifestações essas sempre de
cunho positivo. Contudo, freqüentemente há também passagens nas quais os
olhos do amante nos comunicam, em oposição, sentimentos de tristeza, mágoa,
tormento e cansaço, e há momentos até que os seus olhos exprimem sentimentos
paradoxais como, por exemplo, alegria pela dor que experimentam.