Poesia
Moderna

SENTIDO DO
MODERNISMO
O termo Modernismo – e tudo aquilo que ele
significa – não pode ser abordado numa perspectiva
exclusivamente nacional. Devemos então considerá-lo sob dois
ângulos:
ORIGENS
Nas três primeiras décadas do século XX, as
principais nações européias vivem uma impressionante
revolução artística, atingindo todos os setores criativos, e
que - a grosso modo - recebe o nome de Arte Moderna ou
Modernismo. Esta revolução se expande rapidamente e alcança
um incontável número de países extra-europeus, entre os
quais o Brasil. O crítico Otto Maria Carpeaux delimita a
cronologia dessas transformações
Aquilo que entendemos por "arte moderna" já
se presentificara na primeira década do século XX, mas sua
expansão e vitalidade deu-se na segunda década, quando a
guerra, as crises sociais e existenciais, a Revolução na
Rússia, o fim do grande ciclo burguês, favoreceram o
desenvolvimento de uma arte polêmica e destruidora. Por
romper com uma série de cânones, essa arte recebeu o nome de
vanguarda, a que está a frente de seu tempo.
Podemos especular que as vanguardas teriam
acontecido de qualquer maneira, independentemente das
circunstâncias históricas, mas os vertiginosos
acontecimentos da Primeira Guerra Mundial e da Revolução
Soviética aceleram, com certeza, a ruptura e a
radicalização, tanto ideológica quanto estética, de uma
série de movimentos inovadores.
CARACTERÍSTICAS DA LITERATURA MODERNISTA

LIBERDADE DE EXPRESSÃO
A importância maior das vanguardas residiu no
triunfo de uma concepção inteiramente libertária da criação
artística. O pintor, o escritor ou o músico não precisam se
guiar por outras leis que não as de sua própria
interioridade e de seu próprio arbítrio. Picasso não pintará
mais o real e sim a sua interpretação do real. Compositores
como Schönberg e Stravinski levarão a música a novos
limites, questionando a tonalidade usual.
INCORPORAÇÃO DO COTIDIANO
Uma das maiores conquistas do modernismo, a
valorização da vida cotidiana traz para a arte uma abertura
temática sem precedentes, pois, até então, apenas assuntos
"sublimes" tinham direito indiscutível ao mundo literário.
Agora, o prosaico, o diário, o grosseiro, o vulgar, o
resíduo e o lixo tornam-se os motivos centrais da nova
estética. À grandiosidade da paisagem, Manuel Bandeira
sobrepõe a humildade do beco:
Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a
linha do horizonte?
- O que eu vejo é o beco.
LINGUAGEM COLOQUIAL
Este anticonvencionalismo temático, esta
dessacralização dos conteúdos encontra correspondência na
linguagem. Além das inovações técnicas, a linguagem torna-se
coloquial, espontânea, mesclando expressões da língua culta
com termos populares, o estilo elevado com o estilo vulgar.
Há uma forte aproximação com a fala, isto é, com a
oralidade.
A língua sem arcaísmos. Sem erudição. Natural
e neológica. A contribuição milionária de todos os erros.
Também Manuel Bandeira admite a contribuição
da linguagem popular:
A vida não me chegava pelos jornais nem pelos
livros
Vinha da boca do povo na língua errada do
povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do
Brasil (...)
INOVAÇÕES TÉCNICAS
O rompimento com os padrões culturais do
século XIX implicaria no aparecimento de novas técnicas,
tanto no domínio da poesia, quanto no da ficção. As
principais conquistas foram:
Versos livres
O verso já não está sujeito ao rigor métrico
e às formas fixas de versificação, como o soneto, por
exemplo. Também a rima se torna desnecessária. Vejamos um
trecho de Consideração do poema, de Carlos Drummond de
Andrade:
Não rimarei a palavra sono
com a incorrespondente palavra outono.
Rimarei com a palavra carne
Ou qualquer outra, todas me convêm.
Destruição dos nexos
Os chamados nexos sintáticos, preposições,
conjunções, etc., são eliminados da poesia moderna, que se
torna mais solta, mais descontínua e fragmentária e,
fundamentalmente, mais sintética. Veja-se um exemplo radical
no poema Coca cola, do concretista Décio Pignatari:
beba coca cola
babe cola
beba coca
babe cola caco
caco
cola
cloaca.
Paronomásia
Figura muito usada depois de 1922, consiste
na junção de palavras de sonoridade muito parecida, mas de
significado diferente. Murilo Mendes escreve: "As têmporas
da maçã, as têmporas da hortelã, as têmporas da romã, as
têmporas do tempo, o tempo temporã." Da mesma maneira,
Carlos Drummond é um especialista em paronomásias:
"Melancolias, mercadorias espreitam-me."
AMBIGÜIDADE
O discurso literário perde o sentido fechado
que geralmente possuía no século passado. Ou seja, ele
oferecia ao leitor apenas um sentido, uma interpretação.
Agora, ele tem um caráter variado e polissêmico. Uma rede de
significações, que permite múltiplos níveis de leitura. É a
chamada obra aberta, obra que não apresenta univocidade, ou
seja, que não se esgota numa única interpretação
Estrela da
manhã, de Manuel Bandeira, por exemplo, é um poema
representativo do polissenso da literatura contemporânea. No
final da leitura, não sabemos com absoluta convicção o que
essa estrela simboliza. Uma mulher experiente que o poeta
deseja? Uma prostituta? A própria vida a que Bandeira pela
doença foi obrigado a abdicar?
Eu quero a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã ?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã
Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda a parte (…)
MANUEL BANDEIRA (1886-1968)

Vida:
Nasceu no Recife, filho de uma família oligárquica. Começou
a fazer o curso de engenharia, em São Paulo, mas a
tuberculose o impediu de concluir a faculdade. Buscando a
cura, esteve um ano na Suíça, onde efetivamente eliminou a
doença. Voltando para o Brasil, tornou-se inspetor de ensino
e, depois, professor de Literatura na Universidade do
Brasil.
Obras principais:
Cinza das horas (1917); Carnaval (1919); Ritmo dissoluto
(1924); Libertinagem (1930); Estrela da manhã (1936); Lira
dos cinquent'anos (1948); Estrela da tarde (1963)
A poesia de Manuel Bandeira
- eliminados os resíduos simbolistas e parnasianos de Cinza
das horas e Carnaval - enquadrando-se na vertente mais
clássica do espírito modernista, aquela em que se processa
uma fusão entre a confissão pessoal e a vida cotidiana. Em
Bandeira predomina com algumas insistência o lirismo do EU,
mas o cotidiano jamais desaparece dos textos, numa síntese
feliz entre subjetividade e objetividade. Isto se dá porque
uma relação dialética estabelece-se entre ambos. Assim:
Poesia
= cotidiano mais o eu-lírico.
Nada em sua poesia é mera visão interior.
Tampouco lhe apraz a simples fotografia realista do mundo.
Mesmo assim, praticou eventualmente uma lírica sem a
presença da interioridade. É o caso do Poema tirado de
uma notícia de jornal:
João Gostoso era carregador de feira-livre e
morava no morro da Babilônia num barracão sem
número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu
afogado.
Ou, ainda, deste O bicho, infiltrado
por grande indignação moral:
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
O poeta
debruça-se sobre o mundo concreto, porém na sua fala sobre o
real pode-se pressentir o traço biográfico, como no já
antológico Irene:
Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor
Imagino Irene entrando no céu:
- Com licença, meu branco.
E São Pedro, bonachão:
- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença