“Realismo e Naturalismo”
“O Realismo é uma reação contra o Romantismo:
o Romantismo era a apoteose do sentimento; - o Realismo é a anatomia do
caráter. É a crítica do homem.
É a arte que nos pinta a nossos próprios olhos – para condenar o que
houve de mau na nossa sociedade.”
Eça
de Queirós
A poesia do final da década de 1860 já anunciava
o fim do Romantismo; Castro Alves, Sousândrade e Tobias Barreto faziam uma
poesia romântica na forma e na expressão, mas os temas estavam voltados para
uma realidade político-social. O
mesmo se pode afirmar de algumas produções do romance romântico, notadamente
a de Manuel Antônio de Almeida, Franklin Távora e Visconde de Taunay.
Era o pré-realismo que se manifestava.
Na década de 70 surge a chamada Escola de Recife, com Tobias Barreto, Sílvio Romero e outros,
aproximando-se das idéias européias ligadas ao Positivismo, ao Evolucionismo
e, principalmente, à filosofia alemã. São
os ideais do Realismo que encontravam ressonância no conturbado momento histórico
pelo Brasil, sob o signo do abolicionismo, do ideal republicano e da crise da
Monarquia.
Em 1857, o mesmo ano em que no Brasil era publicado
O guarani, de José de Alencar, na
França é publicado Madame Bovary, de
Gustave Flaubert, considerado o primeiro romance realista da literatura
universal. Em 1865, Claude Bernard
publica Introdução à medicina
experimental, com uma tese sobre a hereditariedade.
Em 1867 Émile Zola publica Thérèse
Raquin, inaugurando o romance naturalista.
No Brasil considera-se 1881 como o ano inaugural do
Realismo. De fato, esse foi um ano
fértil para a literatura brasileira, com a publicação de dois romances
fundamentais, que
modificaram o
curso de
nossas letras:
Aluísio Azevedo publica O
mulato, o primeiro romance naturalista do Brasil; Machado de Assis publica Memórias
póstumas de Brás Cubas, o primeiro romance realista de nossa literatura.
Na divisão tradicional da história da literatura
brasileira, o ano considerado data final do Realismo é 1893, com a publicação
de Missal e Broquéis, ambos de Cruz e Souza, obras inaugurais do Simbolismo.
No entanto, é importante salientar que 1893 registra o início do
Simbolismo, mas não o término do Realismo e suas manifestações na prosa, com
os romances realistas e naturalistas, e na poesia, com o Parnasianismo. Basta lembrar que D.
Casmurro, de Machado de Assis, é de 1900; Esaú e Jacó, do mesmo autor, é de 1904. Olavo Bilac foi eleito “príncipe dos poetas” em
1907. A Academia Brasileira de
Letras, templo do Realismo, é de 1897. Na
realidade, nos últimos vinte anos do século XIX e nos primeiros vinte anos do
século XX, temos três estéticas que se desenvolvem paralelas:
o Realismo e suas manifestações, o Simbolismo e o Pré-Modernismo, que
só conhecem o golpe fatal em 1922, com a Semana de Arte Moderna.
O Realismo reflete as profundas transformações
econômicas, políticas, sociais e culturais da Segunda metade do século XIX.
A Revolução Industrial, iniciada no século XVIII, entra numa nova
fase, caracterizada pela utilização do aço, do petróleo e da eletricidade;
ao mesmo tempo o avanço científico leva a novas descobertas nos campos da Física
e da Química. O capitalismo se estrutura em moldes modernos, com o
surgimento de grandes complexos industriais; por outro lado, a massa operária
urbana avoluma-se, formando uma população marginalizada que não partilha dos
benefícios gerados pelo progresso industrial mas, pelo contrário, é explorada
e sujeita a condições subumanas de trabalho.
Esta nova sociedade serve de pano de fundo para uma
nova interpretação da realidade, gerando teorias de variadas posturas ideológicas.
Numa seqüência cronológica temos o Positivismo de Auguste Comte,
preocupado com o real-sensível, o fato, defendendo o cientificismo no
pensamento filosófico e a conciliação da “ordem e progresso” (a expressão,
utilizada na bandeira republicana do Brasil, é de inspiração comtiana); o
Socialismo Científico de Karl Marx e Friedrich Engels, a partir da publicação
do Manifesto do Partido Comunista, em
1848, definindo o materialismo histórico (“o modo de produção da vida
material condiciona o processo de vida social, político e intelectual em
geral” – K. Marx) e a luta de classes; o Evolucionismo de Charles Darwin, a
partir da publicação, em 1859, de A origem das espécies, livro em que ele expõe
seus estudos sobre a evolução das espécies pelo processo de seleção
natural, negando portanto a origem divina defendida pelo Cristianismo.
O Brasil também passa por mudanças radicais tanto
no campo econômico como no político-social, no período compreendido entre
1850 e 1900, embora com profundas diferenças materiais, se comparadas às da
Europa. A campanha abolicionista
intensifica-se a partir de 1850; a Guerra do Paraguai (1864/70) tem como conseqüência
o pensamento republicano – o Partido Republicano foi fundado no ano em que
essa guerra acabou –; a Monarquia vive uma vertiginosa decadência.
A Lei Áurea, de 1888, não resolveu o problema dos negros, mas criou uma
nova realidade. O fim da mão-de-obra
escrava e a sua substituição pela mão-de-obra assalariada, então
representada pelas levas de imigrantes europeus que vinham trabalhar na lavoura
cafeeira, originou uma nova economia voltada para o mercado externo, mas agora
sem a estrutura colonialista.
É nesse contexto socio-político-científico que
surgem o Realismo, o Naturalismo e o Parnasianismo. A alteração do quadro social e cultural exigia dos
escritores outra forma de abordar a realidade:
menos idealizada do que a romântica e mais objetiva, crítica e
participante. Contudo há semelhanças
e diferenças entre essas correntes. As
semelhanças residem na objetividade, na luta contra o Romantismo e no gosto por
descrições minuciosas.
As características do Realismo estão intimamente
ligadas ao momento histórico, refletindo, dessa forma, a postura do
Positivismo, do Socialismo e do Evolucionismo, com todas as suas variantes.
Assim é que o objetivismo aparece como negação do subjetivismo romântico e nos
mostra o homem voltado para aquilo que está diante e fora dele, o não-eu;
o personalismo cede terreno para o universalismo.
O materialismo leva à negação
do sentimentalismo e da metafísica. O nacionalismo e a volta ao passado histórico são deixados
de lado; o Realismo só se preocupa com o presente,
o contemporâneo.
Influenciados por Hypolite Taine e sua Filosofia da arte, os autores realistas são adeptos do determinismo,
segundo o qual a obra de arte seria determinada por três fatores:
o meio, o momento e a raça – esta, no que se refere à
hereditariedade. O avanço das ciências,
no século XIX, influencia sobremaneira os autores da nova estética,
principalmente os naturalistas, donde se falar em cientificismo
nas obras desse período.
Ideologicamente os autores desse período são antimonárquicos,
assumindo uma defesa clara do ideal republicano, como se observa na leitura de
romances como O mulato, O cortiço e O Ateneu, por
exemplo. Negam a burguesia a partir da célula-mãe da sociedade:
a família; eis por que os sempre presentes triângulos amorosos,
formados pelo pai traído, a mãe adúltera e o amante, que é sempre um
“amigo da casa”; para citarmos apenas exemplos famosos de Machado de Assis,
eis alguns triângulos: Bentinho/Capitu/Escobar;
Lobo Neves/Virgília/Brás Cubas; Cristiano Palha/Sofia Palha/Rubião.
São anticlericais,
destacando-se em suas obras os padres corruptos e a hipocrisia de velhas beatas.
Finalmente é importante salientar que Realismo é
denominação genérica da escola literária, sendo que nela se podem perceber
três tendências distintas, expostas a seguir.
Cultivado no Brasil por Machado de Assis, é uma
narrativa mais preocupada com a análise psicológica, fazendo a crítica à
sociedade a partir do comportamento de determinados personagens.
É interessante constatar que os cinco romances da fase realista de
Machado apresentam nomes próprios em seus títulos – Brás Cubas; Quincas
Borba; D. Casmurro; Esaú e Jacó; Aires –, revelando clara preocupação com
o indivíduo.
O romance realista analisa a sociedade “por
cima”, ou seja, seus personagens são capitalistas, pertencem à classe
dominante; mais uma vez nos voltamos para a obra de Machado e percebemos que Brás
Cubas não produz, vive do capital, o mesmo acontecendo com Bentinho; já
Quincas Borba era louco e mendigo até receber uma herança; o único dos
personagens centrais de Machado que trabalhava era Rubião (professor em Minas),
mas recebe a herança de Quincas Borba, muda-se para o Rio e não trabalha mais,
vivendo do capital. O romance
realista é documental, retrato de uma época.
Observe o trecho
abaixo:
Naquele tempo contava
apenas uns quinze ou dezesseis anos; era talvez a mais atrevida criatura da
nossa raça, e, com certeza, a mais voluntariosa. Não digo que já lhe coubesse a primazia da beleza, entre as
mocinhas do tempo, porque isto não é romance, em que o autor sobredoura a
realidade e fecha os olhos às sardas e espinhas; mas também não digo que lhe
maculasse o rosto nenhuma sarda ou espinha, não. Era bonita, fresca, saía das mãos da natureza, cheia
daquele feitiço, precário e eterno, que o indivíduo passa a outro indivíduo,
para os fins secretos da criação. Era
isto Virgília, e era clara, muito clara, faceira, ignorante, pueril, cheia de
uns ímpetos misteriosos; muita preguiça e alguma devoção, - devoção, ou
talvez medo; creio que medo.
(ASSIS,
Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas.
São Paulo, Scipione, 1994. p. 45)
Podemos
notar todo o estilo irônico do autor, aqui com suas baterias voltadas contra as
idealizações românticas que haviam moldado o gosto do público leitor.
Repare que Machado parte de uma adjetivação que nos leva a montar um
perfil da heroína romântica (a mais atrevida, a mais voluntariosa, bonita,
fresca, carregada de feitiço, faceira) para só num segundo momento provocar a
ruptura: ignorante,
pueril, preguiçosa.
Cultivado no Brasil por Aluísio Azevedo, Júlio
Ribeiro, Adolfo Caminha, Domingos Olímpio, Inglês de Souza e Manuel de
Oliveira Paiva; o caso de Raul Pompéia é muito particular, pois seu romance O Ateneu ora apresenta características naturalistas, ora realistas,
ora impressionistas.
A narrativa naturalista é marcada pela forte análise
social a partir de grupos humanos marginalizados, valorizando o coletivo;
interessa também notar que os títulos dos romances naturalistas apresentam a
mesma preocupação: O mulato, O cortiço, Casa
de pensão, O Ateneu. Há
inclusive, sobre o romance O cortiço,
a tese de que o principal personagem não é João Romão, nem Bertoleza, nem
Rita Baiana, nem Pombinha, mas sim o próprio cortiço ou, como afirma Antônio
Candido, “o romance é o nascimento, vida, paixão e morte de um cortiço”.
Sob um certo ponto de vista, o mesmo poderia ser dito sobre o colégio
Ateneu (os dois romances se encerram com a destruição dos prédios, abrigos
coletivos).
Por outro lado, o naturalismo apresenta romances
experimentais; a influência de Darwin se faz sentir na máxima naturalista
segundo a qual o homem é um
animal; portanto, antes de usar a razão, deixa-se levar pelos instintos
naturais, não podendo ser reprimido em suas manifestações instintivas, como o
sexo, pela moral da classe dominante. A
constante repressão leva às taras patológicas, tão ao gosto naturalista; em
conseqüência, esses romances são mais ousados e erroneamente tachados por
alguns de pornográficos, apresentando descrições minuciosas de atos sexuais,
tocando, inclusive, em temas então proibidos, como o homossexualismo:
tanto o masculino, como em O Ateneu,
quanto o feminino, em O cortiço.
Observe o texto abaixo:
Ana Rosa, com efeito, de algum tempo a essa parte, fazia visitas ao quarto de Raimundo, durante a ausência
do morador.
Entrava
disfarçadamente, fechava as rótulas da janela, e, como sabia que o morador não
aparecia àquela hora, começava a bulir nos livros, a remexer nas gavetas
abertas, a experimentar as fechaduras, a ler os cartões de visita e todos os
pedacinhos de papel escrito, que lhe caíam nas mãos. Sempre que encontrava um lenço já servido, no chão ou
atirado sobre a cômoda, apoderava-se dele e cheirava-o sofregamente, como fazia
também com os chapéus de cabeça e com a
travesseirinha da cama.
Estas
bisbilhotices deixavam-na caída numa enervação voluptuosa e doentia, que lhe
punha no corpo arrepios de febre.
(AZEVEDO,
Aluísio. O mulato. 19. ed. São
Paulo, Martins Fontes, 1974. p. 121)
Observamos
que a personagem Ana Rosa, criada segundo alguns “caprichos românticos
e fantasias poéticas”, não resiste à força da atração física que
Raimundo lhe desperta, chegando a invadir o quarto do rapaz.
O importante é notar como a moça é dominada pelos instintos; como se
fosse um animal, “lê” o mundo por meio dos sentidos (ela “conhece” o
rapaz pelo cheiro que ele imprimiu nos objetos); a excitação provoca reações
físicas (enervação voluptuosa, febre), transformando-se num caso patológico,
doentio.
Observação:
Como você observa, há vários pontos de coincidência
entre o romance realista e o naturalista; diríamos até que ambos partem de um
mesmo ponto x e ambos chegam a um
mesmo ponto y, só que percorrendo
caminhos diversos. Tanto um como
outro atacam a monarquia, o clero e a sociedade burguesa. Inclusive, podemos encontrar, num mesmo autor, determinadas
posturas mais realistas convivendo com enfoques mais naturalistas.
É o caso de O Ateneu, citado acima.
Eça
de Queirós, em Portugal, é outro exemplo significativo:
alguns críticos o consideram realista, outros classificam-no como
naturalista.
Preocupada com a forma e a objetividade; a “arte
pela arte”, com seus sonetos alexandrinos perfeitos. Olavo Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira formam a
Trindade Parnasiana.
O
soneto, a métrica alexandrina (12 sílabas poéticas), a rima rica, rara e
perfeita, tudo isso se contrapondo aos versos livres e brancos dos românticos.
Em suma, é o endeusamento da Forma.