Romantismo
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O
Romantismo foi o estilo literário que perdurou no Brasil desde 1836 até 1881
(ano da publicação de O Mulato e Memórias Póstumas
de Brás Cubas). O primeiro poeta romântico brasileiro foi Gonçalves
de Magalhães, que publicou Suspiros Poéticos e Saudades em
1836. Era marcado por grande subjetividade, idealização (da mulher e do amor)
e sentimentalismo. Foi a primeira tentativa consciente de se produzir literatura
verdadeiramente brasileira.
Gonçalves
Dias
Orgulhoso
de ter o sangue de índios, negros e brancos em seu corpo, Antônio Gonçalves
Dias nasceu a 10 de agosto de 1823 no Maranhão e morreu a 3 de novembro de
1864. Gonçalves Dias foi um poeta romântico indianista e bacharel em Direito
pela universidade de Coimbra. Sua poesia trouxe a admiração da crítica e do
rei, que o nomeou para vários cargos públicos e lhe permitiu viver mais
confortavelmente, tendo viajado pelo Norte do Brasil a serviço da corte. Também
fez teatro. Recusado pela família de sua amada, casou-se com outra e, doente,
viajou a Europa para se tratar. Quando o governo cortou o subsídio que lhe
concedia em 1864, decidiu voltar ao Brasil. Na volta, morre no naufrágio do
"Ville de Boulogne" por estar doente, já que foi abandonado de cama
em estado deplorável enquanto todos os outros se salvaram. Alguns de seus poemas
indianistas mais famosos são I-Juca Pirama e Os Timbiras.
"Minha
terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá." Canção do Exílio
"Eu
vi o brioso no largo terreiro,
Cantar prisioneiro
Seu canto de morte, que nunca esqueci:
Valente como era, chorou sem ter pejo;
Parece que o vejo,
Que o tenho nest'hora diante de mi." I-Juca Pirama
"Por
onde quer que fordes de fugida
Vai o fero Itajuba perseguir-vos
Por água ou terra, ou campos, ou florestas;
Tremei!..." Os Timbiras
Álvares de
Azevedo
Manuel
Antônio Álvares de Azevedo nasceu em 1831, um gênio precoce que já
falava francês, inglês e latim aos 10 anos de idade. Estudava Direito e
participava de altas orgias em reuniões com outros grandes escritores românticos
como seu amigo Bernardo de Guimarães. Além do maior poeta da
tendência Mal do Século no Brasil, Álvares de Azevedo também escreveu contos
e uma peça de teatro (Macário). Quando entrou na
faculdade de Direito teve um pressentimento que não completaria o curso ao ver
dois estudantes do quinto ano morrerem na sua frente. A morte foi uma constante
em sua obra, já que o irmão morreu prematuramente e ele sentia fortes dores no
peito. De fato, morreu meses após completar o quarto ano, com prematuros 20
anos de idade, de um tumor na fossa ilíaca descoberto após um acidente de
equitação. Dois anos depois sua obra romântica, dividida entre Ariel (o bem)
e Caliban (o mal), passou a ser publicada. Foi o maior poeta brasileiro da tendência
do Mal do Século. Seguem passagens do livro de contos (Caliban) Noite
na Taverna, uma amostra da poesia Se eu morresse amanhã
(composta dias antes do acidente) e do livro de poesias Lira dos Vinte
Anos.
"Mas
essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!"
"
Quando falo contigo, no meu peito
esquece-me esta dor que me consome:
Talvez corre o prazer nas fibras d'alma:
E eu ouso ainda murmurar teu nome!" Lira dos Vinte Anos
"Pois
bem, dir-vos-ei uma história. Mas quanto a essa, podeis tremer a gosto, podeis
suar a frio da fronte grossas bagas de terror. Não é um conto, é uma lembrança
do passado." Noite na Taverna
"A
mulher recuava... Recuava. O moço tomou-a nos braços, pregou os lábios nos
dela... Ela deu um grito, e caiu-lhe das mãos. Era horrível de ver-se. O moço
tomou o punhal, fechou os olhos, apertou-os no peito, e caiu sobre ela. Dois
gemidos sufocaram-se no estrondo do baque de um corpo…" Noite na
Taverna
"Mais claro que o dia. Se chamas o amor a troca de duas
temperaturas, o aperto de dois sexos, a convulsão de dois peitos que arquejam,
o beijo de duas bocas que tremem, de duas vidas que se fundem tenho amado muito
e sempre! Se chamas o amor o sentimento casto e poro que faz cismar o pensativo,
que faz chorar o amante na relva onde passou a beleza, que adivinha o perfume
dela na brisa, que pergunta às aves, à manhã, à noite, às harmonias da música,
que melodia é mais doce que sua voz, e ao seu coração, que formosura há mais
divina que a dela—eu nunca amei. Ainda não achei uma mulher assim. Entre um
charuto e uma chávena de café lembro-me às vezes de alguma forma divina,
morena, branca, loira, de cabelos castanhos ou negros. Tenho-as visto que fazem
empalidecer—e meu peito parece sufocar meus lábios se gelam, minha mão se
esfria…" Macário
"Esse amor foi uma desgraça. Foi uma sina terrível. Ó meu pai! ó
minha segunda mãe! ó meus anjos! meu céu! minhas campinas! É tão triste
morrer!" Macário
Junqueira
Freire
O monge
beneditino Luís José Junqueira Freire (1832-1855) permaneceu enclausurado até
1854, atormentado pela falta de vocação e com uma sexualidade latente e
reprimida. Seus poemas mostram um jovem angustiado, incapaz de seguir a vida
religiosa e que vê na morte a única fuga (Evasão na Morte, característica típica
da poesia Mal do Século).
"Eis
a descrença e a crença,
Eis o absinto e a flor,
Eis o amor e o ódio,
Eis o prazer e a dor!"
Joaquim de
Sousândrade
Joaquim
de Sousa Andrade (1833-1902) era um republicano e abolicionista convicto e
militante, que morou em NY e mais tarde foi professor. Morto, sua obra foi
esquecida e só na década de 1960 foi resgatada. Usou inovações como a criação
de neologismos e metáforas, valorizadas só mais tarde. Segue aqui uma citação
deste que é um dos menos conhecidos dos poetas românticos brasileiros, apesar
de segundo apenas a Castro Alves na poesia social.
"Desde
a noite funérea de tristeza
Heleura está doente. Ara, morrendo,
Nunca perdera as cores do semblante,
Um formoso defunto: "Vivo! Vivo!"
Gritava a filha p'ra que não o levassem:
"Vivo! Vivo!" Prenúncios maus, diziam."
Casimiro de
Abreu
Comerciante,
Casimiro José Marques de Abreu nasceu em 4 de Janeiro de 1839 no município de
Barra de São João (que atualmente leva seu nome), levou vida boêmia e morreu
tuberculoso em 18 de outubro de 1860, três anos após voltar de Portugal, onde
estava a negócios. Sua poesia não foi muito inovadora, sendo considerado mais
ingênuo dos românticos. Conhecido como "poeta da infância", fala
muito da inocência perdida, como mostra a passagem abaixo. Um dos motivos de
sua nostalgia era a intransigência do pai, que o obrigou a se tornar
comerciante ao invés de lhe permitir ser poeta.
"Oh!
Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!"
Fagundes
Varela
Luís
Nicolau Fagundes Varela (1841-1875) foi um poeta romântico inspirado pelo
byronismo. Boêmio, este estudante de direito que nunca conclui o curso perdeu
seu filho ainda novo e da esposa o leva mais fundo à boêmia. Casando-se de
novo, muda-se para Niterói e falece, alcoólatra e mentalmente desequilibrado.
Considerado o menos ingênuo dos românticos, a perda do filho influenciou muito
sua obra, sendo o Cântico do Calvário indicação disto. Segue uma
passagem.
"Eras
na vida a pomba predileta
Que sobre um mar de angústia conduzia
O ramo da esperança. - Eras a estrela
Que entre as névoas do inverno cintilava
Apontando o caminho ao pergueiro."
Castro Alves
Antônio
Frederico de Castro Alves nasceu a 14 de março de 1847 na cidade que hoje leva
seu nome e morreu tuberculoso a 6 de julho de 1871. Tinha 15 anos quando se
matriculou no curso de Direito em Recife, onde iniciou sua carreira poética,
escrevendo poesia lírica e social (a social sendo a que mais o consagrou) a
favor da abolição da escravatura, sendo por isso chamado de Poeta dos
Escravos. Sua poesia lírica era menos idealizada que a de seus contemporâneos
românticos, apresentando uma mulher mais sensual menos idealizada.
Entusiasmou-se pelo teatro e casou-se com uma atriz chamada Eugênia Câmara,
dez anos mais velha, que o abandonou mais tarde. Tempos depois do casamento,
atira contra o próprio pé em uma caçada e tem o membro amputado. As caçadas
tiveram sua origem justamente como escapatória das constantes brigas que o
casal tinha começado a ter quando se mudaram para São Paulo. Mas após este
infeliz acidente ainda pôde andar, ainda que com o auxílio de uma bengala e um
pé de borracha. Em 1870 publica Espumas Flutuantes na Bahia, sua única
obra poética publicada em vida. O que segue é uma passagem de seu célebre Navio
Negreiro, parte de sua obra publicada postumamente em Os Escravos.
"Eras
um sono dantesco... O tombadilho,
Que das luzernas avermelha o brilho,
Em sangue a se banhar,
Tinir de ferros... Estalar do açoite...
Legiões de homens negros como a noite
Horrendos a dançar" Os Escravos
Gonçalves de
Magalhães
Domingos
José Gonçalves de Magalhães (1811-1882) nasceu em Niterói, RJ, e morreu em
Roma. Formou-se em Medicina, trouxe e divulgou o Romantismo no Brasil após sua
viagem à Europa. Fez poesia religiosa e indianista (estas o últimas o levaram
a grande polêmica com José de Alencar). Não era um grande poeta e é
considerado um poeta importante apenas pela introdução do Romantismo com seu
livro Suspiros poéticos e saudades.
Tobias
Barreto
Tobias
Barreto de Meneses (1839-1889), além de filósofo, ensaísta, jurista, crítico,
polemista, educador e político foi também um dos maiores nomes da poesia
social brasileira. Quando estudante, participava de polêmicas célebres com Castro
Alves. Brilhante, aos 15 anos ensinava latim. Aos 20 ia tornar-se
padre, mas foi expulso do seminário por boemia e indisciplina. No Recife onde
morreu foi catedrático da Faculdade de Direito. Seu único livro de versos
publicado foi Dias e Noites.
Martins Pena
Luís
Carlos Martins Pena (5/11/1815 - 7/12/1848) morreu jovem em Lisboa, tendo
escrito no período 28 peças teatrais. Quando jovem, estudou Belas Artes e
aprendeu mais sobre o teatro. Mais tarde trabalhou como censor teatral,
aprendendo ainda mais sobre sua arte. Apesar de ter escrito sua primeira peça, O
Juiz de Paz da Roça, em 1833, ela só foi encenada 5 anos mais tarde, pela
trupe de João Caetano, então um dos mais importantes atores brasileiros.
Apesar de ter tentado fazer teatro histórico (gênero bem-sucedido no
Romantismo europeu), foi como comediógrafo que mais se destacou; entre 1844 e
1846 escreveu 17 peças cômicas, criando o teatro de costumes brasileiro. É
comparado por alguns críticos com Manuel Antônio de Almeida,
por fazer algo próximo de um Realismo ingênuo. Sua obra mais importante é O
Noviço.
"E
vós, senhoras, esperai da justiça dos homens o castigo deste malvado (Para
Carlos e Emília:) E vós, meus filhos, sede felizes, que eu pedirei para todos
(ao público) indulgência!" O Noviço
Bernardo
Guimarães
Mineiro,
Bernardo Guimarães foi juiz, jornalista e professor. Atuou como juiz em Catalão,
onde tomou a polêmica medida de libertar presos que abarrotavam a cadeia
municipal. Vivia em um grande desleixo, como atestam pessoas que o visitavam.
Como professor também não era competente, tendo sido despedido por sua falta
de assiduidade e competência. Ele pretendia, junto com Álvares de
Azevedo, instalar a boêmia byroniana em São Paulo. Tornou-se célebre
principalmente por sua famosa obra A Escrava Isaura, que foi
adaptada para filme, teatro e televisão.
"As
linhas do perfil desenhavam-se distintamente entre o ébano da caixa do piano, e
as bastas madeixas ainda mais negras do que ele. São tão puras e suaves estas
linhas, que fascinam os olhos, enlevam a mente, e paralisam toda análise. A tez
é como o marfim do teclado, alva que não deslumbra, embaraçada por uma nuança
delicada, que não sabereis dizer se é leve palidez ou cor-de-rosa desmaiada. O
colo donoso e do mais puro louvor sustenta com graça inefável o busto
maravilhoso. Os cabelos soltos e fortemente ondulados se despenham caracolando
pelos ombros em espessos e luzidios rolos, e como franjas negras escondiam
completamente o dorso da cadeira, a que se achava recostada."
A Escrava
Isaura
"Pobre
Isaura! - disse Álvaro com a voz comovida, estendendo os braços à cativa. -
Chega-te a mim... Eu protestei no fundo de minha alma e por minha honra
desafrontar-te do jugo opressor e aviltante, que te esmagava, porque via em ti a
pureza de um anjo, e a nobre e altiva resignação de um mártir. Foi uma missão
santa, que julgo ter recebido do céu, e que hoje vejo coroada do mais feliz e
completo resultado. Deus enfim, por minhas mãos vinga a inocência e a virtude
oprimida, e esmaga o algoz." A Escrava Isaura
Manuel Antônio
de Almeida
Escritor
romântico de transição para o Realismo, Manuel Antônio de Almeida
(1831-1861) se formou em Medicina mas era jornalista por excelência. Um de seus
empregos antes do jornalismo foi assistente de tipógrafo. Só escreveu uma
obra, que foi em vida assinada anonimamente por ele apenas como "Um
Brasileiro". Este pseudônimo indicava que ele possivelmente não
continuaria a carreira literária. Morreu tragicamente aos 30 anos de idade, no
naufrágio do navio Hermes, enquanto fazia campanha para deputação federal.
Seguem algumas passagens desta obra, Memórias de um Sargento de Milícias.
"O
compadre compreendeu tudo: viu que o Leonardo abandonava o filho, uma vez que a
mãe o tinha abandonado, e fez um gesto como quem queria dizer: - Está bom, já
agora... Vá; ficaremos com uma carga às costas."
Memórias de um
Sargento de Milícias
"Passado
o tempo indispensável de luto, o Leonardo, em uniforme de Sargento de Milícias,
recebeu-se na Sé com Luisinha, assistindo à cerimônia a família em
peso." Memórias de um Sargento de Milícias
Joaquim
Manuel de Macedo
Joaquim
Manuel de Macedo (1820-1882) nasceu no RJ e formou-se médico. Fundou a revista Guanabara
com Gonçalves Dias, foi redator de revista, secretário,
orador do Instituto Histórico, político e professor. Amigo do imperador,
tornou-se preceptor dos filhos da princesa Isabel. Um dos primeiros românticos,
provavelmente o mais puramente romântico de todos na prosa, produziu diversos
livros entre os quais os mais célebres são A Moreninha (que
escreveu ainda muito jovem, com apenas 20, 21 anos de idade e lhe deu fama
imediata), O Moço Loiro e A Luneta Mágica.
"No
dia 20 de julho de 18... Na sala parlamentar da casa nº... Da rua de..., sendo
testemunhas os estudantes Fabrício e Leopoldo, acordaram Felipe e Augusto, também
estudantes, que, se até o dia de 20 de agosto do corrente ano, o segundo
acordante tiver amado a uma só mulher durante quinze dias ou mais, será
obrigado a escrever um romance em que tal acontecimento confesse; e, no caso
contrário, igual pena sofrerá o primeiro acordante. Sala parlamentar, 20 de
julho de 18... Salva a redação." A Moreninha
"Achei
minha mulher!... Bradava Augusto; encontrei minha mulher!... Encontrei minha
mulher!..." A Moreninha
Franklin Távora
João
Franklin da Silveira Távora (1842-1888) nasceu no Ceará mas viveu em
Pernambuco, onde se formou em Direito, e, a partir de 1874, viveu no Rio e
Janeiro. Foi deputado estadual em Pernambuco e funcionário da Secretaria do Império
no Rio. Foi além de contista e romancista um grande historiador, e como morreu
pobre, o Instituo Histórico e Geográfico Brasileiro do qual fazia parte deu
uma pensão a sua viúva e filho. Parte de sua obra de historiografia foi destruída
no final de sua vida pelo próprio autor, que sentia-se abandonado e miserável.
Franklin Távora criou a "literatura do Norte", como ele mesmo batizou
no prefácio de O Cabeleira. Embora tenha atacado José de
Alencar no começo da carreira, ele se arrependeu depois. Távora é um
romântico pré-naturalista. mantendo poucas características do Romantismo mas
não se desvencilhando totalmente deste. Entre as obras que fazem parte desta
literatura do Norte destacam-se O Cabeleira e O Matuto.
"Pela
sua organização, pelos seus predicados naturais, o Cabeleira não estava
destinado a ser o que foi, nós o repetimos. Os maus conselhos e os péssimos
exemplos que lhe foram dados pelos desnaturado pai converteram seu coração,
acessível em começo, ao bem e ao amor, em um músculo bastardo que só pulsava
por fim a paixões condenadas." O Cabeleira
"Morro
arrependido de meus erros. Quando caí nos braços da justiça, meu braço era já
incapaz de matar, porque eu já tinha entrado no caminho do bem."
O
Cabeleira
José de
Alencar
Escritor,
político e advogado, José Martiniano de Alencar nasceu a 1º de maio de 1829
no Ceará e morreu de tuberculose aos 48 anos no Rio de Janeiro, em 12 de
dezembro de 1877. Fez curso de Humanidades no RJ e formou-se em Direito em SP,
onde foi colega de aula de Álvares de Azevedo e Bernardo
Guimarães. Foi ministro da Justiça (1868-1870) e Senador do Império.
Um de seus descendentes foi o Presidente Humberto de Alencar Castelo Branco. É
considerado o maior escritor romântico brasileiro, tendo criado obras
regionalistas, sociais e indianistas. Neste último estilo, que criou junto com Gonçalves
Dias, enquadra-se O Guarani, que inspirou a célebre ópera de
Carlos Gomes. Alencar foi também poeta e teatrólogo. Entre seus maiores
romances estão O Guarani, Ubirajara, Iracema, Senhora, A Pata da Gazela,
Diva, Lucíola,
As Minas de Prata, A Viuvinha, Cinco
Minutos, Til, O Gaúcho, O Sertanejo, Encarnação,
Sonhos d'Ouro e O Tronco do Ipê.
"Aurélia
amava mais seu amor, do que seu amante; era mais poeta do que mulher; preferia o
ideal ao homem." Senhora
"As
cortinas cerraram-se, e as auras da noite, acariciando o seio das flores,
cantavam o hino misterioso do santo amor conjugal."
Senhora
"Iracema,
a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna,
e mais longo que seu talhe de palmeira.
O favo da jati não era doce como sue sorriso; nem a baunilha recendia no bosque
como seu hálito perfumado." Iracema
"Pousando
a criança nos braços paternos, a desventurada mãe desfaleceu, como a jetica,
se lhe arrancam o bulbo. O esposo viu então como a dor tinha consumido seu belo
corpo; mas formosura ainda morava nela, como o perfume na flor caída do manacá."
Iracema
"Poucos
homens conheciam como Horácio o coração da mulher; porque bem raros o teriam
estudados com tamanha assiduidade. O mais sábio professor ficaria estupefato da
lucidez admirável, com que o leão costumava ler nesse caos da paixão, que a
anatomia chamou coração de mulher." A Pata da Gazela
"
É verdade! Murmurou soltando uma fumaça de charuto. O leão deixou que o
cerceassem as garras; foi esmagado pela pata da gazela."
A Pata da
Gazela
"Podia
dar-lhe outra resposta mais breve, e dizer-lhe simplesmente que tudo isto
sucedeu porque me atrasei cinco minutos." Cinco Minutos
"Calando-me
naquela ocasião, prometi dar-lhe a razão que a senhora exigia; e cumpro o meu
propósito mais cedo do que pensava. Trouxe no desejo de agradar-lhe a inspiração;
e achei voltando a insônia de recordações que despertara a nossa conversa.
Escrevi as páginas que lhe envio, às quais a senhora dará um título e um
destino que merecem. É um 'perfil de mulher' apenas esboçado."
Lucíola
"Quis
pintar-lhe o que vi: a incubação de uma alma violentamente comprimida por uma
terrível catástrofe; a vegetação de um corpo vivendo apenas pela força da
matéria e do instinto; a revelação súbita da sensibilidade embotada pelos
choques violentos que partiram o estame de uma infância feliz; a floração
tardia do coração confrangido pelo escárnio e pelo desprezo; finalmente a
energia e o vigor do espírito que surgia, soltando por misteriosa coesão os
elos partidos da vida moral, e continuando no futuro a adolescência
truncada." Lucíola
"Porque
nasci para esta vida nova. Oh! Tu não sabes... Depois que reabilitei o nome de
meu pai e o meu, ainda me faltava uma condição para voltar ao mundo. [...] A
tua felicidade, o teu desejo. Se tivesses esquecido do teu marido para amar-me
sem remorso e sem escrúpulo, eu estava resolvido... a fugir-te para
sempre!" A Viuvinha
"
A Emília, de quem eu te falo, não existiu para ninguém mais senão para mim,
em quem ela viveu e morreu. A Emília, que o mundo conhecera e já esqueceu
talvez, foi a moça formosa, que atravessou os salões, como a borboleta,
atirando às turbas o pó dourado de suas asas. A flor, de que ela buscava o
mel, não viçava ali, nem talvez na terra." Diva
"
Não sei!... Respondeu-me com indefinível candura. O que sei é que te amo!...
Tu não é só o arbítrio supremo de minha alma, és o motor de minha vida, meu
pensamento e minha vontade. És tu que deve pensar e querer por mim... Eu?... Eu
te pertenço; sou uma cousa tua. Podes conservá-la ou destruí-la; podes fazer
dela tua mulher ou tua escrava!... É o teu direito e o meu destino. Só o que
tu não podes em mim, é fazer que eu não te ame!..." Diva
Visconde de
Taunay
O
Visconde Alfredo d'Escragnolle Taunay foi um militar e político, tendo escrito
o romance de transição para o Naturalismo Inocência e a obra
em francês Retirada de Laguna. Foi também um dos fundadores da Academia
Brasileira de Letras; quando aconteceu a proclamação da República tomou
desgosto da política e retirou-se da vida pública.
"À
medida que as suspeitas sobre as intenções do inocente Meyer iam tomando vulto
exagerado, nascia ilimitada confiança naquele outro homem que lhe era também
desconhecido e que a princípio lhe causara tanta prevenção quanto o
segundo." Inocência.
"Inocência,
coitadinha...
Exatamente neste dia fazia dois anos que o seu gentil corpo fora entregue à
terra, no imenso sertão de Santana do Paranaíba para aí dormir o sono da
eternidade." Inocência.