Simbolismo
O
Simbolismo, movimento essencialmente poético do fim do século XIX, representa
uma ruptura artística radical com a mentalidade cultural do
Realismo-Naturalismo, buscando fundamentalmente retomar o primado das dimensões
não-racionais da existência.
Para
tanto, redescobre e redimensiona a subjetividade, o sentimento, a imaginação,
a espiritualidade; busca desvendar o subconsciente e o inconsciente nas relações
misteriosas e transcendentes do sujeito humano consigo próprio e com o mundo.
Numa
visão mais ampla, tanto no campo da filosofia e das ciências da natureza
quanto no campo das ciências humanas, a desconstrução das teorias
racionalistas faz-se notar, seja por meio da física relativista de Einstein, da
psicologia do inconsciente de Freud ou das tórias filosóficas de Schopenhauer
e de Friedrich Nietzsche.
Assim,
o surgimento desse estilo por um lado reflete a grande crise dos valores
racionalistas da civilização burguesa, no contexto da virada do século XIX
para o século XX, e por outro inicia a criação de novas propostas estéticas
precursoras da arte da modernidade.
Contexto
histórico
Na
época em que o simbolismo se desenvolveu no Brasil na Europa a Itália e a
Alemanha buscavam a unificação e reinava uma paz que foi usada na preparação
para a Primeira Guerra Mundial. La o simbolismo era forte e o parnasianismo
fraco. Aqui começava a República e o movimento foi abafado pelos
parnasianistas que dominavam a produção literária da época.
Origens
do Simbolismo
Ao
longo da década de 1890, desenvolveu-se na França um movimento estético a
princípio apelidado de "decadentismo" e depois
"Simbolismo". Por muitos aspectos ligado ao Romantismo e tendo berço
comum ao Parnasianismo ("Parnasse Contemporain", 1866), o
Simbolismo gerou-se quando escritores passaram a considerar que o Positivismo de
Augusto Comte e o demasiado uso da ciência e do ateísmo (procedimentos do
Realismo) não conseguiam expressar completamente o que acontecia com o homem e
a Natureza.
A
França foi o berço do Simbolismo, que se manifestou no satanismo e no spleen
de As Flores do Mal, do poeta Charles Baudelaire; no mistério e na
destruição da linguagem linear de Um lance de Dados e de Tardes de
um Fauno de Stéphane Mallarmé; no marginalismo de Outrora e Agora,
de Paul Verlaine e ainda no amoralismo de Uma Temporada no Inferno, de
Jean Nicolas Rimbaud. Segundo algumas fontes, Edgar Allan Poe é considerado o
precursor desse movimento, por ter influenciado nas obras de Baudelaire.
Características
do Simbolismo
musicalidade e
sinestesia
Visões,
salmos e cânticos serenos,
surdinas
de órgãos flébeis, soluçantes...
Dormências
de volúpicos venenos
sutis
e suaves, mórbidos, radiantes...
vocábulo litúrgico
e novamente a musicalidade e a sinestesia.
Infinitos
espíritos dispersos,
Inefáveis, edênicos, aéreos,
Fecundai
o mistérios destes versos
Com
a chama ideal de todos os mistérios.
espiritualidade,
mistérios, diafaneidade constantemente presente nos poemas.
Tudo!
Vivo e nervoso e quente e forte,
nos
turbilhões quiméricos do Sonho,
passe,
cantando, ante o perfil medonho
e
o tropel cabalístico da Morte!
De novo a
sinestesia, presença do sonho e a referência ao misticismo da Cabala.
Características
na forma:
Não se descreve
um objeto; sugere-se a existência dele.
Emprego de letras
maiúsculas no verso.
Uso de um vocabulário
bíblico, litúrgico, esotérico e arcaico no sentido de revitalizá-lo.
Musicalidade.
A imprecisão no
sentido de certos vocábulos para caracterizar o indefinível e o indizível.
Como pode-se
notar em Antífona, dá-se importância às frases nominais.
Embora tenham
dado importância ao verso livre, os simbolistas ainda estavam presos a poemas
bem elaborados formalmente, como os parnasianos.
Características
no conteúdo:
Religiosidade,
misticismo, espiritualismo, esoterismo.
Expressão de
estados da alma profundos e complexos.
Sonho; não o
sonho sentimental dos Românticos, mas os sonhos mais escondidos do ser humano.
Presença do
inconsciente e do subconsciente.
O
Simbolismo em Portugal
Com
a publicação de Oaristos, de Eugenio de Castro, em 1890, inicia-se
oficialmente o Simbolismo português, durando até 1915, época do surgimento da
geração Orpheu, que desencadeia a revolução modernista no país, em muitos
aspectos baseada nas conquistas da nova estética.
Conhecidos
como adeptos do Nefelibatismo (espécie de adaptação portuguesa do
Decadentismo e do Simbolismo francês), e, portanto como nefelibatas (pessoas
que andam com a cabeça nas nuvens), os poetas simbolistas portugueses vivenciam
um momento múltiplo e vário, de intensa agitação social, política, cultural
e artística. Com o episódio do Ultimatum inglês, aceleram-se as
manifestações nacionalistas e republicanas, que culminarão com a proclamação
da República, em 1910.
Portanto,
os principais autores desse estilo em Portugal seguem linhas diversas, que vão
do esteticismo de Eugênio de Castro ao nacionalismo de Antônio Nobre e outros,
até atingirem maioridade estilística com Camilo Pessanha: o mais importante
poeta simbolista português.
Estudo
dos principais autores e obras
Além
de Raul Brandão, um dos raros escritores de prosa simbolista, na verdade prosa
poética, representada pela trilogia que compreende as obras A farsa, Os
pobres e Húmus, Eugênio de Castro, Antônio Nobre e Camilo Pessanha são
os poetas mais expressivos deste estilo em Portugal.
Camilo
Pessanha (1867-1926)
Autor
de apenas um livro, Clepsidra, publicado em 1922, Camilo Pessanha exerceu
grande influência, particularmente na geração de Orpheu, que iniciou o
Modernismo em Portugal.
Considerado
um poeta de leitura pouco acessível para o grande público, um criador que
inspirou outros criadores, passou grande parte da vida em Macau (China), onde
conheceu o ópio e conviveu com a poesia chinesa, de que foi tradutor para o
português.
Os
poemas de Camilo Pessanha caracterizam-se por um forte poder de sugestão e
ritmo, apresentando imagens estranhas, insólitas, não lineares, isto é,
repletas de rupturas e cores – elementos tipicamente simbolistas.
Neles
predomina o tema do estranhamento entre o eu e o corpo; o eu e a existência e o
mundo, cujos elementos mais familiares ao mesmo tempo tornam-se esquivos,
perante uma sensibilidade poética fina e sutil, mas na qual não se encontram
os derramamentos emocionais, a subjetividade egocêntrica.
O
Simbolismo no Brasil
Iniciado
oficialmente em 1893, com a publicação de Missal (prosa poética) e Broquéis,
de Cruz e Souza, considerado o maior representante do movimento no país, ao
lado de Alphonsus de Guimarães, o Simbolismo brasileiro, segundo alguns
autores, não foi tão relevante quanto o europeu. Em outras palavras, não
conseguiu substituir os cânones da literatura oficial, predominantemente
realista e parnasiana.
Esse
fenômeno não é difícil de entender: a ênfase no primitivo e no inconsciente
desta poesia, seu caráter universalizante e ao mesmo tempo intimista, não
respondiam às questões nacionais.
Por
outro lado, entretanto, pelas mesmas características mencionadas, as manifestações
simbolistas no Brasil, especialmente no Sul, terra de Cruz e Souza, possuem uma
aura de "seita", com verdadeiras sociedades secretas cujos ritos, jargões
e nomes sugerem os traços essenciais do movimento (por exemplo: "Romeiros
da Estrada de São Tiago", "Magnificentes da palavra de escrita",
etc).
Movimento
de cunho idealista, o Simbolismo teve que enfrentar no Brasil a atmosfera de
oposição e hostilidade criada pelo Zeitgeist realista e positivista
dominante desde 1870. O prestígio do parnasianismo não deixou margem para que
se reconhecesse o movimento simbolista e avaliasse o seu valor e alcance, tão
importantes que a sua repercussão e influência remotas são notórias em relação
à literatura modernista. O Simbolismo foi abafado pela ideologia dominante e os
adeptos do simbolismo sofreram sob forte oposição.