Trovadorismo
(1198-1418)
PRELIMINARES
Às primeiras décadas desta época transcorrem durante a
guerra de reconquista do solo português ainda em parte sob domínio mourisco,
cujo derradeiro ato se desenrola em 1249, quando Afonso III se apodera de
Albufeira, Faro, Loulé, Aljezur e Porches, no extremo sul do País, batendo
definitivamente os últimos baluartes sarracenos em Portugal. E apesar de
Mo absorvente a prática guerreira durante esses anos de consolidação política
e territorial, a atividade literária beneficiou-se de condições propícias e
pôde desenvolver-se normalmente. Cessada a contingência bélica, observa-se o
recrudescimento das manifestações sociais típicas dos períodos de paz e
tranqüilidade ociosa, entre as quais a literatura.
Em resultado desse clima pós-guerra, a poesia medieval
portuguesa alcança, na segunda metade do século XIII, seu ponto mais alto. A
origem remota dessa poesia constitui ainda assunto controvertido;- admitem-se
quatro fundamentais teses para explicá-la: a tese arábica, que considera a
cultura arábica como sua velha raiz; a tese folclórica, que a julga criada
pelo povo; a tese médio-latinista, segundo a qual essa poesia ter-se-ia
originado da literatura latina produzida durante a Idade Média; a te se litúrgica
considera-a fruto da poesia litúrgico-cristã elaborada na mesma época.
Nenhuma delas é suficiente, para resolver o problema, tal a sua
unilateralidade. Temos de apelar para todas, ecleticamente, a fim de abarcar a
multidão de aspectos contrastantes apresentada pela primeira floração da
poesia medieval.
Todavia, é da Provença que vem o influxo próximo. Aquela região
meridional da França tornara-se no século XI um grande centro de atividade lírica,
mercê das condições de luxo e fausto oferecidas aos artistas pelos senhores
feudais. As Cruzadas, compelindo os fiéis a pró-curar Lisboa como porto mais
próximo para embarcar com destino a Jerusalém, propiciaram a movimentação
duma fauna humana mais ou menos parasitária, em meio à qual iam os jograis.
Estes, penetrando pelo chamado “caminho francês” aberto nos Pirineus,
introduziram em Portugal a nova moda poética.
Fácil foi sua adaptação à realidade portuguesa, graças a ter
encontrado um ambiente favoravelmente predisposto, formado por uma espécie de
poesia popular de velha tradição. A íntima fusão de ambas as correntes (a
provençal e a popular) explicaria o caráter próprio assumido pelo
trovadorismo em terras portuguesas.
A época inicia-se em 1198 (ou 1189), com a “cantiga de garvaia”,
dedicada por Paio Soares de Taveirós a Maria Pais Ribeiro, e termina em 1418,
quando Fern5o Lopes é nomeado Guarda-Mor da Torre do Tombo, ou seja,
conservador do arquivo do Reino, por D. Duarte.
Origem
da Palavra Trovador
Provença, o poeta era chamado de troubadour, cuja forma
correspondente em Português é trovador, da qual deriva trovadorismo,
trovadoresco, trovadorescamente. No norte da França, o poeta recebia o
apelativo trouvère, cujo radical é igual ao anterior: trouver (=achar):
os poetas deviam ser capazes de compor, achar sua canção, cantiga ou
cantar, e o poema assiM se denominava por implicar o canto e o acompanhamento
musical.
Duas espécies principais apresentava a poesia trovadoresca: a lírico-amorosa
e a satírica. A primeira divide-se em cantiga de amor e cantiga de amigo; a
segunda, em cantiga de escárnio e cantiga de maldizer. O idioma empregado era o
galego-português, em virtude da então unidade lingüística entre Portugal e a
Galiza.
CANTIGA DE AMOR
— Neste tipo de cantiga, o trovador empreende a confissão, dolorosa e quase
elegíaca, de sua angustiante experiência passional frente a uma dama inacessível
aos seus apelos, entre outras razões porque de superior estirpe social,
enquanto ele era, quando muito, fidalgo decaído. Uma atmosfera plangente,
suplicante, de litania, varre a cantiga de ponta a ponta. Os apelos do trovador
colocam-se alto. num plano de espiritualidade, de idealidade ou contemplação
platônica, mas entranham-se-lhe no mais fundo dos sentidos; o impulso erótico
situado na raiz das súplicas transubstancia-se, purifica-se, sublima-se. Tudo
se passa como se o trovador “fingisse”, disfarçando com o véu do
espiritualismo, obediente às regras de conveniência social e da moda literária
vinda da Provença, o verdadeiro e oculto sentido das solicitações dirigidas
à dama. A custa de “fingidos” ou incorrespondidos, os estímulos amorosos
transcendentalizam-se: repassa-os um torturante sofrimento interior que se segue
à certeza da inútil súplica e da espera dum bem que nunca chega. É a
coita (= sofrimento) de amor, que, afinal, ele confessa.
As mais das vezes, quem usa da palavra é o próprio
trovador, dirigindo-a com respeito e subserviência à dama de seus cuidados (mia
senhor ou mia dona = minha senhora), e rendendo-lhe o culto que o
“serviço amoroso” lhe impunha. E este orienta-se de acordo com um rígido
código de comportamento ético: as regras do “amor cortês”, recebidas da
Provença. Segundo elas, o trovador teria de mencionar comedida-mente o seu
sentimento (mesura), a fim de não incorrer no desagrado (sanha) da
bem-amada; teria de ocultar o nome dela ou recorrer a um pseudônimo (senhal),
e prestar-lhe uma vassalagem que apresentava quatro fases: a primeira
correspondia à condição de fenhedor, de quem se consome em
suspiros; a segunda é a de precador, de quem ousa declarar-se e pedir; entendedor
é o namorado; drut, o amante. O lirismo trovadoresco português
apenas conheceu as duas últimas fases, mas o drut (drudo em Português)
se encontrava exclusivamente na cantiga de escárnio e maldizer- Também a senhal
era desconhecida de nosso trovadorismo- Subordinando o seu sentimento às
leis da corte amorosa, o trovador mostrava conhecer e respeitar as dificuldades
interpostas pelas convenções e pela dama no rumo que o levaria à consecução
dum bem impossível- Mais ainda: dum bem (e “fazer bem” significa
corresponder aos requestos do trovador) que ele nem sempre desejava alcançar,
pois seria pôr fim ao seu tormento masoquista, ou inicio dum outro maior. Em
qualquer hipótese, só lhe restava sofrer, indefinidamente, a
coita amorosa.
E ao tentar exprimir-se, a plangência da confissão do
sentimento que o avassala, — apoiada numa melopéia própria de quem mais
murmura suplicantemente do que fala —, vai num crescendo até a última
estrofe (a estrofe era chamada na lírica trovadoresca de cobra; podia
ainda receber o nome de cobla ou de talho). Visto uma idéia
obsessiva estar empolgando o trovador, a confissão gira em torno dum mesmo núcleo,
para cuja expressão o enamorado não acha palavras muito variadas, tão intenso
e maciço é o sofrimento que o tortura. Ao contrário, a corrente emocional,
movimentando-se num círculo vicioso, acaba por se repetir monotonamente, apenas
mudado o grau do lamento, que aumenta em avalanche até o fim. O estribilho ou
refrão, com que o trovador pode rematar cada estrofe, diz bem dessa
angustiante idéia fixa para a qual ele não encontra expressão diversa.
Quando presente o estribilho, que é recurso típico da poesia popular, a
cantiga chama-se de refrão- Quando ausente, a cantiga recebe o nome de cantiga
de maestria, por tratar-se dum esquema estrófico mais complexo,
intelectualizado, sem o suporte facilitador daquele expediente repetitivo.
CANTIGA DE AMIGO — Escrita igualmente pelo trovador
que compõe cantigas de amor, e mesmo as de escárnio e maldizer, esse tipo de
cantiga focaliza o outro lado da relação amorosa: o fulcro do poema é agora
representado pelo sofrimento amoroso da mulher, via de regra pertencente às
camadas populares (pastoras, camponesas, etc.). O trovador, amado
incondicionalmente pela moça humilde e ingênua do campo ou da zona ribeirinha,
projeta-se-lhe no íntimo e desvenda-lhe o desgosto de amar e ser abandonada, em
razão da guerra ou de outra mulher. O drama é o da mulher, mas quem ainda compõe
a cantiga é o trovador: 1) pode ser ele precisamente o homem com quem a moça
vive sua história; o sofrimento dela, o trovador é que o conhece, melhor do
que ninguém; 2) por ser a jovem analfabeta, como acontecia mesmo às fidalgas.
O trovador vive uma dualidade amorosa, de onde extrai as
duas formas de lirismo amoroso próprias da época: em espírito, dirige-se à
dama aristocrática; com os sentidos, à camponesa ou à pastora. Por isso, pode
expressar autenticamente os dois tipos de experiência passional, e sempre na
primeira pessoa (do singular ou plural), 1) como agente amoroso que padece a
incorrespondência, 2) como se falasse pela mulher que por ele desgraçadamente
se apaixona. É digno de nota que essa ambigüidade, ou essa capacidade de
projetar-se na interlocutora do episódio e exprimir-lhe o sentimento;
extremamente curiosa como psicologia literária ou das relações humanas, não
existia antes do trovadorismo nem jamais se repetiu depois.
No geral, quem ergue a voz é a própria mulher,
dirigindo-se em confissão à mãe, às amigas, aos pássaros, aos arvoredos, às
fontes, aos riachos, O conteúdo da confissão é sempre formado duma paixão intransitiva
ou incompreendida, mas a que ela se entrega de corpo e alma. Ao passo que a
cantiga de amor é idealista, a de amigo é realista, traduzindo um sentimento
espontâneo, natural e primitivo por parte da mulher, e um sentimento
donjuanesco e egoísta por parte do homem.
Uma tal paixão haveria de ter sua história: as cantigas
surpreendem “momentos” do namoro, desde as primeiras horas da corte até as
dores do abandono, ou da ausência, pelo fato de o bem-amado estar no fossado
ou no bafordo, isto é, no serviço militar ou no exercício das
armas. Por isso, a palavra amigo pode significar namorado e
amante.
A cantiga de amigo possui caráter mais narrativo e descritivo que a de
amor, de feição analítica e discursiva. E classifica-se de acordo com o
lugar geográfico e as circunstâncias em que decorrem os acontecimentos,
em serranilha, pastorela, barcarola, bailada, romaria, alba ou alvorada
(surpreende os amantes no despertar dum novo dia, depois de uma noite de
amor).
CANTIGA DE ESCÁRNIO E CANTIGA DE MALDIZER
– A cantiga de escárnio é aquela em que a sátira se constrói
indiretamente, por meio da ironia e do sarcasmo, usando “palavras cobertas,
que hajam dois entendimentos para lhe lo não entenderem”, como reza a Poética
Fragmentária que precede o Cancioneiro da Biblioteca Nacional (antigo
Colocci-Brancuti). Na de maldizer, a sátira é feita diretamente, com
agressividade, “mais descobertamente”, com “palavras que querem dizer mal
e não haverão outro entendimento senão aquele que querem dizer chãmente”,
como ensina a mesma Poética Fragmentária.
Essas duas formas de cantiga satírica, não raro escritas
pelos mesmos trovadores que compunham poesia lírico-amorosa, expressavam, como
é fácil depreender, o modo de sentir e de viver próprio de ambientes
dissolutos, e acabaram por ser canções de vida boemia e escorraçada, que
encontrava nos meios frascários e tabernários seu lugar ideal. A linguagem em
que eram vazadas admitia, por isso, expressões licenciosas ou de baixo-calão:
poesia “maldita”, descambando para a pornografia ou o mau gosto, possui
escasso valor estético, mas em contrapartida documenta os meios populares do
tempo, na sua linguagem e nos seus costumes, com uma flagrância de reportagem
viva.
Visto constituir um tipo de poesia cultivado notadamente
por jograis de má vida, era natural propiciasse e estimulasse o acompanhamento
de soldadeiras (= mulheres a soldo), cantadeiras e bailadeiras,
cuja vida airada e dissoluta fazia coro com as chulices que iam nas letras
das canções.