Desmistificando
a Redação da UFRGS
Como
matar o bicho pra virar bixo
Houve um tempo em que a redação da
UFRGS provocava arrepios nos candidatos. Os professores tinham de esclarecer
sempre as mesmas perguntas: Onde eu coloco a narração? Posso usar o eu?
Passados
talvez quinze ou dezesseis longos anos, assentadas as dúvidas, instaladas as
certezas, os vestibulandos acostumaram-se a esse modelo.
Entretanto, ares outros varreram o
campus mais cobiçado do Estado. Talvez ventos não tão fortes para modificar o
já instalado. Fato é que o modelo de redação da UFRGS passa por um
esgotamento. Enquanto outras instituições oferecem várias propostas, a
exemplo da Federal de Pelotas, que pede a dissertação convencional ou
a carta, aquela se acomodou no de sempre.
Pois a mesma banca da UFRGS, que
condena formulismos (atualmente, por um lado, por outro lado, a cada dia que
passa) criou o formulismo nas cabeças programadas dos vestibulandos.
Assim, os concorrentes à vaga
habituaram-se a fazer a tal narrativa como maneira de preencher linhas em
branco. Contam “histórias”, usando o eu. Mesmo que a proposta não os
obrigue a isso, o aluno quer narrar e narrar – bela muleta que consome, quem
sabe, cinco ou seis linhas.
Eles não lêem as sutilezas da
proposta, não a interpretam corretamente, não observam os meandros da frase.
Querem é contar a tal “história” e pronto. Criou-se a fórmula mágica.
Por mais que os nobres senhores da
banca da UFRGS deplorem essas técnicas do baixo clero (aliás, culpam os
professores de cursinho por criar tais formulismos, dando-nos a paternidade de
um filho que nasce bem antes de nós e a nossa revelia), acabam estimulando-as
pela imutabilidade da proposta, senhora um tanto madura, necessitando mais que
uma simples cirurgia de nariz.
O Raio do Eu
Recordo de uma proposta da Federal
de Santa Maria em que, no final, pedia-se para o vestibulando valer-se da sua
experiência de mundo. Ora, o aluno, ao observar essa informação, logo pensa
tratar-se de um texto como o da UFRGS. “Então eu tenho que contar uma história?”
E lá vêm mais “histórias”.
E os senhores professores da UFRGS
criaram um formulismo que ultrapassa a proposta da própria instituição, para
infernizar outros concursos, em outros pagos. Disseminou-se a praga, feito doença
de vaca.
Os
concorrentes à vaga que nos lêem tenham calma! O texto opinativo revela a
experiência de mundo da criatura que o gerou. Se eu percebo que esse governo
fez pouco pelo social, escrevo isso e não preciso colocar o maldito “na minha
opinião”. Seria a opinião de quem? Do Bush? Do Bin Laden?
Logo, está implícito o eu
em um texto de opinião, evidentemente. O que ocorre, ou ocorria na UFRGS, é
que a proposta pedia um episódio. Bom, tínhamos aí algo diferente.
Se o tema era a solidão, o
escrevente deveria partir de uma situação de solidão havida com ele. Assim
feito, tínhamos o ponto de
partida; o de chegada era generalizar, ou seja, uma dissertação sobre isso,
baseada, é claro, naquela narrativa breve.
Portanto, o EU, o episódio, a
narrativa tornam a experiência pessoal, antes implícita, nas entrelinhas, em
explícita, declarada e escarrada na frase. Em última análise, a redação da
UFRGS explicitou a experiência, trouxe-a à tona.
E para quê?
Ora bolas, não era capricho de
algum professor de lá, ou vontade própria de beldade
acadêmica! Acontece que, com isso, o aluno não poderia reclamar o
desconhecimento do assunto. Além disso, a estrutura do texto obedeceria a um
ponto inicial particular, que evoluiria para a generalização. O eu
que se expande à sociedade, ao mundo aflito.
Novamente, não foi invenção de
algum professor daquela instituição o qual resolveu torturar, sádico, os
vestibulandos. Esse tipo de texto está todos os dias nos jornais: há um
acidente específico, envolvendo dois automóveis. Depois dos dados sobre o
infortúnio dos motoristas, discute-se o trânsito
da cidade. Do ponto particular, específico do acidente, evoluímos à
generalização. Difícil?
E o resultado disso?
Bom... O vestibulando contava sua
experiência de solidão e depois generalizava o problema, esquecendo totalmente
o ponto de partida. Isso quer dizer que pouco contribuía aquele episódio para
a coesão do texto. Voltamos ao início do mundo. Uma proposta queria ser
diferente, forçar o escrevinhador a argumentar de fato, fazê-lo esquecer as
babaquices pré-moldadas, tal qual miojo em panela (funcional, rápido e sempre
com o mesmo gosto), mas tropeçou onde todos os mortais tropeçam. A redação
escolar é mesmo uma farsa da comunicação. A UFRGS acabou provando isso (a
afirmação, não o miojo). Por mais original
que seja a proposta, vira moda, fórmula pasteurizada em mundo
globalizado.
Chacrinha tinha razão.
Quem não se comunica se trumbica.
Por que o vestibulando vive trumbicado? Porque ele não tem o que comunicar. Não
há, de fato, uma situação de comunicação: alguém querendo dizer algo para
outro alguém.
Trata-se aqui de alguém fingindo
querer dizer algo para outro alguém que terá de corrigir 80 redações naquele
dia, não importando se o filho está doente, se o dinheiro não chegou para o mês.
Ou o leitor pensa que corretor de redação não é gente, não tem dentes,
apreensões e dúvidas?
Essas são questões sobre as quais
você aí, paciente leitor, nunca pensou, não é? Mas calma, muita calma,
porque esse trabalho de correção é sério, e essa equipe merece nosso
respeito e consideração. A tarefa de corrigir redações não dá popularidade
a ninguém, dirá o professor de redação. De fato, o aluno pensa que estamos
“pegando no pé”, que estamos sendo exigentes demasiadamente. Faz parte do
trabalho.
Entretanto, a verdade é que não
somos um PC, nem temos uma série de chips instalada entre nossas orelhas.
Quais os tipos de redação da
UFRGS?
Nada de formulismos baratos,
senhores, não vamos cair em tentação. Observemos a proposta de 97:
Pois bem: sua redação deverá desenvolver sua resposta à questão: que
reformulações deve haver no Concurso Vestibular da UFRGS?
Para isso, parta de sua experiência
pessoal, enuncie a(s) reformulação (ões) necessária (s) e apresente motivos
para sua proposta.
Como conseqüência da proposta,
muitos candidatos contaram episódios: “No meu primeiro vestibular, estava
chovendo, meu irmão mais novo acordou-me com olhar faceiro...”
É a santa necessidade de preencher
linhas em branco.
Examinemos a proposta com atenção.
O que você, leitor, entende por experiência pessoal? Qual a sua experiência
em namoros e em “ficares”?
A proposta não pede um episódio
específico, ou seja, não pede um namoro específico que houve no seu passado,
mas sua experiência de namorado. Que tal? Foi bom para você?
No entanto, se a proposta exigir a
localização de um episódio, de um
momento, de uma situação
de ciúme, de medo, de dor de barriga, conte lá sua “historinha”.
E o EU?
O eu
vai bem. Use-o se necessário for. Na verdade, isso não define a qualidade do
texto. Esqueça esse trauma surgido quando a professora deu com a régua nos
seus dedos por usar o tal eu.
O que ocorreu em janeiro?
Observem a proposta de janeiro de
2001:
O que você prefere: a verdade que incomoda ou a ilusão que
reconforta?
Na organização do seu texto, você
poderá tomar como ponto de partida sua experiência pessoal ou a de alguém que
você conheça, ou poderá valer-se do seu conhecimento de mundo, expondo
argumentos que sustentem seu ponto de vista.
Ora, proposta quer uma
escolha. É feita uma pergunta. Percebe-se a tentativa de estimular o
vestibulando a tomar uma posição clara. Esse negócio de ficar em cima do muro
(se, por um lado é bom; por outro é ruim) não dá bons resultados.
Comprometa-se, afinal as opiniões servem para isso, para o compromisso com as
idéias. Se alguém lhe disse para ter cuidado com a opinião em função do
corretor, estava redondamente enganado. Então, em vez de um texto com ponto de
vista, faça uma carta de amor ao corretor! Talvez ele goste. O concorrente não
deve escrever pensando em agradar àquele que o irá ler.
A proposta ficou aberta ao usar o
“poderá”. Além disso, experiência pessoal e conhecimento de mundo podem
ser implícitos ou explícitos. Não havia a necessidade de contar um episódio,
mas nada o impedia de fazê-lo.
A proposta perdeu o sentido. Em última
análise: faça uma redação qualquer respondendo à pergunta. As explicações
depois da pergunta são desnecessárias. Trata-se de uma dissertação sobre o
assunto, as orientações abertas queriam dizer apenas isto: escreva um texto
dissertativo sobre o assunto.
Aqueles comandos orientadores,
balizadores da argumentação (comuns ao longo de todos esses anos,
diferenciando a UFRGS das demais – verifique, analise, diga, afirme,
identifique ) sumiram ou perderam a função.
Sabemos todos
que proposta bem feita é aquela que delimita o assunto, que restringe, que
ilumina os caminhos dos desorientados.
Isso acabou:
a redação da UFRGS banalizou-se, tornou-se igual às outras, maria entre
marias. Perdeu o charme, o encanto e tornou-se acessível a qualquer mortal.
Tornou-se um vale-tudo no qual o concorrente pode fazer o que bem entender,
desde que não escreva uma carta suplicante ao corretor a pedir nota boa, pelo
amor de sua mãe doente, etc.
Antes tínhamos
uma redação que valorizava a interpretação, logo o aluno bom, de qualidade,
que entendia a proposta, sabia analisá-la, pois a estudou antecipadamente,
treinou constantemente. Na proposta de 2001, não houve a valorização clara do
bom aluno. Quem não estivesse acostumado à proposta da UFRGS poderia fazer
esse texto, sem maiores problemas ou aflições.
Passou-se uma régua igualando os
viventes, e prova de vestibular quer, justamente, fazer o contrário.
Os Temas para 2002
Aqui está
algo que ainda permanece diferente na UFRGS. Os temas continuam sendo
subjetivos, guardadas as exceções que veremos adiante. A corrupção no
Congresso, a explosão no World Trade Center, a doença da Ana Maria Braga, a
crise na Argentina são assuntos que não caem na prova, pelo menos não desse
modo.
Vejamos o que
houve nos três últimos anos:
1999 –
Competição
2000 – Ética
2001 –
Verdade ou Ilusão
Eis temas que
não foram manchetes em jornais. Pode-se partir, em qualquer um deles, de uma
experiência pessoal, ou de um episódio específico sobre o assunto. Como fazê-lo
diante do tema corrupção? “Quando eu era corrupto, roubei muito, juntamente
com o PC Farias.”
No entanto, o coronelismo do painho
ACM talvez fosse escolhido, mas como autoritarismo.
O aluno poderia utilizar uma experiência pessoal nesse sentido. De sua
parte, o episódio em Nova Iorque remete à intolerância.
A Título de Conclusão
Talvez eu devesse me atraver a -
como professor de curso pré-vestibular, tendo atualmente 6 mil alunos sob minha
batuta - suplicar à UFRGS que procure interagir com a comunidade. Que abra a
possibilidade de troca de informações com os professores de segundo grau. Por
que, afinal de contas, a nossa UFRGS (que tanto orgulho nos dá, por ser pública
e por abrigar gente tão competente) não faz como outras instituições, como a
UFSC, UFP, que produzem um relatório – verdadeiro livro – comentando os
resultados da redação? Afinal, nós, professores de redação de cursinhos, de
escolas, e os profissionais da UFRGS, estamos na mesma canoa.
Talvez eu devesse dizer isso. Mas não
me vou atrever, posso ser mal interpretado. Os professores de cursinho são
sempre os culpados dos formulismos – talvez nos atribuam também a explosão
do WTC.
As
Diferenças entre a Redação Convencional e a da UFRGS
Vamos imaginar que o tema seja o seguinte:
A extroversão
é uma característica importante da personalidade do brasileiro.
O desenvolvimento do texto obedeceria a esta evolução de idéias:
1o
Descrição do Fenômeno
2o
Reflexão do Fenômeno
Na primeira parte, há a exposição do assunto em pauta. Na seqüência
podemos observar a análise reflexiva da questão, com as conseqüências no
comportamento do brasileiro. Essa parte é a mais importante, pois nela há uma
estrutura profunda e a argumentação mesma do texto. Assim,
Descrição
>> Estrutura Superficial
Reflexão
>> Estrutura Profunda
Desvendando o Segredo da UFRGS
Portanto,
temos claramente três estágios na Federal:
1o
– Fato, episódio ou experiência pessoal (Uso do EU);
2o
– Descrição, conceito do tema em questão;
3o
– Reflexão ou Tese.
O terceiro estágio é o mais importante, porque nele temos a estrutura
profunda, a idéia de fundo, o objetivo mesmo do texto. Ocorre que a maioria dos
alunos não chega a essa etapa do trabalho, ficando apenas na superficialidade
da análise.
O procedimento normal do concorrente
à vaga é inventar uma história e “ver no que dá”. Não dá em nada. A
redação fica sem alma, ou, se quiserem uma expressão mais técnica, sem coesão
textual. A narrativa não tem relação estreita, íntima, visceral com o resto
do trabalho.
Sempre que o vestibulando for fazer
o texto da UFRGS deve imaginar o que quer dizer, a idéia de fundo, aonde quer
chegar com o seu texto. Somente depois pode “inventar” a história,
adequando-a à tese final. Desse modo, o grande segredo da redação da UFRGS é
começar pelo fim.