[Continuação]
2- Superproteção: Na maioria das
famílias de indivíduos anoréxicos pode se encontrar uma
extrema preocupação pelo bem estar dos seus membros.
Esse exagero na proteção em geral
conduz a um atraso de desenvolvimento da autonomia pessoal e
consequentemente, a uma ligação muito forte com os pais, em
especial com a mãe.
&ldquoEla não precisa trabalhar,
acho ela muito criança&rdquo, &ldquoainda é cedo para
namorar...&rdquo são frases que mostram as dificuldades das
famílias em aceitar o crescimento dos filhos e a tendência em
mante-los o máximo tempo possível ao lado dos pais.
3- Aglutinação: Algumas famílias
permanecem tão unidas que os papeis se confundem, filhos assumem
o papel dos pais.
4- Repressão das emoções: Um controle restrito sobre as
emoções que podem se originar de uma hipermoralidade do sistema
familiar que faz com que os sentimentos de raiva e ciúmes, etc
não possam ser expressados e onde qualquer conduta considerada
agressiva é vivenciada com extrema angústia pela família.
5- Preocupação com peso e com regimes: Alguém da família faz
dieta e há um temor exagerado de engordar encontrado
predominantemente no casal de pais. Também é comum a
idealização do magro como algo bom e o culto ao corpo está
supervalorizado.
6- Confronto entre o casal de pais e sensação de fracasso na
família: No início da doença a família anda em círculos e
tenta achar um culpado, nisso o tempo vai passando.
No quadro geral o conflito profundo e
reprimido da família.
Tratamento
Uma das primeiras dificuldades é a que diz respeito à aderir o
paciente ao tratamento, pois a negação da doença é muitas
vezes parte integrante do quadro. As pacientes com anorexia
nervosa em geral desconfiam dos médicos, os quais elas percebem
como inimigos e interessados apenas em realimentá-las, em
fazê-las perder a vontade de controlar seus pesos.
O tratamento tem que começar rápido, com muita firmeza, sem
deixar absolutamente nenhuma alternativa para o paciente, de modo
que fiquei claro para ela que não pode vomitar e que tem que
ganhar peso.
O objetivo do tratamento é a recuperação do estado nutricional
do paciente debilitado pelo estado de semi-inonição.
O modelo de tratamento com uma equipe multiprofissional é o
melhor aceito atualmente. O ideal é que a equipe de tratamento
inclua um clínico, um nutricionista, um psicoterapeuta
individual, um psicoterapeuta de grupo familiar e um
psicofarmacologista.
Durante todo o processo de recuperação, o nutricionista deve
relacionar aspectos psicológicos e nutricionais dos transtornos
alimentares, visando estabelecer padrões nutricionais adequados.
A mudança em atitudes alimentares é uma medida importante do
resultado geral nestes pacientes. Para isso, é fundamental criar
um vínculo terapêutico como o paciente e colocar-se como aliado
no tratamento, oferecendo ajuda, apoio e orientação. No
entanto, o nutricionista não pode esquecer que a terapia para os
transtornos alimentares é um processo integrado, no qual ele e a
equipe trabalham juntos para modificar os comportamentos
relacionados ao peso e à alimentação do paciente.
Cabe ao nutricionista, como provedor de
informação sobre alimentos, nutrição e saúde, identificar o
problema e informar outros profissionais da área de saúde e o
poder público sobre o perigo das dietas de emagrecimento e uso
inadequado de produtos dietéticos e orientar a população a
manter padrões saudáveis de peso e métodos adequados para
estabilização de peso.
É importante orientar a família. A reeducação nutricional
deve ser oferecida juntamente com a terapia, cautelosamente. O
nutricionista pode auxiliar a diminuir suas frustrações no
horário das refeições, por aliviar a família da
responsabilidade de monitorar o consumo alimentar ou mudar
hábitos alimentares do paciente.
É muito importante, embora geralmente as pacientes só vão ao
terapeuta para que a família as deixe em paz. Esse é um dos
motivos pelos quais a psicoterapia não se aprofunda, fica
arrastada, e parece que é castigo semanal para a paciente. A
forma de psicoterapia mais eficaz é a Cognitiva- Comportamental,
que encoraja a adoção de atitudes mais sadias por parte da
paciente, que é recompensada com elogios e diminuição de sua
mobilidade. A psicoterapia individual é indicada visando a
modificação do comportamento, das crenças e dos esquemas
falhos de pensamento.
É difícil tratar a anoréxica com psicoterapia, pois as jovens,
falam muito pouco, e há uma recusa de falar de si próprias. Há
psicoterapias adequadas, e só assim, aliando-se aos
antidepressivos convencionais poderá ser melhorado um terço.
A psicofarmacoterapia é indispensável e, normalmente, se faz
às custas de antidepressivos, notadamente com tricíclicos que
tenham como efeito colateral também o estímulo do apetite e o
ganho do peso, como é o caso da maprotilina, amitriptilina ou
clomipramina. Havendo necessidade de sedação (quase sempre
há), recomenda-se que seja feita com neurolépticos e,
preferentemente, com aqueles que também aumentam o apetite, como
é o caso da levomepromazina.
Se receita antidepressivos porque quase sempre a Anorexia é
acompanhada de um estado depressivo, porque eles diminuem o
caráter Obsessivo-compulsivo dos vômitos e da distorção da
auto- imagem e finalmente porque eles agem no Sistema de
Neurotransmissores que estão alterados nessa doença.
O tempo de espera para começar o efeito é de várias semanas;
além disso a paciente não aceita estar doente e não quer tomar
remédios ( a não ser aqueles que a façam perder peso).
Além disso, existem muitos Antidepressivos diferentes e pode ser
que as primeiras tentativas não tenham um resultado bom. Nesse
caso, é preciso Ter paciência para uma tentativa com outro
Antidepressivo que também precisará de algumas semanas para ser
avaliado.
Dependendo das condições clínicas da paciente, é necessário,
muitas vezes em função de uma caquexia, proceder a internação
da paciente para restabelecimento de sua saúde em ambiente
hospitalar.
Internação hospitalar se dá em algumas semanas. Atenção:
hospitalização não é castigo. Ela deve ser encarada da
seguinte maneira: o tratamento da Anorexia é como se fosse uma
corrida. De um lado está a paciente, seu tratamento
medicamentoso e psicológico. De outro lado está a natureza da
doença, que freqüentemente é fatal. Chega uma hora em que a
paciente e seus terapeutas começam a perder a corrida. Isto quer
dizer que o estado de emagrecimento chegou num ponto em que a
paciente começa a correr riscos para sua saúde física. Nessa
hora entra a hospitalização.
Os principais objetivos são:
Ganhar peso.
Tratar intercorrências orgânicas da
desnutrição.
Deixar claro para a paciente que
trata-se de salvar sua vida, quer ela queria ou não.
Embora seja muito pouco aceita pela
família (pela paciente nem se fala), uma internação hospitalar
no início de um tratamento proporciona os melhores resultados.
Mesmo após a melhora é bom ter em mente que as recaídas são
freqüentes. No caso da internação, a taxa de recidiva imediata
é superior a 25%. Portanto o acompanhamento destas pacientes
deve-se fazer por anos.
Quando &ldquocurado&rdquo a paciente deve ser capaz de
separar comportamentos relacionados com alimento e com o peso, de
sentimentos e questões psicológicas; normalizar seu consumo
alimentar; manter um peso adequado e ser capaz de lidar com o
alimento em situações sociais.
O papel da família
Na maioria das vezes, porém, a família demora a perceber a
evolução dos distúrbios alimentares, provavelmente pelo
desconhecimento das síndromes, despreparo médico em
diagnosticar as mesmas e escassez de serviços que oferecem
tratamento especializado. O sentimento de culpa e vergonha
aliados a idéia de que este não seja um problema médico,
também adiam o diagnóstico.
O papel da família tem um grande peso na cura. A família
também precisa de auxilio, devendo os médicos muito bem
preparados sobre a síndrome, explicar o porquê da recusa de
alimentos, que poderá ser para chamar-lhes atenção ou uma mera
afirmação pessoal. Eles deverão tentar compreender a
situação e lutar em conjunto contra a doença, criando um
ambiente agradável perto dela.
A família também deverá ter um apoio com psicólogos e
nutricionistas, porque a família deverá ser totalmente
reestruturada, tendo também novos hábitos como: reunir a
família em volta da mesa para o almoço e para o jantar.
O apoio psicológico ajudará a família a se preparar para uma
luta diária que deverá durar até mesmo anos, geralmente a
família sofre porque não consegue ajudar e sobrecarrega o
indivíduo porque ele não quer ser ajudado.
Por mais que os pais e médicos achem que estão controlando a
situação, as anoréxicas são sempre mais espertas... pelo
menos no começo...
Curso e Prognóstico
O curso da Anorexia Nervosa varia imensamente- recuperação
espontânea sem tratamento, recuperação após uma variedade de
tratamentos, curso flutuante de ganhos de peso seguidos de
recaídas e um curso de deterioração gradual resultando em
morte causada por complicações da inanição. Em geral, o
prognóstico não é bom. Naqueles que recuperaram peso
suficiente, a preocupação com alimentos e peso corporal
freqüentemente continua, os relacionamentos sociais geralmente
são pobres, e muitos são deprimidos. A resposta dos pacientes a
curto prazo a praticamente qualquer programa de tratamento
hospitalar é boa. Há estudos mostrando taxa de mortalidade que
vão de 5% a 18%.
Indicadores de um resultado favorável são a admissão da fome
menos negação, menos imaturidade e melhora na auto- estima.
Fatores como neurose infantil, conflito entre os pais, bulimia,
vômitos, abuso de laxantes e várias manifestações
comportamentais (por ex: sintomas obsessivos- compulsivos,
histéricos, depressivos, psicossomáticos, neuróticos e de
negação) tem sido relacionados a fracos resultados em alguns
estudos, mas não afetam significativamente o resultado em
outros.
30% a 50% dos pacientes anoréxicos tem os sintomas de bulimia
nervosa, e, geralmente, estes ocorrem dentro de 1 a 1/2 anos
após o início da Anorexia Nervosa. Às vezes, os sintomas
bulímicos precedem a Anorexia Nervosa.
Conclusão
O conhecimento geral sobre transtornos alimentares no Brasil, sua
incidência e características- principalmente sobre aspectos da
alimentação e nutrição desses pacientes é limitado.
Os profissionais que trabalham com transtornos alimentares devem
intensificar seus trabalhos de pesquisa, para que, munidos de
melhores dados, possam ser implantada uma estratégia preventiva
conjunta de atuação com a comunidade.
É necessário, para se compreender e fazer calar a etiologia
desses distúrbios, desenvolver um modo novo de ouvir que conduza
a uma forma delicada de tratar.
Apesar de poucos recursos bibliográficos disponíveis,
principalmente no que diz respeito aos padrões alimentares
desses pacientes, é importante que se dê uma maior importância
a Anorexia Nervosa e a bulimia nervosa pois estes transtornos
alimentares vem aumentando gradativamente.
Terminamos este trabalho expondo uma afirmação nossa:
Todos nascem para serem felizes. Seres
de plena exuberância vital, é só querer saber e como
ministrar-lhes os ingredientes próprios e adequados. Aprender a
viver na plena consciência que todos podemos desfrutar da melhor
saúde e bem estar a todos os níveis, é uma necessidade
imperiosa para conduzir o Universo Humano à Paz.
Relato de uma anoréxica
Vou contar uma parte do meu caso, digo
uma parte porque existem muitos detalhes que terão que ficar de
fora, e espero poder ajudar quem está passando por isso, é
difícil, eu ainda não estou curada, mas vale a pena!
Quando era pequena, até uns 12 anos,
eu era muito magra, muito mesmo, comia e não engordava. Com 13
comecei a comer mais, porque achava que eu nunca iria engordar,
eu nem sabia o que era isso. Foi na mesma época em que eu cresci
e o meu corpo começou a se desenvolver. Acabei confundindo
formas com gordura, não era mais um palito, mas nem cheguei
perto de ser gorda.
Passei um tempo assim, sem fazer dieta,
comendo muita "porcaria", e sem o meu peso mudar muito.
Só que eu sempre achei lindo o corpo de modelo, reto feito uma
tábua, corpo de anoréxica, como dizem, mas eu ainda não sabia
como era essa doença.
Em Outubro de 99, com 15 anos, resolvi
perder peso pela primeira vez, mas não queria que acontecesse
comigo o famoso efeito sanfona (emagrece- engorda), e decidi
nunca mais comer o que comia.
Não contei pra ninguém o que
pretendia, porque sabia que iriam dizer: "Pra que, você
não precisa!". Mentira, eu pensava, eu tô uma baleia!!!
Cortei tudo que podia cortar, só almoçava, muito pouco, e
jantava um pão integral com uma folha de alface, quando jantava,
o que resultava em menos de 500 calorias por dia.
Não fazia exercícios porque nunca
gostei de fazer, queria passar o dia normalmente, só queria ver
quanto tempo eu aguentava ficar sem comer. Eu me sentia muito bem
quando ia dormir e sentia meu estômago vazio, era uma vitória,
mais um dia tinha se passado.
Em dois meses perdi 6 quilos, e já
estava muito fraca, sendo que antes já estava com peso normal.
Sentia dores no corpo, minhas mãos e unhas ficaram roxas, tinha
os olhos fundos, estava completamente enfraquecida.
Tive sorte, pois a minha mãe logo
percebeu o problema e me levou a vários médicos, desde esse dia
passei a freqüentá-los. A doença foi diagnosticada e eu
comecei um tratamento com um grupo de médicas, uma
nutricionista, uma psicóloga e uma clínica geral.
No começo eu dava gargalhada quando
diziam que eu estava doente, achava que elas estavam loucas, e em
uma semana eu seria dispensada. Com o tempo entendi que não era
assim.
Aos poucos foram incluídos os
alimentos no meu esquema alimentar, para que eu aumentasse de 500
a 800g por semana. Perdi mais 3 quilos antes de começar a repor
peso. Foi difícil, tenho que comer tudo, era vigiada 24 horas
pela minha mãe, ela me servia, cuidava de mim como um bebê. Era
assim que eu estava. Me irritava, chorava, esperneava, mas ela
não dava bola e eu me sentia incompreendida, estava sendo
envenenada pela minha família.
Mas desde o começo vi que não podia
enganar a minha família, nem minha médica, deixando de comer ou
fazendo exercícios, que são proibidos, por isso nunca os fiz.
Chorava muito, todos os dias, me sentia sozinha lutando contra
todos, e ainda tendo que esconder das minha amigas, porque aquilo
não parecia ser real.
Apesar de não querer comer, queria
cozinhar, fazer banquetes, doces, "engordar os outros
também". Via programas de receitas, colecionava livros de
comida, decorei as calorias de tudo, não pensava em outra coisa.
Só me dei conta de como estava o meu corpo quando vi uma foto no
meu aniversário, em novembro, que eu estava parecendo morta, sem
exageros! Imagino o que os outros achavam de mim!
Bom, agora aumentei 3 quilos, com
custo, e ainda faltam alguns. Mas já tenho alguma liberdade,
faço algumas refeições sozinha, e atividades normais, se não
for exercício, claro! Mas mesmo assim, ainda hoje eu penso que
quando eu estiver "livre" vou fazer tudo de novo, vou
ficar um palito, mas bem longe daqui, onde ninguém possa me
impedir. Acho que só assim posso ser como quero. É bobagem,
mas...
Bibliografia
Cordás, T.A. e Castilho, S. Imagem
corporal nos transtornos alimentares. Instrumento de Avaliação:
&ldquoBodyshape questionnaire&rdquo. Psiquiatria Biol ,
2: 17- 21, 1994.
Cordás, T.A. & Negrão, A.B.
Anorexia Nervosa.
In: Assumpção Jr, F.B. Psiquiatria da
Infância e da Adolescência. São Paulo, Maltesse, 1994.
Cordás, T.A. coord. Fome de cão:
quando o medo de ficar gordo vira doença: anorexia, bulimia e
obesidade. São Paulo, Maltesse, 1994
Cordás T.A. ; Cabelo, Alícia;
Anorexia e Bulimia: O que são? Como ajudar? Porto Alegre,
Artes Médicas, 1998
DSM4, Manual e Diagnóstico e
Estatística de transtornos mentais. Artes Médicas, 4ºed
COPLAN, H. , SADOCK, B e GERBB J.
Compedio de Psiquiatria, Artes Médicas. 7ºed