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Fordismo
1. INTRODUÇÃO
Este texto tem a finalidade de apresentar, de
forma sintetizada, os princípios pedagógicos que têm
orientado os processos pedagógicos intencionais e
sistematizados de construção do conhecimento a partir do
desenvolvimento, e portanto, das transformações por que têm
passado as bases materiais de produção. Para tanto, situará
rapidamente este processo no taylorismo/fordismo e nas novas
formas de organização e gestão do trabalho mediadas pelas
novas tecnologias , para ater-se ao que seria uma proposta
comprometida com a emancipação humana: a produção do
conhecimento a partir da perspectiva pedagógica socialista.
É necessário, contudo, esclarecer que, se a
pedagogia socialista só será possível em outro modo de
organização da vida social e produtiva, as contradições
entre capital e trabalho, cada vez mais acentuadas no regime
de acumulação flexível1 , têm permitido avanços nesta
direção.
Assim é que, por demanda do próprio
capitalismo, categorias cuja análise permaneciam restritas
aos textos dos autores socialistas, clássicos e
contemporâneos, tais como a transdisciplinaridade, a
politecnia, a integração entre teoria e prática, a relação
entre parte e totalidade, entre o lógico e o histórico, hoje
estão presentes no ideário da nova pedagogia do capitalismo,
a pedagogia das competências. Estas categorias, que
raramente puderam se materializar, e mesmo assim em práticas
pedagógicas alternativas, hoje atravessam textos oficiais-
diretrizes e parâmetros curriculares- , materiais didáticos
e discursos dos mais diversos professores, especialistas e
dirigentes que atuam no campo da educação.
Esta apropriação, pela pedagogia das
competências, sempre do ponto de vista do capital, de
concepções que têm sido elaboradas no âmbito da pedagogia
socialista, estabeleceu uma tal ambiguidade nos discursos e
nas práticas, que muitos profissionais e políticos da
educação têm sido levados a imaginar que, a partir das novas
demandas do capital no regime de acumulação flexível, as
políticas e propostas pedagógicas de fato passaram a
contemplar os interesses dos que vivem do trabalho, do ponto
de vista da democratização.
Esta contradição, portanto, tem se
constituído em possibilidade de alguns avanços, por outro
lado, é perversa, porque esconde, por trás de um discurso
pedagógico aparentemente homogeneizador, as radicais
diferenças que existem entre os interesses e necessidades do
capital e do trabalho.
Torna-se necessário, portanto, desemaranhar
este cipoal, estabelecendo os limites da pedagogia das
competências para que se possa avançar na construção
teórico-prática, nos espaços da contradição, de uma
pedagogia de fato comprometida com a emancipação humana.
2. AS MUDANÇAS NO MUNDO DO TRABALHO E AS
NOVAS DEMANDAS DE EDUCAÇÃO.
As profundas modificações que têm ocorrido no
mundo do trabalho trazem novos desafios para a educação. O
capitalismo vive um novo padrão de acumulação decorrente da
globalização da economia e da reestruturação produtiva, que
passa a determinar um novo projeto educativo para os
trabalhadores, independentemente da área, das atribuições ou
do nível hierárquico em que atuem.
Como resposta às novas exigências de
competitividade que marcam o mercado globalizado a exigir
cada vez mais qualidade com menor custo, a base técnica de
produção fordista, que dominou o ciclo de crescimento das
economias capitalistas no pós 2ª guerra até o final dos
anos sessenta, vai aos poucos sendo substituída por um
processo de trabalho resultante de um novo paradigma
tecnológico apoiado essencialmente na microeletrônica, cuja
característica principal é a flexibilidade. Este movimento,
embora não seja novo, uma vez que se constitui na
intensificação do processo histórico de internacionalização
da economia, reveste-se de novas características, posto que
assentado nas transformações tecnológicas, na descoberta de
novos materiais e nas novas formas de organização e gestão
do trabalho.
Estabelecem-se novas relações entre trabalho,
ciência e cultura, a partir das quais constitui-se
historicamente um novo princípio educativo, ou seja, um novo
projeto pedagógico através do qual a sociedade pretende
formar os intelectuais/trabalhadores, os cidadãos/produtores
para atender às novas demandas postas pela
globalização da economia e pela
reestruturação produtiva. O velho princípio educativo,
decorrente da base técnica da produção taylorista/fordista
vai sendo substituído por um outro projeto pedagógico
determinado pelas mudanças ocorridas no trabalho.
A pedagogia orgânica ao taylorismo/fordismo
tinha por finalidade atender a uma divisão social e técnica
do trabalho marcada pela clara definição de fronteiras entre
as ações intelectuais e instrumentais, em decorrência de
relações de classe bem definidas que determinam as funções a
serem exercidas por dirigentes e trabalhadores no mundo da
produção, o que resultou em processos educativos que
separavam a teoria da prática.
O processo produtivo, por sua vez, tinha como
paradigma a organização em unidades fabris que concentram
grande número de trabalhadores distribuídos em uma estrutura
verticalizada que se desdobra em vários níveis operacionais,
intermediários (de supervisão) e de planejamento e gestão,
cuja finalidade é a produção em massa de produtos homogêneos
para atender a demandas pouco diversificadas. A organização
da produção em linha expressa o princípio taylorista da
divisão do processo produtivo em pequenas partes onde os
tempos e movimentos são padronizados e rigorosamente
controlados por inspetores de qualidade e as ações de
planejamento são separadas da produção.
Era preciso, portanto, qualificar
trabalhadores que atendessem as demandas de uma sociedade
cujo modo dominante de produção, a partir de uma rigorosa
divisão entre as tarefas intelectuais (dirigentes) e as
operacionais, caracterizava-se por tecnologia de base
rígida, relativamente estável. A ciência e a tecnologia
incorporadas ao processo produtivo, através de máquinas
eletromecânicas que trazem em sua configuração um número
restrito de possibilidades de operações diferenciadas que
exigem apenas a troca de uns poucos componentes, demandavam
comportamentos operacionais pré-determinados e com pouca
variação. Compreender os movimentos necessários a cada
operação, memorizá-los e repeti-los ao longo do tempo, não
exige outra formação escolar e profissional que o
desenvolvimento da capacidade de memorizar conhecimentos e
repetir procedimentos em uma determinada seqüência.
A pedagogia, em decorrência, propõe conteúdos
que, fragmentados, organizam-se em seqüências rígidas; tendo
por meta a uniformidade de respostas para procedimentos
padronizados, separa os tempos de aprender teoricamente e de
repetir procedimentos práticos e exerce rigorosamente o
controle externo sobre o aluno. Esta pedagogia responde
adequadamente às demandas do mundo do trabalho e da vida
social, que se regem pelos mesmos parâmetros das certezas e
dos comportamentos que foram definidos ao longo do tempo
como aceitáveis.
Do paradigma taylorista/fordista decorrem
várias modalidades de fragmentação no trabalho pedagógico,
escolar e não escolar, que se constituem na expressão da
divisão entre classes sociais no capitalismo:
-
a dualidade estrutural, a partir da qual
se definem tipos diferentes de escola, segundo a origem
de classe e o papel a elas destinado na divisão social e
técnica e trabalho;
-
a fragmentação curricular, que divide o
conhecimento em áreas e disciplinas trabalhadas de forma
isolada que passam a ser tratadas como se fossem
autônomas entre si e da prática social concreta, a
partir da pretensa divisão da consciência sobre a ação,
a partir do que a teoria se supõe separada da prática; a
expressão desta fragmentação é a grade curricular, que
distribui as diferentes disciplinas com suas cargas
horárias por séries e turmas de forma aleatória, supondo
que a unidade rompida se recupere como conseqüência
"natural" das práticas curriculares, ficando por conta
do aluno a reconstituição das relações que se
estabelecem entre os diversos conteúdos disciplinares;
-
as
estratégias taylorizadas de formação de professores, que
promovem capacitação parcelarizada, por temas e
disciplinas, agrupando os profissionais por
especialidade, de modo a nunca discutir o trabalho
pedagógico em sua totalidade, a partir do espaço de sua
realização: a escola;
-
o
plano de cargos e salários, que prevê a contratação dos
profissionais da educação por tarefas, ou jornadas de
trabalho, e até mesmo por aulas ministradas, de modo que
eles se dividem entre diversos espaços, sem desenvolver
sentido de pertinência à escola; quando se representam,
os professores evidenciam identidade com a área ou
disciplina de sua formação, e não de professores da
escola;
-
a
fragmentação do trabalho dos pedagogos, nas distintas
especialidades, que foram criadas pelo Parecer 252/69 do
Conselho Federal de Educação, praticamente superadas
pelas tentativas de unificação nas agências de formação
e nas escolas; esta fragmentação agora foi reeditada
pela Lei 9394/96, no art 64.
O trabalho pedagógico, assim fragmentado,
respondeu, e continua respondendo, ao longo dos anos, às
demandas de disciplinamento do mundo do trabalho capitalista
organizado e gerido segundo os princípios do taylorismo/fordismo,
em três dimensões: técnico, político e comportamental.
A globalização da economia e a reestruturação
produtiva, enquanto macroestratégias responsáveis pelo novo
padrão de acumulação capitalista, transformam radicalmente
esta situação, imprimindo vertiginosa dinamicidade às
mudanças que ocorrem no processo produtivo, a partir da
crescente incorporação de ciência e tecnologia, em busca de
competitividade. A descoberta de novos princípios
científicos permite a criação de novos materiais e
equipamentos; os processos de trabalho de base rígida vão
sendo substituídos pelos de base flexível; a eletromecânica,
com suas alternativas de solução bem definidas, vai cedendo
lugar à microeletrônica, que assegura amplo espectro de
soluções possíveis desde que a ciência e a tecnologia, antes
incorporadas aos equipamentos, passem a ser domínio dos
trabalhadores; os sistemas de comunicação interligam o mundo
da produção.
As novas demandas de qualificação, portanto,
referem-se a um trabalhador de novo tipo, que atue na
prática a partir de uma sólida base de conhecimentos
científico-tecnológicos e socio-históricos, e ao mesmo tempo
acompanhe a dinamicidade dos processos e resista ao
"stress". Ao mesmo tempo, as novas tecnologias exigem cada
vez mais a capacidade de comunicar-se adequadamente, através
do domínio das formas tradicionais e novas de linguagem,
incorporando, além da língua portuguesa, a língua
estrangeira, a linguagem informática e as novas formas
trazidas pela semiótica; a autonomia intelectual, para
resolver problemas práticos utilizando os conhecimentos
científicos, buscando aperfeiçoar-se continuamente; a
autonomia moral, através da capacidade de enfrentar as novas
situações que exigem posicionamento ético; finalmente, a
capacidade de comprometer-se com o trabalho, entendido em
sua forma mais ampla de construção do homem e da sociedade,
através da responsabilidade, da crítica, da criatividade.
Embora no âmbito do processo produtivo como
um todo a tendência seja a precarização do trabalho, do
ponto de vista da concepção de qualificação para o trabalho,
há avanços.
Solidamente fundamentada sobre a educação
básica, a qualificação não repousa mais sobre a aquisição de
modos de fazer, deixando de ser concebida, como o faz o
taylorismo/fordismo, como conjunto de atributos individuais,
predominantemente psicofísicos, centrados nos modos de fazer
típicos do posto de trabalho. Ao contrário, passa a ter
reconhecida a sua dimensão social e ser concebida como
resultante da articulação de diferentes elementos, através
da mediação das relações que ocorrem no trabalho coletivo,
resultando de vários determinantes subjetivos e objetivos,
como a natureza das relações sociais vividas e suas
articulações, escolaridade, acesso a informações, domínio do
método científico, riqueza, duração e profundidade das
experiências vivenciadas, tanto laborais quanto sociais,
acesso a espaços, saberes, manifestações científicas e
culturais, e assim por diante.
Compreendida desta forma, a qualificação
depende das possibilidades de acesso a informações, de
interagir com meios e processos de trabalho mais avançados,
de exercer sua autonomia e criatividade, de participar da
definição das normas e das decisões que afetam suas
atividades.2
Contudo, embora seja resultante das condições
objetivas de vida e de trabalho, e portanto resultante da
práxis coletiva, a qualificação tem uma forte determinação
das condições subjetivas, que incluem desejos, motivações,
experiências e conhecimentos anteriores, o que faz com que
muitos autores considerem inevitável investir na valorização
da subjetividade dos trabalhadores nos processos de
inovação.3
Em resumo, pode-se afirmar que a qualificação
profissional resulta de articulações dinâmicas e
contraditórias entre as relações sociais das quais resultam
o trabalho coletivo e as possibilidades e limitações do
trabalho individual, mediado pelas relações de classe, do
que resultam articulações entre conhecimentos e experiências
que envolvem as dimensões psicofísica, cognitiva e
comportamental, as quais permitirão ao cidadão/produtor
trabalhar intelectualmente e pensar praticamente, dominando
o método científico, de modo a ser capaz de resolver
problemas da prática social e produtiva.
Para desenvolvê-la é preciso outro tipo de
pedagogia, determinada pelas transformações ocorridas no
mundo do trabalho nesta etapa de desenvolvimento das forças
produtivas, de modo a atender às demandas da revolução na
base técnica de produção, com seus profundos impactos sobre
a vida social. O objetivo a ser atingido é a capacidade para
lidar com a incerteza, substituindo a rigidez pela
flexibilidade e rapidez, de modo a atender a demandas
dinâmicas, sociais e individuais, políticas, culturais e
produtivas que se diversificam em qualidade e quantidade.
A partir desta concepção, resta bem
diferenciada a finalidade da qualificação no taylorismo/fordismo
da apresentada pelos processos produtivos reestruturados
considerando a dupla mediação realizada pelas novas
tecnologias de base microeletrônica e pelas novas
estratégias de gestão: da capacidade bem definida para atuar
de forma estável em processos tecnológicos pouco complexos
no posto de trabalho para a qualificação entendida como
capacidade potencial para atuar em situações não previstas,
em processos dinâmicos com base tecnologicamente sempre mais
complexa e a partir do conhecimento da totalidade do
processo de trabalho, incluindo sua relação com os processos
sociais e econômicos mais amplos.
É esta nova dimensão que tem justificado a
contraposição do conceito de qualificação, que vem sendo
desenvolvido no campo da esquerda, ao conceito de
competência, desenvolvido pelo capitalismo nesta nova etapa
de acumulação, como forma de demarcar a superação (por
incorporação em patamares qualitativamente superiores) de
uma concepção que nasce no âmbito de taylorismo/fordismo.
Como já se afirmou anteriormente, estas
concepções se aproximam quando defendem um projeto
pedagógico que, ao articular conhecimento geral e
específico, teoria e prática, sujeito e objeto, parte e
totalidade, dimensão disciplinar e transdisciplinar, permita
ao aprendiz resolver problemas não previstos usando, de
forma articulada, conhecimentos científicos, saberes
tácitos, experiências e informações.
O que diferencia, estruturalmente, estas duas
concepções, é o campo onde se situam, o que determinará a
sua finalidade: a exploração dos trabalhadores para acumular
o capital ou a emancipação humana através de uma nova forma
de organização da produção, e portanto, da sociedade.
3. A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS: OS LIMITES
DERIVADOS DO CAPITALISMO.
No que tange às novas demandas de
disciplinamento dos trabalhadores para a acumulação
flexível, a pedagogia das competências constitui-se em
adequada resposta, expressando a nova pedagogia do
capitalismo. Sobre este tema já se encontra abundante
produção recente e também severas críticas.4
Para as finalidades deste texto, há que se
considerar as novas formas de organização que buscam superar
os limites da fragmentação taylorista/fordista através de
processos de recomposição da unidade dos processos de
trabalho, e em conseqüência, dos processos de formação.
Trazendo a discussão dos princípios de
organização e gestão do trabalho segundo os novos paradigmas
(toyotismo)5 para a pedagogia, algumas tendências já podem
ser identificadas nos discursos e nas práticas, como o
combate de toda forma de desperdício através das ferramentas
de qualidade total ou a concepção do administrador escolar
como "gestor de negócios", através de uma reedição da
dimensão empresarial da gestão escolar.
Já as tentativas de recomposição da unidade
no trabalho pedagógico decorre principalmente do princípio
da flexibilidade como condição para a produção segundo a
demanda, o que gera a necessidade não mais de produzir
estoques de mão-de-obra com determinadas competências para
responder às demandas de postos de trabalho cujas tarefas
são bem definidas, mas para formar trabalhadores e pessoas
com comportamentos flexíveis, de modo a adaptarem-se com
rapidez e eficiência a situações novas, bem como criarem
respostas para situações imprevistas. Do mesmo modo, a
superação da linha de montagem fordista, com seus bem
definidos postos e sua relação homem máquina, pelas células
de produção onde alguns trabalhadores apenas devem deixar as
máquinas trabalhar, fixando-se na preparação do necessário
para o seu funcionamento, reforça a idéia da flexibilidade.
Este princípio, em primeiro lugar,
potencialmente viabiliza a reunificação do trabalho
fragmentado e organizado pelo taylorismo/fordismo, o que é
possível pela mediação da tecnologia, em particular de base
microeletrônica, e sugere a reunificação do trabalho dos
pedagogos, uma vez que as tarefas pedagógicas referentes ao
trabalho pedagógico escolar – a articulação entre escola e
comunidade na construção da proposta e na implementação do
projeto político-pedagógico- têm comprovado, na prática seu
caráter de totalidade.
Contudo, uma análise mais aprofundada se faz
necessária, para verificar se esta unidade proposta aos
processos de trabalho reestruturados se constitui de fato em
tomada do trabalho enquanto totalidade, politecnia, ou
apenas em ampliação da tarefa, e portanto, polivalência, no
melhor estilo fayolista. (Fayol, 1975). Para elucidar esta
questão, reproduz-se aqui análise levada a efeito em
trabalho anterior.
"Por polivalência entende-se a ampliação da
capacidade do trabalhador para aplicar novas tecnologias,
sem que haja mudança
qualitativa desta capacidade. Ou seja, para
enfrentar o caráter dinâmico do desenvolvimento
científico-tecnológico o trabalhador passa a desempenhar
diferentes tarefas usando distintos conhecimentos, sem que
isto signifique superar o caráter de parcialidade e
fragmentação destas práticas ou compreender a totalidade. A
este comportamento no trabalho corresponde a
interdisciplinaridade na construção do conhecimento, que
nada mais é do que a interrelação entre conteúdos
fragmentados, sem superar os limites da divisão e da
organização segundo os princípios da lógica formal. Ou seja,
a uma "juntada" de partes sem que signifique uma nova
totalidade, ou mesmo o conhecimento da totalidade com sua
rica teia de interrelações; ou ainda, uma racionalização
formalista com fins instrumentais e pragmáticos calcada no
princípio positivista da soma das partes. É suficiente usar
os conhecimentos empíricos disponíveis sem apropriar-se da
ciência, que permanece como algo exterior e estranho.
A politecnia significa o domínio intelectual
da técnica e a possibilidade de exercer trabalhos flexíveis,
recompondo as tarefas de forma criativa; supõe a superação
de um conhecimento meramente empírico e de formação apenas
técnica, através de formas de pensamento mais abstratas, de
crítica, de criação, exigindo autonomia intelectual e ética.
Ou seja, é mais que a soma de partes fragmentadas; supõe uma
rearticulação do conhecido, ultrapassando a aparência dos
fenômenos para compreender as relações mais íntimas, a
organização peculiar das partes, descortinando novas
percepções que passam a configurar uma compreensão nova e
superior, da totalidade, que não estava dada no ponto de
partida.
A politecnia cria a possibilidade de
construção do novo, permitindo aproximações sucessivas da
verdade, que nunca se dá a conhecer plenamente; por isto, o
conhecimento resulta do processo de construção da
totalidade, que nunca se encerra, pois há sempre algo novo
para conhecer. Nesta concepção, evidencia-se que conhecer a
totalidade não é dominar todos os fatos, mas as relações
entre eles, sempre reconstruídas no movimento da história."
(Kuenzer, 2000, p. 86-87).
Do ponto de vista do currículo, da politecnia
deriva o princípio pedagógico que mostra a ineficácia de
ações meramente conteudistas, centradas na quantidade de
informações que não necessariamente se articulam, para
propor ações que, permitindo a relação do aluno com o
conhecimento, levem à compreensão das estruturas internas e
formas de organização, conduzindo ao "domínio intelectual"
da técnica, expressão que articula conhecimento e
intervenção prática. A politecnia supõe, portanto, uma nova
forma de integração de vários conhecimentos, através do
estabelecimento de ricas e variadas relações que quebram os
bloqueios artificiais que transformam as disciplinas em
compartimentos específicos, expressão da fragmentação da
ciência.
Do ponto de vista da organização do trabalho
pedagógico, a politecnia implica em tomar a escola como
totalidade, em compreender a gestão como prática social de
intervenção na realidade tendo em vista a sua transformação,
e em uma nova qualidade na formação dos profissionais da
educação, pedagogos e professores, a partir de uma sólida
base comum que tome as relações entre sociedade e educação,
as formas de organização e gestão do trabalho pedagógico, as
políticas, os fundamentos e as práticas educativas, que os
conduza ao "domínio intelectual da técnica".
A partir desta concepção, algumas conclusões
se impõem; a análise do exercício laboral e da formação dos
chamados trabalhadores flexíveis mostra que, embora presente
no discurso a recomposição da unidade, nunca estiveram tão
distantes da prática o poder de decidir, de criar ciência e
tecnologia, de intervir em processos cada vez mais
centralizados, tecnológica e gerencialmente. Pelo contrário,
o trabalho da maioria está cada vez mais desqualificado,
intensificado e precarizado, como resultado do novo regime
de acumulação. Do que se conclui que, do ponto de vista da
gestão empresarial, a recomposição da unidade do trabalho
não passa de ampliação de tarefas do trabalhador, sem que
isto signifique uma nova qualidade na formação, de modo a
possibilitar o domínio intelectual da técnica. O mesmo tem
ocorrido com o trabalho dos profissionais da educação: suas
tarefas estão sendo a cada dia ampliadas, num esforço de
suprir na escola direitos que a sociedade não assegura,
inclusive desempenhando funções que historicamente foram de
responsabilidade das famílias; seu trabalho está sendo cada
vez mais intensificado, com a progressiva extensão de
jornadas de trabalho e trabalho domiciliar; suas condições
de trabalho cada vez mais precarizadas, não só da
perspectiva da escola e do salário, mas com sérias
conseqüências sobre sua qualidade de vida e condições de
existência: stress e outros problemas de saúde física e
mental, alimentação, lazer, formação profissional
continuada, acesso aos bens materiais e culturais, e assim
por diante.
A divisão entre os que possuem os meios de
produção e os que vendem sua força de trabalho cada vez mais
se acentua na acumulação flexível, acirrando-se, ao
contrário do que diz o novo discurso do capital, a cisão
entre o trabalho intelectual, que compete cada vez a um
número menor de trabalhadores, estes sim, com formação
flexível resultante de prolongada e contínua formação de
qualidade, e o trabalho instrumental cada vez mais esvaziado
de conteúdo.
Em decorrência, a politecnia enquanto unidade
entre teoria e prática, resultante da superação da divisão
entre capital e trabalho, fica historicamente inviabilizada
a partir das bases materiais de produção no capitalismo, em
particular neste regime de acumulação. A unitariedade,
portanto, só será possível através da superação entre
capital e trabalho – verdadeira e única origem da divisão
entre classes e das demais formas de divisão; inscreve-se,
portanto, no campo da utopia, como condição a ser construída
através da superação do capitalismo.
Ora, se o trabalho pedagógico, escolar e não
escolar, ocorre nas e através das relações sociais e
produtivas, ele não está imune às mesmas determinações. Ou
seja, enquanto não for historicamente superada a divisão
entre capital e trabalho, o que produz relações sociais e
produtivas que têm a finalidade precípua de valorização do
capital, não há possibilidade de existência de práticas
pedagógicas autônomas; apenas contraditórias, cuja direção
depende das opções políticas da escola e dos profissionais
da educação no processo de materialização do projeto
político-pedagógico. Este, por sua vez, expressa os
consensos e práticas possíveis em um espaço escolar ou não
escolar atravessado por relações de poder, concepções
teóricas, ideológicas e políticas também contraditórias,
para não falar dos diferentes percursos de formação
profissional. Esta análise mostra que nos espaços educativos
capitalistas, a unitariedade do trabalho pedagógico enquanto
trabalho que não se diferencia a partir da origem de classe
dos seus alunos e de seus profissionais, também não é
historicamente possível. Mas, isto significa que não se
possa avançar?
É evidente que não; é preciso, contudo,
considerar que a superação destes limites só é possível
através da categoria contradição, que permite compreender
que o capitalismo traz inscrito em si, ao mesmo tempo, a
semente de seu desenvolvimento e de sua destruição. Ou seja,
é atravessado por positividades e negatividades, avanços e
retrocessos, que ao mesmo tempo evitam e aceleram a sua
superação. É a partir desta compreensão que se deve analisar
a unitariedade como possibilidade histórica de superação da
fragmentação.
3. A PEDAGOGIA DO TRABALHO: PARA ALÉM DA
PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS.
Construir um projeto político-pedagógico que
retome a concepção de qualificação na perspectiva da
emancipação humana, para além da pedagogia das competências
na perspectiva da emancipação humana, exige uma configuração
que efetivamente articule:
-
saber científico – tecnológico
-
Científico-tecnológicos e práticas de trabalho
-
habilidades básicas, específicas e de
gestão
-
metodologia, a partir das características
dos aprendizes, de modo a tomar o trabalho como foco, a
reestruturação produtiva como eixo, o contexto e a
história de vida como ponto de partida , a integração
transdisciplinar e a transferibilidade como princípios
metodológicos.
Um dos grandes desafios postos à educação
pelas mudanças no mundo do trabalho é a superação do que
temos chamado de pedagogia taylorista/fordista, cujos
princípios são a separação da formação intelectual da
formação prática, a formação para partes bem definidas do
processo de trabalho, vinculadas ao posto e a memorização,
através da repetição, com ênfase nas dimensões psicomotoras
e cognitivas, ou seja, no desenvolvimento de competências
lógico-formais, sem a consideração da dimensão afetiva, ou
comportamental.
Sem desconsiderar estas dimensões, mas
rearticulando-as em uma concepção que tome o processo
educativo em sua dimensão de totalidade a partir de uma
concepção histórica de homem em sua integralidade, que o
compreenda como síntese do desenvolvimento social e
individual, e neste sentido como síntese entre a
objetividade das relações sociais e produtivas e a
subjetividade, há que se construir um processo educativo que
o leve a dominar as diferentes linguagens, desenvolver o
raciocínio lógico e a capacidade de usar conhecimentos
científicos, tecnológicos e sócio – históricos para
compreender e intervir na vida social e produtiva de forma
crítica e criativa, construindo identidades autônomas
intelectual e eticamente, capazes de continuar aprendendo ao
longo de suas vidas.
Assim, a pedagogia do trabalho deverá levar o
aluno a compreender que, mais do que dominar conteúdos,
deverá aprender a se relacionar com o conhecimento de forma
ativa, construtiva e criadora.
Torna-se, pois, necessário discutir a questão
do método6 . Como ponto de partida é preciso apontar que não
se trata de discutir procedimentos didáticos ou uso de
materiais, mas a própria relação que o aluno estabelecerá
com o conhecimento em situações planejadas pelo professor ou
em situações informais. Adentramos, pois, no terreno da
epistemologia, onde estabelecer consensos não é tarefa
simples.
Sem a intenção de impor uma concepção
epistemológica, buscar-se-á delinear os pressupostos que têm
orientado os profissionais que têm se comprometido com a
transformação das relações sociais que estão dadas, na
perspectiva da emancipação humana e da construção de uma
sociedade mais justa e igualitária.
Parte-se do entendimento que o trabalho
científico necessita, quer de regras rigorosas de dedução,
quer de sistemas de categorias que sirvam de base à
imaginação produtiva e à atividade criadora do pensamento no
domínio dos novos objetos a ser conhecidos. Assim, a
metodologia da ciência não se esgota no pensamento lógico –
formal, cuja finalidade é mostrar as leis sincrônicas do
conhecimento através da lógica simbólica. Será preciso
complementá-la com outra lógica, não racional, oriunda de
percepções, sentimentos e intuições que permitam apreender o
novo.
Isto significa compreender que o método de
produção do conhecimento é um movimento, não um sistema
filosófico, que leva o pensamento a transitar continuamente
entre o abstrato e o concreto, entre a forma e o conteúdo,
entre o imediato e o mediato, entre o simples e o complexo,
entre o que está dado e o que se anuncia. Este movimento de
ascensão das primeiras e precárias abstrações à compreensão
da rica e complexa teia das relações sociais concretas, não
é apenas a passagem do plano sensível, onde tudo é
caoticamente intuído ou percebido, para o plano racional
onde os conceitos se organizam em sistemas lógicos e
inteligíveis.
É um movimento do pensamento no pensamento,
que tem como ponto de partida um primeiro nível de abstração
composto pela vital, caótica e imediata representação do
todo e como ponto de chegada as abstratas formulações
conceituais e que volta ao ponto de partida, agora para
percebê-lo como totalidade ricamente articulada e
compreendida, mas também como prenúncio de novas realidades,
apenas intuídas, que levam o presente a novas buscas e
formulações a partir da dinâmica histórica que articule o já
conhecido ao presente e anuncie o futuro.
O ponto de partida é apenas formalmente
idêntico ao ponto de chegada, uma vez que, em seu movimento
em espiral crescente e ampliada, o pensamento chega a um
resultado que não era conhecido inicialmente, e projeta
novas descobertas. Não há, pois, outro caminho para a
produção do conhecimento senão o que parte de um pensamento
reduzido, empírico, virtual, com o objetivo de reintegrá-lo
ao todo depois de compreendê-lo, aprofundá-lo,
concretizá-lo. E então, tomá-lo como novo ponto de partida,
de novo limitado, em face das compreensões que se anunciem (Kosik,
1976, p. 29-30)
Deste movimento decorre uma concepção
metodológica, que pode ser sistematizada da seguinte forma:
o ponto de partida é sincrético, nebuloso,
pouco elaborado, senso comum; o ponto de chegada é uma
totalidade concreta, onde o pensamento re-capta e compreende
o conteúdo inicialmente separado e isolado do todo; posto
que sempre síntese provisória, esta totalidade parcial será
novo ponto de partida para outros conhecimentos;
-
os significados vão sendo construídos
através do deslocamento incessante do pensamento das
primeiras e precárias abstrações que constituem o senso
comum para o conhecimento elaborado através da práxis,
que resulta não só da articulação entre teoria e
prática, entre sujeito e objeto, mas também entre o
indivíduo e a sociedade em um dado momento histórico;
-
o percurso vai do ponto de partida ao
ponto de chegada, através de infinitas possibilidades de
percurso; pode-se buscar o caminho mais curto ou se
perder, marchar em linha reta, seguir uma espiral ou
manter-se no labirinto; ou seja, construir o caminho
metodológico é parte fundamental do processo de
elaboração do conhecimento; não há um único caminho para
se chegar a uma resposta, como há várias respostas
possíveis para o mesmo problema.
Esta concepção compreende o processo de
produção do conhecimento como resultante da relação entre o
homem e as relações sociais em seu conjunto, através da
atividade humana. O ponto de partida para a produção do
conhecimento, portanto, são os homens em sua atividade
prática, ou seja, em seu trabalho, compreendido como todas
as formas de atividade humana através das quais o homem
apreende, compreende e transforma as circunstâncias ao mesmo
tempo que é transformado por elas.
É o trabalho, portanto, o eixo sobre o qual
será construída a proposta político-pedagógica, que
integrará trabalho, ciência e cultura através de criteriosa
seleção de conteúdos e de seu tratamento metodológico.
Esta concepção epistemológica rejeita tanto o
entendimento que o conhecimento se produz através da mera
contemplação, como se bastasse observar a realidade para
apreender o que nela está naturalmente e à priori inscrito,
como o entendimento que o conhecimento é mero produto de uma
consciência que pensa a realidade, mas não nela e a partir
dela, ou seja, através de uma iluminação metafísica.
Infelizmente, estas duas concepções
predominam nos processos pedagógicos em geral onde quem
ensina se considera iluminado pela posse do conhecimento que
já encontra elaborado e difícilmente analisa e critica;
estuda, prepara e se exaure em explicações que o aprendiz
deve ouvir, absorver e repetir, mais como um ato de fé do
que como resultado de sua própria elaboração. O conhecimento
repassado é fruto do trabalho do que ensina, que não permite
que o aprendiz, com a sua orientação, faça o seu percurso.
Com o intuito de simular situações "práticas", o aluno faz
exercícios, resumos ou outras atividades, sempre repetindo
uma lógica e uma trajetória que não é a sua, mas a expressão
da relação que o professor, em seu modo singular de
conhecer, estabeleceu com o objeto a ser conhecido.
Estas mudanças reforçam a necessidade da
superação de uma concepção de ciência enquanto um conjunto
de verdades, ou sistemas formais de natureza cumulativa, em
nome da compreensão de que as teorias científicas que vão se
sucedendo ao longo da história são modelos explicativos
parciais e provisórios de determinados aspectos da
realidade.
Particularmente no final deste século, estes
modelos se superam com especial dinamismo, o que passa a
exigir o desenvolvimento da capacidade individual e coletiva
de relacionar-se com o conhecimento de forma crítica e
criativa, substituindo a certeza pela dúvida, a rigidez pela
flexibilidade, a recepção passiva pela atividade permanente
na elaboração de novas sínteses que possibilitem a
construção de condições de existência cada vez mais
democráticas e de qualidade.
Em decorrência, se as formas tradicionais de
relação com o conhecimento que se pautavam na absorção
passiva de conteúdos parciais formalmente organizados já
eram criticadas de longa data, nesta etapa elas são
inadmissíveis, até mesmo por demanda do desenvolvimento
capitalista.
Há que apontar, ainda, para o fato de que a
seqüência metodológica "preleção, fixação, avaliação" toma
por objeto o conhecimento sistematizado no seu mais alto
grau de abstração e generalidade, o que vale dizer, como
resultado final de um processo de construção que articulou
inúmeros e diversificados movimentos do pensamento coletivo
e deu-se em um determinado tempo e espaço para satisfazer
uma determinada necessidade da existência humana. Descolado
deste movimento e desta prática, e portanto, de sua
historicidade, este conhecimento dificilmente terá
significado para um estudante que recebeu a tarefa de
incorporá-lo a partir de sua expressão mais formalizada e
estática Daí as críticas feitas à escola sobre a
incapacidade dos alunos relacionarem os conteúdos das
disciplinas com as relações sociais e produtivas que
constituem a sua existência individual e coletiva.
Da mesma forma, a dinamicidade da produção
científico-tecnológica contemporânea aponta para um
princípio educativo que, sem chegar ao exagero de tomar os
conteúdos como pretexto, como se fosse possível um novo
formalismo (apreender os processos de construção do
conhecimento, os novos comportamentos, independentemente do
conteúdo a ser conhecido), privilegie a relação entre o que
precisa ser conhecido e o caminho que precisa ser trilhado
para conhecer, ou seja, entre conteúdo e método, na
perspectiva da construção da autonomia intelectual e ética.
Se o homem só conhece aquilo que é objeto de
sua atividade, e conhece porque atua praticamente, a
produção ou apreensão do conhecimento produzido não pode se
resolver teoricamente através do confronto dos diversos
pensamentos. Para mostrar sua verdade, o conhecimento tem
que adquirir corpo na própria realidade, sob a forma de
atividade prática, e transformá-la. A partir desta
afirmação, há duas dimensões a considerar.
A realidade, as coisas, os processos, são
conhecidos somente na medida em que são "criados",
reproduzidos no pensamento e adquirem significado; esta
re-criação da realidade no pensamento é um dos muitos modos
de relação sujeito/objeto, cuja dimensão mais essencial é a
compreensão da realidade enquanto relação humano/social. Em
decorrência, a relação entre o aluno e o conhecimento é
antes construção de significados do que de construção de
conhecimentos, posto que estes resultam de um processo de
produção coletiva que se dá por todos os homens ao longo da
história.
Em segundo lugar, é preciso considerar que a
prática não fala por si mesma; os fatos práticos, ou
fenômenos, têm que ser identificados, contados, analisados,
interpretados, já que a realidade não se deixa revelar
através da observação imediata; é preciso ver além da
imediaticidade para compreender as relações, as conexões, as
estruturas internas, as formas de organização, as relações
entre parte e totalidade, as finalidades, que não se deixam
conhecer no primeiro momento, quando se percebem apenas os
fatos superficiais, aparentes, que ainda não se constituem
em conhecimento.
Ou seja, o ato de conhecer não prescinde do
trabalho intelectual, teórico, que se dá no pensamento que
se debruça sobre a realidade a ser conhecida; é neste
movimento do pensamento que parte das primeiras e imprecisas
percepções para relacionar-se com a dimensão empírica da
realidade que se deixa parcialmente perceber, que, por
aproximações sucessivas, cada vez mais específicas e ao
mesmo tempo mais amplas, são construídos os significados.
Neste processo, portanto, para que seja
possível a aproximação produtiva da prática na perspectiva
da produção do conhecimento, é preciso alimentar o
pensamento com o que já é conhecido, quer ao nível do senso
comum, quer do conhecimento científico, com conteúdos e
categorias de análise que permitam identificar e delimitar o
objeto a ser conhecido e traçar o caminho metodológico para
chegar a conhecer. Este trabalho teórico, que por sua vez
não prescinde da prática, é que determinará a diferença
entre trilhar o caminho mais curto ou permanecer no
labirinto; é ele também que determinará a diferença entre
prática enquanto repetição reiterada de ações que deixam
tudo como está, e práxis enquanto processo resultante do
contínuo movimento entre teoria e prática, entre pensamento
e ação, entre velho e novo, entre sujeito e objeto, entre
razão e emoção, entre homem e humanidade, que produz
conhecimento e por isto revoluciona o que está dado,
transformando a realidade.
Finalmente, há que observar que este processo
não é apenas racional, nele intervindo afetos e valores,
percepções e intuições, que embora sejam fruto das
experiências, inscrevem-se no âmbito das emoções, ou seja,
no campo do sentido, do irracional. E, desta perspectiva, o
ato de conhecer resulta do desejo de conhecer, de uma vasta
e por vezes impensável gama de motivações e é profundamente
significativo e prazeiroso enquanto experiência humana.
Do ponto de vista metodológico, é de
fundamental importância reconhecer que a relação entre o
homem e o conhecimento se dá
através da mediação da linguagem, em suas
múltiplas formas de manifestação: a língua, a matemática, as
artes, a informática. Uma das grandes contribuições das
teorias sócio-interacionistas reside em apontar a interação
que existe entre as linguagens, a constituição de conceitos
e o desenvolvimento das capacidades cognitivas complexas.
Segundo Vygotsky, a cultura fornece aos
indivíduos os sistemas simbólicos de representação e suas
significações, que se convertem em organizadores do
pensamento, ou seja, em instrumentos aptos para representar
a realidade. (1989)
As linguagens, portanto, estabelecem as
mediações entre o aluno e o conhecimento de todas as áreas,
bem como entre a situação na qual o conhecimento foi
produzido e as suas novas formas de utilização na prática;
também é pela linguagem que o conhecimento tem consciência
de si mesmo, diferenciando-se do senso comum. (Vygotsky,1989)
A questão que se apresenta, portanto, é como
fazer para que a autoridade do professor, no sentido da sua
relação com o conhecimento e do seu desenvolvimento
cognitivo, seja usada não para impor as suas idéias, mas
para propor situações problemáticas que tirem o aluno da
inércia e o levem a sentir necessidade de reelaborar o
conhecimento pondo em ação suas próprias conceituações,
mesmo que errôneas, e de confrontá-las com outros
conhecimentos até que construa respostas satisfatórias. (Lerner,
1998)
As considerações de ordem epistemológica e
metodológica aqui levadas a efeito podem ser sintetizadas em
um conjunto de pressupostos a ser considerados na elaboração
dos projetos político-pedagógicos para todos os níveis e
modalidades de ensino:
-
O conhecimento é fruto da atividade
humana, compreendida em sua dimensão práxica, resultante
da articulação entre sujeito e objeto, pensamento e
ação, teoria e prática, homem e sociedade. Não há
conhecimento fora da práxis. Portanto, há que superar o
trabalho escolar enquanto contemplação, absorção passiva
de sistemas explicativos complexos desvinculados do
movimento da realidade histórico-social, organizando o
professor situações significativas de aprendizagem onde
estas dimensões estejam articuladas, possibilitando, em
particular, a inserção do aluno na prática social de sua
comunidade, para que ele possa dimensionar a
possibilidade de transformação a partir do conhecimento,
do compromisso político e da organização.
-
O conhecimento é a compreensão das leis
que regem os fenômenos, não apenas em um dado momento,
mas no movimento de sua transformação. Assim, o método é
a busca do movimento, das interrelações, das estruturas
que regem os fenômenos em suas múltiplas determinações,
na sua concreticidade reproduzida pelo pensamento.
-
O conhecimento de fatos ou fenômenos é o
conhecimento do lugar que eles ocupam na totalidade
concreta. Se, para conhecer, é preciso operar uma cisão
no todo, isolando temporariamente os fatos, este
processo só ganha sentido enquanto momento que antecede
à reunificação do todo a partir de uma compreensão mais
ampliada das relações entre parte e totalidade. Pela
análise da parte atinge-se uma síntese qualitativamente
superior do todo; parte e totalidade, análise e síntese,
são momentos entrelaçados na construção dos
conhecimentos. Esta categoria mostra a falácia da
autonomização das partes em que foi dividida a ciência,
a serem ensinadas apenas lógico formalmente através das
disciplinas, cujos conteúdos são apresentados,
memorizados e repetidos segundo uma seqüência
rigidamente estabelecida; ao contrário, indica a
necessidade de articulação entre os diversos campos
através da inter e da transdisciplinaridade, ao mesmo
tempo em que ocorrem aprofundamentos em campos
específicos do conhecimento. Ou seja, organizar o
processo pedagógico escolar, e em decorrência, organizar
a própria escola, de modo a articular momentos
disciplinares, absolutamente necessários enquanto
resposta à necessidade de formalização, a momentos inter
ou transdisciplinares, enquanto espaços de articulação
com as práticas sociais, culturais, políticas e
produtivas.
-
O
conhecimento é produzido ou apropriado através do
pensamento que se move do mais simples para o mais
complexo, do imediato para o mediato, do conhecido para
o desconhecido, de uma visão confusa, sincrética do todo
para o conhecimento mais profundo, substancial, dos
fenômenos da realidade, que ultrapassa a aparência para
deixar ver as conexões, relações internas, dimensões
estruturais e formas de funcionamento, no sentido da
aproximação da verdade. Há que se colocar, portanto, a
importância do ponto de partida, que não poderá ser o
conhecimento em sua forma mais abstrata, organizado em
rígidos sistemas teóricos, onde os conteúdos aparecem
rigorosa e formalmente organizados. O ponto de partida é
uma situação ou conhecimento de domínio do aluno, e
sempre que possível sob a forma de problema, indagação
ou desafio que mobilize suas energias mentais e
capacidades cognitivas tendo em vista a produção de uma
resposta a partir da busca de informações, de discussões
com os pares, com o professor ou com membros da
comunidade, no sentido de superar o senso comum em busca
do conhecimento científico. Para que tal aconteça, além
de exercer seu papel de organizador de atividades
mediadoras, propondo questões, disponibilizando
informações, discutindo e orientando, o professor deverá
ser um estimulador de motivações e desejos. Para que o
processo ocorra, não basta a consciência da necessidade
de conhecer, é preciso ter o desejo de fazê-lo. E tudo
isto leva tempo. Um aluno não passa de um estado de
relativa ignorância sobre um tema para o seu
conhecimento no curto espaço de uma aula, através de uma
exposição ou de uma única atividade. Isto significa
proceder a uma mudança radical na concepção curricular:
desviar o enfoque da quantidade de conteúdos a aprender
para o da qualidade dos processos que conduzam à
construção de significados e ao desenvolvimento das
capacidades cognitivas complexas através não só da
aprendizagem de conhecimentos, mas do exercício do
método científico.
-
O conhecimento exige o desenvolvimento da
capacidade de construir o caminho metodológico através
da compreensão da relação entre concreto e abstrato e
entre lógico e histórico. Já se afirmou anteriormente
que o pensamento, no processo de conhecer, parte de
precárias e provisórias abstrações resultantes de
saberes e experiências anteriores, para, através de uma
profunda imersão na realidade empírica, atingir outro
patamar de compreensão desta mesma realidade, que Kosik
(1976) denomina de real pensado, ou seja, agora
conhecido. No processo de conhecer, portanto, o
pensamento transita das primeiras abstrações para o real
pensado (concreto) através da mediação do empírico,
voltando sempre ao ponto de partida porém em níveis
superiores de abstração, ou seja, de compreensão, de
sistematização. Ao buscar o conhecimento , portanto, o
aluno precisa dominar o método, enquanto resultado da
articulação de momentos não lineares, mas de idas e
vindas que transitam da identificação do problema e de
seu recorte à busca de referências teóricas de
informações em distintas fontes, até que se chegue à
construção da resposta procurada. Neste processo de
construção do caminho metodológico, há que se considerar
a relação entre as dimensões lógica e histórica na
produção do conhecimento. Por histórico entende-se o
objeto em processo de construção no transcurso de seu
desenvolvimento em tempo real, com toda a sua
complexidade e contradições. Por lógico entende-se o
esforço do pensamento em sistematizar, ordenar o
movimento histórico, atribuindo-lhe forma, de modo a
apresentá-lo com clareza em tempo virtual. O movimento
histórico não é linear; é cheio de desvios, caótico e
desordenado. O lógico ordena o histórico, põe-lhe
racionalidade, recupera-lhe a coerência. O histórico
corresponde ao momento da investigação; o lógico, ao da
exposição. O domínio das formas metodológicas que
correspondem a estas duas lógicas, diferentes mas
complementares, é parte constitutiva do processo de
produção/apropriação do conhecimento, e portanto
fundamental para o desenvolvimento da autonomia moral e
intelectual. É o desenvolvimento desta capacidade que
conferirá especificidade à educação básica.
·
O conhecimento deverá promover a passagem da
aceitação da autoridade para a autonomia, na perspectiva da
autonomia ética, permitindo que o sujeito avance para além
dos modelos socialmente aceitos, criando novas
possibilidades fundadas em sólidos argumentos, sem ferir as
constrições sociais necessárias à vida coletiva. Ou seja,
possibilitar a passagem de um estágio onde as normas são
obedecidas em função de constrangimentos externos, para um
estágio onde as normas são reelaboradas e internalizadas a
partir do convencimento de que elas procedem e são
necessárias, transformando-se as que são ultrapassadas pelo
movimento da história, através do conhecimento. Estes
constrangimentos, não fosse a impossibilidade de pôr rédeas
ao pensamento sequioso de conhecer, jogariam o homem e a
sociedade no imobilismo conservador. Manter este equilíbrio
exige esforço da escola, particularmente nesta etapa em que
a falta de utopia, agravada pela ideologia neoliberal, tem
levado jovens e adultos a todos os tipos de contravenção
ética, quer em nome da sobrevivência, quer em nome de
momentos de prazer justificados pelo hedonismo resultante do
individualismo exacerbado deste final de século.
4. OS PROCESSOS PEDAGÓGICOS.
Os processos pedagógicos são processos
intencionais, deliberados, que têm por objetivo promover, em
contextos culturais definidos e de modo sistematizado,
relações significativas entre o aprendiz e o conhecimento
produzido pelos homens em seu processo social e histórico de
produção das condições materiais de sua existência.
Tomando como pressuposto que o conhecimento
não se produz na escola, mas nas relações sociais em seu
conjunto, torna-se necessário diferenciar dois tipos de
processo pedagógico: os amplamente pedagógicos, constituídos
pelas dimensões educativas presentes em todas as
experiências de vida social e laboral. Estas são
assistemáticas, não intencionais, mas nem por isto pouco
relevantes do ponto de vista da produção do conhecimento.
Os processos especificamente pedagógicos são
os intencional e sistematicamente desenvolvidos com o
objetivo de possibilitar o acesso ao conhecimento e à
cultura produzidos pela sociedade em seu processo de
desenvolvimento das forças produtivas ao longo da história.
Estes processos têm por finalidade possibilitar a transição
do senso comum, dos saberes tácitos originados das
experiências empíricas porém destituídos de sistematização
teórica, pelo domínio do conhecimento científico-tecnológico
e sócio-histórico, o que supõe o domínio do método
científico.
Para o desenvolvimento dos processos
especificamente pedagógicos, é central a compreensão de como
se apreende e de como se produz o conhecimento. Embora a
ciência contemporânea esteja longe de dar respostas
satisfatórias a esta questão há, contudo, alguns
pressupostos a partir dos quais é possível avançar na
construção de situações mediadoras entre o aprendiz e o
conhecimento.
O primeiro deles é que as formas culturais
internalizam-se ao longo do desenvolvimento dos indivíduos e
constituem-se no material simbólico que media a sua relação
com os objetos do conhecimento. Ou seja, a cultura fornece
aos indivíduos os sistemas simbólicos de representação e
suas significações, que se convertem em organizadores do
pensamento, ou seja, em instrumentos aptos para representar
a realidade.7
A partir deste pressuposto, uma primeira
questão se coloca: em uma sociedade dividida em classes, os
homens vivem em espaços culturais que, embora se cruzem, são
diferenciados, promovendo diferentes oportunidades de acesso
aos bens culturais. Estas diferenças culturais, que resultam
da desigualdade de classe, têm que ser consideradas nos
processos de ensino. Os alunos têm universos diferenciados
de significados, nem sempre contemplados na linguagem e nas
práticas pedagógicas, que na maioria das vezes supõe uma
uniformidade conceitual que não existe no ponto de partida
dos processos de ensino; aproximar estes universos de
significados é fundamental para assegurar o desenvolvimento
do conhecimento científico-tecnológico e sócio-histórico.
Em seguida, se coloca um segundo
questionamento: como cada indivíduo, com seu universo
próprio de significados e com suas formas próprias de se
relacionar com o conhecimento, mais ou menos lógico-formais
(abstratas), mais ou menos caóticas (concretas), internaliza
tais formas simbólicas disponibilizadas pela cultura, de
modo a transitar do senso comum, do conhecimento cotidiano,
do saber tácito, para o conhecimento científico, de modo a
ser capaz de fundamentar e compreender teoricamente a sua
prática, "atuando intelectualmente" e "refletindo
praticamente"?
Para Vygotsky esta internalização não se dá
espontaneamente, conferindo à intervenção pedagógica
decisivo papel; ou seja, se o homem é capaz de formular seus
conceitos cotidianos espontaneamente, tal não se dá no caso
do desenvolvimento de conceitos científicos, que demandam
ações especificamente planejadas, e competentes, para este
fim. Ou seja, o desenvolvimento das competências complexas,
que envolvem intenção, planejamento, ações voluntárias e
deliberadas, dependem de processos sistematizados de
aprendizagem. Estas dimensões – consciência, vontade,
intenção – pertencem à esfera da subjetividade; o processo
de internalização, que corresponde à formação da
consciência, é também um processo de constituição da
subjetividade a partir de situações de intersubjetividade; a
passagem do nível intersubjetivo para o nível intrasubjetivo
envolve relações interpessoais densas, mediadas
simbolicamente, e não trocas mecânicas limitadas a um
patamar meramente intelectual.8
Segundo o autor, as ações pedagógicas
implicam em apresentações sistemáticas que obriguem os
aprendizes a uma atitude metacognitiva, o que vale dizer, a
um domínio e controle consciente do sistema conceitual, bem
como a um uso deliberado das suas próprias operações
mentais, havendo uma reconstrução dos conceitos cotidianos a
partir de sua interação com os conceitos científicos. 9 Para
tanto, estabelece-se um permanente movimento entre sujeito e
objeto, o interno e o externo, o intrapsicológico e o
interpsicológico, o individual e o social, a parte e a
totalidade.
Estas relações entre o objeto a ser aprendido
e o sujeito da aprendizagem, para o mesmo autor, são sempre
mediadas por outros indivíduos; a interação do sujeito com o
mundo se dá pela mediação de outros sujeitos, não ocorrendo
a aprendizagem como resultado de uma relação espontânea
entre o aprendiz e o meio; da mesma forma, é sempre uma
relação social, resultante de processos de produção que o
homem coletivo foi construindo ao longo da história. Mesmo
quando a aprendizagem parece resultar de uma ação
individual, ela sintetiza a trajetória humana no processo de
produção cultural.
Se considerarmos a aprendizagem como
resultado de processos intencionais e sistematizados de
construção de conhecimentos, a intervenção pedagógica, o ato
de ensinar, é um mecanismo privilegiado e a escola é o
espaço privilegiado para a sua realização. É preciso, pois,
melhor conhecer este processo, que articula conteúdos,
método, atores, tempos e espaços educativos.
A primeira constatação a fazer é que o
processo cognitivo a ser desencadeado por quem aprende, o
saber que se pretende ensinar e a ação pedagógica a ser
desenvolvida pelo professor são categorias que estão em
permanente relação, que por sua vez sintetiza as relações
sociais em seu conjunto; não podem, portanto, ser tratadas
isoladamente ou descontextualizadas, pois encerram uma
função social determinada por um projeto de sociedade e por
uma dada concepção de homem. Assim, não há conteúdos ou
procedimentos que sejam bons em si mesmos; eles demonstrarão
sua eficácia na medida em que respondam a uma dada situação
em que se articulam o contexto social, o aprendiz e o
professor. Apreender esta relação e trabalhar
competentemente com ela é a primeira preocupação a pautar a
intervenção pedagógica.
A segunda sintetiza os pressupostos que foram
analisados ao longo do texto: ensinar é colocar problemas,
propor desafios, a partir dos quais seja possível reelaborar
conhecimentos e experiências anteriores, sejam conceitos
científicos, conhecimentos cotidianos (senso comum) ou
saberes tácitos; para isto é necessário disponibilizar todas
as informações que sejam necessárias através de todos os
meios disponíveis, orientando para o manuseio destas
informações, em termos de localização, interpretação,
estabelecimento de relações e interações, as mais ricas e
variadas possíveis; a multimídia pode contribuir
significativamente neste processo, sem que se secundarize a
importância das fontes tradicionais. Ensinar é promover
discussões, de modo a propiciar a saudável convivência das
divergências com os consensos possíveis, resultantes da
prática do confronto, da comparação, da análise de
diferentes conceitos e posições. Ensinar é planejar
situações através das quais o pensamento tenha liberdade
para mover-se das mais sincréticas abstrações para a
compreensão possível do fenômeno a ser apreendido, em sua
interrelações e em seu movimento de transformação, através
da mediação do empírico; é deixar que se perceba a
provisoriedade, e que nasça o desejo da contínua busca por
respostas que, sempre provisórias, nunca se deixarão
totalmente apreender; é criar situações para que o aprendiz
faça seu próprio percurso, nos seus tempos e em todos os
espaços, de modo a superar a autoridade do professor e
construir a sua autonomia.
O trajeto pedagógico a ser seguido, a partir
desta compreensão, envolve o conhecimento do contexto e do
aprendiz, não como dualidade, mas como relação, e o percurso
do método científico, que pode ser sintetizado pela:
problematização, tendo como ponto de partida
as relações sociais e produtivas;
teorização: definir os conhecimentos que
precisam ser apreendidos para tratar do problema, em que
fontes vou buscá-los e de que forma, articulando trabalho
individual e coletivo; |