Fichamento referente aos capítulos 6 a 8
do livro:
MANACORDA, Mário Alighiero; História da
Educação: da Antiguidade aos nossos dias.
Capítulo VI
A Educação no Trezentos e no Quatrocentos
Com o surgimento de uma nova classe, a dos
artesãos e comerciantes, a educação também se modificou, por
esse motivo deve ser estudada mais de perto.
Os clérigos passam de homens da Igreja e
tornam-se intelectuais.
Mesmo com toda a mudança na educação o ensino
da arte cavaleiresca continua, o cavaleiro agora com a
denominação de miles.
O papel do clérigo ainda é o de amar as
Sagradas Escrituras e o do leigo amar os livros e
preparar-se para as profissões liberais.
Os mestres também modificam-se, são mestres
livres os protagonistas da nova educação, com eles surge um
novo tipo de contrato, semelhante aquele que era escrito ao
dar as crianças para serem educadas nos conventos, com uma
diferença, agora o pai dá as crianças para serem educadas
por um mestre livre, mas os paga para que fiquem com seus
filhos, para que os mestres livres os ensinem uma profissão
mundana. Ou seja, o pai queria que o filho se tornasse um
bom comerciante, pois para essa classe social “emergente”,
esse era o principal motivo da educação, e mesmo a educação
escolástica era voltada para o comércio. Agora a educação
tinha um fim comercial, e para isso ensinavam os cálculos e
o ábaco, que tinham um valor prático muito maior que o da
gramática. Era a aritmética comercial que deveria ser
ensinada.
Com a formação escolástica profissional, aos
dez anos o menino era capaz de estar no caixa e depois de
“algum tempo” d manter os livros contábeis.
Há também o surgimento de novos mestres, que
ensinavam em novos tipos de escolas, com eles surgem os
monitores, que eram os protagonistas de uma nova forma de
ensinar, pois com ele a escola pôde ficar um pouco mais
organizada. No começo, os mestres ensinavam para as
profissões, mas pouco a pouco puderam invadir o campo dos
clérigos, e alguns mestres tornaram-se merecidamente
famosos.
Assim, a educação começa a ser melhor
comercializada, surgem as escolas que tinham seus mestres
pagos por esses, surgem o que hoje denominaríamos como
“cooperativas escolares e consumo”.
Outra forma de educação vinha com o preceptor
familiar, este que educava no seio das famílias dos grandes
ricos senhores.
Foi dessas transformações que surgiu o
humanismo, caracterizado como a volta ao clássico, surge
aristocrático, e com ele vem toda uma aversão a forma
tradicional de educação. Para os humanistas, a função do
pedagogo deveria ser exercida por pessoas que não tivessem
dom para mais nada, para pessoas que não soubessem fazer
algo melhor das suas vidas. E com esse argumento contra os
pedagogos levava as pessoas a não ensinarem outras a
dedicarem-se á literatura. Vai vir do humanismo uma busca
por uma nova educação, pois eram contra a obsessiva
repetição e a disciplina sadicamente severa.
A pedagogia humanística era voltada para que
a criança pudesse ir á favor de sua natureza, segundo os
humanistas, cada criança deveria ser educada de acorda com
sua índole. Os castigos físicos deveriam ser abolidos.
Diversão, jogos e brincadeiras deveriam ser absorvidos á
esse novo tipo de educação, pois o respeito aos adolescentes
deveriam vir em primeiro lugar, para que fossem instigados a
pensar e a aprender.
Segundo os humanistas, a pedagogia deveria
ser mais serena e rejeitar ameaças e pancadas.
Mas, em meio a tudo isso ainda existiam
pessoas que achavam que as letras eram falsas e inúteis, e
defendiam o caráter mecânico de todo o saber e o fazer.
O Humanismo deixa de ser somente italiano e
torna-se europeu, os europeus que também fazem uma crítica á
educação empregada até o momento. De acordo com os
humanistas europeus, a escola deveria ser um local onde os
educandos deveriam ir com prazer, se nas aulas acertassem
algo, deveriam ser elogiados, e a conversação deveria ser
incentivada.
A educação deveria ter uma função civil,
deveria formar o cidadão. Ainda há um desprezo para com as
pessoas que querem dedicar-se aos estudos.
A mercancia é o modo de ser contra o
humanismo, a mercancia é uma atividade que vai contra as
letras e as artes liberais, contra as disciplinas teóricas
que segundo os que a praticam, ocupam apenas com
conhecimento do espírito e da alma.
Nessa época também existe certa exigência de
uma renovação cultural anti humanística, que propunha uma
cultura voltada para a prática e para as ciências.
A educação cavaleiresca ainda existe, e da
mesma forma prepara para o exercício do poder, ainda é o
fazer da classe dominante, e prepara para a guerra, agora,
além da summa de habilidades, que eram sete, ensina-se aos
cavaleiros esgrimir, disparar com arma de fogo, pular,
lutar, lançar dardos. Ensinam-se também as boas maneiras,
pois os cavaleiros são nobres e gravitam em torno das
cortes.
“A aprendizagem da arte da guerra terá suas
manifestações nos torneios cavaleirescos até 1559, quando há
um acidente e Henrique II de Valois morre, pondo fim á
educação cavaleiresca, não só pela morte, mas como também
por outros fatores, tal como a invenção das armas de fogo.
Capítulo VII
A Educação no
Quinhentos e no Seiscentos
No Quinhentos e no Seiscentos muitas
transformações ocorrem no mundo, tais como o Renascimento, a
Reforma, a Contra Reforma, a Utopia, a Revolução.
Volta o problema, como e quando instruir?
Quem deverá ser instruído? Instruído para o quê? A pobreza
também é um empecilho para a educação.
Começa, então a instrução do povo, com um
sistema de instrução popular. A Reforma trouxe consigo a
idéia de que deveriam existir mais cidadãos cultos,
instruídos e bem educados. Com Lutero veio a idéia de que
deveriam existir escolas não apenas destinadas a meninos que
iriam continuar os estudos, mas àqueles que iriam
destinar-se ao trabalho.
Para os reformistas era importante que
meninos e meninas fossem instruídos desde a infância. A
escola deveria formar homens capazes de governar um Estado,
o projeto da escola nova baseava-se em educar em três anos,
o que nas escolas antigas demoraria uma vida inteira.
Segundo essas novas idéias, ensinar era um
trabalho muito cansativo e ninguém deveria fazer isso por
mais de dez anos. De acordo com Lutero, todos deveriam ser
instruídos, para que pudessem interpretar as Sagradas
Escrituras e para que fosse possível uma maior participação
na vida política.
Para os reformadores, as escolas seriam o
princípio de tudo, já que acreditavam que todas as pessoas
nasciam más e que a qualquer momento poderiam ser
influenciadas pela sociedade, para eles a escola ensinaria
como controlar a si próprio, acreditavam também que sem a
devida instrução ninguém conseguiria governar. Para eles,
todos poderiam ser não apenas governados, mas governantes.
Os reformistas, tal como os humanistas
queriam aproximar as escolas da cidade, também queriam uma
pedagogia mais serena.
A Contra Reforma foi contra a extensão da
instrução para as classes populares e contra toda a inovação
cultural. Na Contra Reforma os livros eram proibidos. As
escolas também foram reorganizadas com a Contra Reforma,
evocando explicitamente as antigas tradições, o ensino da
Gramática foi regulamentado, como o das Sagradas Escrituras
e da Teologia, tudo era fiscalizado pelo bispo. Toda a
Educação tinha um objetivo religioso.
O Ensino foi satirizado em comédias, onde
mostra os mestres indo à caça de seus discípulos, ou mesmo,
um mestre ensinando o alfabeto repetidamente para seu
discípulo que já o sabia até de trás para frente.
No Seiscentos há uma crise cultural, uma
visível decadência da universidade como centro de cultura e
a iminente explosão da quérelle des anciens et des modernes.
Entre meio a todas as transformações surgem
as utopias escolásticas, que visavam a educação para todos.
Segundo essa utopia, todas as crianças deveriam ser
instruídas e aos adultos deveria sobrar tempo para se
dedicarem ás letras, isso deveria ser ensinado na sua
própria língua (polêmica contra o latim). Aos cidadãos
deveria-se permitir um tempo integral para se dedicarem aos
estudos, aos que fossem muito bem, deveriam largar o
trabalho e dedicar-se somente a isso. Fora essas utopias,
outras surgiram, muitos achavam ser o ensino da gramática e
da lógica um ensino servil, então passaram a ensinar nas
escolas suas ciências, geografias, costumes, história.
Bacon também é inovador, sua proposta é a
criação de uma “casa de Salomão”, dedicada ao estudo e á
observação das criaturas de Deus.
Essa é a imagem de uma sociedade
revolucionada, por três grandes invenções: imprensa, bússola
e pólvora para tiro, que condicionaram a difusão da cultura
e a exploração e conquista da terra.
A reelaboração de toda a enciclopédia do
saber e a sua adequação ás capacidades infantis, são o
grande tema da pedagogia de Comenius, cria-se o Atlas
Científico Ilustrado, para que as imagens chegassem até as
crianças e cria-se um texto que utiliza a dramatização, que
faz com que as crianças recitem ativamente as passagens da
história.
Muito dedicaram-se a reforma e a modernização
da escola, criaram escolas que preparavam para uma
profissão, outras que se inspiravam numa “nova filosofia
experimental”, e ainda outras que relacionavam a educação
com as atividades fundamentais de um país.
A Educação passa a visar não a variedade dos
conhecimentos, mas a liberdade de pensamento.
Capítulo VIII
A Educação no
Setecentos
Começam a surgir as pequenas escola, que não
visam mais apenas ensinar, mas aperfeiçoar a razão e formar
o juízo.
Surgem as primeiras escolas
técnico-profissionais e as primeiras escolas “normais” para
leigos, as quais antes eram apenas para clérigos.
As novas escolas cristãs possuíam seus
próprios meios de manter a ordem local, tudo começava com o
horário e o planejamento das aulas, todas as lições eram
divididas entre principiantes, médios e avançados. As
crianças, primeiramente aprendiam as sílabas, deveriam
apenas silabar e não lê-las, prendiam a soletrar, depois ele
aprendiam a ler por períodos, observando os pontos e as
vírgulas, começando um pouco de gramática, aprendiam os
números, franceses e romanos, aprendiam a ler o latim no
Saltério, também por sílabas e por pausas.
Aprender a escrever levava tempo nas escolas
cristãs, a criança deveria aprender a segurar a pena e a
posicionar o corpo, para depois passar para as lições da
escrita propriamente dita. Aprendiam o ábaco, logo depois de
terem aprendido a ler e a escrever. A ortografia era
basicamente aprender a escrita dos registros, ou seja, a
escrita comercial.
Como pode-se observar, havia uma distinta
separação didática entre o ler e o escrever, duas técnicas a
coexistência de duas instruções diferentes: uma voltada para
a religião e outra para a pré- aprendizagem das profissões
mercantes, sendo esta a grande novidade das escolas cristãs.
Os castigos físicos voltaram a tona nesse
período, como meios de estabelecer a ordem, mas eles não
eram os meios principais, existiam também a vigilância
constante, os sinais, os registros, as recompensas, as
correções ou punições, a pontualidade, as autorizações, os
oficiais e a própria estrutura da escola e dos equipamentos.
Nessa época foi importante mostrar aos pais
que eram artesãos a importância de seu filho saber ler e
escrever, pois era preciso mostrar que sabendo isso ele
seria capaz de tudo.
O latim deixa de ser utilizado como língua
universal com a modernidade, a partir do momento que algumas
línguas nacionais se consolidam e se impõe no uso
internacional.
Educar de forma humana todos os homens é o
grande objetivo da educação moderna, os reformadores e os
revolucionários deste século tentam concretizar este ideal.
A escola precisava se modificar, pois as
críticas que recaíam sobre ela eram sempre as mesmas, porque
ela na se modificara no decorrer dos anos. Nesse período a
educação estava em alta, pois dela todos se ocupavam.
Começa aí a era da reescrita das
enciclopédias, pois o mundo entrava na era das luzes. A
redação da grande Enciclopédia das ciências das artes e dos
ofícios marca uma virada na história da cultura.
Há uma preocupação com as coisas que fizeram
com que o mundo mudasse. Rousseau, no quadro da pedagogia
também inova, observa a criança focalizando o sujeito, com
uma abordagem centrada na reclassificação do saber e na sua
transmissão à criança como todo já pronto. Estabelece uma
relação entre sociedade e educação.
Surgem as escolas Estatais, mantidas pelo
Estado, onde era ensinado da história ás ciências naturais,
visando a formação da inteligência. Pensava-se em uma
passagem total da instrução da Igreja para o Estado, a qual
a Igreja foi contra, mas não teve forças para reagir e a
educação passou a ser assunto estatal.
As escolas estatais também forma
subdivididas, em Trivial, com crianças de 6 a 12 anos,
Escolas Principais, incluindo as escolas normais, Escolas
Intermediárias e Universidades, já reorganizadas
anteriormente.
Com a revolução Industrial, também houve uma
modificação na instrução e o surgimento da moderna
instituição escolar. Fábricas e escolas nascem juntas. Agora
são os políticos que lutam pela instrução, foi proposta uma
escola seletiva, onde dos sete aos dez anos todos teriam
direito de estudar, mas somente os melhores passariam para
as escolas secundárias e os melhores destas escolas, para as
universidades. A instrução pública deveria instaurar uma
igualdade de fato entre os cidadãos, e deveria dar a mesma
importância para todas as matérias.
Surge o Conservatório de Artes e Ofícios, que
tornar-se-á uma alta escola de aplicação da ciência ao
comércio e a industria.
A Igreja ainda é contra as intervenções
jurídicas do Estado e a difusão das novas filosofias. Com as
novas escolas, os tradicionais chicotes e varas ficaram de
fora, os castigos tornam-se mais amenos, colocando os alunos
de joelhos num canto escuro da sala, ou colocando-o numa
carteira separada das demais. Alunos mal educados são
suspensos e até expulsos das escolas.
Com todas essas mudanças surgem experiências
que acabam dando certo, como o ensino mútuo onde monitores
são instruídos pelos mestres e passam a ensinar outros
adolescentes, esse tipo de ensino difunde-se rapidamente.
Com essa técnica um número muito maior de alunos poderiam
ser instruídos, o que causa um alvoroço nos conservadores,
que sabem que o maior número de pessoas instruídas podem
“perturbar o Estado”.
As lições são breves e fáceis, os alunos
aprendem a desenhar as letras em tábuas com areia, para ler,
os alunos agrupam-se em semi-círculo na frente da lousa e
tudo se desenvolve com disciplina. A avaliação de cada aluno
é feita individualmente, se por um acaso algum não estiver
apto para aprender nessa sala, é transferido para a série
anterior e senta-se na primeira carteira, ao aluno que está
acompanhando todas as lições é dada a oportunidade de
avançar para a série seguinte, sentando-se na última
carteira da mesma. A competição é o princípio ativo destas
escolas, que solicitam a participação, embora extrínseca e
não conhecem a punição física.
A experiência de J. P. Pestalozzi também foi
válida, sua ambição foi juntar o que Rousseau separou, homem
natural com a realidade histórica. Ele vê no amor materno um
auxílio para a sua educação.
Segundo Pestalozzi, a natureza boa da criança
deveria ser cultivada e a ruim exterminada. A criança
deveria ser instigada a pensar, deveria ser encorajada.
Segundo ele, as lições não deveriam começar de forma
abstrata. A música deveria ser incorporada à educação, pois
ela faz com que venha à tona o que a pessoa tem de melhor.
Para ele, a educação não deve ser limitada “De fato, a
inspiração e os métodos- o ativismo e a benevolência, de um
lado, e a rigorosa disciplina e o mecanicismo de outro- são
totalmente antípodas. Ambas, porém, estão destinadas a
inspirar grande parte das iniciativas pedagógicas da
primeira metade do Oitocentos”.