Luto
O luto é um
processo mental destinado à instalação de uma perda
significativa na mente. Segundo Kaplan (1997), o luto sem
complicações é visto como uma resposta normal em vista da
previsibilidade de seus sintomas e seu curso. O luto inicial
manifesta-se freqüentemente por um estado de choque, podendo
ser expresso como um sentimento de topor e de completo
atordoamento. A parte perceptível deste processo se
caracteriza, inicialmente, pela repetida rememoração da
perda sempre acompanhada do sentimento de tristeza e de
choro, após o que a pessoa acaba se consolando. Evoluindo,o
processo passa a ser de rememoração de cenas agradáveis e
desagradáveis, nem sempre seguidas de tristeza e choro, mas
sempre com a consolação final. Kaplan (1997), segue
comentando que é um processo sempre lento, longo e
acompanhado de graus variáveis de falta de interesse pelo
mundo exterior (tristeza), que vão diminuindo conforme o
processo avança. O processo vai gradualmente se extinguindo
com desaparecimento da tristeza, do choro e instalação da
consolação e volta do interesse pelo mundo exterior. No
final, a pessoa perdida passa a ser apenas uma lembrança, o
sentimento de tristeza desaparece e a vida afetiva retoma
seu curso voltando a ser possível novas ligações afetivas.
Para Freud (1916), "O luto, de modo geral, é a reação à
perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que
ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade
ou o ideal de alguém, e assim por diante”. “E segue dizendo
que o luto normal é um processo longo e doloroso, que acaba
por resolver-se por si só, quando o enlutado encontra
objetos de substituição para o que foi perdido.”
"O trabalho de luto consiste, assim, num desinvestimento de
um objeto, ao qual é mais difícil renunciar na medida em que
uma parte de si mesmo se vê perdida nele” Mannoni (1995).
De acordo
com
Freud (1916), o trabalho
de luto se realiza, de forma que toda libido é retirada das
ligações com objeto amado, a realidade mostra que esse
objeto não existe mais. Porém as pessoas nunca abandonam de
boa vontade uma posição libidinal, nem mesmo na realidade
quando encontra um substituto.
Existe um período considerado necessário para a pessoa
enlutada passar pela experiência da perda. Esse período não
pode ser artificialmente prolongado ou reduzido, uma vez que
o luto demanda tempo e energia para ser elaborado.
Costuma-se considerar que o primeiro ano é importantíssimo
para que a pessoa enlutada possa passar, pela primeira vez,
por experiências e datas significativas, sem a pessoa que
morreu (Kaplan 1997).
Por outro lado, não podemos tomar isto como uma regra fixa,
há muitos fatores que entram em cena, quando se trata de
avaliar as condições do enlutado, seus recursos para
enfrentar a perda e as necessidades que podem se apresentar.
Para
cada enlutado, sua perda é a pior, a mais difícil, pois cada
pessoa é aquela que sabe dimensionar sua dor e seus recursos
para enfrentá-la.
Para Freud
e Melanie Klein uma das formas da pessoa liberar-se do luto
é tendo a prova da realidade. Neste período a pessoa
conseguirá se desligar e canalizar a libido para outro
objeto.
Segundo
Melanie Klein (1981), a dor sentida no lento processo do
teste da realidade durante o trabalho penoso de luto parece
ser devido, em parte, não somente à necessidade de renovar
os vínculos com o mundo externo, mas também sim
reexperimentar continuamente a perda, reconstruindo
angustiosamente o mundo interno, que se sente estar em
perigo de deterioração e colapso.
Entretanto Freud (1916), suspeita de que algumas pessoas, ao
passar pela mesma situação de perda, em vez de luto,
produzem melancolia, sendo esta uma disposição patológica
do individuo. Para justificar essa premissa, o autor fez uma
série de comparações entre o luto e a melancolia, tentando
mostrar o que ocorre psiquicamente com o sujeito em ambos o
caso.
QUADRO
TEÓRICO
Desde muito cedo, ainda bebês,
segundo a interpretação de
Melanie Klein (1981), a
criança passa por um processo de interiorização quando elas
começam ter relações primeiramente com a mãe, depois com seu
pai e com outras pessoas. A criança ao incorporar seus pais,
sente-os como pessoas vivas dentro do seu corpo, de modo
concreto em que as profundas fantasias inconscientes são
sentidas, elas são em sua mente, objetos interiores ou
interiorizado.
Por isso
todas as alegrias que a criança goza através da sua relação
com a mãe são provas para ela que o objeto amado, dentro e
fora do seu corpo, não esta lesado e não se transformara
numa pessoa vingadora. O aumento do amor e da confiança
através e a diminuição dos temores através de experiências
felizes, ajudam a criança, passo a passo, a ultrapassar sua
depressão e sentimento de perda (luto). (Melanie Klein,
1981).
A princípio,
convivemos com separações temporárias, como por exemplo, a
mudança de escola. Mas chega uma hora, que acontece a nossa
primeira perda definitiva: alguém que nos é muito querido,
um dia, se vai para sempre.
Segundo
Kübler-Ross (1997), deve -se permitir que as crianças
continuem em casa, onde ocorreu uma desgraça, e participem
da conversa, das discussões e dos temores, faz com que não
se sintam sozinhas na dor, dando-lhes conforto de uma
responsabilidade e luto compartilhado. A autora segue ainda
nos relatando que com isso a um incentivo para que encarem a
morte como parte da vida, uma experiência que pode ajuda-las
a crescer e amadurecer.
Freud, o trabalho de luto consiste principalmente no teste
da realidade, ou seja, restabelecendo o contato com o mundo
real, descobre e redescobre que a pessoa amada não existe
mais. Já Klein o teste da realidade não se refere só a
realidade externa, mas também a realidade interna. Mostra
que a pessoa amada perdida estava identificada com os
objetos bons internos, e que sua perda representa um
desmoronamento de todo o mundo interno que deve ser
reconstruído.
Quando
existe a perda de uma pessoa amada, o sujeito acolhe dentro
de si a pessoa que perdeu (reincorpora-a), mas também
reinstala seus objetos bons interiorizados. Então a posição
depressiva mais recuada e, com ela, as ansiedades, os
sentimentos de culpa, de perda e de aflição, derivados da
situação do seio materno, da situação de édipo e de outras
fontes, tudo isso é reativado.
Quando o trabalho de reparação do objeto amado prejudicado
está sendo efetuado, se no fundo da mente isso significa um
triunfo sobre ele, a reparação fracassa e a culpa não é
aliviada. O triunfo sobre o objeto internos que o bebê
controla, humilha e tortura é uma parte do aspecto
destrutivo da posição maníaca que perturba a reparação e a
recriação de seu mundo interno e da paz e harmonia interna.
E assim o triunfo impede o trabalho do luto primitivo. A
morte da pessoa amada real pode despertar ódio, que na
situação de luto é sentida como triunfo sobre o morto, e
aumenta a culpa. No luto normal há também sentimento de
triunfo sobre o morto, com a conseqüência de retardar o
trabalho de luto ou aumentar as dificuldades e dor do
enlutado (Simon, 1986).
Da mesma
forma como a criança, passando pela posição depressiva, luta
em seu inconsciente com a tarefa de estabelecer e integrar o
mundo interno, assim também, o individuo em luto atravessa
um estado maníaco depressivo, o sujeito enlutado sofre a
pena de restabelecer e reintegrar esse mesmo mundo(Klein,
1981).
Para
Melanie Klein o trabalho de luto implica na superação das
regressões paranóides e dos mecanismos maníacos, ate que o
mundo interno seja restaurado. Se a necessidades depressivas
não puderem ser superadas pelo enlutado, resultara no luto
anormal (excessiva ligação interminável ao morto,
indiferença pela perda) ou doença mental.
Certas
características do indivíduo podem fazer com que o processo
de luto se torne patológico, o que para Freud (1916) era a
melancolia, similar ao luto, mas de caráter patológico. Para
Melanie Klein (1981) o processo do luto teria grande relação
e semelhanças com o estado maníaco depressivos.
Conforme Freud (1916), no luto, há uma perda consciente. Na
melancolia, a pessoa sabe quem perdeu, mas não o que perdeu
nesse alguém. "A melancolia está de alguma forma relacionada
a uma perda objetal retirada da consciência, em
contraposição ao luto, no qual nada existe de inconsciente a
respeito da perda”.
“Os traços
mentais distintivos da melancolia são um desanimo
profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo, a
perda da capacidade amar, a inibição de toda e qualquer
atividade, e uma diminuição dos sentimentos de auto-estima a
ponto de encontrar expressão de recriminação e
auto-envelhimento, culminando numa expectativa delirante de
punição” Freud (1916).
Ainda citando Freud, (1916) o melancólico pode apresentar
características de mania. “... o maníaco demonstra
claramente sua liberação do objeto que causou seu
sofrimento, procurando, como um homem vorazmente faminto,
novas catexias objetais”.Ou seja, há uma busca
indiscriminada de outros objetos nos quais o indivíduo possa
investir.
O que se poderia dizer afinal é que, a pessoa melancólica
coloca a si própria como culpada pela perda do objeto amado.
Talvez a grande diferença
entre o luto e melancolia para Freud é que no luto o mundo
torna-se pobre, vazio e inexpressivo e na melancolia é o
próprio ego”.Os sentimentos negativos são expressos contra o
self, e a pessoa se torna deprimida,
em Freud(1916)”O paciente representa seu ego para nós como
se fosse desprovido de valor, incapaz de qualquer realização
e moralmente desprezível...".
CONCLUSÃO
O luto é uma
das experiências mais universais desorganizadoras e
assustadoras que vivem o ser humano, entretanto a forma como
individuo ira viver seu luto que identificara um surgimento
de uma patologia (melancolia) ou desenvolvimento de um
processo normal de perda.
E para criança
diga-se segundo Melanie Klein (1981), ela deve ter absoluto
acesso as experiências do luto desde o peito materno, é como
ela tem esse acesso que ajudara num desenvolvimento normal
do luto.E não é por outro motivo que Kluber-Ross (1997),
afirma que o luto não deve ser escondido da criança, assim
ela vai perceber que a morte faz parte da vida.
A criança aprende que se podem
ultrapassar tristezas, apoiando-se nos outros.
É como se aprende a lidar com este luto ainda criança que
vai nos dar condições de elaborar novos lutos na vida
adulta, que seria a prova da realidade descrita por Freud
(1916), Melanie Klein (1981).
Passamos por
essas fases de luto muitas vezes em nossas vidas, fazendo-se
necessário olharmos para nós mesmos e reinvestirmos nossa
energia, vivendo dia-a-dia até que tenhamos ultrapassado
esses momentos difíceis. Podemos, no entanto, aprender a
conviver com a dor, se o trabalho
de luto for bem sucedido, pode levar a enriquecimento,
transformando-a (sublimação) em um movimento positivo que
possa ajudar ao mundo e a nós mesmos.
Por fim é
o mais
importante ressaltar que, o profissional devera saber
diferenciar o processo de luto, normal e a melancolia
(Freud, 1916) ou luto patológico Melanie Klein(1981),
podendo assim traçar um diagnostico do cliente.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS:
Freud, S. Luto e Melancolia. Edição Standard Brasileira das
Obras Completas de Sigmund Freud, vol. XIV, Imago, Rio de
Janeiro, 1914-1916.
Kübler-Ross,
E. Sobre a morte e o morrer. 8ª edição.
Martins Fontes, São Paulo, 1997.
Klein, M. Contribuições à psicanálise. São Paulo,
Mestre Jou,1981.
Kaplan,H: Compêndio de psiquiatria: ciência do
comportamento e psiquiatria clinica. 7a
edição.Artmed,1997.
Mannoni, M. O nomeável e o inominável. Jorge Zahar
Editor, Rio de Janeiro, 1995
Simon, R.Introdução a psicanálise:Melanie Klein.3aedição.
EPU,São Paulo,1986.