Um
Estudo Teórico Sobre a Morte
INTRODUÇÃO
Desde os primórdios da Civilização,
a morte é considerada um aspecto que fascina e, ao mesmo tempo,
aterroriza a Humanidade. A morte e os supostos eventos que a
sucedem são, historicamente, fonte de inspiração para
doutrinas filosóficas e religiosas, bem como uma inesgotável
fonte de temores, angústias e ansiedades para os seres humanos.
O interesse pelo tema da morte teve
início com a leitura de algumas reportagens do LELU
(Laboratório de Estudos e Intervenção sobre o Luto). O contato
com estas reportagens, e a análise da morte como fenômeno
psíquico, foram o ponto de partida deste trabalho. As matérias
vieram de encontro aos anseios naturais sobre a morte e mostraram
que, apesar da dimensão etérea que a morte toma em nível
psíquico, existem profissionais e entidades empenhadas em
estudá-la de forma científica, usando uma metodologia
essencialmente psicológica.
Em função do contato inicial com o
material do LELU e do interesse por ele despertado, a busca de
outras pesquisas já realizados no mesmo campo foi um impulso
natural, e acabou formando a base teórica que sustenta este
trabalho.
A morte como fenômeno físico já foi
exaustivamente estudada e continua sendo objeto de pesquisas,
porém permanece um mistério impenetrável quando nos
aventuramos no terreno do psiquismo.
Falar sobre morte, ao mesmo tempo que
ajuda a elaborar a idéia da finitude humana, provoca um certo
desconforto, pois damos de cara com essa mesma finitude, o
inevitável, a certeza de que um dia a vida chega ao fim.
A certeza humana da morte aciona uma
série de mecanismos psicológicos. E são esses mecanismos que
instigam a nossa curiosidade científica. Em outras palavras, o
foco de interesse seria como o homem lida com a morte; seus
medos, suas angústias, suas defesas, suas atitudes diante da
morte.
O objetivo da presente pesquisa é o
aprofundamento teórico da questão da morte, enfocando a maneira
pela qual o homem lida com este fenômeno humano inevitável,
percebendo os mecanismos psicológicos que entram em ação
quando o homem se encontra diante da morte.
O tema da morte não é de forma alguma
uma discussão atual. Foram muitos os filósofos, historiadores,
sociólogos, biólogos, antropólogos e psicólogos a discutir o
assunto no decorrer da História. Isto porque a morte não
faz parte de uma categoria específica; é uma questão que
atravessa a história, é sobretudo uma questão essencialmente
humana.
Dentro dos vários enfoques teóricos
que possibilitam a reflexão sobre a morte, um deles nos
interessa em especial: o enfoque psicanalítico. Foi esse enfoque
que deu corpo às nossas indagações sobre a morte, seja
através da análise pessoal, seja através da teoria
propriamente dita.
A concepção que se tem sobre a morte
e a atitude do homem diante dela, tende a se alterar de acordo
com o contexto histórico e cultural. Sem dúvida o advento do
capitalismo e seus tempos de crise, fez surgir uma nova visão
sobre a morte, que segundo Torres, (1983), tem a ver com o
surgimento do capital como força principal de produção. Neste
sentido, o vivo pode tudo e o morto não pode nada, já que teve
sua vida produtiva interrompida.
Diante desta crise, na qual os homens
encontram-se completamente abandonados e despreparados, vemos
este aprofundamento teórico como uma forma de dimensionar a
morte, contribuindo para sua melhor compreensão e elaboração,
instrumentalizando sobretudo, os profissionais da área de
saúde, que trabalham lado a lado com este tema.
Este trabalho encontra-se estruturado
em três partes principais. A primeira busca analisar o impacto
da morte na sociedade através do tempo, mostrando como
diferentes povos em diferentes épocas, lidavam com essa
questão. A segunda parte fala sobre os sentimentos ambíguos
gerados em nós, seres humanos, quando somos obrigados a encarar
a nossa própria morte, bem como a morte do outro. A terceira e
última parte fala do luto, em seus diversos contextos.
DADOS HISTÓRICOS
Possuímos uma herança cultural sobre
a morte que define nossa visão de morte nos dias atuais. Segundo
Kastenbaum e Aisenberg (1983), as interpretações atuais sobre a
morte constituem parte da herança que as gerações anteriores,
as antigas culturas nos legaram.
Faremos então, um pequeno passeio pela
história para que possamos entender como foi construída a
idéia da morte encontrada nos dias de hoje.
Arqueólogos e antropólogos, através
de seus estudos, descobriram que o homem de Neanderthal já se
preocupava com seus mortos:
Não somente o homem de Neanderthal
enterra seus mortos, mas às vezes os reúne (gruta das
crianças, perto de Menton).&rdquo Morin (1997)
Ainda segundo Morin (1997) na
pré-história, os mortos dos povos musterenses eram cobertos por
pedras, principalmente sobre o rosto e a cabeça, tanto para
proteger o cadáver dos animais, quanto para evitar que
retornassem ao mundo dos vivos. Mais tarde, eram depositados
alimentos e as armas do morto sobre a sepultura de pedras e o
esqueleto era pintado com uma substância vermelha.
O não abandono dos mortos implica a
sobrevivência deles. Não existe relato de praticamente nenhum
grupo arcaico que abandone seus mortos ou que os abandone sem
ritos. Morin (1997)
Ainda hoje, nos planaltos de
Madagáscar, durante toda a vida, os kiboris constróem uma casa
de alvenaria, lugar onde seu corpo permanecerá após a morte.
Segundo Kastenbaum e Aisenberg (1983),
os egípcios da antigüidade, em sua sociedade bastante
desenvolvida do ponto de vista intelectual e tecnológico,
consideravam a morte como uma ocorrência dentro da esfera de
ação. Eles possuíam um sistema que tinha como objetivo,
ensinar cada indivíduo a pensar, sentir e agir em
relação à morte.
Os autores seguem dizendo que os
malaios, por viverem em um sistema comunitário intenso,
apreciavam a morte de um componente, como uma perda do próprio
grupo. Desta feita, um trabalho de lamentação coletiva diante
da morte era necessário aos sobreviventes. Ademais, a morte era
tida não como um evento súbito, mas sim como um processo a ser
vivido por toda a comunidade.
Segundo Ariès (1977), na Vulgata, o
livro da Sabedoria, após a morte, o justo irá para o
Paraíso. As versões nórdicas do livro da Sabedoria
rejeitaram a idéia de Paraíso descritas no livro original pois,
segundo os tradutores, os nórdicos não esperam as mesmas
delícias que os orientais, após a morte. Isso porque os
orientais descrevem que o Paraíso tem &ldquoa frescura da
sombra&rdquo, enquanto os nórdicos preferem &ldquoo
calor do sol&rdquo. Estas curiosidades nos mostram como o ser
humano deseja, ao menos após a morte, obter o conforto que não
conseguiu em vida.
Já o budismo, através da sua
mitologia, busca afirmar a inevitabilidade da morte. A doutrina
budista nos conta a Parábola do Grão de Mostarda: uma mulher
com o filho morto nos braços, procura Buda e suplica que o faça
reviver. Buda pede à mulher que consiga alguns grãos de
mostarda para fazê-lo reviver. No entanto, a mulher deveria
conseguir estes grãos em uma casa onde nunca houvesse ocorrido a
morte de alguém. Obviamente esta casa não foi encontrada e a
mulher compreendeu que teria que contar sempre com a morte.
Na mitologia hindu, a morte é encarada
como uma válvula de escape para o controle demográfico. Quando
a &ldquoMãe-Terra&rdquo, torna-se sobrecarregada de
pessoas vivas, ela apela ao deus Brahma que envia, então, a
&ldquomulher de vermelho&rdquo (que representa a morte na
mitologia ocidental) para levar pessoas, aliviando assim, os
recursos naturais e a sobrecarga populacional da
&ldquoMãe-Terra&rdquo.
Segundo Mircea Elíade (1987) os
fino-úgricos (povos da região da Península de Kola e da
Sibéria Ocidental), têm sua religiosidade profundamente
vinculada ao xamanismo. Os mortos destes povos eram enterrados em
covas familiares, onde os que morreram há mais tempo, recebiam
os &ldquorecém mortos&rdquo. Assim, as famílias eram
constituídas tanto pelos vivos quanto pelos mortos.
Esses exemplos nos trazem uma idéia de
continuidade em relação à morte, não sendo a mesma,
considerada como um fim em si. Havia uma certa tentativa de
controle mágico sobre a morte, o que facilitava sua integração
psicológica, não havendo portanto, uma cisão abrupta entre
vida e morte. Isso sem dúvida aproximava o homem da morte com
menos terror.
Apesar da familiaridade com a morte, os
Antigos de Constantinopla mantinham os cemitérios afastados das
cidades e das vilas. Os cultos e honrarias que prestavam aos
mortos, tinham como objetivo mante-los afastados, de modo que
não &ldquovoltassem&rdquo para perturbar os vivos.
Por outro lado, na Idade Média, os
cemitérios cristãos localizavam-se no interior e ao redor das
igrejas e a palavra cemiterium significava também
&ldquolugar onde se deixa de enterrar. Daí, eram tão comuns
as valas cheias de ossadas sobrepostas e expostas ao redor das
igrejas.
A Idade Média foi um momento de crise
social intensa, que acabou por marcar uma mudança radical na
maneira do homem lidar com a morte. Kastenbaum e Aisenberg (1983)
nos relatam que a sociedade do século catorze foi assolada pela
peste, pela fome, pelas cruzadas, pela inquisição; uma série
de eventos provocadores da morte em massa. A total falta de
controle sobre os eventos sociais, teve seu reflexo também na
morte, que não podia mais ser controlada magicamente como em
tempos anteriores. Ao contrário, a morte passou a viver lado a
lado com o homem como uma constante ameaça a perseguir e pegar a
todos de surpresa.
Esse descontrole, traz à consciência
do homem desta época, o temor da morte. A partir daí, uma
série de conteúdos negativos começam a ser associados à
morte: conteúdos perversos, macabros, bem como torturas e
flagelos passam a se relacionar com a morte, provocando um total
estranhamento do homem diante deste evento tão perturbador. A
morte se personifica como forma do homem tentar entender com quem
está lidando, e uma série de imagens artísticas se consagram
como verdadeiros símbolos da morte, atravessando o tempo até os
dias de hoje.
Kübler-Ross (1997) descreve que são
cada vez mais intensas e velozes as mudanças sociais, expressas
pelos avanços tecnológicos. O homem tem se tornado cada vez
mais individualista, preocupando-se menos com os problemas da
comunidade. Essas mudanças tem seu impacto na maneira com a qual
o homem lida com a morte nos dias atuais.
O homem da atualidade convive com a
idéia de que uma bomba pode cair do céu a qualquer momento.
Não é de se surpreender portanto que o homem, diante de tanto
descontrole sobre a vida, tente se defender psiquicamente, de
forma cada vez mais intensa contra a morte. "Diminuindo a
cada dia sua capacidade de defesa física, atuam de várias
maneiras suas defesas psicológicas" Kübler-Ross
(1997)
Ao mesmo tempo, essas atrocidades
seriam, segundo ponto de vista de Mannoni, (1995),
verdadeiras pulsões de destruição; a dimensão visível da
pulsão de morte.
Mannoni (1995), citando Ariès, conta
que a morte revelou sua correlação com a vida em diversos
momentos históricos. As pessoas podiam escolher onde iriam
morrer; longe ou perto de tais pessoas, em seu lugar de origem;
deixando mensagens a seus descendentes.
A possibilidade de escolha deu lugar a
uma crescente perda da dignidade ao morrer, como nos afirma
Kübler-Ross (1997): "...já vão longe os dias em que era
permitido a um homem morrer em paz e dignamente em seu próprio
lar."
Para Mannoni, nos dias atuais, 70% dos
pacientes morrem nos hospitais, enquanto no século passado, 90%
morriam em casa, perto de seus familiares. Isto ocorre
porque, nas sociedades ocidentais o moribundo é, geralmente,
afastado de seu círculo familiar.
&ldquoO médico não aceita que seu
paciente morra e, se entrar no campo em que se confessa a
impotência médica, a tentação de chamar a ambulância (para
se livrar do caso) virá antes da idéia de acompanhar o paciente
em sua casa, até o fim da vida.&rdquo Mannoni (1995)
A morte natural deu lugar à morte
monitorada e às tentativas de reanimação. Muitas vezes, o
paciente nem é consultado quanto ao que deseja que se tente para
aliviá-lo. A medicalização da morte e os cuidados paliativos,
não raro, servem apenas para prolongar o sofrimento do paciente
e de sua família. É muito importante que as equipes médicas
aprendam a distinguir cuidados paliativos e conforto ao paciente
que está morrendo, de um simples prolongamento da vida.
Outro aspecto comportamental do ser
humano em relação à morte é que antigamente, preferia-se
morrer lentamente, perto da família, onde o moribundo tinha a
oportunidade de se despedir. Atualmente, não é raro se
ouvir dizer que é preferível uma morte instantânea, que o
longo sofrimento causado por uma doença.
Entretanto, segundo Kovács (1997)
contrariando o senso comum, o tempo da doença, justamente ajuda
a assimilar a idéia de morte, e a conseguir tomar decisões
concretas, como a adoção dos filhos ou a resolução de
desentendimentos.
Segundo Bromberg (1994) nossa cultura
não incorpora a morte como parte da vida, mas sim como castigo
ou punição.
O HOMEM DIANTE DA PRÓPRIA MORTE / O
HOMEM DIANTE DA MORTE DO OUTRO
Desde muito cedo, ainda bebês, quando
passamos a distinguir nosso próprio corpo do corpo da mãe,
somos obrigados a aprender a nos separar de quem ou daquilo que
amamos. A princípio, convivemos com separações
temporárias, como por exemplo, a mudança de escola. Mas
chega uma hora, que acontece a nossa primeira perda definitiva:
alguém que nos é muito querido, um dia, se vai para
sempre. É justamente esse &ldquopara sempre&rdquo
que mais nos incomoda.
Porém, quanto mais conscientes
estivermos de nossas mortes diárias, mais nos preparamos para o
momento da grande perda de tudo que colecionamos e nutrimos
durante a vida: desde toda a bagagem intelectual, todos os
relacionamentos afetivos, até o corpo físico.
Com o distanciamento cada vez maior do
homem em relação à morte, cria-se um tabu, como se fosse
desaconselhável ou até mesmo proibido falar sobre este tema.
Segundo Bromberg (1994) &ldquocomo
aprendemos em nossa cultura, evitamos a dor, evitamos a perda e
fugimos da morte, ou pensamos fugir dela...
Esse quadro atual nos revela a
dimensão da cisão que o homem tem feito entre vida e morte,
tentando se afastar ao máximo da idéia da morte, considerando
sempre que é o outro que vai morrer e não ele. Nos
lançamos então à questão da angústia e do medo em relação
à morte.
Uma das limitações básicas do homem
é a limitação do tempo. Segundo Torres (1983): "...o
tempo gera angústia, pois do ponto de vista temporal, o grande
limitador chama-se morte..."
A Psicanálise Existencial, apontada
por Torres (1983) revela a dimensão da angústia da morte:
"A angústia mesma nos revela que a morte e o nada se opõe
à tendência mais profunda e mais inevitável do nosso
ser", que seria a afirmação do si mesmo.
Mannoni (1995) busca em Freud, palavras
que falem da angústia do homem diante da morte: "...
Freud a situa ou na reação a uma ameaça exterior, ou como na
melancolia, ao desenrolar de um processo interno. Trata-se
sempre, porém, de um processo que se passa entre o eu e a
severidade do supereu."
Segundo Kastenbaum e Aisenberg (1983) o
ser humano lida com duas concepções em relação à morte: a
morte do outro, da qual todos nós temos consciência, embora
esteja relacionada ao medo do abandono; e a concepção da
própria morte, a consciência da finitude, na qual evitamos
pensar pois, para isto, temos que encarar o desconhecido.
É a angústia gerada ao entrar em
contato com a fatalidade da morte, que faz com que o ser humano
mobilize-se a vencê-la, acionando para este fim, diversos
mecanismos de defesa, expressos através de fantasias
inconscientes sobre a morte. Muito comum é a fantasia de existir
vida após a morte; de existir um mundo paradisíaco, regado pelo
princípio do prazer e onde não existe sofrimento; de existir a
possibilidade de volta ao útero materno, uma espécie de parto
ao contrário, onde não existem desejos e necessidades. Ao
contrário dessas fantasias prazerosas, existem aquelas que
provocam temor. O indivíduo pode relacionar a morte com o
inferno. São fantasias persecutórias que têm a ver com
sentimentos de culpa e remorso. Além disso, existem
identificações projetivas com figuras diabólicas, relacionando
a morte com um ser aterrorizante, com face de caveira,
interligado a pavores de aniquilamento, desintegração e
dissolução.
O homem é o único animal que tem
consciência de sua própria morte. Segundo Kovács (1998):
"O medo é a resposta mais comum diante da morte. O medo de
morrer é universal e atinge todos os seres humanos, independente
da idade, sexo, nível sócio-econômico e credo religioso."
Para a Psicanálise Existencial
enunciada por Torres, (1983): "... o medo da morte é
o medo básico e ao mesmo tempo fonte de todas as nossas
realizações: tudo aquilo que fazemos é para transcender a
morte."
Complementa esse pensamento afirmando
que "todas as etapas do desenvolvimento são na verdade
formas de protesto universal contra o acidente da morte."
Segundo Freud (1917) ninguém crê em
sua própria morte. Inconscientemente, estamos convencidos de
nossa própria imortalidade. &ldquoNosso hábito é dar
ênfase à causação fortuita da morte &ndash acidente,
doença, idade avançada; desta forma, traímos um esforço
para reduzir a morte de uma necessidade para um fato
fortuito.
Como dito anteriormente, o homem
encontra-se num processo contínuo de cisão ente vida e morte,
tentando afastar-se ao máximo da idéia da morte, considerando
sempre que é o outro que vai morrer e não ele. Configura-se
então, uma situação na qual o homem se defende pela
segregação.
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