Ácidos
e Bases
As
funções mais importantes da química: ácidos e bases.
São os grandes pilares de toda a vida de nosso planeta, bem como da maioria
das propriedades do reino mineral. Íons carbonatos e bicarbonatos (ambos básicos)
estão presentes na maior parte das fontes de água e de rochas, junto com outras
substâncias básicas como fostatos, boratos, arsenatos e amônia. Em adição, vulcões
podem gerar águas extremamente ácidas pela presença de HCl e SO2.
A fotossíntese das plantas pode alterar a acidez da água nas vizinhanças por
produzir CO2, a substância geradora de ácido mais comum na natureza.
A fermentação do suco de frutas pode vir a produzir ácido acético. Quando utilizamos
nossos músculos em excesso sentimos dores provocados pela liberação de ácido
lático.
Com
tamanha freqüência em nosso ambiente, não é de se espantar que os ácidos e bases
tenham sido estudados por tantos séculos. Os próprios termos são medievais:
"Ácido" vem da palavra latina "acidus", que significa
azedo. Inicialmente, o termo era aplicado ao vinagre, mas outras substâncias
com propriedades semelhantes passaram a ter esta denominação. "Álcali",
outro termo para bases, vem da palavra arábica "alkali", que
significa cinzas. Quando cinzas são dissolvidas em água, esta se torna básica,
devido a presença de carbonato de potássio. A palavra "sal" já foi
utilizada exclusivamente para referência ao sal marinho ou cloreto de sódio,
mas hoje tem um significado muito mais amplo.
Nesta
aula-virtual, veremos de que forma podemos classificar substâncias como ácidos
ou bases, as principais propriedades destes grupos, o conceito de pH e a força
relativa destas substâncias.
Os
íons hidrônio e hidróxido
A
água é uma substância deveras bizarra. Entre várias propriedades anômalas, há
uma de particular interesse no estudo de ácidos e bases: a auto-ionização. De
fato, duas moléculas de água podem interagir e produzir dois íons: um cátion,
o hidrônio, e um ânion, o hidróxido. É uma reação onde ocorre uma transferência
de próton de uma molécula de água para outra. A existência da auto-ionização
da água foi provada, ainda no século IXX, por Friedrich Kohlraush. Ele descobriu
que a água, mesmo que totalmente purificada e de-ionizada, ainda apresenta uma
pequena condutividade elétrica. Kohlraush atribuiu esta propriedade à existência
de íons na água, mais precisamente íons hidrônios e hidróxidos.
A
compreensão da auto-ionização da água é o ponto de partida para os conceitos
de ácidos e bases aquosos.
Um
dos primeiros conceitos de ácidos e bases que levavam em conta o caráter estrutural
das moléculas foi desenvolvido no final do século 19, por Svante Arrhenius,
um químico sueco. Ele propôs que os ácidos eram substâncias cujos produtos de
dissociação iônica em água incluiam o íon hidrogênio (H+) e bases
as que produzem o íon hidróxido (OH-).
Este conceito, embora utilizado até hoje, tem sérias limitações:
1)
só pode ser empregado a soluções aquosas;
2) o íon H+, de fato, sequer existe em solução aquosa;
3) não pode ser aplicado para outros solventes.
4) segundo este conceito, somente são bases substâncias que possuem OH-
em sua composição.
É
verdade para o NaOH, mas outras substâncias, como a amônia, não são bases de
acordo com o conceito de Arrhenius.
Em
1923, J.N. Bronsted, em Copenhagen (Denmark) e J.M. Lowry, em Cambridge (England)
independentemente sugeriram um novo conceito para ácidos e bases. Segundo eles,
ácidos são substâncias capazes de doar um próton em uma reação química. E bases,
compostos capazes de aceitar um próton numa reação. Este conceito ficou conhecido
como "definição de Bronsted", pois este e seus alunos foram mais ágeis
na difusão da nova idéia.
Esta
nova definição é bem mais ampla, pois explica o caráter básico da amônia e o
caráter ácido do íon amônio, por exemplo.
Repare
que, na reação com amônia, a água se comporta como um ácido, pois doa um próton;
já na reação com o amônio, a água se comporta como uma base, pois aceita um
próton deste íon.
A
água, portanto, é um exemplo de substância anfiprótica, isto é, moléculas que
podem se comportar como um ácido ou como uma base de Bronsted.
De
acordo com Bronsted, a dissociação do HCl promove a formação de outro íon: o
íon hidrônio
Como vimos, a noção de ácidos e bases de Bronsted envolve, sempre, a transferência
de um próton - do ácido para a base. Isto é, para um ácido desempenhar seu caráter
ácido, ele deve estar em contato com uma base. Por exemplo: o íon bicarbonato
pode transferir um próton para a água, gerando o íon carbonato.
Como
a reação é reversível, o íon carboxilato pode atuar como uma base, aceitando,
na reação inversa, um próton do íon hidrônio - que atua como um ácido. Portanto,
os íons bicarbonato e carbonato estão relacionados entre si, pela doação ou
ganho de um próton, assim como a água e o íon hidrônio. Um par de substâncias
que diferem pela presença de um próton é chamado de par ácido-base conjugado.
Desta
forma, o íon carbonato é a base conjugada do ácido bicarbonato, e o íon hidrônio
é o ácido conjugado da base H2O.
O
íon HPO42- é a base conjugada do íon H2PO4-.
Em
água, alguns ácidos são melhores doadores de prótons do que outros, enquanto
que algumas bases são melhores aceptoras de prótons do que outras. Por exemplo:
uma solução aquosa de HCl diluída consiste, praticamente, de íons cloreto e
hidrônio, uma vez que quase 100% das moléculas do ácido são ionizadas. Por isso,
este composto é considerado um ácido de Bronsted forte.
Em
contraste, uma solução diluída de ácido acético contém apenas uma pequena quantidade
de íons acetato e hidrônio - a maior parte das moléculas permanece na forma
não ionizada. Este composto é, portanto, considerado um ácido Bronsted fraco.
De
acordo com o modelo de Bronsted, um ácido doa um próton para produzir uma base
conjugada. Entretanto, esta base conjugada pode vir a aceitar o próton de volta,
retornando ao ácido conjugado. A espécie capaz de se ligar mais fortemente ao
próton é que vai determinar a força do ácido ou da base. Portanto,
a)
quanto mais forte for o ácido, mais fraca é a base conjugada
Neste
caso, a ligação H-A é bastante fraca, e o íon A- é estável, ou seja,
é uma base fraca.
b)
quanto mais fraco for o ácido, mais forte é a base conjugada.
Isto
significa que a ligação H-A é uma ligação forte, pois o íon A- é
pouco estável e representa uma base forte, que tende a recapturar o próton.
Numa
solução aquosa de HCl, duas bases entrarão numa disputa pelo próton: o íon cloreto
e a água. Como a água é uma base mais forte, praticamente todo o HCl perde o
próton para esta.
Já numa solução aquosa de ácido acético, a água sai perdendo: a base mais forte
é o íon acetato! Por isso, apenas parte das moléculas deste ácido sofrem ionização.
Como vimos anteriormente, a água sofre um processo de auto-ionização, produzindo
íons hidrônios e hidróxidos.
Entretanto, como o íon hidróxido é uma base muito mais forte do que a água,
da mesma forma que o íon hidrônio é um ácido muito mais forte, o equlíbrio é
grandemente deslocado para o lado esquerdo da equação. De fato, a 25oC,
apenas 2 de cada um bilhão de moléculas sofrem auto-ionização. Quantitativamente,
podemos descrever o processo como:
Todavia, em água pura ou em uma solução aquosa diluída, o termo [H2O]
é uma constante (55,5 mol/L). Desta forma, podemos simplificar a equação acima
como:
Keq.[H2O]2
= Kw
e Kw = constante de ionização da água
= [H3O+].[OH-] a 25oC,
Kw = 1,008 x 10-14 M2
Esta
expressão de Kw é muito importante, e deve ser memorizada, pois é
através dela que todos os conceitos de pH e pOH são deduzidos.
O equilíbrio da reação
entre o ácido acético e a água pode ser descrito pela constante abaixo:
Novamente, no caso de soluções diluídas, o termo [H2O] é constante,
e podemos substituir a equação por Keq. [H2O]=Ka,
que fica:
Esta é a expressão para a constante de ionização ácida, Ka. Da
mesma forma, podemos escrever a expressão para Kb, a constante de
ionização básica. Vamos utilizar a reação da amônia com água como exemplo:
Qual é a concentração de íons
hidrônio na água pura, a 25oC?
Esta
é uma operação muito simples de se fazer. Sabemos, já, que o produto [H3O+].[OH-]
é uma constante (Kw).
Como,
dada a equação de auto-ionização, a [H3O+]=[OH-],
fica fácil deduzir que [H3O+]= (Kw)1/2.
Portanto, [H3O+] é igual a 0,0000007 M em água pura. O
mesmo valor vale para a [OH-].
E
qual seria o valor da [H3O+] se adicionássemos, à água,
um pouco de HCl suficiente para gerar uma solução 0,001M?
Bem,
neste caso seriam duas as fontes de íon hidrônio:
a) vinda da própria auto-ionização da água;
b)
vinda da ionização do ácido forte de Bronsted.
Então,
[H3O+] = (0,0000007) + (0,001) M, ou seja, aproximadamente
igual a 0,001M de íons [H3O+].
E
qual seria a [OH-] neste caso?
Basta
lembrar da valiosa expressão para o Kw, que nos diz que [OH-]
= Kw / [H3O+]. Portanto, [OH-]
= 1 x 10-11 M. Percebe-se que todos estes números são muito pequenos.
Para simplificar o raciocínio, os químicos encontraram uma forma de expressar
tanto a [OH-] como a [H3O+] em números decimais
positivos, que variam de 0 a 14. Estes números
são chamados de pOH e pH da solução, e são definidos como o negativo do logarítimo
de base 10 da concentração do íon na solução.
pH = -log[H3O+]
pOH = -log[OH-]
|
As escalas de pH e pOH são complementares
|
Como,
em água pura, a [OH-]=[H3O+]=1x10-7,
tanto o pH como o pOH tem o valor de 7 para a água pura a 25oC.
A
expressão do Kw pode ser reescrita em termos de pH e pOH; basta aplicar
-log dos dois lados da equação, e teremos: (-log[H3O+])
+ (-log[OH-]) = (-logKw) ou
pH
+ pOH = pKw
Devemos
lembrar desta relação, pois ela é extremamente útil nos cálculos de pH ou pOH
de soluções.
Vamos começar com a figura ao lado. Qual é o valor das concentrações de íons
hidrônio e hidróxido em cada solução?
Na primeira solução,
o valor indicado pelo pHmetro é de 1,03 (pHmetro é um aparelho que mede o pH).
Como vimos anteriormente, a [H3O+] = 10-pH
, ou seja, [H3O+] = 0,0933 M.
E como calcular a concentração
de íons hidróxido?
Existem várias formas,
mas vamos pela mais fácil. Como pH + pOH = 14, temos que o pOH = 12,97. Como
[OH-]=10-pOH, chega-se ao valor de 1,07 x 10-13
M para a concentração de íons hidróxido.
Percebe-se, claramente,
que a primeira solução é ácida, isto é, a
[H3O+] > [OH-].
Seguindo a mesma analogia
para a segunda solução, encontraremos os seguintes valores:
[H3O+] = 7,94 x 10-14 M
[OH-] = 0,126 M
Neste caso, [H3O+]
< [OH-], indicando uma solução básica.
Muito bem. Para você
prosseguir nesta aula, você terá que mostrar que é capaz de calcular as concentrações
de hidrônio e hidróxido conhecendo o pH de uma solução. Que tal do sangue humano?
O
pH do sangue é 7,30. Qual é a concentração de íons hidróxido nesta solução?
(detalhe
importante: o Kw é 2,5 x 10-14 a 37oC)