Ácidos nucléicos
Paralelamente à investigação
dos mistérios dos átomos por parte dos físicos, os bioquímicos e os
especialistas em genética aprofundaram-se nos segredos da matéria viva até
descobrirem que a atividade desta é regida por moléculas extraordinariamente
complexas em sua estrutura e notáveis por suas propriedades: os ácidos nucléicos,
que constituem a base da herança biológica.
Os ácidos nucléicos são as
substâncias responsáveis pela transmissão da herança biológica: as moléculas
que regem a atividade da matéria viva, tanto no espaço (coordenando e
dirigindo a química celular por meio da síntese de proteínas) como no tempo
(transmitindo os caracteres biológicos de uma geração a outra, nos processos
reprodutivos).
Composição e natureza química.
Já no segundo quartel do século XIX o cientista suíço Friedrich Miescher
isolou uma substância procedente dos núcleos celulares, à qual chamou nucleína,
que passou a ser chamada mais tarde de ácido nucléico, por seu forte grau de
acidez. Mas só quando já ia avançado o século XX demonstrou-se que essa
substância era na realidade o suporte da herança dos caracteres nos seres
vivos. Em 1944, as experiências de Oswald Theodore Avery, Colin M. MacLeod e
Maclyn McCarty determinaram que um dos ácidos nucléicos, o ADN ou ácido
desoxirribonucléico, podia transferir uma característica biológica de uma
bactéria (no caso, um pneumococo) para outra, característica ausente antes da
transmissão.
Em 1954, James Dewey Watson e
Francis Harry Comptom Crick propuseram a estrutura de dupla hélice para
explicar a disposição dos átomos na molécula de ADN. No começo da década
de 1960, os franceses François Jacob e Jacques Monod postularam o possível
papel de outro ácido nucléico, o chamado ácido ribonucléico mensageiro (ARNm),
na célula, como transmissor e executor das instruções contidas no ADN.
Os ácidos nucléicos são moléculas
longas e complexas, de elevado peso molecular, constituídas por cadeias de
unidades denominadas mononucleotídeos. Estes se compõem de um carboidrato ou açúcar
de cinco átomos de carbono (uma pentose), de estrutura cíclica pentagonal, ao
qual se une por um de seus extremos uma molécula de ácido fosfórico e, por
outro, uma base nitrogenada também de estrutura fechada, seja púrica (que tem
dois anéis com vários átomos de nitrogênio unidos ao esqueleto carbonado),
seja pirimidínica (que consta de um só anel hexagonal no qual se inserem átomos
de nitrogênio, oxigênio e, em alguns casos, um radical metila, -CH3). Os
componentes variáveis nos mononucleotídeos são as bases, das quais há cinco
tipos possíveis -- duas púricas, a adenina e a guanina, e três pirimidínicas,
a citosina, a uracila e a timina --, e nessa variabilidade reside o caráter
"informativo" dos ácidos nucléicos e sua funcionalidade como moléculas
codificadoras de informação biológica.
O açúcar ou pentose pode ser de
duas classes: em forma de ribose desoxigenada ou desoxirribose, que é a que
constitui o esqueleto do ADN, ou, em sua variedade normal, conhecida
simplesmente como ribose, própria do ARN. No primeiro caso, originam-se
desoxirribonucleotídeos; no segundo, ribonucleotídeos.
Os mononucleotídeos se unem
entre si para compor, como já foi dito, longas cadeias de centenas ou milhares
de unidades que se dispõem em forma de estruturas filamentosas helicoidais, de
dupla hélice no caso de ADN e de hélice simples no ARN. A borda de cada hélice
é integrada pelas pentoses, que se engancham umas nas outras através dos
restos de ácido fosfórico, enquanto o contato entre uma hélice e outra se
efetua pelo estabelecimento de enlaces por parte das bases nitrogenadas,
obedecendo a determinadas leis bioquímicas. Cada enlace é, pois, o resultado
da interação de um par de bases, cada uma das quais correspondente a uma das hélices.
O acoplamento das bases não é arbitrário e atende a exigências espaciais, químicas
e estruturais muito precisas. Sempre se emparelham uma base púrica e uma
pirimidínica: a adenina sempre com a timina ou uracila, e a guanina com a
citosina.
Seqüência e função genética.
A seqüência dos ácidos nucléicos é específica e característica de cada
ser vivo. Em tal seqüência radicam-se em suma a individualidade e as diferenças
existentes entre os organismos. As cinco bases, combinadas em todas as seqüências
imagináveis, com ou sem repetições e sem limite teórico de extensão, dão
lugar a uma série infinita de distintas cadeias possíveis. As cadeias são
representadas pelas iniciais maiúsculas de cada base na ordem de seqüência
característica; por exemplo: AATCAGCTTTACGC. Logicamente, essa representação
corresponde a uma das hélices; a da outra hélice será complementar,
levando-se em conta os emparelhamentos antes indicados (adenina, A, com timina,
T, e guanina, G, com citosina, C, no que se refere a ADN). Assim no exemplo
proposto, a complementar seria TTAGTCGAAATGCG.
A composição anteriormente
detalhada é universal e válida para todos os seres vivos, desde o vírus até
o homem, o que reflete um fato importante: a unidade básica da estrutura da
vida na Terra. Nos vírus, o ácido nucléico situa-se no interior, protegido
por um invólucro protéico. Nos organismos unicelulares, ou seja, que não dispõem
de núcleo ou que o apresentam difuso, sem membrana nuclear, caso das bactérias,
o ADN forma uma única estrutura circular que constitui o cromossomo bacteriano.
Nos eucariotes, que já dispõem
de núcleo protegido por invólucro próprio, como as plantas e animais, o ADN
encontra-se encerrado no núcleo como uma substância difusa, na qual há também
certas proteínas básicas chamadas histonas: é o que se conhece como
cromatina.
Antes de ocorrer a divisão
celular, a cromatina fragmenta-se numa série de unidades ou cromossomos, cujo número
é constante para cada espécie. Em tais cromossomos acham-se os genes,
conjuntos mais ou menos grandes de nucleotídeos dispostos segundo uma seqüência
dada, que codificam a informação precisa para um determinado caráter biológico.
Ácido desoxirribonucléico. O
ADN, ácido desoxirribonucléico, é formado pela pentose desoxirribose, o ácido
fosfórico e as bases citosina, timina, adenina e guanina. É a substância
responsável pela herança biológica de todos os seres vivos, à exceção de
muitos vírus, nos quais esse papel é representado pelo ARN.
No período denominado interfase,
imediatamente anterior à divisão celular, o ADN experimenta o processo de
autoduplicação, ou seja: suas moléculas duplicam-se, de modo que mais tarde,
ao formarem-se as duas hélices-filhas a partir de uma única célula-mãe, cada
uma delas possa receber a totalidade do material genético. Na autoduplicação,
a dupla hélice se abre e cada um dos dois filamentos que a compõem se separa e
se sintetiza, graças à intervenção de diferentes enzimas, o filamento
complementar.
Ácido ribonucléico. O ARN é o
ácido ribonucléico, constituído pela pentose ribose, o ácido fosfórico e as
bases citosina, uracila (esta ausente do ADN), adenina e guanina. Compõe-se de
uma só cadeia helicoidal e apresenta três classes, cada uma das quais cumpre
uma função específica na célula: o chamado ARN mensageiro (ARNm),
sintetizado pela ação de diversas enzimas a partir de um filamento de ADN que
lhe serve de guia, no processo conhecido como transcrição; o ARN ribossômico,
componente essencial, junto com as proteínas, dos orgânulos celulares chamados
ribossomas; e o ARN de transferência, que translada os diversos aminoácidos
(unidades estruturais das proteínas) até onde se está sintetizando uma molécula
protéica, sob a direção de um ARNm, e os insere no ponto exato para obter a
seqüência exata, no processo denominado tradução.
Síntese de proteínas. A síntese
de proteínas ou tradução é o processo em função do qual se formam as seqüências
de aminoácidos que constituem as proteínas, a partir de uma seqüência
correlativa expressa pelo ARN mensageiro, numa linguagem de bases nitrogenadas.
Assim, de um fragmento de ADN dado, que contém a informação precisa para que
se forme uma proteína concreta, obtém-se uma cópia, a qual é o ARNm que
guiará diretamente o processo de tradução. Ao ARNm unem-se vários ribossomas
que, ao se deslocarem, efetuarão um autêntico processo de "leitura química".
Cada grupo de três bases do ARNm
-- por exemplo GCC -- corresponde na linguagem nucleotídica a um aminoácido
dado, neste caso a alanina. O ribossoma reconhece por meios químicos o caráter
desse trio (designado em genética como códon) e um ARN de transferência leva
até ele o aminoácido alanina. Vai-se formando assim, pouco a pouco, a seqüência
que dará lugar à proteína. Cada aminoácido tem sua codificação
correspondente, em geral de vários códones, também há trios que indicam o
sinal de terminação.
O código genético representa,
pois, na escala molecular, uma autêntica linguagem, da qual a célula se serve
para crescer e reproduzir-se, o que é possível graças aos ácidos nucléicos.