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O realismo triunfaria de maneira total em A ferro e
fogo. A saga da colonização alemã, particularizada na luta
pela sobrevivência e na identificação com as condições
históricas rio-grandenses por parte da família Schneider,
lembra como processo narrativo O tempo e o vento, de Erico
Verissimo. Porém o sopro épico que anima as páginas do
escritor de Cruz Alta é substituído por uma preocupação maior
com o prosaico, com a mesquinha luta cotidiana, com a tarefa
inglória de resistência em meio a uma terra estranha. A
grandeza semi-ociosa dos dominadores cede aqui lugar ao ramerrão
do trabalho. Aos gestos de intrepidez do capitão Rodrigo
Cambará contrapõe-se o buraco onde, por largo tempo, Daniel
Abrahão se esconderá; aos papéis de comando militar de Licurgo
e do Dr. Rodrigo, a função subalterna do oficial Phillip
Schneider; ao agnosticismo dos Cambarás, a religiosidade
primitiva que aproxima a família alemã de Jacobina Maurer,
futura líder dos Mucker, único ponto comum: a força recôndita
das mulheres, já que a imigrante Catarina tem muito de Ana
Terra, mais ainda de Bibiana, com seu senso prático e seu
desassombro. A história é virada pelo avesso. As
atribulações, as guerras, os confrontos pelo poder descem dos
céus sem que os imigrantes possam compreender o significado dos
mesmos. Nada de ufanismo ou cantos laudatórios. Quando Phillip Schneider volta
para casa, depois de ter lutado na Revolução Farroupilha e na Guerra do
Paraguai (em A ferro e fogo - Tempo de Guerra ), ele não ganhou nada e seu
único desejo é dormir.
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| Mais uma vez a
metáfora da paz e do esquecimento. "Quando Jacob saiu, ele ficou afofando o
travesseiro com as mãos, alisando os alvos lençóis e pala sua cabeça
desfilaram todos aqueles bons companheiros que haviam ficado para trás. Mas
quando assoprou a chama do lampião de bela manga lavrada e
afundou a cabeça nos panos macios, dormiu logo, como se fizesse
aquilo pela primeira vez na vida." Sempre chamou a atenção
o carinho de Josué para com as suas personagens femininas. Você
lê A ferro e fogo e descobre uma mulher como aquela Catarina.
Pronto. Nunca mais as mulheres que você conhecer serão as
mesmas. Mudaram também aquelas que você já conhecia antes de
ler sua ficção. Nenhum escritor percebeu tão profundamente a
índole da alemã imigrante quanto Josué. Quer dizer, a
literatura brasileira deu a um Guimarães a tarefa de desvendar a
alma tedesca num exílio optativo - o Brasil. A narrativa se
passa no Rio Grande do Sul ( abrangendo as terra que hoje
correspondem ao Chuí, Santa Vitória do Palmar, São Leopoldo,
Porto Alegre, Rio Grande e Portão), no tempo do Império, num
ambiente hostil, pobre e violento durante e após a guerra da
Cisplatina, onde os personagens principais vivem em meio a
bugres, negros, castelhanos, gaúchos, soldados e alemães. |