|
|
Primeiro colocado no 3º Prêmio Érico Veríssimo de
Romance, este livro bem merece o patrocínio do nome do maior
romancista gaúcho. Como ele, também Gilvan Lemos é homem de
compromisso com o seu tempo, e visualiza com olhos críticos os
descaminhos da sociedade brasileira e das suas velhas estruturas
de poder. Nesse sentido, O Anjo do Quarto Dia surpreende:
alegoria com poderoso substrato bíblico e mítico, faz-se
denúncia irreverente e cruel do jogo de interesses políticos
individualistas que estrangula a vida do nosso povo há
gerações. O mundo da narrativa é aparentemente o de uma
cidadezinha sertaneja do Nordeste e sua história a da ascensão
de um chefe local, exguardador de porcos, e de sua dinastia de
ladrões. Pintor mordaz, mas que evita transformar seus
personagens em tipos eles pulsam de genuína humanidade - o
narrador entrelaça vidas de opressores e oprimidos, vilões e
heróis, sem cair na tentação de etiquetar uns e outros, num
quadro estuante de ambições, rancores, corrupção e ânsia de justiça, de uma
clareza solar. Microcosmo inquietante, em que as leis só valem quando convêm
aos poderosos, em que aos fracos só resta a esperança de um milagre, O Anjo
do Quarto Dia retrata um sistema político cruel, que anula as vontades,
espezinha a verdade, cala pelo assassínio e apaga com a força a revolta
legítima dos perseguidos. Entretanto, há nele também as hesitações de parte
a parte, o medo da queda e da morte, a tolice de governantes e governados, e
uma solução irônica, enigmática.
|
| Por essa índole, a obra se inscreve na longa
tradição ocidental da sátira alegórica, conservando, por
outro lado, com fidelidade, as raízes do romance social
brasileiro, sem concessões. Se encerra uma visão muito pessoal
da problemática da tirania, não há sombra de dúvida que
convence e comove. |