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poesia está na vida; o poeta é aquele que é sensível o
suficiente para captá-la. No momento da percepção, fronteiras
de tempo e espaço deixam de existir; o Mundo Sensível é tão
somente o ponto de partida para o poeta alcançar o Inteligível.
Para tanto, nem sempre é necessário haver processos
sofisticados. A vida é esse cotidiano mesmo, feito de vida e
morte, tristeza e alegria, captado e guardado no arquivo de
memória. "Profundamente" é um desses flagrantes
captados por Bandeira, poeta da simplicidade. Na memória do
eu-poético, não há delimitação de tempo e espaço; ambos se
misturam num único instante, aqui transformado em instante
poético. Interrompendo o curso natural das coisas, empreende uma
viagem na memória, resgatando, num tempo longínquo, a infância
("Quando eu tinha seis anos"), cujos elementos já se
evidenciam na primeira estrofe: "noite de São João",
"bombas luzes de Bengala", "Ao pé das fogueiras
acesas". As lembranças trazem elementos sugestivos de
alegria e de luz: noite iluminada por "luzes de
Bengala" e "fogueiras acesas". Davi Arrigucci Jr.,
em sua obra Humildade, Paixão e Morte, devido a esse recurso
utilizado por Bandeira, afirma que este poema é "fortemente
imagético e pictório"; as lembranças surgem de cenas vivenciadas no passado.
Assim, o que traz saudade são os elementos mais simples e cotidianos do
interior. Bandeira resgata a sua infância em Pernambuco (procedimento também
presente no poema "Evocação do Recife", onde as mesmas pessoas evocadas
aparecem). Acerca disso, em entrevista dada a Pedro Bloch, o autor afirma:
"Do Recife tenho quatro anos de existência consciente, mas ali está a raiz
de toda a minha poesia.
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Quando comparo esses quatro anos de meninice a quaisquer
outros quatro anos de minha vida é que vejo o vazio dos
últimos." Não são apenas esses os índices do substrato
autobiográfico do poeta; as personagens da penúltima estrofe
também são reveladores - "Totônio Rodrigues",
"Tomásia", "Rosa". Este tempo da duração
("la durée") - segundo terminologia de Benedito Nunes,
em sua obra O Tempo na Narrativa - vem numa única avalanche de
lembranças, como se, nesse tempo de memória, não houvesse
possibilidade de "organizar" as coisas, linearmente
falando. Isto é evidenciado pela enumeração caótica - tão
característica do Modernismo - reaproveitada pelo poeta; o
eu-poético não usa a vírgula no poema inteiro, nem uma só vez
(as únicas formas de pontuação utilizadas são o ponto final e
a interrogação, encerrando as etapas das reflexões); em todo o
percurso reflexivo, as lembranças amontoam-se em
"flashes" de memória: "Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala Vozes cantigas e
risos." Esse processo se estende também à enumeração de
ações, pois os verbos, isolados em versos diferentes, demarcam
o ritmo do texto: "Dançavam / Cantavam / E riam". Toda
essa enumeração aparece disposta em verbos no pretérito,
confirmando a visão do passado, como foi antes mencionado:
"adormeci", "Havia", "despertei",
etc. Desta maneira, os tempos verbais ligam-se às
lembranças da infância num tempo de duração, o tempo, segundo
Benedito Nunes, realmente vivenciado, tão saudosamente, que, num
movimento de retrocesso, o passado transforma-se em
"ontem". Ao longo da viagem no tempo, a alegria vai
ficando para trás. Ao acordar, "no meio da noite", os
ruídos e vozes já não existem ("Não ouvi mais vozes nem
risos"); a única lembrança sensorial existente é visual
("Apenas balões / Passavam errantes"), mas é
silenciosa ("Silenciosamente / Apenas de vez em quando / O
ruído de um bonde / Cortava o silêncio"). Toda essa
saudade faz aflorar o sentimento de solidão: sozinho, ele vê
balões errantes; na ausência de ruídos, também revela-se a
ausência dos entes queridos ("Onde estavam os que há pouco
/ Dançavam / Cantavam / E riam / Ao pé das fogueiras
acesas?"). Davi Arrigucci Jr. acrescenta o fato de que a
ênfase à solidão é dada pelos próprios termos escolhidos:
"Torna-se inevitável uma ênfase sugestiva sobre os termos
separados, cuja ressonância semântica aumenta com o isolamento,
como é o caso, além do advérbio silenciosamente,
do poderoso errantes, cujo significado se intensifica
e se expande pela suspensão final do verso, acompanhando a
morosa subida dos balões com a nota profunda de uma ilimitada e
desgarradora incerteza, fazendo com que esses pontos luminosos,
últimos sinais de vida da festa, sejam vistos em câmera lenta,
perdendo-se silenciosa e definitivamente na noite." Todo o
eixo temático do poema liga-se ao modo de trabalhar o tempo: o
passado, transformado em "durée". Dessa
transformação, a consciência desperta: "Quando eu tinha
seis anos / Não pude ver o fim da festa de São João / Porque
adormeci", em contraposição a "Onde estão todos
eles? - Estão todos deitados / Dormindo / Profundamente".
Enfim, o desígndorio, gerado pelo fluxo de consciência: no
passado, ele adormeceu, enquanto todos estavam na festa; hoje,
eles adormeceram, enquanto ele se mantém desperto. É a
consciência de estar deslocado, em desarmonia com o restante. O
verbo utilizado - "adormecer" - também muda de
acepção ao longo do poema. De início, em sentido denotativo,
significa "estar dormindo"; no final, conotativamente,
liga-se à idéia de morte, o que se comprova na ausência das
pessoas pertencentes ao universo infantil já citadas.
"Profundamente" é a palavra que acompanha todo o
poema: encontra-se no título, no meio e também o encerra. É um
advérbio que sugere não apenas modo, mas, principalmente,
intensidade. Mesmo de forma desarmoniosa, a intensidade é
elevada, o que reforça, novamente, o conceito da duração.
Reforça-se, assim, a vivência que envolve o processo das
reminiscências: é como, na poesia, a morte torna-se vida na
transmutação poética do instante.
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