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Atenas volveu à
história, enquanto os olhos me caíam das nuvens, isto é, nas
calças de brim branco, no paletó de alpaca e nos sapatos de cordovão. E então refleti comigo: - Que impressão daria ao
ilustre ateniense o nosso vestuário moderno? Sou espiritista
desde alguns meses. Convencido de que todos os sistemas são
puras niilidades, resolvi adotar o mais recreativo deles. Tempo
virá em que este não seja só recreativo, mas também útil à
solução dos problemas históricos; é mais sumário evocar o
espírito dos mortos, do que gastar as forças críticas, e
gastá-las em pura perda, porque não há raciocínio nem
documento que nos explique melhor a intenção de um ato do que o
próprio autor do ato. E tal era o meu caso desta noite.
Conjeturar qual fosse a impressão de Alcibíades era despender o
tempo, sem outra vantagem, além do gosto de admirar a minha
própria habilidade. Determinei, portanto, evocar o ateniense;
pedi-lhe que comparecesse em minha casa, logo, sem demora. E aqui
começa o extraordinário da aventura. Não se demorou
Alcibíades em acudir ao chamado; dois minutos depois estava ali,
na minha sala, perto da parede; mas não era a sombra impalpável
que eu cuidara ter evocado pelos métodos da nossa escola; era o
próprio Alcibíades, carne e osso, vero homem, grego autêntico,
trajado à antiga, cheio daquela gentileza e desgarre com que
usava arengar às grandes assembléias de Atenas, e também, um
pouco, aos seus pataus. V. Ex.ª, tão sabedor da história, não
ignora que também houve pataus em Atenas; sim, Atenas também os
possuiu, e esse precedente é uma desculpa. Juro a V. Ex.ª que
não acreditei; por mais fiel que fosse o testemunho dos
sentidos, não podia acabar de crer que tivesse ali, em minha
casa, não a sombra de Alcibíades, mas o próprio Alcibíades
redivivo. Nutri ainda a esperança de que tudo aquilo não fosse
mais do que o efeito de uma digestão mal rematada, um simples
eflúvio do quilo, através da luneta de Plutarco; e então
esfreguei os olhos, fitei-os, e... - Que me queres? perguntou
ele. Ao ouvir isto, arrepiaram-se-me as carnes. O vulto falava e
falava grego, o mais puro ático. Era ele, não havia duvidar que
era ele mesmo, um morto de vinte séculos, restituído à vida,
tão cabalmente como se viesse de cortar agora mesmo a famosa
cauda do cão. Era claro que, sem o pensar, acabava eu de dar um
grande passo na carreira do espiritismo; mas, ai de mim! não o
entendi logo, e deixei-me ficar assombrado. Ele repetiu a
pergunta, olhou em volta de si e sentou-se numa poltrona. Como eu
estivesse frio e trêmulo (ainda o estou agora) ele que o
percebeu, falou-me com muito carinho, e tratou de rir e gracejar
para o fim de devolver-me o sossego e a confiança. Hábil como
outrora! Que mais direi a V. Ex.ª? No fim de poucos minutos
conversávamos os dois, em grego antigo, ele repotreado e
natural, eu pedindo a todos os santos do céu a presença de um
criado, de uma visita, de uma patrulha, ou, se tanto fosse
necessário, - de um incêndio. Escusado é dizer a V. Ex.ª que
abri mão da idéia de o consultar acerca do vestuário moderno;
pedira um espectro, não um homem "de verdade", como
dizem as crianças. Limitei-me a responder ao que ele queria;
pediu-me notícias de Atenas, dei-lhas; disse-lhe que ela era
enfim a cabeça de uma só Grécia, narrei-lhe a dominação
muçulmana, a independência, Botzaris, lord Byron. O grande
homem tinha os olhos pendurados da minha boca; e, mostrando-me
admirado de que os mortos lhe não houvessem contado nada,
explicou-me que à porta do outro mundo afrouxavam muito os
interesses deste. Não vira Botzaris nem lord Byron, - em
primeiro lugar, porque é tanta e tantíssima a multidão de
espíritos, que estes se fazem naturalmente desencontrados; em
segundo lugar, porque eles lá congregam-se, não por
nacionalidades ou outra ordem, senão por categorias de índole,
costume e profissão: assim é que ele, Alcibíades, anda no
grupo dos políticos elegantes e namorados, com o duque de
Buckingham, o Garrett, o nosso Maciel Monteiro, etc. Em seguida
pediu-me notícias atuais; relatei-lhe o que sabia, em resumo;
falei-lhe do parlamento helênico e do método alternativo com
que Bulgaris e Comondouros, estadistas seus patrícios, imitam
Disraeli e Gladstone, revezando-se no poder, e, assim como estes,
a golpes de discurso. Ele, que foi um magnífico orador,
interrompeu-me: - Bravo, atenienses! Se entro nestas minúcias é
para o fim de nada omitir do que possa dar a V. Ex.ª o
conhecimento exato do extraordinário caso que lhe vou narrando.
Já disse que Alcibíades escutava-me com avidez; acrescentarei
que era esperto e arguto; entendia as coisas sem largo dispêndio
de palavras. Era também sarcástico; ao menos assim me pareceu
em um ou dois pontos da nossa conversação; mas no geral dela,
mostrava-se simples, atento, correto, sensível e digno. E
gamenho, note V. Ex.ª, tão gamenho como outrora; olhava de
soslaio para o espelho, como fazem as nossas e outras damas deste
século, mirava os borzeguins, compunha o manto, não saía de
certas atitudes esculturais. - Vá, continua, dizia-me ele,
quando eu parava de lhe dar notícias. Mas eu não podia mais.
Entrado no inextricável, no maravilhoso, achava tudo possível,
não atinava por que razão, assim, como ele vinha ter comigo ao
tempo, não iria eu ter com ele à eternidade. Esta idéia
gelou-me. Para um homem que acabou de digerir o jantar e aguarda
a hora do Cassino, a morte é o último dos sarcasmos. Se pudesse
fugir... Animei-me: disse-lhe que ia a um baile. - Um baile? Que
coisa é um baile? Expliquei-lho. - Ah! ver dançar a pírrica! -
Não, emendei eu, a pírrica já lá vai. Cada século, meu caro
Alcibíades, muda de danças como muda de idéias. Nós já não
dançamos as mesmas coisas do século passado; provavelmente o
século XX não dançará as deste. A pírrica foi-se, com os
homens de Plutarco e os numes de Hesíodo. - Com os numes?
Repeti-lhe que sim, que o paganismo acabara, que as academias do
século passado ainda lhe deram abrigo, mas sem convicção, nem
alma, que as mesmas bebedeiras arcádicas, Evoé! padre Bassareu!
Evoé! etc. honesto passatempo de alguns desembargadores pacatos,
essas mesmas estavam curadas, radicalmente curadas. De longe em
longe, acrescentei, um ou outro poeta, um ou outro prosador alude
aos restos da teogonia pagã, mas só o faz por gala ou brinco,
ao passo que a ciência reduziu todo o Olimpo a uma simbólica.
Morto, tudo morto. - Morto Zeus? - Morto. - Dionisos,
Afrodita?... - Tudo morto. O homem de Plutarco levantou-se, andou
um pouco, contendo a indignação, como se dissesse consigo,
imitando o outro: - Ah! se lá estou com os meus atenienses! -
Zeus, Dionisos, Afrodita... murmurava de quando em quando.
Lembrou-me então que ele fora uma vez acusado de desacato aos
deuses e perguntei a mim mesmo donde vinha aquela indignação
póstuma, e naturalmente postiça. Esquecia-me, - um devoto do
grego! - esquecia-me que ele era também um refinado hipócrita,
um ilustre dissimulado. E quase não tive tempo de fazer esse
reparo, porque Alcibíades, detendo-se repentinamente,
declarou-me que iria ao baile comigo. - Ao baile? repeti
atônito. - Ao baile, vamos ao baile. Fiquei aterrado, disse-lhe
que não, que não era possível, que não o admitiriam, com
aquele trajo; pareceria doido; salvo se ele queria ir lá
representar alguma comédia de Aristófanes, acrescentei rindo,
para disfarçar o medo. O que eu queria era deixá-lo,
entregar-lhe a casa, e uma vez na rua, não iria ao Cassino, iria
ter com V. Ex.ª. Mas o diabo do homem não se movia; escutava-me
com os olhos no chão, pensativo, deliberante. Calei-me; cheguei
a cuidar que o pesadelo ia acabar, que o vulto ia desfazer-se, e
que eu ficava ali com as minhas calças, os meus sapatos e o meu
século. - Quero ir ao baile, repetiu ele. Já agora não vou sem
comparar as danças. - Meu caro Alcibíades, não acho prudente
um tal desejo. Eu teria certamente a maior honra, um grande
desvanecimento em fazer entrar no Cassino, o mais gentil, o mais
feiticeiro dos atenienses; mas os outros homens de hoje, os
rapazes, as moças, os velhos... é impossível. - Por quê? -
Já disse; imaginarão que és um doido ou um comediante, porque
essa roupa... - Que tem? A roupa muda-se. Irei à maneira do
século. Não tens alguma roupa que me emprestes? Ia a dizer que
não; mas ocorreu-me logo que o mais urgente era sair, e que uma
vez na rua, sobravam-me recursos para escapar-lhe, e então
disse-lhe que sim. - Pois bem, tornou ele levantando-se, irei à
maneira do século. Só peço que te vistas primeiro, para eu
aprender e imitar-te depois. Levantei-me também, e pedi-lhe que
me acompanhasse. Não se moveu logo; estava assombrado. Vi que
só então reparara nas minhas calças brancas; olhava para elas
com os olhos arregalados, a boca aberta; enfim, perguntou por que
motivo trazia aqueles canudos de pano. Respondi que por maior
comodidade; acrescentei que o nosso século, mais recatado e
útil do que artista, determinara trajar de um modo compatível
com o seu decoro e gravidade. Demais nem todos seriam
Alcibíades. Creio que o lisonjeei com isto; ele sorriu e deu de
ombros. - Enfim! Seguimos para o meu quarto de vestir, e comecei
a mudar de roupa, às pressas. Alcibíades sentou-se molemente
num divã, não sem elogiá-lo, não sem elogiar o espelho, a
palhinha, os quadros. - Eu vestia-me, como digo, às pressas,
ansioso por sair à rua, por meter-me no primeiro tílburi que
passasse... - Canudos pretos! exclamou ele. Eram as calças
pretas que eu acabava de vestir. Exclamou e riu, um risinho em
que o espanto vinha mesclado de escárnio, o que ofendeu
grandemente o meu melindre de homem moderno. Porque, note V.
Ex.ª ainda que o nosso tempo nos pareça digno de crítica, e
até de execração, não gostamos de que um antigo venha mofar
dele às nossas barbas. Não respondi ao ateniense; franzi um
pouco o sobrolho e continuei a abotoar os suspensórios. Ele
perguntou-me então por que motivo usava uma cor tão feia... -
Feia, mas séria, disse-lhe. Olha, entretanto, a graça do corte,
vê como cai sobre o sapato, que é de verniz, embora preto, e
trabalhado com muita perfeição. E vendo que ele abanava a
cabeça: - Meu caro, disse-lhe, tu podes certamente exigir que o
Júpiter Olímpico seja o emblema eterno da majestade: é o
domínio da arte ideal, desinteressada, superior aos tempos que
passam e aos homens que os acompanham. Mas a arte de vestir é
outra coisa. Isto que parece absurdo ou desgracioso é
perfeitamente racional e belo, - belo à nossa maneira, que não
andamos a ouvir na rua os rapsodos recitando os seus versos, nem
os oradores os seus discursos, nem os filósofos as suas
filosofias. Tu mesmo, se te acostumares a ver-nos, acabarás por
gostar de nós, porque... - Desgraçado! bradou ele atirando-se a
mim. Antes de entender a causa do grito e do gesto, fiquei sem
pinga de sangue. A causa era uma ilusão. Como eu passasse a
gravata à volta do pescoço e tratasse de dar o laço,
Alcibíades supôs que ia enforcar-me, segundo confessou depois.
E, na verdade, estava pálido, trêmulo, em suores frios. Agora
quem se riu fui eu. Ri-me, e expliquei-lhe o uso da gravata e
notei que era branca, não preta, posto usássemos também
gravatas pretas. Só depois de tudo isso explicado é que ele
consentiu em restituir-ma. Atei-a enfim, depois vesti o colete. -
Por Afrodita! exclamou ele. És a coisa mais singular que jamais
vi na vida e na morte. Estás todo cor da noite - uma noite com
três estrelas apenas - continuou apontando para os botões do
peito. O mundo deve andar imensamente melancólico, se escolheu
para uso uma cor tão morta e tão triste. Nós éramos mais
alegres; vivíamos... Não pôde concluir a frase; eu acabava de
enfiar a casaca, e a consternação do ateniense foi
indescritível. Caíram-lhe os braços, ficou sufocado, não
podia articular nada, tinha os olhos cravados em mim, grandes,
abertos. Creia V. Ex.ª que fiquei com medo, e tratei de apressar
ainda mais a saída. - Estás completo? perguntou-me ele. - Não:
falta o chapéu. - Oh! venha alguma coisa que possa corrigir o
resto! tornou Alcibíades com voz suplicante. Venha, venha. Assim
pois, toda a elegância que vos legamos está reduzida a um par
de canudos fechados e outro par de canudos abertos (e dizia isto
levantando-me as abas da casaca), e tudo dessa cor enfadonha e
negativa? Não, não posso crê-lo! Venha alguma coisa que
corrija isso. O que é que, falta, dizes tu? - O chapéu. - Põe
o que te falta, meu caro, põe o que te falta. Obedeci; fui dali
ao cabide, despendurei o chapéu, e pu-lo na cabeça. Alcibíades
olhou para mim, cambaleou e caiu. Corri ao ilustre ateniense,
para levantá-lo, mas (com dor o digo) era tarde; estava morto,
morto pela segunda vez. Rogo a V. Ex.ª se digne de expedir suas
respeitáveis ordens para que o cadáver seja transportado ao
necrotério, e se proceda ao corpo de delito, relevando-me de
não ir pessoalmente à casa de V. Ex.ª agora mesmo (dez da
noite) em atenção ao profundo abalo por que acabo de passar, o
que aliás farei amanhã de manhã, antes das oito.
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