|
Na primeira parte o poeta descreve o que
se pode denominar de habitual, comum num ato de catar feijão: a
limpa, isto é, "jogar fora o leve e oco, palha e eco"
que é a sobra, a sujeira o "eco", pois o bom do
feijão fica no fundo. Ocorre, porém, que já desde aí o poema conotativamente inicia seu jogo poético. A começar pelo
título: "Catar feijão". Nada mais despistador. Na
verdade, ao término de sua leitura, sabe-se que lhe interessa
mesmo é o "catar" palavras. E nessa linha do despiste,
o primeiro verso enuncia que "catar feijão se limita com
escrever \, quando quer mesmo a idéia de que escrever se limita
com catar feijão. O jogo através do símile se faz o inverso,
toma-se o real comparado na condição de comparante. A
composição começa por demonstrar assim que ela toma-se a si
mesma como modelo desse catar feijão em que "a pedra
da à frase seu grão mais vivo:/ obstrui a leitura
fluviante, flutual, /açula a atenção, isca-a com o
risco". O verbo catar assume o sentido de escolher. Porque
catar feijão é, como catar palavras, recolher, retirar o que
não é feijão ou não é feijão bom ,o que não é palavra
adequada ou não é palavra boa. Nota-se que o rigor de escolha
é mesmo exemplar. Conquanto haja o propósito de conceituar o
ato de escrever, com a importância fundamental que lhe dá de
ser dada, o poeta usa o verbo limitar para estabelecer
proximidades (e não igualdade) entre comparante e comparado:
"Catar feijão se limita com escrever", e não É o
mesmo que catar feijão é como escrever. As diferenças e
semelhanças dos dois atos ficam garantidamente asseguradas nos
versos do poema. E para demonstrar concretamente essa imagem,
seguem-se os verso dois, três e quatro, com os quais estabelece
simultaneamente a semelhança/diferença no ato de jogar:
"joga-se os grãos na água do alguidar" é semelhante
apenas na intenção de escolher a "e as palavras na folha
de papel". E a imagem da diferença novamente se estabelece,
pois, ao contrário dos grãos, as palavras não vão fundo,
bóiam no papel, não obstante chumbo: "Certo, toda palavra
boiará no papel, / água congelada, por chumbo seu verbo".
A imagem é muito significativa, ainda mais quando se observa que
a "água-papel" se contrasta com a "água
alguidar" não apenas quanto à imagem produzida: líquida,
a do alguidar, sólida (e branca), a do papel, amas também
porque a complexidade do verbo boiar é muito maior pelo efeito
que o contexto lhe confere. Ora, na água papel,
efetivamente as palavras não bóiam porque não há fundo, mas
conotativamente bóiam, quando ao texto não se ajustam, sendo
então necessário "catá-las". Com o visível
propósito de evidenciar, concretizar a imagem buscada, o poema
efetivamente se constrói sob o efeito de uma espécie de
hipálage, atribui-se o que é próprio do catar feijão ao
escrever (poesia) e vice-versa, numa estrutura sintática
direcionada pelo símile. E nessa linha se fecha a primeira fase:
"pois para catar esse feijão, soprar nele e jogar o leve e
oco, a palha e eco. "Esses são elementos concretamente
próprios do ato de catar feijão jogado no alguidar: o que sobe
é leve, palha, oco e, pois, eco (sujeira). Mas poeticamente é
no "catar" palavras que ele se aplica: jogar fora as
que são palha, ocas, portanto, eco. Deve-se atentar ainda para a
especial conotação da palavra eco, que no poema é eco (sujeira
de que se deve livrar) por fazer eco, (som desagradável, que se
deve evitar). Na Segunda parte, a Segunda estrofe, o poema expõe
uma das conseqüências ou um dos resultados possíveis desse ato
de catar feijão; o risco que se corre, pois pode ficar no fundo
algo que, como o feijão, não bóia e que, estranho, é um
perigo: "um grão qualquer, pedra ou indigesto, um grão
imastigável, de quebrar dente". Isto para esse real catar
feijão na água do alguidar. Entretanto par acatar palavra o
efeito é outro bem contrário: "a pedra dá à frase seu
grão mais vivo:" Como se verifica, o processo composicional
estabelecido se mantém. Apenas que desta feita a implícita
comparação se dá de forma direta. A pedra para o "catar
palavra" não é indigesta, mas sim renovadora. Melhor
dizendo, o indigesto em "catar palavras", qual seja, o
que rompe o tradicional ( o habitual) não causa problemas, ao
contrário, instaura o novo, criativamente considerado, "a
pedra dá à frase se grão mais vivo: / obstrui a leitura
fluviante, flutual." Quanto ao ritmo, o primeiro dos recurso
a chamar a atenção é a predominância do rigor com que as
palavras oxítonas e paroxítonas se sucedem, determinadas ou
interligadas por monossílabos, numa combinação de
variabilidade harmônica dos pés-de-verso: a cadência binária
fundamenta a estrutura. À pauta rítmica também dá suporte o
uso exaustivo da aliteração e da assonância. Pode-se mesmo
dizer que elas são verdadeiros esteios da estrutura rítmica do
poema. Basta apontar alguns exemplos dos muitos que permeiam todo
o poema. A aliteração em /g/: "joga-se os grão na água
do alguidar", (v.2) em /p/: "pois para catar esse
feijão soprar nele"(v.7). Reitere-se: a aliteração ocorre
praticamente em todos os versos, com a incidência muitas vezes
de mais de um consoante. Sirva-se ainda para isso de exemplo:
"obstrui a leitura fluviante, flutual"(v.14) em que /t/
e o encontro consonantal /fl/ surgem, fonossemanticamente,
perfeitamente empregados. A assonância, com a aliteração ,
permeia todo a o poema. Exemplificá-la, seria citá-la inteiro.
A incidência das vogais /i/ e /u/ no verso acima é um bom
exemplo. Dois outros mais com vogais /o/ e /a/: "e depois
joga-se fora o que boiar", (v.6) e "e jogar fora o leve
e oco, palha e eco". (v.8) Além desses elementos, tem papel
fundamental, não apenas, mas também, para a realização
rítmica do poema, a reiteração de palavras e expressões.
Outro aspecto esse que perpassa por todo o poema. Note-se, por
exemplo, a grande freqüência dos verbos que "catar",
"jogar" e dos substantivos "feijão",
"grãos" e "palavras". Evidentemente, esta
estruturação formal não se dá isoladamente. A ela está
acoplada num entrelaçamento indissociável para a significação
do poema a outra face da linguagem, a do seu significado, ou
seja, os elementos semânticos. E nesse sentido pode-se constatar
perfeitamente em "Catar feijão" o que ensinam Roman
Jackobsom: "A função Poética (da linguagem) projeta o
princípio de equivalência do eixo de seleção sobre eixo de
combinação"(1970). Reduzido a dezesseis versos, o poema
busca na potencialidade significativa de inter-relação de seus
elementos fonéticos, semânticos e sintáticos a projeção de
sua significação que é bastante densa. Daí que o jogo
semântico atua na exploração de palavras que se repetem com
significados diferentes, com o que o jogo rítmico se amálgama
ao jogo semântico. Assim é que catar é denotação em
"catar feijão", (v.1), mas é conotação nos versos 7
e 13; pedra é denotação em "um grão qualquer, pedra ou
indigesto", (v.11), mas conotação em "A pedra dá à
frase seu grão mais vivo"., (v.14). Veja-se que eco,
(v.18), tem o duplo significado simultaneamente ao conotar mau
som e sujeira que dá repugnação. Risco no verso 9 e
denotação, mas já assume uma evidente ambigüidade no verso
16. Atente-se ainda para o jogo sonoro semântico
conseguido com o emprego de entre preposição e verbo no verso
10. Grão é outra palavra cujo significado flutua a cada
contexto frasal: são grãos de feijão no verso 2, são grãos
quaisquer, algo não claramente definido nos versos 10, 11 e 12,
e já no verso 14 assume caráter metafórico: "a pedra dá
à frase seu grão mais vivo". A sintaxe do poema é também
bem peculiar. Sua estrutura dá sustentação à forma
lógico-argumentativa em que se organiza. A reflexão sobre o
fazer poético que busca limites no catar feijão se conduz por
acirrada linguagem lógico argumentativa. Os versos não
as medidas extensas e variáveis, mais apropriados e adequados a
esse tipo de raciocínio, no caso, poemático. Mas o que
singulariza a sintaxe poemática de "Catar feijão" é
a construção firmada em frase elípticas, o que concorre tanto
para a economia vocabular do poema enquanto para a sua pauta
rítmica. Sirvam de exemplo: a elisão de água em: as palavras
na da folha de papel;" v.3; e a intrincada construção com
versos 5, 6 e 7: "Acertos, toda a palavra boiará no papel.
Água congelada (que é água congelada), por chumbo seu verbo
(por ser de chumbo o seu verbo); / pois para catar esse feijão,
soprar nele (é necessário soprar nele)". "Catar
feijão" é, pois, uma poema em que a construção
poemática é brevemente discutida, melhor diria, argumentada (em
dezesseis versos), porém numa linguagem poética lógico
discursiva bastante densa e rigorosamente trabalhada, dando-se
próprio poema como exemplo desse fazer poético que ele mesmo
preconiza. Há uma perfeita sintonia entre a cadência rítmica
assegurada pela freqüência quase exclusiva de vocábulos
paroxítonos e oxítonos alternado-se, a grande incidência da
aliteração, da assonância e a reiteração de determinadas
palavras ou expressões como já se observou. Essa sintonia se
faz presente no amálgama dessa camada sonora com o campo
semântico e sintático, o que também já ficou aqui observado.
Se há uma certa dissonância: a rima toante feita de forma bem
peculiar, a variabilidade da métrica nos versos, a sintaxe
singularmente elíptica e outros, é porque "quando ao catar
palavras "a pedra dá à frase seu grão mais vivo".
|