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Contos Novos (1947) foi escrito num
período de crise pessoal, teve publicação póstuma. Reúne
narrativas da maturidade artística do autor, marcadas pela maior
depuração compositiva e estilística. "Eu também me gabo
de levar de 1927 a 42 pra achar o conto, e completá-lo em seus
elementos" (Carta a Alphonsus de Guimaraens Filho). De
estrutura moderna, seu gênero demosntra acolhida às principais
correntes ficcionistas que marcaram a Literatura Brasileira das
décadas de 30 e 40. Mais do que os fatos exteriores, os relatos
procuram registrar o fluxo de pensamento das personagens. Seu
contexto histórico-cultural passa-se em São Paulo, capital e
interior, décadas de 20 a 40; processo de urbanização e
industrialização (cidade); patriarcalismo X progressismo
(ambiente rural). Enredos: 1. "Vestida
de preto": Juca, em flash-back, recupera as primeiras
experiências amorosas com sua prima Maria, bruscamente
interrompidas por uma Tia Velha. A repressão associa-se à
rejeição da prima, que o esnoba na adolescência. A prima se
casa, descasa, e o convida para visitá-la. "Fantasticamente
mulher", sua aparição deixa Juca assustado. 2. "O
ladrão": Numa madrugada paulistana, um bairro operário é acordado por
gritos de pega-ladrão. Num primeiro momento, marcado pela agitação, os
moradores reagem com atitudes que vão do medo ao pânico e à histeria,
anulados pela solidariedade com que se unem na perseguição ao ladrão. Num
segundo momento, caracterizado pela serenidade e enleio poético, um pequeno
grupo de moradores experimenta momentos de êxtase existencial.
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Os comportamentos se sucedem, numa linha que vai do
instinto gregário ao esvaziamento trazido pela rotina. 3.
"Primeiro de Maio": Conflito de um jovem operário,
identificado como "chapinha 35", com o momento
histórico do Estado Novo. 35 vê passar o Dia do Trabalho,
experimentando reflexões e emoções que vão da felicidade
matinal à amargura e desencanto vespertinos. Mesmo assim,
acalenta a esperança de que, no futuro, haja liberdade
democrática para que "sua" data seja comemorada sem
repressão. 4. "Atrás da catedral de Ruão":
Relato dos obsessivos anseios sexuais de uma professora de
francês, quarentona invicta, que procura hipocritamente
dissimular seus impulsos carnais. Aplicação ficcional da
psicanálise: decifração freudiana. 5. "O poço": Joaquim
Prestes, fazendeiro dividido entre o autoritarismo e o
progressismo, é desafiado por um grupo de peões que se
insubordinam, desrespeitando o mandonismo absurdo do patrão. 6.
"Peru de Natal": Juca exorciza a figura do pai,
"o puro-sangue dos desmancha-prazeres", proporcionando
à família o que o velho, "acolchoado no medíocre",
sempre negara. 7. "Frederico Paciência": Dois
adolescentes envolvidos por uma amizade dúbia, de conotação
homossexual, procuram encontrar justificativas para esse
controvertido vínculo e se rebelam contra as convenções
impostas pela sociedade. 8. "Nélson": Registro
do comportamento insólito de um homem sem nome. Num bar, um
grupo de rapazes exercita seu "voyeurismo" pela
curiosidade despertada pelo estranho sujeito: quatro relatos se
acumulam, na tentativa de decifrar a identidade e a história de
vida de uma pessoa que vive ilhada da sociedade, ruminando sua
misantropia. 9. "Tempo de camisolinha": Juca,
posicionando-se novamente como personagem-narrador, evoca
reminiscências da infância, especialmente do trauma que lhe
causou o corte de seus longos cabelos cacheados. Reconcilia-se
com a vida ao presentear um operário português com três
estrelas-do-mar. Foco narrativo de 1ª pessoa -
Centra-se no eixo de individualidade de Juca,
protagonista-narrador. Por meio de evocação memorialista, em
profunda introspecção, ele relembra a infância, a
adolescência e o início de vida adulta. Foco narrativo
de 3ª pessoa - Centra-se num eixo de referência
social, de inspiração neo-realista. A denúncia de problemas
sociais se alia à análise da problemática existencial das
personagens. Espaço - Integra-se de forma
dinâmica nos conflitos das personagens. Por exemplo, em "O
poço", o frio cortante do vento de julho, no interior
paulista, amplifica o tratamento desumano que o fazendeiro
Joaquim Prestes dá a seus empregados. Personagens -
Nas nove narrativas, evidencia-se um profundo mergulho na
realidade social e psíquica do homem brasileiro. Os quatro
contos de cunho biográfico e memorialista, centrados em Juca,
promovem uma "interiorização" de temas sociais e
familiares. Já os com enunciação em terceira pessoa apresentam
personagens cuja densidade psicológica procura expressar a
relação conflituosa do homem com o mundo. Em contos como
"Primeiro de Maio", "Atrás da catedral de
Ruão" e "Nélson", os protagonistas não têm
nome: isso é índice da reificação e da alienação que
fragmentam a existência humana na sociedade contemporânea.
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