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Volta ao presente,
recorda que teve uma infância recheada de histórias
fantásticas, contadas por Angélica. Nunca correu descalço
pelas ruas ao sol. Seu mundo era dos livros, dos soldadinhos de
chumbo e a parede do quarto dos brinquedos limitava seu mundo.
Este cai com a morte da negra Angélica, quando Noel tinha 15
anos. Sua primeira experiência sexual foi repugnante, viscosa e
violenta. Noel sabe que o horário de refeição em sua casa é o
momento menos cordial, de raros diálogos. A mãe reclama de
tudo: da roupa, do marido, das criadas. Diz que já devia estar
trabalhando. Não está estudando Direito? O melhor de sua vida
era a amizade com Fernanda, a amiga de infância. Em outro canto
da cidade, Salustiano Rosa acorda às 9 horas com o sol batendo
em cheio em seu rosto. Dorme ao lado de uma moça loura, Cacilda,
que encontrou na noite anterior. Pede-lhe que saia logo do seu
prédio, sem ser vista. Veste-se e sai feliz, logo após a moça.
Às onze horas, em outro lugar, Chinita pensa em Salustiano.
Recorda-se do rapaz tocando-lhe os bicos do seio por cima do
vestido e acha a sensação deliciosa. Hoje à noite, vai
encontrá-lo no chá dançante do Metrópole. Ela está na casa
do pai, Cel. José Maria Pedrosa, onde decoradores embelezam tudo
com enfeites dourados e pintura na parede. D.Maria Luísa, a
esposa, teme pelos gastos, mas o marido quer que a vivenda dos
Moinhos de Vento seja o melhor palacete do bairro. A festa de
inauguração será na terça-feira e Chinita redigirá os
convites. D. Maria Luísa conserva sempre o ar de vítima,
eternamente triste e preocupada. A riqueza do Cel. veio com a
sorte tirada num bilhete de loteria, comprado com trezentos
mil-réis. A mulher chorou à tarde inteira, quando soube da
despesa com aquele pedaço de papel. Souberam da sorte, na
véspera de Natal. Pedrosa e os filhos ficaram radiantes, apenas
D. Maria Luísa estava triste, brigando por seu rico dinheiro,
defendendo-o dos pedintes. O marido resolve se mudar para Porto
Alegre e todos da cidade de Jacarecanga vêm dizer adeus à
esposa desconsolada, sempre saudosa da vida simples de
Jacarecanga. Fernanda mora na Travessa das Acácias. Ela
descansa, enquanto espera a hora de ir para o trabalho. Vai
pensando na vida dura que tem levado, na morte do pai. A mãe,
D.Eudóxia, lhe chama à realidade, lembrando-lhe que não deve
dormir. A senhora é extremamente pessimista, crendo que tudo vai
dar errado. A filha evita dar muita atenção à mãe, prefere
pensar em Noel e chamar o irmão, Pedrinho para o trabalho. Outro
morador da Travessa é João Benévolo, leitor dos Três
Mosqueteiros. Gosta tanto da leitura que se deixa transportar
para a Paris de 1626, quando deixa de ser o fraco Benévolo,
tornando-se ágil e ousado. Sua mulher, Laurentina, fica furiosa
com a distração do marido. Quer saber se ele não vai procurar
emprego; é 1 hora da tarde e lá está ele lendo, já está
desempregado há 6 meses! As contas estão atrasadas, a costura
que faz para fora pouco ajuda, não dá nem para o aluguel. Eles
têm um filho, Napoleão, magro, que chora por qualquer coisa. Da
janela da casa, João e a esposa vêem um carro luxuoso
estacionar e de dentro dele sai D.Dodó, Doralice Leitão Leiria,
esposa do comerciante Teotônio Leitão Leiria, proprietário do
Bazar Continental, onde Benévolo trabalhou. A senhora vem
visitar Maximiliano, seu empregado que está atacado pela
tuberculose. Deixa algum dinheiro, prometendo transferi-lo para
um hospital. Parte feliz, certa de que tem seu lugar garantido no
céu. Honorato e Noel já saíram. Aliviada, Virgínia desce para
o chá, aborrecida porque tudo lhe lembra o marido e o filho.
Trata mal as empregadas, fica aborrecida com a juventude de
Querubina, grita, ralha, humilha a empregada. Teotônio Leitão
Leiria despede o motorista e segue a pé, para se encontrar com a
moça dos olhos verdes, Cacilda, que mora na Travessa das
Acácias. Teme ser reconhecido, vai cheio de culpa, porque pensa
na caridosa esposa, Dodó. Cacilda não apareceu ainda e Leitão
fica temeroso, pedindo explicações à viúva Mendonça pela
demora. Cacilda chega e entrega-se a Teotônio, pensando no belo
rapaz que amou na noite anterior. A volta de Teotônio Leiria
para casa repõe a rotina doméstica nos trilhos. A esposa
aguarda o querido marido para o baile no Metrópole, preparado
por ela, para a comemoração das Damas Piedosas. Depois vai ao
quarto da filha, Vera, e pede-lhe para não ler o tipo de livro
que anda lendo: A Questão Sexual, de Forel. No salão do
Metrópole, Salustiano encontra Chinita e a aperta, com certa
violência, contra o peito, convidando-a para darem uma volta lá
fora. Dr. Armênio espera que Vera compreenda o sentimento que
lhe devota, mas a moça está interessada mesmo é em Chinita.
Honorato Madeira está louco para voltar para casa, mas tem que
esperar a decisão da esposa. O professor Clarimundo ouve batidas
em sua porta. Trata-se da viúva Mendonça, que vem reclamar a
falta de pagamento do aluguel por Benóvolo, desempregado há
alguns meses. Conta que, toda noite, um sujeito mal encarado vem
visitar a esposa de Benévolo. Faz várias reclamações e vai
embora. Enquanto isso, às 11 horas da noite, Laurentina, está
diante de Ponciano, o visitante mal-encarado, mencionado pela
viúva. Em outros tempos, era o candidato preferido das tias de
Laurentina, com quem a moça morava. Elas queriam vê-la casada
com o moço. Mas João Benévolo apareceu, Ponciano se afastou.
Após 10 anos, reaparece e se põe diante dela, todas as noites,
esperando um instante de fraqueza da mulher para pedir-lhe que
abandone o marido e o siga. Ela já compreendeu seu objetivo, mas
não tem ânimo para falar. O visitante pede que fique com 20
mil-réis e os deixa sobre a mesa, sonhando com o dia em que
terá Laurentina nos braços. Na casa de Honorato, a esposa
Virgínia desperta, decide tomar umas pílulas rejuvenescedoras.
Olha-se no espelho e vê, lá do outro lado, Virgínia Matos
Madeira, mulher de 45 anos, cabelos meio grisalhos, queixo duplo
e princípio de rugas, tão diferente daquela que sente ser.
Recorda-se de sua empregada já falecida, Angélica. Ela criou
Noel e dirigiu a casa até a morte. Quando o Capitão Brutus
começou a fazer-lhe galanteios e aparecer diante de sua janela,
Angélica ameaçou contar o fato a Honorato. O tempo passou, o
capitão foi transferido e Virgínia continuou levando a vida. O
palacete dos Pedrosa continua sendo preparado para a
inauguração. Chinita se comporta como uma estrela de Hollywood
e o pai paga-lhe todos os luxos que tanto desgostam a mãe, a
triste e desconsolada, Maria Luísa. O filho, João Manuel, não
leva vida diferente. Às vezes, não dorme em casa ou então só
retorna de madrugada, para dormir até o meio da tarde. A
família está se acabando, para D. Maria Luísa. Onde irá parar
tudo aquilo? O luxo da casa, a mobília, os gastos
desnecessários assustam a dona da casa que prefere ser uma
estranha e não participar dos desmandos. Assim, se voltar à
pobreza não sentirá a diferença. É domingo. Clarimundo está
de novo na janela de sua casa, pensando em como será o livro que
vai escrever. Qualquer dia irá começá-lo pelo prefácio. Vê
Fernanda e seu irmão, Pedrinho, sentados para o almoço. A moça
avisa a mãe que irá a Ipanema para se encontrar com Noel.
Fernanda deseja modificá-lo. Pensa no duro que dá no
escritório do Senhor Leitão Leiria, na luta com o fatalismo da
mãe, enquanto o rapaz só pensa em literatura, em escrever
livros, sem nada fazer para tornar o projeto realidade. Mais
tarde, Pedrinho está no quarto de Cacilda, relutando em
deixá-la. Ela diz que ele deve sair logo, pois tem visitas a
receber. O rapaz anda perdidamente apaixonado por ela. Não
consegue trabalhar, só vê sua figura o tempo todo. Lamenta o
tipo de vida que a moça leva. Sonha em lhe dar um colar muito
bonito que viu na Sloper. Cacilda fica aborrecida com as
constantes visitas do rapazinho, mas não tem coragem para
magoá-lo. É segunda-feira, na casa de Benévolo a pobreza é
gritante. Almoçam pouco, o filho chora de dor no estômago, a
mãe lhe dá elixir paregórico. Benévolo sonha, lendo o livro,
comprado com parte do dinheiro deixado por Ponciano. Quando a
esposa o irrita ou alguma coisa o aborrece, Benévolo assobia o
Carnaval de Veneza. É o que faz, ao ouvir Laurentina lhe mandar
procurar emprego. Na casa de Chinita, o vai-e-vém é constante.
Todos estão envolvidos com a preparação para a festa
inaugural, exceto D.Maria Luísa. Vera beija Chinita, loucamente,
no quarto e a moça se entrega às carícias da amiga. Depois,
descem para o chá. Noel, trancado em seu quarto, tenta escrever
seu romance, segundo o desafio de Fernanda. Enquanto isso, João
Benévolo vai ao escritório de Leitão Leiria, tentando ser
recontratado. Fernanda o recebe e diz que vai falar com o
patrão. Leiria lhe dá uma carta de recomendação,
encaminhando-o a um amigo, dono de uma fábrica de mosaicos.
Assim que Benévolo se despede, Leiria telefona para a fábrica e
pede desculpas por ter envolvido o amigo naquele problema, mas
foi forçado, pede-lhe para não se preocupar com o desempregado.
Virgínia está em sua janela, esperando por um novo galanteador:
Alcides, postado do outro lado da calçada, e vem cortejá-la
todos os dias. A cada ruído, no interior da casa ou barulho do
bonde, sobressalta-se, deliciada por tudo estar ocorrendo como no
tempo de moça. Terça-feira, festa no palacete do Cel.Pedrosa. A
orquestra toca no hall. Há doces e salgados sobre as mesas. O
proprietário está felicíssimo, vem-lhe à lembrança a imagem
do amigo de Jacarecanga, o Madruga, com quem fazia apostas e
resmungava. Fica imaginando a cara do amigo, se pudesse ver todo
seu sucesso. Toda vez que algo extraordinário lhe acontece
sempre pensa na cara do amigo. Salu dança agarrado com Chinita,
que sonha que a festa é na casa de Joan Crawford. O namorado lhe
diz frases cheias de insinuações e a convida para ir até o
parque. Num recanto oculto, junto à piscina, Salu derruba
Chinita, entregue definitivamente às suas carícias. Chove
forte. Salu desperta, o corpo dói, a cabeça está zonza. Logo
recorda da noite com Chinita, da pergunta da moça sobre seu
interesse por ela. Vai ao telefone e em surdina, Chinita marca um
novo encontro. Está chocada, aturdida com o acontecimento da
noite anterior.Teme ficar grávida e ao mesmo tempo, sente
vontade de ficar para sempre com Salustiano. Leiria fica
enciumado com a festa dada pelo novo rico, Cel. Pedrosa. Pensa
numa forma de derrotá-lo sem levantar a menor suspeita. Talvez,
uma carta anônima resolva o problema. Recorda-se que o Monsenhor
Gross lhe pediu emprego para uma moça, decide despedir Fernanda.
Pedrosa está com a amante, Nanette Thibault que lhe pede um
automóvel de presente, enquanto, sete andares acima, a filha,
Chinita faz amor com Salu. Virgínia, desgostosa com a vida de
casada, espera na janela por Alcides, mas ele não aparece. D.
Maria Luísa recebe uma carta anônima, dizendo que o marido,
Cel.Pedrosa, tem uma amante no Edifício Colombo. Ela analisa
toda sua vida até ali; o filho vive entre prostitutas e bebidas,
a filha parece ter perdido o respeito, solta pela cidade e,
agora, o marido tem uma amante. Quarta-feira, 6 horas da manhã,
Clarimundo lê Einstein, enquanto Maximiliano, o tuberculoso,
morre sob os olhos da mulher, filhos e vizinhos. Chinita só
pensa em Salu e João Benévolo vaga pela rua, sentindo fome e
frio; o dinheiro acabou, não há alimento em casa. Cai de
fraqueza com o estômago doendo. O carro da assistência o apanha
e o coloca numa ambulância. Laurentina chorou o dia inteiro,
esperando pelo marido. Os vizinhos dão o que comer a ela e ao
filho. Ponciano já está ali sentado, olhando-a e dizendo que
nada aconteceu a Benévolo, ele é que não presta mesmo.
Laurentina chora. Recorda-lhe que a avisou. Por que não vem
morar com ele? Laurentina sabia, há muito, que o convite ia ser
feito, mas o que responder, não tem coragem nem para se
revoltar.O homem continua insistindo, mostra-lhe a carteira cheia
de dinheiro, afirmando que tudo será dela. Pode esperar mais um
pouco, afinal, diz Ponciano, já esperou por ela há dez anos.
Virgínia já está na janela, mas sabe que Alcides não vai
passar. Apanha o jornal e tem um sobressalto, o retrato do rapaz
está ali, estampado no jornal, morto por um marido enciumado.
Noel, finalmente, consegue fazer Fernanda entender que está
apaixonado por ela. Não precisou dizer tudo claramente, mas a
moça, como sempre, adivinhou o sentimento do amigo. D.Dodó
comemora feliz seu aniversário e a filha Vera, indiferente não
consegue tirar Chinita do pensamento. Telefona para a casa da
amiga, D.Maria Luísa lhe diz que a filha saiu há 2 horas atrás
para ir visitá-la. Vera desliga e D. Maria fica pensando que o
marido está com a amante e a filha? Clarimundo chega em casa,
depois de dar aulas, e resolve aproveitar o silêncio da noite
para começar a escrever o livro que pretende sobre o homem da
estrela de Sírio. Na introdução coloca que, após observar de
sua janela a vizinhança, resolveu escrever sobre um observador,
colocado num ângulo especial que, certamente, terá uma visão
diferente do mundo; termina, dizendo: "Pois eu te vou
contar, leitor amigo, o que meu observador de Sírio viu na
Terra". De repente lembra-se da chaleira fervendo,
levanta-se para fazer o café.
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