|
|
Em Busca de Curitiba Perdida é uma
coletânea com 23 textos de Dalton Trevisan, que dão uma
no-ção geral da obra deste autor que parece não aceitar a
modernização da cidade. No conto Lamentações da Rua Ubaldino,
ele recorda o passado da rua onde reside - "No Princípio
Era o silêncio na Rua Ubaldino" - mas o barulho da atual
"metrópole" incomoda o escritor - "o amplificador
dos agudos desafinados de Gog e Magog" - que amaldiçoa o
tempo presente: "mais fácil passar um camelo pelo fundo
duma agulha/ do que entrar um guitarrista cenobita no reino de
Deus." Em Curitiba Revisitada, Dalton pergunta: "uma
das três melhores do mundo em qualidade de vida/ depois ou antes
de Roma?", e segue cutucando a capital ecológica -
"cinqüenta metros quadrados de verde por pessoa/ de que te
servem/ se uma em duas vale por três chatos?" - até
definir Curitiba: "falso produto de marketing
político." Outro detalhe importante na obra do
"Vampiro de Curitiba" é a utilização de personagens
que vivem à margem da sociedade de consumo, sem perspectivas de
ascensão social, praticamente presos a necessi-dades imediatas. "Ao utilizar
sempre os mesmos João e Maria, o autor está fazendo uma crítica e ironizando
a visão oficial da cidade, que não dá chance aos menos favorecidos". No
conto Canção do Exílio, o autor-narrador diz que apesar de ter vivido, não
quer morrer em Curitiba.
|
|
Ora, se alguém xinga tanto uma cidade, por
que não vai viver em outro lugar? Dalton Trevisan, mesmo
criticando, faz uma declaração de amor à cidade, às avessas.
Considerado o maior contista da língua portuguesa de todos os
tempos, Trevisan criou um estilo único de escrever,
caracterizado por usar uma linguagem enxuta, que com poucas
palavras consegue comunicar aquilo que deseja. Para ter uma
idéia, basta ler um trecho de A Faca no Coração, quando ele
define: "O amor é uma faca no coração. Cada dia se
enterra mais fundo, que não deixe de sangrar."
|