Mapinguari
- Raquel de Queiroz
Mapinguari reúne crônicas selecionadas de dois
livros, o Brasileiro perplexo e as menininhas, respectivamente de
1963 e de 1976. Rachel de Queiroz tem sempre o costume de dar aos
seus volumes de crônicas escolhidas o nome de uma delas. Na
crônica "As Menininhas", de 15 de dezembro de 1975,
considera com argúcia a nova geração feminina, seu rítimo
alucinante, suas tendência e frustrações, maluquices, sonhos.
Mas por que Mapinguari? Por que chamar-se a esta coletânea de
crônicas Mapinguari? O que será Mapinguari? Rachel de Queiroz
tem a habilidade ou a astúcia de descobrir o que importa.
Mapinguari... é uma lenda amazônica, terrível, que ela deve
ter ouvido no seu tempo de Belém, quer dizer, nos dias da sua
infância de que nos falou em A donzela e a moura torta. Trata-se
de um bicho que se deliciaria com a carne humana, com o sangue
humano, um bicho descomunal, assustador. Rachel imagina dois
seringueiros e reproduz deliciosamente a história tétrica que
ouvira. Mapinguari é um pequeno conto, como tantas das crônicas
da escritora. Ficção e realidade se misturam densamente,
misteriosamente, dentro dela e da sua crônica. Assim como dentro
da vida, que ela sabe captar com a agudeza. A crônica
"Mapinguari" é de 21 de junho de 1972. Como o
"brasileiro perplexo" é de 11 de maio de 1963 e de uma
atualidade total. Este é um dos segredos da crônica de Rachel.
Vencer o tempo, superar o tempo, simplesmente pela
transfiguração da arte. Seu estilo é inconfundível. E aqui
vemos crônicas que não se esquecem mais, como "Duas
histórias para Flávio, ambas de onça", e "A arte de
ser avó", "Cidade do Rio" ou "O ateu",
"Velho: o você de amanhã", crônica empregnadas de
humanidade. Ficcionista, cronista e dramaturga se unem, nestas
páginas marcadas pela vida.