Manuelzão
e Miquelim - João Guimarães Rosa
INTRODUÇÃO A obra de ficção mais
conhecida de Guimarães Rosa consta de contos, novelas e um
romance monumental, publicado em 1956, que é Grandes Sertão:
Veredas - livro que desconcertou a crítica. Entre os livros de
contos, destaca-se Sagarana, seu livro de estréia, publicado em
1946, que foi recebido como "uma das mais importantes obras
aparecidas no Brasil contemporâneo"; Primeiras Estórias
(1962); Tutaméia (Terceiras estórias), de 1967; e o livro
póstumo Estas estórias (1969). Corpo de Baile contém várias
novelas e, a partir de 1964, foi desdobrado em três volumes:
"Manuelzão e Miguilim", "No Urubuquáquá, no
Pinhém", e "Noites do Sertão". As duas
primeiras, também conhecidas como "Uma estória de
amor" e "Campo Geral". Como observa Beth Brait, em
"Literatura Comentada", da Abril Editora, "Campo
Geral é uma narrativa profundamente lírica que traduz a
habilidade de Guimarães Rosa para recriar o mundo captado pela
perspectiva de uma criança." Pode-se dizer que Campo Geral
é uma espécie de biografia, em que muitos críticos vêem
traços autobiográficos do autor. O tema do livro é a infância
- a infância de um menino da roça, com usas descobertas da
vida. Como sempre, tudo vem trabalhado com o inconfundível
estilo de Guimarães Rosa numa linguagem estonteante nos seus
recursos expressivos. Quanto a "Uma estória de amor",
que focaliza a outra ponta da vida, de forma igualmente lírica,
relata-se, ao mesmo tempo que se vai reconstituindo a vida do
vaqueiro sessentão Manuelzão, a festa de consagração de uma
capela que ele faz construir na fazenda que administra. Toda a
narrativa desenvolve-se na véspera de sair uma boiada, o tema
boi serve de ligação entre as cenas, reaparecendo aqui e ali,
dominante, ora como o próprio animal, ora como vaqueiro ou
instrumento de trabalho (contracapa). As duas novelas
complementam-se como histórias de um começo e de um fim de
vida. Enquanto a do menino é uma constante e por vezes dolorosa
descoberta do mundo, a do vaqueiro sessentão é um relembrar
também por vezes doloroso do que foi a sua vida, em que as
recordações se misturam com os fatos do presente, como se
aquela festa fosse a própria súmula de seus dias (contracapa).
A NOVELA COMO ESPÉCIE LITERÁRIA Como espécie literária, a
novela não se distingue do romance, evidentemente, pelo
critério quantitativo, mas pelo essencial e estrutural.
Tradicionalmente, a novela é uma modalidade literária que se
caracteriza pela linearidade dos caracteres e acontecimentos,
pela sucessividade episódica e pelo gosto das peripécias.
Contrariamente ao romance, a novela não tem a complexidade dessa
espécie literária, pois não se detém na análise minuciosa e
detalhada dos fatos e personagens. A novela condensa os elementos
do romance: os diálogos são rápidos e a narrativa é direta,
sem muitas divagações. Nesse sentido, muita coisa que chamamos
de romance não passa de novela. Naturalmente a novela moderna,
como tudo que é moderno, evoluiu e não se sujeita a regras
preestabelecidas. Tal como o conto, parodiando Mário de Andrade,
"sempre será novela aquilo que seu autor batizou com o nome
de novela". Como autor (pós)-modernista, Guimarães Rosa
procurou ser original, imprimindo, em suas criações
literárias, a sua marca pessoal, o seu estilo inconfundível.
Suas novelas, contudo, apesar das inovações, sempre apresentam
aquela essência básica dessa modalidade literária, que é o
apego a uma fabulação contínua como um rio, de caso-puxa-caso.
MIGUILIM: ESTRUTURA/ENREDO Campo Geral é uma novela narrada em
terceira pessoa. A estória, entretanto, é filtrada pelo ponto
de vista de Miguilim, uma criança de oito anos. Por essa razão,
a visão de mundo apresentada pelo autor é organizada a partir
desta expectativa: a vivência de um menino sensível e delicado,
empenhado em compreender as pessoas e coisas que o cercam. A
estória se desenvolve no Mutum, um remoto lugarejo das Gerais, e
envolve várias personagens. Como é próprio da novela: a mãe,
o pai, os irmãos, o tio, a avó e outras que têm relacionamento
demorado ou passageiro com essa família. Com cerca de 150
páginas, a novela se organiza à semelhança de Grande Sertão;
Veredas, ou seja, a narrativa não é dividida em capítulos e as
falas, nos diálogos, não se sujeitam às normas convencionais.
A narrativa, entretanto, pode ser dividida em alguns núcleos
básico que passamos a descrever: 1) Ao completar sete anos,
Miguilim é levado pelo tio Terêz até um lugarejo distante para
ser crismado. Nessa viagem, uma lembrança que o marcou e que
jamais esqueceu foi o dito de um moço que já estivera no Mutum:
"É um lugar bonito, entre morro e morro, com muita pedreira
e muito mato, distante de qualquer parte; e lá chove
sempre..." Essa opinião opunha-se à da mãe, que ali
morava e vivia queixando-se do triste recanto. Ao voltar, esta
será a sua primeira preocupação: dizer à mão "que o
Mutum era lugar bonito". A mãe, evidentemente, não lhe deu
importância, apontando o morro como causa do seu infortúnio e
da sua tristeza. "Estou sempre pensando que lá por detrás
dele acontecem outras coisas, que o morro está tapando de mim, e
que eu nunca hei de poder ver..." 2) A família de Miguilim
é numerosa e compõem-se de pai, mãe, irmãos, avó, tios,
empregados, gatos e cachorros. Inicialmente, o seu relacionamento
é bom como todos eles, aos poucos, vai-se percebendo a sua maior
predileção pelo irmãozinho Dito. Mais novo do que Miguilim,
Dito se destaca pela sabedoria e esperteza: "O Dito menor,
muito mais menino, e sabia em adiantado as coisas com uma
certeza, descarecia de perguntar". "Dava até raiva,
aquele juízo sisudo, o poder do Dito, de saber e entender, sem
as necessidades". Grande era a amizade que unia os dois. Boa
parte da novela concentra-se nessa amizade e nas conversas de
ambos: "Era capaz de brinca com o Dito a vida inteira, o
Ditinho era a melhor pessoa, de repente, sempre sem
desassossego". 3) A morte prematura de Dito vai provocar
nele um impacto doloroso e chocante - exatamente Dito que não
pensava em morrer e traçava planos para o futuro. "?Eu
gosto de todos. Por isso que eu quero não morrer e crescer,
tomar conta do Mutum, criar um gadão enorme. Mas Dito morre, e a
desolação de Miguilim é total: "Miguilim doidava de não
chorar mais e de correr por um socorro". "Soluçava de
engasgar, sentia as lágrimas quentes, maiores do que os
olhos". "Miguilim sentou no chão, num canto, chorava,
não queria esbarrar de chorar, nem podia - Dito! Dito!..."
4) O relacionamento com o pai, a princípio, bom e cordial,
vai-se deteriorando e chega ao clímax, quando, numa briga com um
parente que os visitava, Miguilim é surrado violentamente por
ele. A revolta detém-lhe as lágrimas e Miguilim nutre um ódio
mortal pelo pai: "Não chorava, porque estava com um
pensamento: quando ele crescesse, matava Pai". A mãe,
sempre preocupada e zelosa, afasta-o de casa, mandando-o passar
algum tempo com o vaqueiro Salúz. Miguilim retorna carrancudo e
ainda mal-humorado: "Chegou e não falou nada. Não tomou
bênção". A partir dessa cena, Miguilim começa a ajudar
na capina da roça, quando passa mal e põe-se a vomitar. Estava
doente, muito doente. O pai se desespera e é tomado de profunda
comoção: "Pai chorava, demordia de morder os
beiços". Acabou perdendo a cabeça e "se enforcou com
um cipó", e Miguilim se restabeleceu. 5) O conflito gerado
pelo relacionamento existente entre o pai, a mãe e o tio Terêz,
irmão do Pai, é outro núcleo que se destaca na narrativa. Tudo
indicava que havia alguma coisa entre a mãe e o tio Terêz, e o
pai certamente sabia. Uma vez, Miguilim viu-o bater na mãe e foi
surrado também. A partir daí, o tio Terêz, tão amigo de
Miguilim afasta-se da casa. O ambiente estava carregado. Um
temporal está prestes a desabar, o que fazia o Dito dizer
sério: "? Por causa de Mamãe, Papai e Tio Terêz,
Papai-do-Céu está com raiva de nós de surpresa..." Tempos
depois, quando levava comida para o pai no roçado, tio Terêz
aparece a Miguilim e pede-lhe que entregue um bilhete à mãe.
Esse bilhete, segredo não revelado nem a Dito, torna-se, por
muito tempo, o seu tormento, pois adivinhava o seu conteúdo.
Acaba devolvendo-o ao tio. Terêz entende o seu dilema. No final
da narrativa, com a morte do pai, tio Terêz retorna e tudo acaba
bem: "?Se daqui a uns meses mão se casar com o tio Terêz,
Miguilim, isso é do seu gosto? - indagava a mãe".
"?Tio Terêz, o senhor parece com Pai..." - dizia
Miguilim. 6) A novela se encerra com uma cena altamente
simbólica: a descoberta de que era míope e a possibilidade de
uma nova vida em outro lugar. Foi assim: De repente, chega ao
Mutum, um senhor de óculos (Dr. Lourenço) e a amizade se
estabelece: Deus te abençoe, pequeninho. Como é teu nome?
Miguilim. Eu sou irmão do Dito. E o homem de óculos logo foi
percebendo (era doutor): "Por que você aperta os olhos
assim? Você não é limpo de vista?" Era isto mesmo:
Miguilim era piticego, tinha vista curta, e não sabia. E então
o senhor (que era doutor) tirou os óculos e deu-os a Miguilim:
"?Olha, agora! Miguilim olhou. Nem não podia acreditar!
Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas,
as árvores, as caras das pessoas. O Mutum era bonito! - agora
Miguilim via claramente. E então veio o convite: -O doutor era
homem muito bom, levava o Miguilim, lá ele comprava uns óculos
pequenos, entrava para a escola, depois aprendia ofício. E,
assim, Miguilim teria uma nova perspectiva na vida: a criança de
calça curta ia penetrar, agora, em um novo mundo. PERSONAGENS
Além de Miguilim, protagonista da estória., o qual se revela um
menino sensível, delicado e inteligente ao longo da narrativa, o
universo da novela "Campo Geral" é composto de várias
outras personagens: 1) A família de Miguilim é constituída do
pai (Nhô Berno), meio seco autoritário; a mãe (Nhanina), que
"era linda e tinha cabelos pretos e compridos"; os
irmãos Tomezinho e Dito; as irmãs Chica e Drelina; a avó
Izidra; e o tio Terêz. 2) Fazendo parte da família, como
empregadas da casa, destacam-se a preta Mãitina, Rosa Maria e
Pretinha. Ligados à família, mas com alguma independência,
destacam-se aqui também, os vaqueiros Salúz e Jé. 3) Ainda no
universo da família, podemos inserir aqui os cachorros (sempre
individualizados com um nome próprio), o gato Sossõe e o
papagaio Papaco-o-Paco. 4) Entre os conhecidos e amigos,
destacam-se o alegre e simpático seu Luisaltino, que veio morar
com a família e ajudava o Pai no roçado. Para finalizar, é
importante observar que, ao contrário da cidade grande onde as
pessoas praticamente são anônimas, no mundo roseano tudo e
todos têm um nome que os caracteriza e individualiza. MANUELZÃO
- SÍNTESE Mais conhecida como Manuelzão, o verdadeiro nome da
novela é Uma estória de amor e se passa na Samara, "nem
fazenda, só um reposto, um currais-de-gado, pobre e novo ali
entre o Rio e a Serra dos Gerais". A novela se abre com a
expectativa de uma festa que reuniu muito povo e o padre para
benzer a capela "-templozinho, nem mais que uma guarita,
feita a dois quilômetros da Casa", que Manuelzão faz
construir, a pedido de sua mãe (dona Quilina) , já falecida,.
Que é bastante lembrada ao longo da narrativa. Num discurso
indireto livre, em que o narrador parece falar pela boca de
Manuelzão (tudo é filtrado pela sua ótica), a novela vai sendo
conduzida sem divisão em capítulos, tangida como uma boiada,
meio caoticamente, a lembrar o mundo inóspito e selvagem do
sertão. Tudo gira em torno de Manuelzão, senhor da festa e da
novela, que desbrava aquelas terras, cujo verdadeiro dono
(Frederico Freyre) raramente aparecia por lá. De cima de seu
cavalo e dos seus quase 60 anos, Manuelzão contempla a azáfama
do povo nos preparativos da festa e vai reconstituindo o seu
passado de "porfia", "fazendo outros sertões,
comboiando boiadas, produzindo retiros provisórios".
"Na Samara, Manuelzão conduzira o início de tudo, havia
quatro anos, desde quando Frederico Freyre gostou do rincão e
ali adquiriu seus mil e mil alqueires de terra asselvajada - Te
entrego, Manuelzão, isto te deixo em mão, por desbravar! E
enviou o gado." Sessentão solitário do sertão, que não
destila o fel da casmurrice nem da solidão, Manuelzão busca no
passado distante o Adelço, "filho natural, nascido de um
curto caso", agora já com 30 anos, casado com a Leonísia,
e pais de sete filhos, seus netinhos. Entretanto, embora
"mouro trabalhador", o Adelço não é bem visto por
ele, Manuelzão. De repente, na calada da madrugada, quando todos
dormiam, o inesperado: o riacho, dito "Seco Riacho",
que abastecia a casa com sua água e formosura, cessou. "Foi
no meio duma noite, indo para a madrugada, todos estavam
dormindo. Mas cada um sentiu, de repente, no coração, o estalo
do silenciozinho que ele fez, a pontuda falta da toada, do
barulhinho. Acordaram, se falaram. Até as crianças. Até os
cachorros latiram. Aí, todos se levantaram, caçaram o quintal,
saíram com luz, para espiar o que não havia (...).O riacho
soluço se estancara, sem resto, e talvez para sempre. Secara-se
a lagrimal, sua boquinha serrana. Era como se um menino sozinho
tivesse morrido". Criatura boa e humilde, talqualmente a
mãe, dona Quilina, era o velho Camilo, que ali viera aportar a
sua velhice, depois de "asilar-se em ranchos ou cafuas mal
abandonadas no campo sujo". Seo Camilo "era apenas uma
espécie doméstica de mendigo, recolhido, inválido, que ali
viera Ter e fora adotado por bem-fazer, surgido do mundo do
Norte: Ele asséste mais é aqui, às vezes descasca um
milhozinho, busca um balde d'água. Mas tudo na vontade dele.
Ninguém manda, não.... A festa tem início realmente, na
véspera, com chegada do padre (frei Petroaldo), que é recebido
com foguetes e muita alegria. "A voz do povo levantou um
louvor, prazeroso. Via-se, quando se via, era muito mais gente,
aquela chegança, que modo que sombras. Gente sem desordem,
capazes de muito tempo calados, mesmo não tinham viso para as
surpresas". Outras pessoas iam chegando para a festa: João
Urúgem, homem estranho que vivia isolado como bicho; o senhor de
Vilamão, "homem de muitas possas, de longes distâncias
dentro de suas terras", já alquebrado e velhinho, "o
cabelo total embranquecido, trajado de vestimenta que não se
usava mais em parte nenhuma- o cavour"; "chegava
também o Lói, ex-vaqueiro, vestido com a baeta - um capote
feito de baeta" e, fazendo muita algazarra , como se
estivessem tangendo uma boiada, o Simão Faço mais seu irmão
Jenuário e outros: "? Eh, Manuelzão, já fomos, já
viemos...". Chegou ainda "seo Vevelho, com seus filhos,
tocadores de música". Assim, tocando a sua narração (mais
dele do que do narrador que se mistura), Manuelzão vai ruminando
casos e mais casos, ali em meio àquele povão, na animada festa:
"?Estória! - ele disse, então. Pois, minhamente: o mundo
era grande. Mas tudo ainda era muito maior quando a gente ouvia
contada, a narração dos outros, de volta de viagens". Na
calda da noite, dando uma trégua na festa, ecoam, por entre
silêncios atentos e não dormidos, as estórias de Joana Xaviel,
"essa que morava desperdida, por aí, ora uma ora noutra
chapada": "O seguinte é este..." Joana ia
contando suas estória de reis, rainhas e vaqueiros, que
Manuelzão escutava, deitado, na espreita de o sono chegar:
"Se furtivava o sono, e no lugar dele manavam as negaças de
voz daquela mulher Joana Xaviel, o urdume das estórias. As
estórias - tinham amarugem e docice. A gente escutava, se
esquecia de coisas que não sabia". Nas elocubrações de
Manuelzão, vira-e-mexe, a beleza de Leonísia, sua nora:
"Leonísia era linda sempre, era a bondade formosa. O
Adelço merecia uma mulher assim? Seu cismado, soturno caladão,
ele encabruava por ela cobiças de exagero, um amuo de amor; a
ela com todas as grandes mãos se agarrava". Manuelzão
ruminava: bem que o Adelço, depois da festa podia ir no seu
lugar conduzindo a boiada, no comando, para longes distâncias.
Afinal, não já estava sessentão? Não era ele quem mandava?
"Eh, Manuel J. Roíz não bambeia!..." "Ele
Manuelzão nunca respirara de lado, nunca refugara de sua
obrigação". "Montado no meu cavalo eu abri este
sertão..." No dia seguinte, a festa coma a missa celebrada.
"A Capelinha estava só de Deus: Fazendo parte da manhã
lambuzada de sol, contra o azul, mel em branca, parecia saída de
um gear". Manuelzão, "a frente de todos, admirado por
tantos olhos", dirige-se ao altar para beijar a Santa e
dizer um padre nosso. Depois saiu, pois a capelinha era muito
pequena, e "o aperto dava aflição". "O povoame
enchia a chã, sem confusão nenhuma. Mesmo aqueles com os
revólveres na cintura, armas, facas. Ao que Manuelzão, cá bem
atrás ficou, no coice. Gostava todos aprovassem essa
simplicidade sem bazófia, e vissem que ele fiscalizava".
Após a celebração, a festa prossegue com danças,
contradanças e muita alegria. Quadras ecoam dos violeiros do
sertão, numa animação cheia de brincadeira, com o Pruxe, seo
Vevelhoi e Chico Bràabóz no comando: Seu subi pelo céu arriba
numa linha de pescar: preguntar Nossa Senhora se é pecado
namorar!... -Olerê, canta! O Rio de São Francisco faz questão
de me matar: pra cima corre ligeiro, pra baixo bem devagar...
-Olerê, canta! Depois de muita festança e alguma comilança, a
festa vai-se acabando. Ainda não. O velho Camilo, "todo
vivido e desprovido", ia contar um caso - o fantástico
"Romance do Boi Bonito, que vaqueiro nenhum não agüentava
trazer no curral..." Até que assucedeu, brotado de
repentemente, um vaqueiro encantado, por enquanto chamado apenas
de Menino, que, montado num Cavalo de conto de fada, domou o Boi
Bonito: ...O Boi estava amarado, chifres altos e orvalhados. Nos
campos o sol brilhava. Nos brancos que o Boi vestia, linda mais
luz se fazia. Boi Bonito desse um berro, não agüentavam a
maravilha. E esses pássaros cantavam. O vaqueiro Menino foi
"dino" (= digno): não quis dote nem nenhum prêmio
pela proeza - queria tão-somente que livre Boi Bonito pastasse
naquelas pairagens: "Vosmecê, meu Fazendeiro, há-de me
atender primeiro, dino. Meu nome hei: Seunavino... Não quero
dote em dinheiro. Peço que o Boi seja soltado. E se me dê esse
Cavalo. Atendido, meu Vaqueiro, refiro nesta palavra. O Boi, que
terá por seus os pastos do fazendado. Ao Cavalo, é já vosso.
Beija a mão, meu Vaqueiro. Deus vos salve, Fazendeiro.
Vaqueiros, meus companheiros. Violeiros... Fim Final. Cantem este
Boi e o Vaqueiro, com belo palavreado..." Inebriado pela
estória de seo Camilo, Manuelzão se revigora: apesar de seus 60
anos quase, ele está pronto para mais uma proeza - conduzir a
boiada desbravando bravamente os caminhos do sertão das Gerais.
PERSONAGENS Ao contrário de Muguilim, em que se focaliza um
universo bastante limitado, coerente com a faixa etária do
protagonista, em "Manuelzão", por estar a personagem
na outra ponta da vida, tendo, portanto, passado por lugares
vários, conhecendo gente e mais gente, o universo é bem
maior.,. Aqui, pois, sugestivamente, a novela é povoada de gente
que não acaba mias, reunida na Samarra para a festa de
Manuelzão. Tudo gira, sem dúvida, em torno de Manuelzão, cuja
trajetória de vaqueiro desbravador do sertão vai sendo
reconstituída em meio à festa do presente. Ao contrário de Dom
Casmurro, em que a velhice é marcada por mágoas e
ressentimentos, aqui a vida é uma festa, movida por muita
alegria e poesia, não obstante haver na novela também alguns
lampejos de baqueamento. Apesar de vaqueiro sessentão,
Manuelzão vai em frente, resistindo à idade, pois "de todo
não queria parar". No final, sugestivamente, a novela se
encerra com o início de uma nova jornada: "A boiada vai
sair". Como é próprio da gente do sertão, o perfil de
Manuelzão marca-se pela dedicação ao trabalho de vaqueiro e
administrador da Samarra, tudo fazendo de uma forma abnegada e
obstinada: "Eh, Manuel J. Roiz não bambeia!..."
"Ele Manuelzão nunca respirara de lado, nunca refugara de
sua obrigação". Por outro lado, ao longo da narrativa,
percebe-se como traço de sua personagem, além da pródiga
hospitalidade demonstrada com a festa, uma necessidade obsessiva
de ser reconhecido e admirado como homem de valor: "Ah, todo
o mundo, no longe do redor, iam ficar sabendo quem era ele,
Manuelzão, falariam depois com respeito". Quanto às outras
personagens, as que mais se destacam já ficaram esparramadas
pela síntese que se fez da novela. LINGUAGEM Filtrado pelo ponto
de vista de uma criança, a narrativa de Miguilim apresenta,
coerentemente, uma linguagem que utiliza recursos morfológicos,
sintáticos e semânticos, que reproduzem bem a expressividade da
linguagem infantil, o mesmo acontecendo em Manuelzão, em que
tudo é visto pela ótica do adulto. Por outro lado, também
coerentemente, com o mundo apresentado, o registro da linguagem
coloquial, tal como é falada pelo sertanejo, combina bem com a
gente simples e rude que povoa as duas novelas. 1) Como é
próprio da linguagem infantil, são constantes os diminutivos
reduzidos em "-im", a começar pelo próprio nome
Miguilim. "...tretava coragem de chegar pertim".
"Miguilim, me dá umm beijim!" Algumas vezes o
diminutivo é usado indevidamente, em função da expressividade.
"E agorinha, agora, que ele carecia tanto de qualquer
assinzinho de socorro". "Você me ensinazinho a
dançar, Chica?" Em Manuelzão, expressando a ótica do
adulto e combinado com o mundo apresentado, ocorre, com
freqüência, o aumentativo, expresso não só no nome do
protagonista como ao longo de toda a narrativa: "Laço,
lação! Eu gosto de ver a argolar estalar no pé-do-chifre e o
trem pular pra riba!" 2) Como é próprio da linguagem
popular, é muito freqüente, em ambas as novelas, o uso duplo de
negativas ("Mas nem não valia") e o emprego do
advérbio não no final ("Ninguém manda, não"). 3)
Outra coisa freqüente é o uso constante de sufixo -mente em
situações não convencionais: "Mesmamente que acabavam a
arrancação de inhame" "Só um caxinguelê ruivo se
azougueou, de repentemente" "Pois, minhamente: o mundo
era grande" 4) Como é próprio da linguagem interiorana, a
presença de arcaísmo é freqüente: "Menino, eu te
amostro!" "Escuta, Miguilim, você alembra..." 5)
Também constantes são as inversões, como nos exemplos abaixo:
"se coçando das ferroadas dos mosquitos, alegre quase"
"...touro do demônio, sem raça nenhuma quase" 6)
Reflexo da sintaxe popular, a silepse, caso de concordância
ideológica aparece com freqüência: "A gente vamos
lá!" "Ah, todo o mundo, no longe do redor, iam ficar
sabendo quem era ele" 7) Outra coisa que se destaca na
linguagem roseana é a aliança com a poesia, em que o autor
explora recursos próprios da poesia, como aliterações, ecos,
sonoridades, rimas, etc: "Teu lume, vaga-lume?"
"Miguilim, me dá um beijim!" Refletindo a visão
altamente lírica que ocorre em ambas as novelas, há passagens
de oura poesia, como esta de "Manuelzão":
"Fizeram noite, dançando. As iaiás também. O quando o dia
já estava pronto pra amanhecer, céu já se desestrelando. No
seguinte, na rompidinha do dia, a vaqueirama se formou". A
esse propósito, Beth Brait, em "Literatura Comentada",
afirma que "a lírica e a narrativa fundem-se e
confundem-se, abolindo intencionalmente os limites existentes
entre os gêneros." 8) Em suma, Guimarães Rosa "não
se submete à tirania da gramática", fazendo largo uso da
semântica, da sintaxe e da morfologia populares. Nesse sentido,
em função da expressividade, são freqüentes na sua linguagem
erros de colocação, de regência, de concordância etc.
"Não truxe os óculos, Manuelzão. Assim, não
dletreio..." "O que eu não posso agora é campear
ela..." 9) Por outro lado destaca-se no estilo de Guimarães
Rosa a inventividade - o gosto para criar palavras novas, usando
sempre os recursos e possibilidades que a língua oferece:
"Vezes que sucede de um adormorrer na estrada"
"Tinha vergonha de saberem que estava lá em sua casa, em
luademéis" "...ia ter mãezice de tolerar os casos,
coisas que a todos desapraz?" "...mas insofria por ter
de esperar" "O cachorrinho era com-cor com a
Pingo" "O cachorro Gigão caminhara para a cozinha,
devagaroso" "O vaqueiro Jé está dizendo que já vai
dechover" "Mas agora o Gigão parava ali, bebelambendo
água na poça" "Se encontrou com padrinho Simão,
correu ensebado, veadal" "Tinha de ser lealdoso,
obedecer com ele mesmo" "... enquanto Pai estivesse
raivável" "As estórias - tinham amarugem e
docice" "Carecia de um filho, prosseguinte" 10)
Outro aspecto que reflete bem o mundo sertanejo e sabedoria
popular é o suo constante ditados ditos populares, sempre, com
rimas e musicalidade: "Lá chove, e cá corre..."
"Eh mundão! Quem me mata é Deus, quem me come é o
chão..." "Chuva vesprando, cachorro soneja muito"
"Estou triste mas não choro. Morena dos olhos tristes, esta
vida é caipora" "Mourão, mourão, toma este dente
mau, me dá um dente são!" 11) Comuníssimo também em
ambas as novelas, em mais aliança com a poesia, é o uso da
frase nominal, sem estrutura oracional, desguarnecida de verbo:
"Os violeiros desnudavam, Seo Vevelho, mais os filhos. A
sanfona. Chico Bràabóz, preto cores pretas, mas com feições.
Ô homem da pólvora quente!" 12) Combinando com a atmosfera
festiva de "Manuelzão", são freqüentes, sobretudo
nessa novela, quadras e versos, que refletem bem o gosto popular:
O galo cantou na serra da meia-noite p'r'o dia. O touro berrou na
margem no meio da vacaria. Coração se amanheceu de saudade, que
doía... 13) Sempre em busca de originalidade, uma constante na
ficção roseana, são comuns os jogos de palavras com
verdadeiros achados como estes: "Lá é Cristo, cá é
isto..." "Os bois todos andando, p'r'acolá,
p'r'acoli" Como se pôde ver, o mundo ficcional roseano não
é fácil, pois a linguagem sai do convencional, do já-feito,
buscando um maneira nova de expressão: "O impulso primeiro
é desistir", diz Beth Braitm que desafia: "Quem se
atreve a adentrar espaço de eleitos?" ESTILO DE ÉPOCA A
originalidade da linguagem de Guimarães Rosa, a sua
inventividade e criatividade configuram bem o estilo de época
(pós)-modernista. Essa preocupação em fazer diferente, saindo
do convencional, é, sem dúvida, uma das grandes característica
do estilo de época contemporâneo. É o próprio Guimarães quem
fala: "Disso resultam meus livros, escritos em um idioma
próprio, meu, e pode-se deduzir daí que não me submeto à
tirania da gramática e dos dicionários dos outros". Outra
coisa que marca bem o estilo de época na obra é a capacidade
revelada pelo escritor (pós)-modernista para refletir sobre
problemas universais, partindo de uma realidade regional. É o
que diz a contracapa de "Literatura Comentada":
"Nele , quanto mais - aparentemente - particularizado o
tema, mais universal ele é. Quanto mais simplórios seus
personagens, mais ricas sua personalidades. Assim, rudes
sertanejos refletem de forma peculiar e extremamente sutil os
grandes dramas metafísicos e existenciais da humanidade".
É isto que se vê em Guimarães Rosa e outro grandes escritores
na nossa Literatura: há sempre uma dimensão universal no
aparentemente regional. "O sertão que vem de Guimarães
Rosa não se restringe aos limites geográficos brasileiros,
ainda que dele extrais a sua matéria-prima. O sertão aparece
como uma forma de aprendizado sobre a vida, sobre a existência,
não apenas do sertanejo, mas do homem". Como dizia o
próprio Guimarães: "o sertão é o mundo". ASPECTOS
TEMÁTICOS MARCANTES Além de apresentar o mundo sertanejo nos
seus costumes, crendice e maneira próprio de ser, "Campo
Geral" retrata basicamente a infância de um menino da roça
nas suas incertezas, dúvida, angústias, crendices e descobertas
do mundo e da vida. 1) Ao longo da novela, não são poucas as
cenas e passagens em que se pode perceber a ruindade adulta em
oposição ao sentimento puro e nobre da criança. Revela-o não
só a história de cadela Pingo-de-Ouro, quase cega, que á doado
aos outros pelo pai, como também a cena da caça ao tatu em que
as pessoas grandes são recriminadas pela criança, na sua
inocência e pureza. "Então, mas por que é que Pai e os
outros se apraziam tão risonhos, doidavam, tão animados
alegres, na hora de caçar àtoa, de matar tatu e os outro
bichinhos desvalidos? " Miguilim via essas coisas e não
compreendia. Na sua inocência de criança ficava a nódoa da
imagem perversa: "Miguilim inventava outra espécie de nojo
das pessoas grandes." "Miguilim não tinha vontade de
crescer, de ser pessoa grande, a conversa das pessoas grandes era
sempre as mesmas coisas secas, com aquela necessidade de ser
brutas, coisas assustadas". 2) Como já deixamos claro no
enredo, difícil e doloroso foi-se tornando o relacionamento de
Miguilim com o pai. A cena da surra revela bem o sadismo e a
prepotência do adulto ao espancar uma criança pequenina e
indefesa: "(Pai) pegou o Miguilim, e o levou para casa,
debaixo de pancadas. Levou para o alpendre. Bateu de mão, depois
resolveu: tirou a roupa toda de Miguilim e começou a bater com a
correia da conta. Batia e xingava, mordia a ponta da língua,
enrolada, se comprazia. Batia tanto, que Mãe, Drelina e a Chica,
a Rosa, Tomezinho, e até Vovó Izidra, choravam, pediam que não
desse mais, que já chegava. Batia. Batia..." 3) A cena do
bilhete, em que tio Terêz pede a Miguilim para entregá-lo à
mãe, evidencia outro drama crucial para a criança: a angústia
gerada pela dúvida entrer entregar ou não entregar o bilhete.
Angustiava-se ante o compromisso assumido com o tio e a
consciência de que estava fazendo alguma coisa errada. Nem mesmo
Dito, com toda a sua sabedoria, pôde dar-lhe uma resposta que
pudesse aliviar-lhe o tormento: nem mesmo a mãe, nem mesmo o
vaqueiro Jé pôde tirar-lhe a dúvida que roía a alma:
"Mãe, o que a gente faz, se é mal, se é bem, ver quando
é que a gente sabe? Vaqueiro Jé: malfeito como é, que a gente
se sabe? Menino não carece de saber Miguilim. Menino, o todo
quanto faz, tem de ser é malfeito..." Ainda bem que o tio
Terêz foi bom e compreensivo e aceitou o bilhete de volta:
"Miguilim, Miguilim, não chora, não te importa, você é
um menino bom, menino direto, você é meu amigo!" 4) O
mundo da criança é sempre povoado de superstições e crendices
que refletem o adulto. Algumas dessas crendices e superstições
revelam bem o poder e a influência da religião com seu conceito
de pecado, além de expressar também aspectos da cultura
popular. Em "Campo Geral", várias passagens podem ser
destacadas como exemplos: "Contavam que esse seo Deográcias
estava excomungado, porque um dia ele tinha ficado agachado
dentro da igreja". "Ah, não fosse pecado, e aí ele
havia de ter uma raiva enorme, de Pai, deles todos, raiva mesmo
de ódio, ele estava com razão". "Entre chuva e outra,
o arco-da-velha aparecia bonito, bebedor; quem atravessasse
debaixo dele - fu" - menino virava mena, menina virava
menino: será que depois desvirava?" "Por paz, não
estava querendo também brincar junto com o Patori, esse era um
menino maldoso, diabrava. Ele tem olho ruim, - a Rosa dizia -
quando a gente está comendo, e ele espia, a gente pega
dor-de-cabeça..." "Ali no oratório, embrulhados e
recosidos num saquinho de pano, eles guardavam os umbiguinho
secos de todos os meninos, os dois irmãozinhos, das irmãs, o de
Miguilim também - rato nenhum não pudesse roer, caso roendo o
menino então crescia para ser só ladrão" "Quando a
estória da Cuca, o Dito um dia perguntou: ?Quem sabe é pecado a
gente ter saudade de cachorro?" 5) Por meio do contato com
seo Aristeu e sobretudo através das conversas com Dito, muitas
lições de vida Miguilim vai aprendendo: "O Dito dizia que
o certa era a gente estar sempre brabo de alegre, alegre por
dentro, mesmo com tudo de ruim que acontecesse, alegre nas
profundas. Podia? Alegre era a gente viver devagarinho, miudinho,
não se importando demais com coisa nenhuma". Era uma bela
lição essa que o Dito ensinava a Miguilim: a alegria de viver.
Aliás, a mesma lição é transmitida a ele por seo Aristeu,
quando estava doente sem estar, e pensava em morrer. Foi só seo
Aristeu fazer umas graças e Miguilim se restabeleceu da
enfermidade. "Vai, o que você tem é saúde grande e ainda
mal empenada." No final, com o happy-end provocado pelo
destino, Miguilim chorava de emoção: "Sem alegre,
Miguilim... Sempre alegre, Miguilim", Miguilim, de óculos
nos olhos míopes, agora enxergavam diferente - tinha uma nova
visão do mundo e da vida. Tendo também o mundo do sertão como
pano de fundo, a ponto de parecer uma obra tipicamente
regionalista, "Manuelzão" focaliza esse universo nos
seus costumes, nas suas crendices, nas suas labutas, no seu
sentimento religiosos e, sobretudo, na sua espontaneidade. Aqui
certamente porque ainda não foi corroído pela civilização, o
sertanejo se revela bom e puro, aproximando-se do bon sauvage dos
românticos. 1) Maunelzão, como expressa o título, é realmente
"uma estória de amor", em que tudo vem lindamente
misturado: gente, bichos, coisas - a natureza. Aqui, gente rica e
gente pobre, brancos e negros, homens e mulheres, reunidos numa
capelinha minúscula, se irmanam numa festa de
confraternização. Tal como em "Miguilim", também
aqui a visão que se passa é positiva, alegre, apesar da rudeza
do sertão inóspito. "Seo Camilo, a estória é boa!
Manuelzão, sua festa é boa!" 2) Diferente de Dom Casmurro,
de Machado de Assis, em que a velhice é apresentada como uma
fase amarga da vida, marcada pela solidão e pelo desencanto,
aqui, apesar de algumas incertezas, Manuelzão e outros velhos da
novela não sentem esse drama ou, pelo menos, não têm
consciência dele Solteiro a vida toda, largado pelo mundo como
vaqueiro desbravador do sertão, é bem verdade que Manuelzão,
aos 60 anos, começa a sentir saudade da estabilidade doméstica
que nunca teve, sentimento que se desperta sobretudo com a
presença de Leonísia, sua nora, casada com o Adelço: "Nem
havia de ter coragem: e a Leonísia sendo tão bonita - mulher
para conceder qualquer felicidade sincera". Entretanto, a
velhice era uma realidade a que não podia fugir. Ali estava o
velho Camilo e o senhor Vilamão, já no ocaso da existência,
que esperavam, com paciência e sem revolta, o adormorrer
inevitável: "A gente olhava aquela lamparina se
esprivitando no arder, no umbral da porta, e daqui a pouco, no
empretecer das estrelas, era o fim da festa se executando".
3) Não obstante, Manuelzão vais resistindo como pode. "De
todo não queria parar, não quereria suspeitar em sua natureza
própria de um anúncio de desando, o desmancho, no ferro do
corpo. Resistiu. Temia tudo na morte". Mas agora nem não
carecia ter medo do adormorrer. Enquanto não chegava, ele,
Manuel Roíz, bravamente ia desbravar mais de uma boiada pela
Gerais imensas do sertão sem fim. 4) Bonita também e altamente
positiva é a visão da vida envelhecida sem envilecer, que é
mostrada como manancial de sabedoria, em que vêm beber as
gerações do porvir a fim de se dar continuidade à festa, que
deve ser a vida de cada um. Entretanto, como ensina o final do
livro, "a festa não é pra se consumir - mas para depois se
lembrar..." Esse lembrar, sem dúvida, é o que fica e é o
grande consolo dos que se aproximam da dimensão maior, que se
conquista com o adormorrer.