Noite na
Taverna - Álvares de Azevedo
Noite na Taverna é uma narrativa (novela
ou conto) construída em sete partes, contendo epígrafes e os
nomes de cada personagem, como subtítulos, antecedendo as
narrativas, contadas em uma taverna. Há, na última parte, o
entrelaçamento da história de Johann e de alguns personagens. Primeira
parte Johann, Bertram, Archibald, Solfieri, o
adormecido, Arnold e outros companheiros estão na taverna,
dialogando sobre loucuras noturnas, enquanto as mulheres dormem
ébrias sobre as mesas. Falam das noites passadas em embriaguez e
pura orgia. Solfieri os questiona a respeito da imortalidade da
alma, sendo mais velho, parece não crer nela, por isso,
Archibald o censura pelo materialismo. Solfieri acredita na
libertinagem, na bebida e na mulher sobre o colo do amado. Os
homens só se voltam para Deus quando estão próximos da morte,
Deus é, pois, a "utopia do bem absoluto". Segunda
parte Solfieri decide contar sua história, conforme
sugere Archibald, desejoso de histórias fantásticas, cheias de
sangue e paixão. Conta, então, que uma noite, ao vagar por uma
rua, em Roma, passa por uma ponte, quando as luzes dos palácios
se apagam. Vê a sombra de uma mulher chorando, numa escura e
solitária janela, parecendo uma estátua pálida à lua. Ela
canta mansamente, saindo para a rua, sempre seguida por Solfieri.
Pela manhã, ele percebe que está em um cemitério, sem saber,
ao certo, se adormeceu ou desmaiou. Sente muito frio, adoece,
delira, tendo visões com a bela e pálida mulher. Retorna a Roma
um ano depois, sem encontrar alento nos beijos das amantes,
perseguido pela visão da mulher do cemitério. Certa noite,
muito bêbado, após uma orgia, se encontra num templo muito
escuro e, vendo um caixão semi-aberto, crê que a mulher está
lá dentro. Arranca-lhe a mortalha, faz amor com ela, que, pela
madrugada, dá sinais de vida, retornando da catalepsia para
desmaiar em seguida. Solfieri coloca sua capa sobre a moça e
foge com ela. Encontra com o coveiro e depois com a patrulha, que
o considera um ladrão de cadáveres. Justifica-se, apresentando
a esposa desfalecida. Ao chegar em casa, a moça grita, ri e
estremece, morrendo 2 dias depois. Solfieri levanta o piso do
quarto para dar lugar ao túmulo, suborna, antes, um escultor que
lhe faz em cera a estátua da virgem. Aguarda um ano para
estátua definitiva ficar pronta. Volta-se para Bertram,
recordando-lhe a visita deste em sua casa e de a ter visto por
entre véus, sendo a ela apresentado como "uma virgem que
dormia". Os amigos surpresos com a história desejam saber
se se trata de um conto, mas ele jura por todo mal existente que
não. Como prova, mostra sob a camisa a grinalda de flores
mirradas, pertencente à moça. Terceira parte A
seguir, Bertram, um dinamarquês ruivo, de olhos verdes, conta
que, também, uma mulher, uma donzela de Cadiz, Angela, o levou
à bebida e a duelar com seus três melhores amigos e a
enterrá-los. Quando decide casar com ela e consegue lhe dar o
primeiro beijo, recebe carta do pai, pedindo seu retorno à
Dinamarca. Encontra o velho já moribundo, chora, mas por
saudades de Angela. Dois anos depois, vende toda fortuna, coloca
o dinheiro num banco de Hamburgo e volta para a Espanha. Encontra
a moça casada e mãe de um filho. A paixão persiste e os
amantes passam a se encontrar às escondidas, vivendo verdadeiras
loucuras noturnas até que o marido, enciumado, descobre tudo.
Uma noite, Angela, com a mão ensangüentada, pede ao rapaz para
subir até sua casa e por entre a penumbra, ele encontra o marido
degolado e sobre seu peito, o filho de bruços, sangrando. Angela
deseja fugir em sua companhia, saem pelo mundo, ela vestida de
homem vive grandes orgias. Foge mais tarde, deixando o rapaz
entregue às paixões e vícios. Bertram bêbado e ferido é
atropelado por uma carruagem, diante de um palácio, sendo
socorrido por um velho fidalgo, pai de uma bela menina, que, mais
tarde, foge para casar-se com Bertram. Vendida em uma mesa de
jogo a Siegfried, um pirata, ela o mata e o envenena, afogando-se
a seguir. De dissipação em dissipação, o rapaz resolve
matar-se no mar na Itália, mas salvo por marinheiros, fica
sabendo que a pessoa que o salvou acabou, acidentalmente, morta
por ele. São socorridos por um navio e Bertram é aceito a bordo
em troca de que combatesse se necessário. Mas, apaixona-se pela
pálida mulher do comandante e, durante uma batalha contra um
navio pirata, ele o trai, fazendo amor com a mulher. O navio
encalha em um banco de areia, despedaçando-se aos poucos - os
náufragos agarram-se a uma jangada e, em meio à noite e à
tempestade, o casal vive horas de amor. Vagam a ermo pelo mar as
três figuras, sobrevivendo de bolachas e, mais tarde, tiram a
sorte para ver quem morrerá. O comandante perde, clama por
piedade, mas Bertram se nega ouvi-lo, prefere a luta. Mata o
comandante, que serve, por dois dias, de alimento a Bertram e a
mulher. Ela propõe morrerem juntos, ele aceita. O casal gasta as
últimas energias se amando. A mulher, enlouquecida, começa a
gargalhar, Bertram febril a sufoca. Ela é levada pelas águas,
enquanto o rapaz é salvo pelo navio inglês, Swallow. Quarta
parte A próxima história é a de Gennaro. Sua
narrativa é sobre um velho pintor, Godofredo Walsh, casado com
uma jovem de 20 anos, Nauza, que lhe serve de modelo e é amada
como a filha do primeiro casamento, Laura, garota de 15 anos.
Gennaro, aos 18 anos, é aprendiz de pintor e aluno de Godofredo.
Vive na casa do mestre como um filho, recebendo, no corredor,
antes de dormir, beijos de Laura. Um dia, desperta e a encontra
em sua cama, perdendo a cabeça diante da estonteante beleza da
virgem. A cena se repete ao longo de 3 meses, quando a menina lhe
diz que deve pedi-la em casamento, porque espera um filho. O
moço nada responde, ela desmaia e se afasta, tornando-se cada
dia mais pálida. O pintor definha com a tristeza da filha,
passeia pelos corredores à noite e deixa de pintar. Uma noite,
Gennaro é chamado, porque Laura está morrendo e murmura seu
nome. O moço aproxima-se e, ela, sussurrando-lhe ao ouvido o
perdão, diz que matou o filho e dá o último suspiro. O velho
passa o ano endoidecido, chora todas as noites no quarto da
morta, arfando ou afogando-se em soluços. Enquanto isso, o rapaz
e Nauza amam-se em seu leito. Uma noite, o velho o arranca da
cama e o leva até o dormitório de Laura. Levanta o lençol que
cobre um painel, descortinando a imagem moribunda de Laura, que
murmura algo no ouvido do cadavérico Gennaro. Atordoado, o
aprendiz confessa tudo a Godofredo. No dia seguinte, o velho se
comporta naturalmente, sem mencionar o ocorrido, lamenta apenas a
falta da moça. Sonâmbulo, repete a mesma cena ao longo de
várias noites e, numa delas, Nauza é testemunha. Uma noite de
outono, após a ceia, Walsh convida Gennaro para um passeio fora
da cidade. Após contornar um despenhadeiro, pede ao rapaz para
esperá-lo, dirigindo-se a uma cabana de onde sai uma mulher.
Depois, junta-se a Gennaro e ao chegar à beira de um penhasco,
descreve a traição, envolvendo a filha e a esposa. Pede ao
rapaz para jogar-se precipício abaixo. Gennaro assim o faz, mas,
após uma noite de delírios, acorda salvo por camponeses, em uma
cabana. Decide retornar à casa de Walsh e pedir-lhe perdão,
entretanto encontra pelo caminho o punhal do pintor. Decide
vingar-se, mas encontra Nauza e Godofredo envenenados e
apodrecidos, talvez, com o veneno obtido com a mulher da cabana. Quinta
parte É a vez de Claudius Hermann narrar suas loucuras
e orgias e de como desperdiçou uma fortuna no turfe, em Londres,
onde vê uma bela amazonas, a duquesa Eleonora, esposa do duque
Maffio. Antes de prosseguir com a história, Bertram indaga sobre
a poesia, descrita como um punhado de sons e palavras vãs,
enquanto Claudius a considera um prazer extremado, o que há de
belo na natureza. Os colegas os interrompem, pedindo ao narrador
que retome a história. No dia em que avista a bela duquesa,
Hermann dobra sua fortuna e, à noite, no teatro, a vê, mais uma
vez. Ao longo de 6 meses, encontra a senhora em bailes e teatros
até que decide comprar de um criado a chave do castelo. Entra,
sorrateiramente, quando ela já está adormecida e coloca-lhe nos
lábios narcótico. Aguarda que durma profundamente e, então, a
possui, repetindo o fato, noite após noite, durante um mês.
Certa vez, após um baile, entra no quarto de Eleonora e vendo um
copo com água junto à sua cabeceira, derrama nele o narcótico.
Entram a duquesa e o duque que, antes de sair do quarto,
prometendo-lhe retornar, bebe um pouco do líquido, seguido por
ela. Claudius sabe que Maffio não virá ao quarto e que Eleanora
dormirá profundamente. Ergue-a do leito e foge com ela numa
carruagem, chegando, ao meio-dia, a uma estalagem. Mais tarde, a
duquesa desperta e surpresa por não estar em seu palácio, grita
por socorro, desespera-se, ameaçando jogar-se pela janela. O
rapaz lhe declara profundo amor e lhe descreve o rapto, dando-lhe
duas horas para pensar se fica ou não com ele. Inconformada a
princípio, decide aceitar o amor oferecido, pois a família e
amigos, certamente, não a aceitariam mais. Ao retornar, Claudius
a encontra debruçada sobre um de seus versos. Interrompe a
narrativa, retira um papel do bolso, mostrando o verso aos
colegas. Conta que Eleonora lhe respondeu que ficava, mas caiu
desmaiada.Dito isso, o rapaz tomba por sobre a mesa, calando-se.
Archibald o sacode, implora para que desperte. Solfieri e os
companheiros desejam saber sobre a duquesa, mas o rapaz está
confuso, não se recorda de mais nada.Ouvem a gargalhada do louro
Arnold que despertando, dá continuidade ao relato, dizendo que
um dia Claudius entrou em casa e encontrou sobre a cama ensopada
de sangue dois cadáveres; o Duque de Maffio matou Eleonora e
enlouquecido, suicidou-se em seguida. Arnold estende a capa no
chão e volta a dormir. Sexta parte Johann
decide contar sua história. Está em um bilhar em Paris, jogando
com Artur que, numa jogada definitiva para Johann, se encosta à
mesa, por descuido ou de propósito. A mesa estremece e Johann é
levado à derrota. O perdedor, enlouquecido de raiva, desafia o
parceiro para um duelo. Antes porém, Artur pede ao adversário
que, caso morra, entregue a carta, que está em seu bolso, e o
anel no seu dedo, para uma mulher que dirá, mais tarde quem é.
Saem com duas pistolas, uma carregada, a outra não; Artur é
alvejado e morre, apontando para o bolso. Johann tira-lhe o anel,
colocando-o em seu dedo e, a seguir, encontra dois papéis no
bolso do morto: uma carta para a mãe, e outra indicando o
horário e endereço para um encontro. O rapaz decide tomar o
lugar de Artur. Descobre que aí mora a virgem namorada do rival
que acaba na cama com Johann, num quarto escuro. De repente,
interrompe a narrativa, enche o copo e o bebe com estremecimento.
Prossegue, narrando que ao sair do quarto, encontra um vulto à
porta, cuja voz lhe soa familiar. É atacado com uma faca, luta
ferozmente com o vulto; um homem desconhecido, que deixa cair o
punhal, morrendo sufocado pela mão de Johann. Ao se retirar,
tropeça numa lanterna e decide ver o rosto do estranho,
estremece, a luz da lanterna se apaga. Vai arrastando o corpo
até um lampião e, para sua surpresa, descobre tratar-se de seu
irmão. Louco de terror retorna ao quarto, mas, outra vez,
interrompe a narrativa, bebe mais um copo. Diz que encontrando a
donzela desmaiada, a levou para a janela e percebeu que estava
com a irmã nos braços. Última parte É noite
alta na taverna, todos dormem. Entra uma mulher pálida, vestida
de negro, procurando alguém com uma lanterna na mão. Vê
Arnold, tenta beijá-lo, mas o deixa em paz, voltando-se para
Johann, tornando-se, subitamente, sombria. Traz, além da
lanterna, um punhal, que crava no pescoço deste último,
enxugando as mãos ensangüentadas no cabelo do ferido. Vai até
Arnold e o desperta. Ele a reconhece; é a irmã de Johann, agora
transformada na prostituta Giorgia, a quem Arnold pede que lhe
chame de Artur, como outrora. O rapaz recorda-se do duelo, do
tempo passado no hospital para se recuperar, o desespero e a vida
de devassidão a que se entregou por não encontrar mais Giorgia.
Deseja ficar junto dela agora, mas a moça acha que é tarde
demais, pede-lhe apenas um beijo de despedida, porque vai morrer.
Leva Arnold até o corpo de Johann, dizendo que o matou por ter
sido por ele desonrada, a ela que era sua irmã. Arnold
horrorizado cobre o rosto, enquanto Giorgia cai ao chão. Arnold
aperta o punhal contra o peito e cai sobre ela, sufocando os dois
gemidos de morte. A lâmpada apaga-se.