Tutaméia
- João Guimarães Rosa
Aqui está, o último livro do escritor, Tutaméia,
publicado poucos meses antes da sua morte, a exigir leitura e
reflexão. Por mais que o procure encarar como mero texto
literário, desligado de contingências pessoais, apresenta-se
com agressiva vitalidade, evocando inflexões de voz, jeitos e
maneiras de ser do homem e amigo. A leitura de qualquer página
sua é um conjuro. Como entender o título do livro? No Pequeno
dicionário brasileiro da língua portuguesa encontramos
tuta-e-meia definida por mestre Aurélio como "ninharia,
quase nada, preço vil, pouco dinheiro". Numa glosa da
coletânea o próprio contista confirma a identidade dos dois
termos, juntando-lhes outros equivalentes pitorescos, tais como
"nonada, baga, ninha, inânias, ossos de borboleta,
quiquiriqui, mexinflório, chorumela, nica". Atribuiria ele
realmente tão pouco valor ao volume fórmula como antífrase
carinhosa e, talvez, até supersticiosa? Inclino-me para esta
última suposição. Em conversa comigo (numa daquelas conversas
esfuziantes, estonteantes, enriquecedoras e provocadoras que
tanta falta me hão de fazer pela vida afora), deixando de lado o
recato da despretensão, ele me segredou que dava a maior
importância a este livro, surgido em seu espírito como um todo
perfeito não obstante o que os contos necessariamente tivessem
de fragmentário. Entre estes havia inter-relações as mais
substanciais, as palavras todas eram medidas e pesadas, postas no
seu exato lugar, não se podendo suprimir ou alterar mais de duas
ou três em todo o livro sem desequilibrar o conjunto. A essa
confissão verbal acresce outra, impressa no fim da lista dos
equivalentes do título, como mais uma equação:
"meaomnia'". Essa etimologia, tão sugestiva quanto
inexata, faz tutaméia vocábulo mágico tipicamente rosiano,
confirmando a asserção de que o ficcionista pôs no livro
muito, senão tudo, de si. Mas também em nenhum outro livro seu
cerceia o humor a esse ponto as efusões, ficando a ironia em
permanente alerta para policiar a emoção. Por que
Terceiras estórias perguntei-lhe se não houve as
segundas? Uns dizem: porque escritas depois de um grupo de
outras não incluídas em Primeiras estórias. Outros dizem:
porque o autor, supersticioso, quis criar para si a obrigação e
a possibilidade de publicar mais um volume de contos, que seriam
então as Segundas estórias. E que diz o autor? O
autor não diz nada respondeu Guimarães Rosa com uma
risada de menino grande, feliz por ter atraído o colega a uma
cilada. Mostrou-me depois o índice no começo do volume, curioso
de ver se eu lhe descobria o macete. Será a ordem
alfabética em que os títulos estão arrumados Olhe
melhor: há dois que estão fora da ordem. Por quê?
Senão eles achavam tudo fácil. "Eles" eram
evidentemente os críticos. Rosa, para quem escrever tinha tanto
de brincar quanto de rezar, antegozava-lhes a perplexidade
encontrando prazer em aumentá-la. Dir-se-ia até que neste
volume quis adrede submetê-los a uma verdadeira corrida de
obstáculos. Seria esse o motivo principal da multiplicação dos
prefácios, de que o livro traz não um, mas quatro? Prefácio
por definição é o que antecede uma obra literária. Mas no
caso do leitor que não se contenta com uma leitura só, mesmo um
prefácio colocado no fim poderá ter serventia. Estórias à
primeira vista, num segundo relance os prefácios hão de revelar
uma mensagem. Juntos compõem ao mesmo tempo uma profissão de
fé e uma arte poética em que o escritor, através de rodeios,
voltas e perífrases, por meio de alegorias e parábolas, analisa
o seu gênero, o seu instrumento de expressão, a natureza da sua
inspiração, a finalidade da sua arte, de toda arte. Assim
"Aletria e hermenêutica" é pequena antologia de
anedotas que versam o absurdo; mas é, outrossim, uma definição
de "estória" no sentido especificamente
guimaraes-rosiano, constante de mostruário e teoria que se
completam. Começando por propor uma classificação dos
subgêneros do conto, limita-se o autor a apontar germes de conto
nas "anedotas de abstração", isto é, nas quais a
expressão verbal acena a realidades inconcebíveis pelo
intelecto. Suas estórias, portanto, são "anedóticas"
na medida em que certas anedotas refletem, sem querer, "a
coerência do mistério geral que nos envolve e cria" e faz
entrever "o supra-senso das coisas".
"Hipotrélico" aparece como outra antologia, desta vez
de divertidas e expressivas inovações vocabulares, não lhe
faltando sequer a infalível anedota do português. E é a
discussão, às avessas, do direito que tem o escritor de criar
palavras, pois o autor finge combater "o vezo de
palavrizar", retomando por sua conta os argumentos de que
já se viu acossado como deturpador do vernáculo e levando-os ao
absurdo: põe maliciosamente a vista as inconseqüências dos que
professam a partenogênese da língua e se pasmam ante os
neologismos do analfabeto, mas se opõem a que "uma palavra
nasça do amor da gente", assim "como uma borboleta sai
do bolso da paisagem". A "glosação em apostilas"
que segue esta página reforça-lhe a aparência pilhérica, mas
em Guimarães Rosa zombaria e pathos são como o reverso e o
anverso da mesma medalha. O primeiro "prefácio" bastou
para nos fazer compreender que em suas mãos até o trocadilho
vira em óculo para espiar o invisível. "Nós os
temulentos" deve ser mais que simples anedota de bêbado,
como se nos depara. Conta a odisséia que para um borracho
representa a simples volta a casa. Porém os embates nos objetos
que lhe estorvam o caminho envolvem-no em uma sucessão de
prosopopéias, fazendo dele, em rivalidade com esse outro
temulento que é o poeta, um agente de transfigurações do real.
Finalmente confissões das mais íntimas apontam nos sete
capítulos de Sobre a escova e a dúvida, envolvidas não em
disfarces de ficção, como se dá em tantos narradores, mas,
poeticamente, em metamorfoses léxicas e sintáticas. É o
próprio ficcionista que entrevemos de início num restaurante
chic de Paris a discutir com um alter ego, também escritor,
também levemente chumbado, que lhe censura o alheamento a
realidade: "Você evita o espirrar e o mexer da realidade,
então foge-não-foge." Surpreendidos de se encontrarem face
a face, os dois eus encaram-se reciprocamente como personagens
saídas da própria imaginativa, perturbados e ao mesmo tempo
encantados com a sua "sociedade" (sic!), tecendo uma
palestra rapsódica de ébrios em que o tema do engagement
ressurge volta e meia como preocupação central. O Rosa
comprometido sugere ao Rosa alheado escreverem um livro juntos;
este não lhe responde a não ser através da ironia discreta com
que sublinha o contraste do ambiente luxuoso com o ideal "da
rude redenção do povo". Mas a resposta é acusação de
alheamento deve ser buscada também e sobretudo nos capítulos
seguintes. Em primeiro lugar, põe-se em dúvida a natureza da
realidade através da parábola da mangueira, cada fruta da qual
reproduz em seu caroço o mecanismo de outra mangueira; e o
inacessível nos elementos mais óbvios do cotidiano real e
aduzido, afirmado, exemplificado. Depois de tentar encerrar em
palavras o cerne de uma experiência mística, sua, o autor
procura captar e definir os eflúvios de um de seus dias
"aborígenes" a oscilar incessantemente entre azarado e
feliz, até enredá-lo numa decisão irreparável. Possivelmente
há em tudo isto uma alusão à reduzida influência de nossa
vontade nos acontecimentos, as decorrências totalmente
imprevisíveis de nossos atos. A seguir, evoca o escritor o seu
primeiro inconformismo de menino em discordância com o ambiente
sobre um assunto de somenos, o uso racional da escova de dentes;
o que explicaria a sua não-participação numa época em que a
participação do escritor é palavra de ordem. Nisto, passa a
precisar (ou antes a circunscrever) a natureza subliminar e
supraconsciente da inspiração, trazendo como exemplo a gênese
de várias de suas obras, precisamente as de mais valor, antes
impostas do que projetadas de dentro para fora. Para arrematar a
série de confidências, faz-se o contista intermediário da
lição de arte que recebeu de um confrade não sofisticado, o
vaqueiro poeta em companhia de quem seguira as passadas de uma
boiada. Ao contar ao trovador sertanejo o esboço de um romance
projetado, este lhe exprobrou decididamente o plano (talvez,
excogitado de parceria com o sósia de Montmartre), numa
condenação implícita da intencionalidade e do realismo:
"Um livro a ser certo devia de se confeiçoar da parte de
Deus, depor paz para todos." Arrependido de tanto haver
revelado de suas intuições, o escritor, noutro esforço de
despistamento, completou o quarto e último prefácio com um
glossário de termos que nele nem figuram, mas que representam
outras tantas idiossincrasias suas, ortográficas e fonéticas, a
exigir emendas nos repositórios da língua. Absorvidos pelos
prefácios, ei-nos apenas no limiar dos quarenta contos
merecedores de outra tentativa de abordagem. Quantas vezes, mesmo
nesta breve cabra-cega preliminar, terei passado ao lado das
intenções esquivas do contista, quantas vezes as suas negaças
me terão levado a interpretações erradas? Só poderia dizê-lo
quem não mais o pode dizer; mas será que o diria? Descontados
os quatro prefácios, Tutaméia, de Guimarães Rosa, contém
quarenta "estórias" curtas, de três a cinco páginas,
extensão imposta pela revista em que a maioria (ou todas) foram
publicadas. Longe de constituir um convite à ligeireza, o
tamanho reduzido obrigou o escritor a excessiva concentração.
Por menores que sejam, esses contos não se aproximam da
crônica; são antes episódios cheios de carga explosiva,
retratos que fazem adivinhar os dramas que moldaram as feições
dos modelos, romances em potencial comprimidos ao máximo. Nem
desta vez a tarefa do leitor é facilitada. Pelo contrario,
quarenta vezes ha de embrenhar-se em novas veredas, entrever
perspectivas cambiantes por trás do emaranhado de outros tantos
silvados. Adotando a forma épica mais larga ou gênero mais
epigramático, Guimarães Rosa ficava sempre (e cada vez mais)
fiel à sua fórmula, só entregando o seu legado e recado em
troca de atenção e adesão totais. A unidade dessas quarenta
narrativas está na homogeneidade do cenário, das personagens e
do estilo. Todas elas se desenrolam diante dos bastidores das
grandes obras anteriores; as estradas, os descampados, as matas,
os lugarejos perdidos de Minas, cuja imagem se gravara na
memória do escritor com relevo extraordinário. Cenários ermos
e rústicos, intocador pelo progresso, onde a vida prossegue nos
trilhos escavados por uma rotina secular, onde os sentimentos, as
reações e as crenças são os de outros tempos. Só por
exceção aparece neles alguma pessoa ligada ao século XX, à
civilização urbana e mecanizada; em seus caminhos sem fim,
topamos com vaqueiros, criadores de cavalos, caçadores,
pescadores, barqueiros, pedreiros, cegos e seus guias, capangas,
bandidos, mendigos, ciganos, prostitutas, um mundo arcaico onde a
hierarquia culmina nas figuras do fazendeiro, do delegado e do
padre. A esse mundo de sua infância o narrador mantém-se fiel
ainda desta vez; suas andanças pelas capitais da civilização,
seus mergulhos nas fontes da cultura aqui tampouco lhe forneceram
temas ou motivos, o muito que vira e aprendera pela vida afora
serviu-lhe apenas para aguçar a sua compreensão daquele
universo primitivo, para captar e transmitir-lhe a mensagem com
mais perfeição. Através dos anos e não obstante a ausência,
o ambiente que se abrira para seus olhos deslumbrados de menino
conservou sempre para ele suas cores frescas e mágicas. Nunca se
rompeu a comunhão entre ele e a paisagem, os bichos e as plantas
e toda aquela humanidade tosca em cujos espécimes ele amiúde se
encarnava, partilhando com eles a sua angustia existencial. A
cada volta do caminho suas personagens humildes, em luta com a
expressão recalcitrante, procuram definir-se, tentam encontrar o
sentido da aventura humana: "Viver é obrigação sempre
imediata"; "Viver seja talvez somente guardar o lugar
de outrem, ainda diferente, ausente." "A gente quer mas
não consegue furtar no peso da vida." "Da vida
sabe-se: o que a ostra percebe do mar e do rochedo."
"Quem quer viver, faz mágica." A transliteração
desse universo opera-se num estilo dos mais sugestivos, altamente
pessoal e no entanto determinado em sua essência pelas
tendências dominantes, às vezes contraditórias, da fala
popular. O pendor do sertanejo para o lacônico e sibilino, o
pedante e o sentencioso, o tautológico e o eloqüente, a
facilidade com que adapta o seu cabedal de expressões as
situações cambiantes, sua inconsciente preferência pelos
subentendidos e elipses, seu instinto de enfatizar, singularizar
e impressionar são aqui transformados em processos estilisticos.
Na realidade o neologismo desempenha nesse estilo papel menor do
que se pensa. Inúmeras vezes julga-se surpreender o escritor em
flagrante de criação léxica, recorre-se, porém, ao
dicionário, lá estará o vocábulo insólito (acamonco,
alarife, avejão, brujajara, cara fuz, chuchorro, esmar, ganja,
grinfo, gueta, jaganata, marupiara, nomina, panema, pataratesco,
quera, safio, seresma, sessil, uca, vogoroca etc) rotulado de
regionalismo, plebeísmo, arcaísmo ou brasileirismo, outras
vezes, não menos freqüentes, a palavra nova representa apenas
uma utilização das disponibilidades da língua, registrada por
uma memória privilegiada ou esguichada pela linspiração do
momento (associoso, borralheirar, convidatividade, de extraordem,
inaudimento, infinição, inteligentudo, inventação,
mal-entender-se, mirificacia, orabolas deles!, reflor!,
reminisção etc) Com freqüência bem menor há, afinal, as
criações de inegável cunho individual, do tipo dos amálgamas,
abusufruto, fraternura, lunático de mel, metalurgir, orfandade,
psiquepiscar, utopiedade com que o espírito lúdico se compraz a
matizar infinitamente a língua. Porém, as maiores ousadias
desse estilo, as que o tornam por vezes contundente e hermético
são sintáticas: as frases de Guimarães Rosa carregam-se de um
sentido excedente pelo que não dizem, num jogo de anacolutos,
reticências e omissões de inspiração popular, cujo estudo
está por fazer. Estonteado pela multiplicidade dos temas, a
polifonia dos tons, o formigar de caracteres, o fervilhar de
motivos, o leitor naturalmente há de, no fim do volume, tentar
uma classificação das narrativas. é provável que a ordem
alfabética de sua colocação dentro do livro seja apenas um
despistamento e que a sucessão delas obedeça a intenções
ocultas. Uma destas será provavelmente a alternância, pois
nunca duas peças semelhantes se seguem. A instantâneos mal
esboçados de estados de alma sucedem densas microbiografias; a
patéticos atos de drama rápidas cenas divertidas; incidentes
banais do dia-a-dia alternam com episódios lírico-fantásticos.
Entre os muitos critérios possíveis de arrumação
vislumbra-se-me um sugerido pelo que, por falta de melhor termo,
denominaria de atonímia metafísica. Essa figura estilística,
de mais a mais freqüente nas obras do nosso autor, surge em
palavras que não indicam manifestação do real e sim
abstrações opostas a fenômenos percebíveis pelos sentidos,
tais como: antipesquisas, acronologia, desalegria, improrrogo,
irriticencia, desverde, incogitante, descombinar (com alguém),
desprestar (atenção), inconsiderar, indestruir, inimaginar,
irrefotar-se etc, ou em frases como "Tinha o para não ser
célebre." Dentro do contexto, tais expressões claramente
indicam algo mais do que a simples negação do antônimo: aludem
a uma nova modalidade de ser ou de agir, a manifestações
positivas do que não é. Da mesma forma, na própria contextura
de certos contos o inexistente entremostra a vontade de se
materializar. Em conversa ociosa, três vaqueiros inventam um boi
cuja idéia há de lhes sobreviver consolidada em mito incipiente
("Os três homens e o boi"). Alguém, agarrado a um
fragmento de frase que lhe sobrenada na memória, tenta
ressuscitar a mocidade esquecida ("Lá nas campinas").
Ameaça demoníaca de longe, um touro furioso se revela, visto de
perto, um marrua manso ("Hiato"). Noutras peças, o que
não é passa a influir efetivamente no que é, a moldá-lo, a
mudar-lhe a feição. O amante obstinado de uma megera, ao
morrer, transmite por um instante aos demais a enganosa imagem
que dela formara "Reminisção"). A idéia da
existência, longe, de um desconhecido benfazejo ajuda um
desamparado a safar-se de suas crises ("Rebimba o
bom"). Um rapaz ribeirinho consome-se de saudades pela outra
margem do rio, até descobrir o mesmo mistério na moça que o
ama ("Ripuaria"). Alguém ("João Porém, o
criador de perus") cria amor e mantém-se fiel a uma donzela
inventada por trocistas. Num terceiro grupo de estórias por
trás do enredo se delineia outra que poderia ter havido, a
alternativa mais trágica a disponibilidade do destino. O povo de
um lugarejo livra-se astutamente de um forasteiro doente em quem
se descobre perigoso cangaceiro ("Barra de Vaca"). Um
caçador vindo da cidade com intuito de pesquisas escapa com
solércia há armadilhas que lhe prepara a má vontade do
hospedeiro bronco ("Como ataca a sucuri"). Enganado
duas vezes, um apaixonado prefere perdoar à amada e, para depois
viverem felizes, reabilita a fugitiva com paciente labor junto
aos vizinhos ("Desenredo"). Noutros contos o desenlace
não e um "desenredo", mas uma solução totalmente
inesperada. Atos e gestos produzem resultados incalculáveis num
mundo que escapa às leis da causalidade: daí a multidão de
milagres esperando a sua vez em cada conto. Por entender de
través uma frase de sermão, um lavrador ("Grande
Gedeão") pára de trabalhar; e melhora de sorte. Um noivo
amoroso que sonhava com um lar bonito e abandonado pela noiva;
mas o sonho transmitiu-se ao pedreiro ("Curtamão") e
nasce uma escola. Para que a vocação de barqueiro desperte num
camponês é preciso que uma enchente lhe desbarate a vida
("Azo de almirante"). Nessa ordem de eventos, uma
personagem folclórica ("Melim-Meloso"), cuja força
consiste em desviar adversidades extraindo efeitos bons de causas
ruins, apoderou-se da imaginação do escritor a tal ponto que
ele promete contar mais tarde as aventuras desse novo Malasarte.
Infelizmente não mais veremos essa continuação que, a julgar
pelo começo, ia desabrochar numa esplêndida fábula; nem a
grande epopéia cigana de que neste livro afloram três leves
amostras ("Faraó e a Água do rio", "O outro ou o
outro", "Zingaresca"), provas da atracão especial
que exercia sobre o erudito e o poeta esse povo de irracionais,
ébrios de aventura e de cor, refratários é integração
social, artistas da palavra e do gesto. Muito tempo depois de
lidas, essas histórias, e outras que não pude citar, germinam
dentro da memória, amadurecem e frutificam, confirmando a
vitória do romancista dentro de um gênero menor. Cada qual
descobrira dentro das quarenta estórias a sua, a que mais lhe
desencadeia a imaginação. Seja-me permitido citar as duas que
mais me subjugaram pela sua condensação, dos romances em
embrião que fazem descortinar os horizontes mais amplos.
"Antiperipléia" e o relatório feito em termos
ambíguos por um aleijado, ex-guia de cego, do acidente em que
seu chefe e protegido perdeu a vida. Confidente, alcoviteiro e
rival do morto, o narrador ressuscita-o aos olhos dos ouvintes
enquanto tenta fazê-los partilhar seus sentimentos alternados de
ciúme, compaixão e ódio; "Esses Lopes" é a
história, também contada pela protagonista, de um clã de
brutamontes violentos que perecem um após outro, vítimas da
mocinha indefesa a quem julgavam reduzir a amante e escrava. Duas
obras-primas em poucas páginas que bastavam para assegurar a seu
autor uma posição excepcional.