Últimos
Sonetos - Cruz e Souza
São poemas de Últimos Sonetos: Piedade, Caminho da
Glória, Presa do Ódio, Alucinação, Vida Obscura,
Conciliação, Glória, A Perfeição, Madona da Tristeza, De
Alma em Alma, Ironia de Lágrimas, O Grande Momento, Prodígio,
Cogitação, Grandeza Oculta, Voz Fugitiva, Quando Será?,
Imortal Atitude, Livre!, Cárcere das Almas, Supremo Verbo, Vão
Arrebatamento, Benditas Cadeias!, Único Remédio, Floresce!,
Deus do Mal, A Harpa, Almas Indecisas, Celeste Abrigo, Mudez
Perversa, Coração Confiante, Espírito Imortal, Crê!, Alma
Fatigada, Flor Nirvanizada , Feliz, Cruzada Nova, O Soneto, Fogo-
Fátuo, Mundo Inacessível, Consolo Amargo, Vinho Negro, Eternos
Atalaias, Perante a Morte, O Assinalado, Acima de Tudo, Imortal
Falerno , Luz da Natureza, Asas Abertas, Velha Eternidade
Retrospectiva, Alma Máter , O Coração, Invulnerável, Lírio
Lutuoso, A Grande Sede, Domus Aurea, Um Ser, O Grande Sonho,
Condenação Fatal, Alma Ferida, Alma Solitária, Visionários,
Demônios, Ódio Sagrado, Exortação, Bondade, Na Luz, Cavador
do Infinito, Santos Óleos, Sorriso Interior, Mealheiro de Almas,
Espasmos, Evocação, No Seio da Terra, Anima Mea, Sempre o
Sonho, Aspiração Suprema, Inefável, Ser dos Seres, Sexta-
Feira Santa, Sentimento Esquisito, Clamor Supremo, Ansiedade,
Grande Amor, Silêncios, A Morte, Só!, Fruto Envelhecido,
Êxtase Búdico, Triunfo Supremo, Assim Seja, Renascimento.
Resumo Maturidade Segundo o professor Lauro Junkes , em o Mito e
o Rito, Últimos Sonetos é o livro da maturidade, a
quintessência depurada da estética cruzesouseana. Mais do que
nos livros anteriores, aqui a linguagem é sempre culta e nobre,
esmerada na construção frasal e na seleção vocabular. A
estrutura dos sonetos decassílabos é perfeita. Últimos Sonetos
é o livro em que expressa a própria condição existencial do
poeta cujos apelos da explosiva carnalidade luxuriosa amenizaram
quase que de todo. Os dilaceramentos dramáticos de sua angústia
trágica arrefeceram suas erupções revoltosas. E revela-se um
poeta essencialmente interiorizado. Constata-se, agora , até uma
certa harmonia, um relativo equilíbrio ante o sofrimento,
sublimado, dentro duma perspectiva transcendente. A tônica está
sempre voltada para a vida interior, a alma, o sentimento, o
destino além- matéria. Persiste ainda a consciência da
trágica condição humana (Vida Obscura). A revolta interior
não logrou ser totalmente dominada, manifestando-se nos
sentimentos de ódio (Presa de Ódio ou Ódio Sagrado). Por isso,
impõe-se ainda, irresistível, o apelo tão freqüente do sonho,
com toda sua carga de ilusoriedade, de evasão, de compensação
(O Grande Sonho ou Sempre o Sonho), ou então impõe-se a
inclinação e inebriante atração pelo vinho, a "sede de
falerno" (Vinho Negro e Imortal Falerno). Vida Obscura
Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro, Ó ser humilde entre os
humildes seres. Embriagado, tonto dos prazeres, O mundo para ti
foi negro e duro. Atravessaste no silêncio escuro A vida presa a
trágicos deveres E chegaste ao saber de altos saberes
Tornando-se mais simples e mais puro. Ninguém te viu o
sentimento inquieto, Magoado, oculto e aterrador, secreto. Que o
coração te apunhalou no mundo. Mas eu, que sempre te segui os
passos, Sei que cruz infernal prendeu-te os braços E o teu
suspiro como foi profundo! Transcendência Entretanto, acima de
todos os outros sentimentos carnais, sensoriais e mundanos,
impõe-se "a grande sede" do Amor Infinito, a
"aspiração suprema", a "ansiedade" do
Cavador do Infinito, que espera O Grande Momento em que,
"longe de tudo" e liberto do Cárcere das Almas, o
espírito esteja "livre" e possa, "para
sempre", realizar seu Triunfo Supremo. Profundamente
desiludido deste mundo material e concreto, inclina-se o poeta,
irresistivelmente, para um universo superior, transcendente,
vagamente místico e espiritual. Cárcere das Almas Ah! Toda a
alma num cárcere anda presa, Soluçando nas trevas, entre as
grades Do calabouço olhando imensidades, Mares, estrelas,
tardes, natureza. Tudo se veste de uma igual grandeza Quando a
alma entre grilhões as liberdades Sonha e sonhando, as
imortalidades Rasga no etéreo Espaço da Pureza. Ó almas
presas, mudas e fechadas Nas prisões colossais e abandonadas, Da
Dor no calabouço atroz, funéreo! Nesses silêncios solitários,
graves, Que chaveiro do Céu possui as chaves Para abrir-vos as
portas do Mistério? A alma - e talvez seja preciso reafirmar
explicitamente que a alma é o cerne, a realidade quase única, a
obsessão de Últimos Sonetos, referindo-se praticamente todos os
sonetos a essa essência espiritual, razão de ser superior do
homem, único valor nobre, sublime e transcendente do ser humano,
preocupação última que deve angustiar a existência humana - a
alma, que é espiritual, tende constantemente a purificar-se, a
libertar-se da "vã matéria". Exilada no mundo, presa
ao "cárcere" que é a materialidade. Antologia Texto I
Madona da Tristeza Quando te escuto e te olho reverente E sinto a
tua graça triste e bela De ave medrosa, tímida, singela, Fico a
cismar entermecidamente. Tua voz, teu olhar, teu ar dolente Toda
a delicadeza ideal revela E de sonhos e lágrimas estrela O meu
ser comovido e penitente. Com que mágoa te adoro e te contemplo,
Ó da Piedade soberano exemplo, Flor divina e secreta da Beleza.
Os meus soluços enchem os espaços Quando te aperto nos
estreitos braços, Solitária madona da tristeza! Este soneto
também foi inspirado pela esposa do poeta Texto II De Alma em
Alma Tu andas de alma em alma errando, errando, Como de
santuário em santuário. És o secreto e místico templário As
almas, em silêncio, contemplando. Não sei que de harpas há em
ti vibrando, Que sons de peregrino estradivário Que lembras
reverências de sacrário E de vozes celestes murmurando. Mas sei
que de alma em alma andas perdido Atrás de um belo mundo
indefinido De silêncio, de Amor, de Maravilha. Vai! Sonhador das
nobres reverências! A alma da Fé tem dessas florescências ,
Mesmo da Morte ressuscitou e brilha! Texto III O Grande Momento
Inicia-te, enfim, Alma imprevista, Entra no seio dos Iniciados.
Esperam-te de luz maravilhados Os Dons que vão te consagrar
Artista. Toda uma Esfera te deslumbra a vista, Os ativos sentidos
requintados. Céus mais céus e céus transfigurados Abrem-te as
portas da imortal Conquista. Eis o grande Momento prodigioso Para
entrares sereno e majestoso Num mundo estranho d´esplendor
sidéreo. Borboletas de sol, surge da lesma... Oh! Vai, entra na
posse de ti mesma, Quebra os selos augustos do Mistério! Texto
IV Deus do Mal Espírito do Mal, ó deus perverso Que tantas
almas dúbias acalentas, Veneno tentador na luz disperso Que a
própria luz e a própria sombra tentas. Símbolo atroz das
culpas do Universo, Espelho fiel das convulsões violentas Do
gasto coração no lodo imerso Das tormentas vulcânicas,
sangrentas. Toda a tua sinistra trajetória Tem um brilho de
lágrima ilusório, As melodias mórbidas do Inferno... És Mal,
mas sendo Mal és soluçante , Sem a graça divina e consolante ,
Réprobo estranho do Perdão eterno! Texto V Almas Indecisas
Almas ansiosas, trêmulas, inquietas, Fugitivas abelhas delicadas
Das colméias de luz das alvoradas, Almas de melancólicos
poetas. Que dor fatal e que emoções secretas Vos tornam sempre
assim desconsoladas, Na pungência de todas as espadas, Na
dolência de todos os ascetas?! Nessa esfera em que andas, sempre
indecisa, Que tormento cruel vos nirvaniza , Que agonias
titânicas são essas?! Por que não vindes, Almas imprevistas
Para a missão das límpidas Conquistas E das augustas, imortais
Promessas?! Texto VI O Soneto Nas formas voluptuosas o Soneto Tem
fascinante, cálida fragrância E as leves, langues curvas de
elegância De extravagante e mórbido esqueleto. A graça nobre e
grave do quarteto Recebe a original intolerância. Toda a sutil,
secreta extravagância Que transborda terceto por terceto... E
como um singular polichinelo Ondula, ondeia, curioso e belo, O
Soneto, nas formas caprichosas. As rimas dão-lhe a púrpura
vetusta E na mais rara procissão augusta Surge o Sonho das almas
dolorosas ... Texto que revela a também maturidade artística do
poeta; consciência do fazer artístico. Texto VII Demônios A
língua vil, ignívoma , purpúrea Dos pecados mortais bava e
braveja, Com os seres impoluídos mercadeja, Mordendo os fundo
injúria por injúria. É um grito infernal de atroz luxúria,
Dor de danados, dor do Caos que almeja A toda alma serena que
viceja, Só fúria, fúria, fúria, fúria, fúria! São pecados
mortais feitos hirsutos Demônios maus que os venenosos frutos
Morderam com volúpia de quem ama... Vermes da Inveja, a lesma
verde e oleosa, Anões da Dor torcida e cancerona, Abortos de
almas a sangrar na lama! Texto VIII Assim Seja Fecha os olhos e
morre calmamente! Morre sereno do Dever cumprido! Nem o mais
leve, nem um só gemido Traia, sequer, o teu Sentir latente.
Morre com a alma leal, clarividente, Da crença errando no Vergel
florido E o Pensamento pelos céus, brandido Como um gládio
soberbo e refulgente. Vai abrindo sacrário por sacrário Do teu
Sonho no templo imaginário, Na hora glacial da negra Morte
imensa... Morre com o teu Dever! Na lata confiança De quem
triunfou e sabe que descansa Desdenhando de toda a Recompensa!
São numerosíssimos os que hoje têm de cor este soneto, de
irresistível sentimento de beleza.