A DOMINAÇÃO DO OUTRO SOBRE O OUTRO
TESES DE
PIERRE BOURDIEU
I – INTRODUÇÃO
Pierre Bourdieu, Sociólogo francês nascido no
ano de 1930, na vila de Denguin, Distrito de Pyrénees,
falecido em janeiro de 2002, em Paris, catedrático de
sociologia no Colège de France, exerceu grande influência no
ramo da sociologia em todo o mundo. Conhecido pelo seu rigor
intelectual, destacou em seus estudos as relações sociais e
as diversas formas de dominação existente nelas.
II –
DESENVOLVIMENTO
Segundo
Pierre Bourdieu, os atores sociais interagem por meio de
jogos, sem normas explícitas, nos quais as pessoas fazem
suas escolhas de vida influenciadas pelo seu habitus,
ou seja, no caminho percorrido para o alcance de seus
objetivos o indivíduo é dominado pela situação econômica,
política, cultural e social onde atua. Nem sempre a escolha
é a mais adequada do ponto de vista individual, porém, se
analisada no âmbito do seguimento social de onde se origina,
essa lhe trará maior proveito dentro do grupo.
Sob a égide
dessas idéias, Bourdieu, apresenta uma de suas teses qual
seja, a do poder simbólico, uma vez que, aparentemente o
ator social pode escolher livremente a ação a ser tomada,
porém, ele tende a optar por aquilo que será mais apreciado
do ponto de vista do contexto onde se situa o processo de
sua existência.
Ainda,
acerca da formação da identidade individual, o sociólogo
demonstra que origina do habitus os elementos para a
formação do capital cultural, capital social, capital
econômico e que, também, daí se surgem as desigualdades para
o desenvolvimento do indivíduo, uma vez que as oportunidades
oferecidas nesses campos não são igualitárias, obrigando os
atores sociais a utilizarem diferentes estratégias na
condução de seu “jogo”.
Para Bourdieu, o sistema
educacional contribui para a existência das desigualdades
quando, no processo de seleção escolar, marginaliza aqueles
pertencentes as classes populares e, ainda, reforça as
desigualdades entre os gêneros quando conduz as ações e os
comportamentos mais adequados ao ser feminino e o ser
masculino.
Pierre Bourdieu trata
especificamente da dominação do masculino sobre o feminino
em sua obra “A dominação Masculina” (1998), onde demonstra
que o fato está presente no processo evolutivo histórico do
ser humano. Para o autor, a dominação do homem sobre a
mulher é exercida por meio de uma violência simbólica,
compartilhada inconscientemente entre dominador e dominado,
determinado pelos esquemas práticos do habitus,
conforme explicitado no trecho transcrito a seguir:
[...] O
efeito da dominação simbólica (seja ela de etnia, de gênero,
de cultura, de língua etc) se exerce não na lógica pura das
consciências cognoscentes, mas através dos esquemas de
percepção, de avaliação e de ação que são constitutivos dos
‘habitus’ e que fundamentam, aquém das decisões da
consciência e dos controles da vontade, uma relação de
conhecimento profundamente obscura a ela mesma. Assim a
lógica paradoxal da dominação masculina e da submissão
feminina, que se pode dizer ser, ao mesmo tempo e sem
contradição, espontânea e extorquida, só pode ser
compreendida se nos mantivermos atentos aos efeitos
duradouros que a ordem social exerce sobre as mulheres (e os
homens), ou seja, às disposições espontaneamente
harmonizadas com esta ordem que as impõem. [...] (Bourdieu,
2002, p. 49/50).
Ainda no
contexto da obra “A dominação Masculina” Bourdieu, discorre
sobre a utilização das trocas simbólicas nas relações:
[...] É na
lógica da economia das trocas simbólicas – e, mais,
precisamente, na construção social das relações de
parentesco e do casamento, em que se determina às mulheres
seu estatuto social de objetos de troca, definidos segundo
os interesses masculinos, e destinados assim a contribuir
para a reprodução do capital simbólico dos homens -, que
reside a explicação do primado concedido à masculinidade nas
taxinomias culturais. O tabu do incesto, em que Lévi-Strauss
vê o ato fundador da sociedade, na medida em que implica o
imperativo de troca compreendido como igual comunicação
entre os homens, é correlativo da instituição da violência
pela qual as mulheres são negadas como sujeitos da troca e
da aliança que se instauram através delas, mas reduzindo-as
à condição de objetos, ou melhor, de instrumentos simbólicos
da política masculina: destinadas a circular como signos
fiduciários e a instituir assim relações entre os homens,
elas ficam reduzidas à condição de instrumentos de produção
ou de reprodução do capital simbólico e social. [...]
Pierre Bourdieu descreve a violência simbólica como um ato
sutil, que oculta relações de poder que alcançam não apenas
as relações entre os gêneros, mas, toda a estrutura social.
Nesse aspecto o autor desenvolveu, em seus mais recentes
trabalhos, análise sobre os meios de comunicação,
especialmente da televisão, falando sobre a mercantilização
generalizada da cultura e demonstrando sua responsabilidade
na perpetuação da ordem simbólica, comprovando que aqueles
que dela participam são tão manipulados quanto
manipuladores. Mostra também que a televisão exerce uma das
formas mais nocivas de violência simbólica, pois, conta com
a cumplicidade silenciosa dos que a recebem e dos que a
praticam.
Em entrevista publicada na Folha de São de Paulo de 07 de
fevereiro de 1999, Pierre Bourdieu discorre acerca das
idéias lançadas em sua obra “Sobre a Televisão” (1997):
[...] A
análise critica do papel da televisão é um elemento capital
da luta contra a imposição da visão dominante do mundo
social e do seu devir. O mais importante consiste na
influência que a televisão exerce sobre a totalidade do
jornalismo e através dele, sobre o conjunto da produção
cultural. A lógica do comércio, simbolizada pelos índices de
audiência, do sucesso comercial, da venda e do marketing,
como meio específico para atingir esses fins puramente
temporais, impôs-se em primeiro lugar ao campo filosófico,
com os “novos filósofos”, e ao campo literário com os
grandes best sellers internacionais e o que Pascale Casanova
chamou de world fiction, ou seja, em especial os romances
acadêmicos à David Lodge ou Umberto Eco; mas ela atingiu
também o campo jurídico; com os processos sensacionalistas
arbitrados pela mídia, e no próprio campo científico, com a
intrusão da notoriedade jornalística na avaliação dos
cientistas e das suas obras. [...]
III –
CONCLUSÃO
As teses desenvolvidas por Pierre Bourdieu,
remetem à reflexão sobre a ordem constituída e aceita por
todos como legítima e conclama os grupos sociais à
mobilização no sentido de buscarem o reconhecimento dos
mecanismos que levam a aceitação do domínio do outro sobre o
outro e, promover a ruptura do círculo vicioso que perpetuam
a aceitação das diferenças como algo natural, sejam elas,
sociais, econômicas, políticas ou de gêneros.
BIBLIOGRAFIA
BOURDIEU, Pierre. A dominação Masculina.
Trad. Maria Helena Kühner. Rio de Janeiro 2º ed.
Bertrand Brasil. 2002.
TEORIA E CRÍTICA DO DESIGN. [S.l. : s.n.],
2003 . Disponível em:
http://www.fmemoria.com.br>. Acesso em: 20
maio 2005.
REVISTA FAMECOS. Porto Alegre. n. 10,
jan/jun. 1999. Semestral.
A jornalista Cláudia R. do Carmo, mestranda do Programa de
Pós Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul, comenta a crítica do autor sobre o domínio
da televisão:
[...] A crítica
elementar feita à televisão, segundo Bourdieu (1197), tende
a ocultar os mecanismos anônimos, invisíveis, através dos
quais se exercem censuras de toda ordem, o que faz, da
televisão, um formidável instrumento de manutenção da ordem
simbólica. Quanto mais se avança na análise deste meio,
melhor é possível compreender, na opinião do autor, que
aqueles que dela participam são tão manipulados quanto
manipuladores. Manipulam tanto melhor, quanto mais
manipulados são eles próprios e mais inconscientes de sê-lo.
O autor propõe para a análise da televisão, que se desmonte
uma série de mecanismos que permitem que ela exerça uma
forma particularmente perniciosa de violência simbólica, ou
seja a violência que se exerce com a cumplicidade tácita dos
que a sofrem e também dos que a exercem.[...]