EDUCAÇÃO, TRABALHO E MERCADO DE TRABALHO NO BRASIL
Azuete
Fogaça; Cláudio L. Salm
No
final dos anos 1980 e início dos anos 1990, os diagnósticos da
situação brasileira face às mudanças na economia revelaram um
ponto consensual quanto à adequação dos recursos humanos às
novas exigências do mercado de trabalho: a centralidade da
educação geral nesse novo cenário econômico que se
descortinava, seja em função da maior competitividade
requerida pela abertura da economia, seja pela difusão das
novas formas de produzir (chamada de Terceira Revolução
Industrial). Destacava-se, à época, a ineficácia das políticas
educacionais adotadas até então: os indicadores educacionais
dos anos 1970 e 1980 explicitavam a escassez de vagas nas
séries iniciais do ensino fundamental, as altas taxas de
evasão e repetência nesse nível de ensino, o reduzido
contingente de jovens que chegavam ao ensino médio (que também
apresentava taxas significativas de evasão e repetência), além
do fato de apenas 10% dos concluintes desse nível terem acesso
ao ensino superior. Paralelamente a uma reforma da educação
geral, recomendava-se a revisão das estratégias tradicionais
de qualificação profissional, apoiadas nos baixos níveis de
escolaridade da maioria dos jovens e adultos, e dedicadas a
ocupações que tendiam a se tornar obsoletas.
Pois bem, o que se pode observar hoje, após
três mandatos presidenciais, é que o consenso então produzido
não se traduziu em real diretriz das ações voltadas,
supostamente, para a adequação da formação do trabalhador
brasileiro aos moldes trazidos pelos novos paradigmas.
No âmbito da educação profissional, fez-se uma
reforma do ensino técnico público que, em nome da
democratização do acesso, apenas fragilizou uma estrutura até
então reconhecida pela sua qualidade. Já os programas
governamentais criados para garantir a elevação da
escolaridade de cerca de 46 milhões de trabalhadores e
melhoria das condições de inserção no mercado de trabalho para
os segmentos mais frágeis (1), se caracterizaram por dar
prioridade à realização de cursos de curta duração (40 horas)
em qualificações já reconhecidamente marcadas pelo risco de
desemprego. Tanto é assim, que as avaliações apontaram que
apenas 5% dos egressos desses cursos conseguiram se empregar a
partir das qualificações recebidas.
A diferença de
escolaridade não é suficiente para explicar a diferença de
rendimentos.
Na área da educação geral, promulgou-se uma
nova legislação (a Lei de Diretrizes e Bases – LDB 9394/96)
que inclui na sua exposição de motivos e nos seus objetivos
gerais a preocupação com a adequação do sistema educacional
aos novos requisitos de escolaridade e formação
técnico-científica. Dez anos depois, as estatísticas
educacionais apontam para um aumento expressivo na matrícula e
nas taxas de conclusão do ensino fundamental o que,
inevitavelmente, contribuiu para a expansão da matrícula e das
conclusões do ensino médio. Entretanto, os resultados das
avaliações sistêmicas (2) indicam, desde 1998, uma tendência
de queda da qualidade do ensino público, que hoje se expressa,
principalmente, no fato de que 50% dos alunos da 4ª série do
ensino fundamental não sabem ler e, dentre os que lêem, a
maioria não compreende aquilo que lê. No ensino médio, os
desempenhos são baixíssimos, particularmente nas chamadas
disciplinas técnico-científicas, como matemática, física,
química e biologia (3). Assim, elevou-se a escolaridade formal
da população em idade escolar, mas a sólida base de educação
geral que se esperava não se realizou.
Registre-se que o ensino superior público vem
passando ao largo das questões relativas tanto aos novos
perfis ocupacionais demandados, como das novas ocupações
produzidas pelas inovações tecnológicas. Entendendo que se
preocupar com tais questões significa aderir aos "interesses
do capital", a rede de universidades públicas mantém seus
cursos tradicionais, o que, associado às limitações impostas
pela escassez de recursos, apresenta problemas tanto no que se
refere à ampliação da oferta de vagas quanto para a manutenção
de seus níveis de qualidade. Esses fatos contribuem para que a
participação das instituições privadas no total de matrículas
do ensino superior gire hoje em torno de 70%, impulsionada
tanto pelos programas de financiamento e de concessão de
bolsas de estudo, como pela explosão da oferta de cursos de
graduação tecnológica, com a duração de dois anos e meio, e
que, em princípio, responderiam com maior efetividade às novas
demandas ocupacionais. Essa modalidade de formação
universitária, que vem sendo rejeitada pelas instituições
públicas, atrai grande parcela dos jovens de baixa renda que
buscam tanto uma qualificação de nível superior mais rápida do
que a dos cursos tradicionais, quanto maiores chances de
obtenção de emprego e/ou melhoria salarial. Entretanto, os
poucos dados disponíveis não permitem que se faça uma análise
conseqüente de seus resultados, principalmente quanto à sua
aceitação pelo mercado de trabalho. De todo modo, a questão da
qualidade da formação recebida é crucial: as avaliações de
cursos superiores realizadas pelo MEC (4) apontam que a
maioria das universidades privadas oferece cursos de qualidade
discutível; entretanto, embora ainda se situem num patamar
superior, e salvo algumas ilhas de excelência, as instituições
públicas também vêm perdendo qualidade. Assim, se é verdade
que temos um aumento do contingente de profissionais de nível
universitário, também é verdade que há que se questionar se a
formação recebida de fato corresponde às necessidades dos
concluintes e às demandas do mercado, o que pode, inclusive
explicar, ainda que parcialmente, o fenômeno do desemprego dos
jovens profissionais de nível superior.
Se no campo educacional os resultados estão
bastante distantes do que se pretendia, o campo econômico,
apesar de inegáveis avanços como a estabilização, a
modernização tecnológica das empresas e o salto nas
exportações, também apresentou frustrações sendo, talvez, a
maior delas as baixíssimas taxas médias de crescimento que
caracterizam nossa economia há mais de duas décadas, com
sérios reflexos na geração de empregos.
Sabemos que a expansão do sistema educacional
se dá com grande autonomia face ao desempenho econômico do
país, e que aquela expansão ocorre agora de forma mais
acelerada nos níveis mais elevados do sistema. Equivale a
dizer que, na ausência de um crescimento econômico mais
vigoroso, capaz de gerar postos de trabalho em quantidade – e
de qualidade – compatível com a expansão das matrículas,
corremos o risco de enfrentar sérios problemas de desemprego
de mão-de-obra qualificada, o que representa um enorme
desperdício de recursos públicos e privados.
De fato, são raras as atividades no Brasil em
que a mão-de-obra qualificada constitui um gargalo impeditivo.
Tais atividades podem ser encontradas no campo da pesquisa
avançada, por exemplo, mas não é um obstáculo de difícil
transposição nos setores econômicos em geral. Não porque o
país já disponha de mão-de-obra qualificada em abundância,
como já demonstramos, mas porque a demanda por ela é medíocre
face à semi-estagnação em que estamos mergulhados.
Acreditamos, inclusive, que ninguém taxaria de "economicistas"
aqueles que atribuem ao nosso baixo crescimento econômico
alguma responsabilidade no descaso com que tratamos nosso
sistema educacional.
Ademais, ocorre que, na verdade, a questão
educacional não mobiliza a sociedade brasileira. Nossa
tradição é de uso da educação escolar como fator de
diferenciação entre os segmentos sociais, de legitimação das
hierarquias sociais e, com isso, de manutenção das
desigualdades. Ou seja, ainda somos dominados pelo
credencialismo. E isto pode ser analisado sob três aspectos: o
primeiro, mais geral, é que (i) apesar dos avanços
democráticos obtidos, e eles de fato existem, nossa sociedade
ainda está calcada na idéia de que todos somos iguais mas uns
são mais iguais do que os outros, ou de que existem
brasileiros que "naturalmente" merecem ter todas as
oportunidades, e outros que "naturalmente" não merecem. Daí
decorre a banalização da pobreza, da situação de miséria em
que vive boa parte dos brasileiros. O segundo aspecto diz
respeito ao empresariado e às hierarquias empresariais, nas
quais, no Brasil, (ii) ainda não se admite a idéia de que as
inovações podem surgir no chão-de-fábrica, isto é, de que o
trabalhador pode fazer e pode pensar. Daí se explica o
comportamento da maioria das empresas, que modernizam seus
processos mais através da importação de equipamentos, mas
pouco investem na maior participação dos trabalhadores, na
democratização das relações de trabalho; não transformam os
maiores ganhos de produtividade em melhores salários. E muitos
empresários ainda consideram que a escolarização do
trabalhador é dispensável, quando não um desperdício. O
terceiro aspecto diz respeito ao predomínio, ainda, na esfera
política, (iii) do uso da educação como moeda eleitoreira e,
por conseqüência, a transformação das desigualdades sociais em
bases para o exercício de um populismo nefasto. Daí se explica
a inércia dos poderes públicos diante do fraquíssimo
desempenho do sistema educacional e das evidências de que
grande parte dos problemas sociais que temos está associada à
baixa escolaridade.
O que se constata é que a concepção de
desenvolvimento, ou melhor, de superação do
subdesenvolvimento, no qual todos os segmentos sociais são
beneficiados e aqueles que estão na base da pirâmide social
avançam mais rapidamente pela inclusão na produção, atingindo
assim patamares que permitem condições dignas de vida, é uma
idéia que ainda não vingou entre nós. Apontar a educação como
uma ferramenta importante para esse desenvolvimento com
justiça social, soa bem no discurso, mas não transforma a
prática, porque, na verdade, a pobreza é funcional aos que
colhem os melhores frutos desse nosso modelo de sociedade.
Neste contexto, o panorama geral da educação
brasileira nos autoriza a crer que ainda conviveremos por
muito tempo com estratégias econômicas que não correspondem à
efetiva superação do subdesenvolvimento e que manterão boa
parte dos brasileiros à margem dos ganhos obtidos, mesmo se,
eventualmente, lograrmos uma taxa de crescimento mais elevada.