Racismo
Ao longo da história, a crença na existência de
raças superiores e inferiores -- racismo -- foi utilizada para
justificar a escravidão ou o domínio de determinados povos por
outros.
Racismo é a convicção de que existe uma relação
entre as características físicas hereditárias, como a cor da
pele, e determinados traços de caráter e inteligência ou
manifestações culturais. A base, mal definida, do racismo é o
conceito de raça pura aplicada aos homens, sendo praticamente
impossível descobrir-lhe um objeto bem delimitado. Não se
trata de uma teoria científica, mas de um conjunto de
opiniões, além de tudo pouco coerentes, cuja principal função
é alcançar a valorização, generalizada e definida, de
diferenças biológicas entre os homens, reais ou imaginárias.
O racismo subentende ou afirma claramente que
existem raças puras, que estas são superiores às demais e que
tal superioridade autoriza uma hegemonia política e histórica,
pontos de vista contra os quais se levantam objeções
consideráveis. Em primeiro lugar, quase todos os grupos
humanos atuais são produto de mestiçagens. A constante
evolução da espécie humana e o caráter sempre provisório de
tais grupos tornam ilusória qualquer definição fundada em
dados étnicos estáveis. Quando se aplica ao homem o conceito
de pureza biológica, confunde-se quase sempre grupo biológico
com grupo lingüístico ou nacional.
O fenômeno, cujas origens são complexas, ocorre
com maior ou menor intensidade em todas as etnias e em todos
os países e suas origens são muito complexas. Quando o Japão,
por exemplo, conseguiu, na primeira metade do século XX, um
desenvolvimento econômico comparável ao da Europa, surgiu no
seio do povo japonês uma ideologia racista muito semelhante à
que justificava o colonialismo europeu.
Um primeiro estágio de racismo confunde-se com
a xenofobia: determinado grupo social hostiliza um estranho
por considerar nefasto todo contato fora do grupo social, o
qual tira sua força da homogeneidade e da aceitação entre seus
membros das mesmas regras e princípios, recusados ou
desconhecidos pelo elemento exógeno. Em outro nível, tal
repúdio é justificado pela diferença física, que se torna o
suporte do componente racista.
Racismo nas sociedades modernas. A história da
humanidade refere-se, desde os tempos mais antigos, a
relações, decorrentes das migrações, entre povos racialmente
distintos. No entanto, antes da época de expansão das nações
européias, as relações raciais não apresentavam a feição que
mais tarde as caracterizaria.
Entre egípcios, gregos e romanos, as relações
eram de vencedor e cativo, e vigoravam indiferentemente, mesmo
com povos a eles semelhantes. Durante toda a Idade Média, a
base do antagonismo entre povos era, sobretudo, de índole
religiosa. Graças à grande força política da igreja,
justificava-se a conquista e submissão de povos para
incorporá-los à cristandade. Ainda quando dos primeiros
contatos entre portugueses e africanos, não havia nenhum
atrito de ordem racial.
Quando, a partir do Renascimento, o progresso
técnico permitiu à Europa dominar o mundo, surgiram diversas
ideologias que pretenderam explicar e justificar a dominação
dos demais continentes pelos países europeus, alegando existir
na Europa uma raça superior, destinada por Deus ou pela
história a dominar as raças não-européias, consideradas
inferiores. A expansão espanhola na América buscou sustentação
ideológica em crenças tais como as de que os ameríndios não
eram verdadeiros seres humanos, o que justificaria sua
exploração.
O moderno racismo europeu encontrou fundamento
teórico na obra do conde de Gobineau, Essai sur l'inégalité
des races humaines (Ensaio sobre a desigualdade das raças
humanas) publicada em meados do século XIX. Nela, o autor
francês sustentou que a civilização européia fora criação da
raça ariana, uma minoria seleta da qual descendiam as
aristocracias de toda a Europa e cujos integrantes eram os
senhores "naturais" do resto da população. Outro paladino do
racismo foi Houston Stewart Chamberlain, que, embora inglês de
nascimento, tornou-se conhecido como "antropólogo do kaiser".
Publicou na Alemanha, em 1899, Die Grundlagen des neunzehnten
Jahrhunderts (Os fundamentos do século XIX), obra em que
retomou o mito da raça ariana e identificou-a com o povo
alemão.
Outros autores, como Alfred Rosenberg, também
contribuíram para criar a ideologia racista. Esta, convertida
em programa político pelo nazismo, visava unificar os alemães,
mas como a identificação dos traços raciais específicos do
povo de senhores era impossível na prática, criou-se uma "raça
inimiga" que unisse contra ela o povo alemão. A perseguição
dos judeus ou a escravização de povos da Europa oriental em
nome da superioridade da pretendida raça ariana resultou, por
suas atrocidades, na adoção pela opinião pública mundial de
critérios opostos ao racismo, a partir do final da segunda
guerra mundial.
Os trabalhos de antropólogos e sociólogos
rejeitam globalmente as teorias racistas e a seu desprestígio
científico une-se a adoção, por todos os estados, de
princípios como os contidos na Declaração Universal dos
Direitos do Homem. Ao mesmo tempo, nos países em que
tradicionalmente se praticavam formas de discriminação racial,
os preconceitos passaram a ser suavizados e se impôs uma
igualdade de oportunidades cada vez maior. Uma exceção à
tendência geral, a partir de 1948, foi a África do Sul, onde
se exacerbou a tendência à segregação dos grupos étnicos
(apartheid) sob o domínio dos sul-africanos de origem
européia. Tal sistema político racista chegou ao fim com a
convocação das primeiras eleições para um governo multirracial
de transição, em abril de 1994.
África
do Sul: a violência do racismo
A República Sul-Africana foi a nação em que o
racismo mais teve influência na política. Sua antiga
Constituição incluía artigos de clara segregação racial e
discriminação entre os cidadãos, conhecidos como leis do
"apartheid".
O apartheid atingia a habitação, o emprego, a educação e os
serviços públicos. Foi implantado para favorecer a permanência
no poder de uma minoria branca. Mas, a partir de 1990,
Frederick de Klerk, sucessor de Pieter Botha, vendo-se acuado
pelas pressões estrangeiras, condena oficialmente o apartheid
e liberta líderes políticos, entre eles Nelson Mandela.
Shaperville, 21 de março de 1960. Vinte mil negros protestam
contra a lei que os obriga a portar cartões de identificação.
O exército atira sobre a multidão. Saldo: 67 mortos e 186
feridos. O Congresso Nacional Africano, que é o maior grupo
organizado de oposição ao apartheid, responde à brutalidade do
ataque abandonando a política de não-violência. O líder do
movimento, Nelson Mandela, viria a ser preso e sentenciado à
prisão perpétua.
A África do Sul tem uma população de cinco milhões de brancos,
29 milhões de negros, 2 milhões de mulatos e um milhão de
asiáticos. O governo é composto quase exclusivamente de
brancos.
A África do Sul é um país de grande importância estratégica
para o mundo ocidental. Ao longo de sua costa viajam quase
todos os navios que transportam petróleo para o Ocidente. A
África do Sul é rica em ouro, diamantes, carvão, ferro,
minérios, cromo e urânio, vital para a indústria militar.
Os colonizadores brancos, vindos na maioria da Holanda - mas
muitos também da França -, começaram a chegar à África do Sul
no século XVII. No final do século XVIII, explodiu a guerra
entre eles e os bantos da África Central, que já habitavam a
região. Os colonizadores ingleses só começaram a chegar em
maior número, depois de 1814. As tensões entre holandeses e
ingleses culminaram na Guerra dos Bôeres, que prolongou-se de
1888 a 1902.
Ao final da Segunda Guerra Mundial, as leis de segregação
racial na África do Sul eram semelhantes às que haviam nos
Estados Unidos. Quando o Partido Nacional subiu ao poder, em
1948, tratou de montar um aparelho de repressão mais
eficiente, com o objetivo de reforçar o apartheid. O apartheid
estabelece a existência de quatro grupos: brancos, negros,
mulatos e asiáticos. Estes grupos deveriam viver em
territórios separados, designados pelas autoridades. No ponto
mais baixo da escala social ficavam os 29 milhões de negros.
Estes trabalham nas minas, sob a autoridade de capatazes
brancos, e vivem em guetos miseráveis e superpovoados. A
minoria de cinco milhões de brancos goza de alto padrão de
vida e detém todo o poder.
1986. A comunidade internacional, condenando o apartheid,
determina várias sanções econômicas contra a África do Sul. O
regime começa a se deteriorar. Ondas de violência varrem o
país.
5 de julho de 1989. O presidente sul-africano Pieter Botha
entrevista-se com Nelson Mandela para preparar sua libertação.
Mas, foi o seu sucessor na liderança do Partido Nacional,
Frederick de Klerk, que no dia 2 de fevereiro de 1990 anuncia
no Parlamento as primeiras medidas para pôr fim ao sistema de
apartheid. Liberaliza o Congresso Nacional Africano, o
Congresso Pan-Africano e o Partido Comunista Sul-Africano.
11 de fevereiro. Nelson Mandela, líder do Congresso Nacional
Africano, preso por 28 anos, é libertado. 1991. Negociações
multirraciais são iniciadas para estabelecer as bases de um
período de transição.
O presidente De Klerk pede perdão pelo apartheid, em outubro
de 1992. Um ano depois, em outubro de 93, De Klerk e Mandela
recebem o Prêmio Nobel da Paz.
1994. É posta em vigor a nova Constituição provisória
não-racial, que outorga direito de voto à maioria negra.
27 de abril de 1994. Primeiras eleições multirraciais na
África do Sul. Nelson Mandela sai candidato pelo Congresso
Nacional Africano e se torna presidente. Um desafio para o CNA
de Mandela: fazer uma África do Sul mais humana e com melhores
condições de vida para a maioria de sua população.