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Rococó

Do início do século XVIII até meados do século XIX, transformações dinâmicas na arte europeia refletiram as turbulentas mudanças políticas e sociais, incluindo conquistas imperiais, revoluções e a emergência da era industrial moderna.

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Neste contexto histórico e social, surgiu a refinada estética decorativa do Rococó, servindo ao gosto da aristocracia, que se dedicava à busca de satisfação e divertimento antes da Revolução Francesa de 1789. O estilo prosseguiu até à chegada do Neoclassicismo, por volta de 1770, que tentava retomar os ideais artísticos da Antiguidade Clássica por meio de sua proposta estética.

O termo “rococó”, que vem das palavras francesas rocaille (pequenas pedras, seixos) e coquille (casca, “concha”, por aproximação de tradução), utilizadas no embelezamento de grutas artificiais e fontes, descreve o movimento artístico que surgiu no final do século XVII, principalmente na França, na Áustria e no sul da Alemanha, privilegiando a leveza, a elegância, a delicadeza e o charme das pomposas artes decorativas, aplicadas tanto à decoração interior quanto aos ornamentos.

O termo também se aplica a outras áreas da manifestação artística, como a escultura, a pintura, os mobiliários e os detalhes arquitetônicos, embora dificilmente a arquitetura possa ser caracterizada como tal. Muitas das suas características influenciaram posteriormente a arte de toda a Europa.

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Contexto histórico

O estilo rococó surgiu após o período barroco, durante o Iluminismo, coincidindo com o reinado de Luís XV. Despontou como reação ao gênero formal e pesado, de aspecto conservador e carregado, usado na corte de Luís XIV, no século XVII, em Versalhes.

Após a morte de Luís XIV, a corte mudou-se para Paris e efetivou-se a ascensão da classe média, que transformou a alta sociedade parisiense e tornou o Rococó o auge da moda francesa. Embora sem tradição aristocrática, os novos donos do dinheiro estavam interessados em proporcionar prestígio e proteção aos artistas e às suas obras e assumir uma posição nobiliárquica.

No Brasil, os colonizadores portugueses foram os responsáveis pelo ingresso do estilo rococó, que ficou conhecido pelo nome de “estilo Dom João V”, e estava relacionado basicamente ao mobiliário. Na França, o Rococó é também chamado de estilo Luís XV e Luís XVI. Os luxuosos móveis do estilo Luís XV são comuns até os dias de hoje.

Características

A arte do Rococó é vista tanto como clímax quanto como queda da arte barroca. Diferentemente do Barroco, entretanto, o Rococó não está preocupado com questões religiosas; é uma arte evidentemente aristocrática, voltada para a alta classe, que prezava o estilo suntuoso, como foi o Barroco, porém mais elegante, leve e intimista, com o objetivo de satisfazer uma sociedade nutrida pela liberdade, pelo prazer e pelo bom gosto, exatamente no momento em que novas ideias sobre a existência humana eram produzidas.

O Rococó desponta com o otimismo que algumas pessoas sentiam em resposta a tantas transformações econômico-sociais, manifestando uma nova forma de pensamento, na qual setores da sociedade abandonaram o formalismo de épocas anteriores e começaram a perseguir a diversão e a felicidade pessoal. Apesar de toda a influência estética barroca, a arte produzida pelo Rococó expressa uma força bastante particular, própria de seu estilo, o que lhe conferiu autonomia.

É inevitável que o novo estilo, em muitos aspectos, seja compreendido como continuidade da arte barroca, sobretudo no que se refere ao uso da luz e da sombra e à disposição dinâmica e circular da composição. O estilo caracterizou-se pelo uso de cores pastéis, pela identificação elegante e detalhada da ornamentação, que utilizava formas curvas delicadas, sem a dramaticidade barroca, graciosas e assimétricas.

Compunha cenas líricas, de espírito leve e despreocupado (tanto visual como fisicamente) e uma profusão de elementos decorativos, como conchas, laços e flores. A essência é a luz. O tema central da obra é colocado em extremo destaque pelos coloridos efeitos emocionais da luz.

Os artistas dão atenção especial para os detalhes. A forma é caracterizada pela delicadeza das cores, pelas composições dinâmicas e por seus efeitos atmosféricos. Assim, a beleza da forma é realçada.

O Rococó foi inúmeras vezes considerado uma arte frívola, de atmosfera aristocrática, alheia aos problemas sociais.

Pintura rococó

A pintura produzida pela arte rococó retrata cenas da aristocracia, geralmente passadas em jardins, parques ou luxuosos interiores, com preferência para os temas líricos, mitológicos, pastoris.

Pintura gótica.
Quadro de Jean-Antoine Watteau, O jogo do amor (1710-1720)

Esses temas são comuns, delicados e elegantes retratos femininos e também apresentam “pinturas galantes”, caracterizadas por exibir cenas campestres, ambientadas ao ar livre, em jardins, onde jovens aparecem em atitudes sensuais de “galanteio”, proporcionando à composição uma atmosfera alegre, leve e prazerosa, repleta de frescor.

A técnica do pastel é amplamente utilizada e os contrastes violentos de claro-escuro cedem vez à luminosidade das cores suaves, como rosa, azul e verde. Ouro, prata e branco dão o tom às cenas leves e repletas de energia.

Watteau, Boucher e Fragonard são considerados os três grandes nomes da pintura galante. Produziram imagens usando cores suaves, de formas delicadas e elegantes, apresentando uma ludicidade erótica, concebido como acompanhamento primorosamente sincronizado com os interiores a que se destinavam.

Contrapondo-se a isso, Greuze e Chardin realizaram o que ficou conhecido como “pintura burguesa”, que, muito popular em meados do século XVIII, era direcionada para a burguesia intelectual da revolução. Ressaltava a vida simples, a família e os valores morais da classe média. Seus temas favoritos foram os retratos, as paisagens, os bodegones (natureza morta)e as cenas costumbristas de gênero (cenas do dia a dia, costumes).

Pintura de estilo rococó.
Fragonard. O balanço (1768)

Além dos franceses, merece destaque o veneziano Gio­vanni Battista Tiepolo, um dos grandes mestres da pintura italiana, embora seja considerado representante da pintura barroca por alguns historiadores e pesquisadores de arte.

Arquitetura rococó

A arquitetura rococó refletia o novo gosto da sociedade, mais elegante, suave e leve em relação ao Barroco. Nesse momento, a tendência da decoração se adequou para os espaços confortáveis, menores e intimistas, como o interior das residências e dos hotéis, que serviam como moradia para a nobreza.

Nas construções, os aposentos têm formas retangulares, com cantos arredondados; as paredes são mais planas e suaves e não contêm mais os altos relevos barrocos. As portas de madeira ganharam pequenos e delicados entalhes, também bastante diferentes daqueles com aparência carregada usados no Barroco. Para a decoração desses interiores, usavam recursos como a douração nas portas, nas paredes e nos objetos.

Exploraram a utilização de imensos painéis decorativos, feitos em tapeçaria, que geralmente se estendiam do teto ao chão, ao lado de janelas esguias e ovaladas, rodeadas por muitos drapejados. Muito comum também era o uso de grandes espelhos, que revestiam o interior dos ambientes.

É preciso lembrar que a tônica desse estilo eram as formas tortuosas e recurvadas, em formato de “S” e “C”, além dos arabescos e floreados parecidos com laços de fitas, sempre muito delicados, vaporosos e graciosos, que obedeciam a uma tendência assimétrica. O estilo rococó também serviu de inspiração para o desenvolvimento de peças de mobiliário, com aplicação de elaborada marchetaria.

Na Alemanha meridional e na Áustria, há modelos expressivos da arquitetura rococó, como o palácio episcopal de Würzburg, na Baviera, projetado por Balthasar Neu­mann, construído entre 1719 e 1744, que tem, em sua célebre sala imperial (Kaisersaal) pinturas afresco de Tiepolo e pode ser considerado uma personificação arquitetônica do estilo.

Arquitetura rococó.
Fachada e interior do palácio episcopal de Würzburg.

Também são construções representativas da arquitetura palaciana rococó os abrigos de caça dos jardins e os pavilhões, que eram áreas destinadas ao lazer dos membros da aristocracia. Um dos mais significativos é o de Amalien­burg, em Nymphenburg, perto de Munique, na Alemanha, concebido pelo arquiteto François Cuvilliés, que foi construído entre 1734 e 1739. Também pode ser mencionado o Hotel de Soubise, em Paris.

Pela sua associação com a aristocracia francesa, a arquitetura rococó era impopular e não durou muito tempo.

Escultura rococó

Escultura rococó.
Étienne-Maurice Falconet, L’Amour menaçant, 1757, estátua de 48 cm, em mármore, exposta no Museu do Louvre, em Paris.

Uma significativa mudança é percebida a partir do momento em que as imagens se desgarram dos grandes blocos, apresentados pela escultura do período Barroco, passando, no Rococó, a retratar figuras solitárias, com preferência pelos bustos de personalidades importantes da época, como Voltaire, Rousseau e Diderot.

Há uma curiosa mescla de realidade com idealização. Os escultores do Rococó conseguiram retratar a expressão psicológica da natureza humana, sobretudo pelos efeitos de sombra que usaram para reproduzir com extraordinária beleza as pálpebras e os olhos, o que conferiu grande expressão e realismo a cada uma das obras realizadas.

Para a produção de seus trabalhos, os escultores do Rococó preferiam utilizar materiais macios, como o gesso e a argila, diferentemente dos escultores barrocos, que preferiam os grandes blocos de mármore.

Os destaques na escultura do período foram Étienne-Maurice Falconet, Augustin Pajou e os irmãos Coustou (Guillermo e Nicolás).

Por: Wilson Teixeira Moutinho

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