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Geração Espontânea

Segundo a hipótese de geração espontânea, ou abiogênese, algumas formas de vida poderiam ser originadas da matéria bruta inanimada (não viva), e a força vital, um tipo de princípio ativo, permitiria que a matéria bruta se transformasse em ser vivo. Nessa perspectiva, defendida por Aristóteles (384-322 a.C.), da carne em decomposição surgiriam, por meio da força vital, larvas de inseto.

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De forma semelhante, os girinos surgiriam em poças de água com lama, pois a lama poderia ser transformada, sob efeito da força vital, em ser vivo.

No final da Idade Média, a ideia da geração espontânea era amplamente defendida e discutida por importantes cientistas, como William Harvey (1578-1657), René Descartes (1596-1650) e Isaac Newton (1643-1727).

Descrições de experimentos dessa época já foram consideradas receitas para a geração espontânea de seres vivos, como, por exemplo, o surgimento de camundongos a partir de grãos de trigo, defendida pelo médico Jan Baptista van Helmont (1579-1644), de Bruxelas.

Helmont defendia a ideia de que, ao colocar, em um recipiente, grãos de trigo em contato com uma camisa suada, após aproximadamente 21 dias surgiriam camundongos, pois o “fermento” da camisa seria modificado pelo odor do grão, e o trigo sofreria uma “transmutação”, transformando-se em camundongos.

Segundo ele, os grãos de trigo tornavam-se ratos por causa do princípio ativo contido no suor humano. Certamente, se a “receita” de Helmont fosse submetida a uma rigorosa experimentação, como nos moldes atuais da ciência, seria possível observar que os ratos vêm de outro ambiente, atraídos pelos grãos de trigo.

Experimentos de Redi

Durante o século XVII, a ideia de geração espontânea começou a enfrentar evidências contrárias. Um caso bem conhecido foi o do médico italiano Francesco Redi (1626-1691), estudioso do ciclo de vida de moscas que surgiam de organismos vermiformes na carne em decomposição de animais mortos.

Após muita observação, Redi percebeu que esses seres se transformavam em várias espécies de moscas. Para testar a ideia de que os animais vermiformes eram oriundos dos ovos depositados pelas moscas na carne em decomposição, ele conduziu uma série de experimentos.

O mais famoso foi colocar em frascos pedaços de carne em decomposição. Alguns frascos foram deixados abertos, e outros foram fechados com gazes. Nesse experimento, Redi verificou o surgimento de larvas nos frascos abertos; nos frascos fechados, não surgiram larvas.

Experimento sobre a geração espontânea.
Experimentos de Redi mostraram que moscas surgem de larvas.

Assim, o médico mostrou que as larvas encontradas sobre a carne em putrefação e as moscas adultas se originavam de ovos colocados por outras moscas. Mesmo assim, Francesco Redi era adepto da geração espontânea. Acreditava, por exemplo, no surgimento espontâneo de vermes intestinais. Para ele, a geração não espontânea de moscas era apenas um caso específico.

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O experimento de Redi, no entanto, permitiu a outros cientistas verificarem a hipótese da biogênese, segundo a qual a vida deve surgir de outra forma de vida preexistente, e não da matéria bruta.

Experimento de Needham

Um exemplo bastante conhecido e favorável à hipótese da geração espontânea foram algumas experiências conduzidas por John Turberville Needham (1713-1781).

Ele preparou, dentro de frascos, meios de cultura contendo caldo de galinha e sucos de frutas. Esses frascos foram submetidos a fervura e, em seguida, fechados com rolhas de cortiça. Após alguns dias, os frascos estavam turvos, indicando a presença de micro-organismos.

Needham estava investigando a heterogenia, ou seja, o surgimento de um ser vivo com base na matéria de outro ser vivo. Os resultados de seus experimentos foram considerados favoráveis à hipótese da geração espontânea, pois, nessa perspectiva, o meio de

Experimento de geração espontânea.
Needham distribuiu caldo nutritivo, fervido por trinta minutos, em alguns frascos, imediatamente fechados com cortiça. Após alguns dias, micro-organismos surgiram nesses recipientes.

Experimento de Spallanzani

O italiano Lazzaro Spallanzani (1729-1799), um dos adeptos da biogênese, repetiu a experiência de Needham, mas com algumas diferenças. Foi utilizado o mesmo tipo de meio de cultura, submetido a fervura prolongada, porém os frascos foram hermeticamente fechados, ou seja, os gargalos foram derretidos e vedados, evitando o contato do meio de cultura com o ar.

Spallanzani obteve resultados diferentes dos de Needham: os frascos permaneciam límpidos, sem a indicação de contaminação por micro-organismos. Spallanzani dizia que Needham havia deixado os meios de cultura contaminados com micro-organismos, e estes dariam origem a novas populações.

Já Needham afirmava que Spallanzani, com seu procedimento de aquecer muito os frascos, tinha destruído o princípio ativo e um novo princípio ativo, presente no ar, não poderia entrar em contato com o caldo, pois os tubos estavam fechados, não sendo possível, por isso, a formação de micro-organismos.

Experimento oposto à geração espontânea.
Na montagem experimental de Spallanzani, que vedava os gargalos pelo derretimento do vidro, os micro-oganismos não surgiram.

Essa discussão estendeu-se até o século XIX, quando, por volta de 1860, os experimentos de Pasteur começaram a esclarecê-la.

Por: Wilson Teixeira Moutinho

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