Doenças

Gripe Espanhola

Há aproximadamente 100 anos, entre 1918 e 1920, foi registrada a mais grave pandemia da história da humanidade que causou milhões de mortes, especialmente entre as parcelas jovens da população.

A moléstia muito grave era capaz de progredir rapidamente para edema pulmonar e pneumonias bacterianas secundárias, enchendo os pulmões de líquidos, alterações neurológicas e levando a óbito.

Conhecida na época por gripe espanhola, o vírus causador dessa doença tão devastadora ainda é temido na atualidade: o influenza A do subtipo H1N1.

Surgimento

Apesar de ter recebido o nome de espanhola, o primeiro caso registrado da gripe foi em um jovem militar norte-americano, em março de 1918, no Texas. Essa epidemia se espalhou pelo mundo por causa das idas e vindas dos soldados, que, ao retornarem às suas cidades, infectavam mais e mais pessoas.

De abril a agosto de 1918, ocorreu a primeira onda da gripe em vários países europeus, dentre eles Grécia, Espanha, Portugal, Dinamarca, Noruega, Holanda e Suécia.

Por ser período de guerra, os líderes dos países em combate evitavam noticiar informações sobre a gripe, com receio de causar alarde entre as tropas e a população. Isso apenas agravou a situação, já que ninguém sabia o que estava acontecendo e como se proteger. A imprensa da Espanha, por estar mais neutra durante a guerra, abordou mais notícias sobre a doença, que acabou recebendo o nome do país.

Consequências da pandemia

Apesar de muito contagiosa, essa primeira onda foi considerada mais branda, por ter causado poucas mortes. Em seguida, de agosto a novembro do mesmo ano teve início a segunda onda da gripe, mais virulenta que a primeira, que causou uma mortandade em massa em diversos países, alcançando além de Europa e dos Estados Unidos, a Índia, o Sudeste Asiático, o Japão, a China, a África, as Américas Central e do Sul.

A terceira e última onda da gripe emergiu em janeiro de 1919, se estendendo em alguns lugares até 1920. Estima-se que a gripe tenha afetado cerca de 50% da população mundial, tendo matado cerca de 40 milhões de pessoas, mais do que a Primeira Guerra Mundial.

Agente causador

A nomenclatura dos subtipos virais do influenza (H1N1, por exemplo) é devido a proteínas encontradas em sua superfície, no capsídeo, chamadas hemaglutininas e neuroaminidases, que se ligam às células humanas.

Os vírus da gripe são conhecidos por sofrerem muitas mutações e recombinações. Assim, se dois vírus, por exemplo, o H5N1 e o H3N2 se encontram dentro de uma mesma célula, podem se recombinar gerando o H5N2.

Sabe-se que os vírus mais agressivos da gripe são aqueles originários das aves e que não são capazes de infectar os seres humanos diretamente. No entanto, eles contaminam os porcos, que também compartilham os vírus com os humanos. Dessa forma, os vírus de aves e de humanos podem se encontrar no interior das células de porcos e se recombinar, tornando-se contagiosos para os seres humanos.

Vírus da gripe espanhola.
O vírus influenza A H1N1 recebe esse nome devido às hemaglutininas (H) e neuroaminidases (N), que são proteínas presentes no capsídeo. A numeração é dada de acordo com o reconhecimento dessas proteínas pelos anticorpos.

A gripe espanhola no Brasil

O Brasil não ficou imune da doença, que chegou em um navio vindo de Lisboa com doentes que desembarcaram em Recife, Salvador e no Rio de Janeiro em setembro de 1918. Apesar de as autoridades brasileiras não terem dado a devida atenção às notícias europeias, rapidamente a população ficou em estado de alerta.

Por ser uma doença desconhecida, as informações que circulavam eram que as pessoas deveriam evitar aglomerações e praticar as receitas caseiras, como defumação de lavanda e alecrim para desinfetar o ar.

Entre outubro e dezembro de 1918, 65% da população brasileira adoeceu. O pânico se estabeleceu, pois em cidades como o Rio de Janeiro, famílias inteiras faleciam e os corpos eram deixados nas ruas por falta de caixões e coveiros. Só no Rio morreram 15 mil pessoas em apenas um mês.

Carlos Chagas, que havia assumido a direção do Instituto Oswaldo Cruz em 1917, liderou a campanha de combate ao agravamento da doença, criando hospitais emergenciais e postos de atendimento à população.

O vírus da gripe espanhola atualmente

O H1N1, que causou a gripe espanhola, tem algumas diferenças do que ocorre na atualidade, mas ambos podem se agravar para quadros graves de pneumonia e levar a óbito. Além disso, há 100 anos não havia antibióticos para combater a pneumonia nem vacinas para a prevenção da doença.

Devido às altas taxas de recombinações do influenza, as vacinas contra a gripe devem ser renovadas anualmente, já que são utilizadas as linhagens predominantes na população naquele ano.

Para a fabricação das vacinas, são utilizados vírus inativados e, por isso, as pessoas imunizadas não desenvolve a doença após a administração da vacina. Em 2019, o Brasil completou 20 anos de campanhas de vacinação da população contra a gripe. A participação de todos é essencial para o combate a essa doença ainda tão grave.

Por: Wilson Teixeira Moutinho

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