Filosofia

O Empirismo de John Locke

Se a filosofia moderna do século XVII foi tipicamente racionalista, principalmente em relação à questão das ideias inatas, o século XVIII teve o empirismo como alternativa à forma racionalista de conhecimento.

A filosofia empírica, isto é, a filosofia da experiência, entendia que o conhecimento humano era primeiramente vazio de saber, como uma lousa limpa. Através da experiência intermediada pelos sentidos, o homem descobre, por exemplo, que a água é diferente do álcool. A razão tem seu papel na formação do conhecimento, mas de uma forma secundária frente aos sentidos. Lembre-se de que Aristóteles já tinha formulado algo parecido.

Entre os grandes nomes do empirismo, ou “filosofia da experiência”, destaca-se o inglês John Locke (1632-1704).

LOCKE E O CONHECIMENTO

John Locke, em seu Ensaio Acerca do Entendimento, defende a impossibilidade de princípios inatos na mente. Para ele, a teoria do inatismo é insustentável por contradizer a experiência, ou seja, se houvesse ideias inatas todas as pessoas, inclusive as crianças e os idiotas gozariam delas.

Locke diz ainda que os argumentos que fundamentam a teoria do inatismo não têm valor de prova, por exemplo, o fato de haver certos princípios, tanto teóricos como práticos, universalizados não servem como prova para o inatismo porque os mesmos também só podem ser adquiridos mediante a experiência e alguns dos princípios considerados como universais não o são devido ao fato de boa parte da humanidade ignorá-los.

Locke deixa bem claro que as capacidades são inatas, mas o conhecimento é adquirido. Pelo uso da razão somos capazes de alcançar certos conhecimentos e com eles concordar, e não de descobrir. Locke diz que “…se os homens têm verdades inatas impressas originalmente, e antes do uso da razão, permanecendo delas ignorantes até atingirem o uso da razão, consiste em afirmar que os homens, ao mesmo tempo, as conhecem e não as conhecem”.

Para Locke, o conhecimento segue os seguintes passos: Os sentidos tratam com ideias particulares – a mente se familiariza – deposita na memória e dá nomes – a mente vai abstraindo, apreendendo gradualmente o uso dos nomes gerais. Ele aprofunda esta explicação mais adiante.
No segundo livro do seu Ensaio Acerca do Entendimento, Locke descreve as fases do processo cognitivo; no momento do nascimento a alma é uma tábula rasa, como uma folha de papel em branco e o conhecimento começa com a experiência sensível.

As fases do processo cognitivo seguem por quatro estágios:

  • Intuição: é o momento em que as ideias simples são recebidas. Existem dois tipos de ideias simples, as que são frutos da experiência externa e as que são fruto da experiência interna.
  • Síntese: as ideias simples formam por combinação as ideias complexas.
  • Análise: por análise, as várias ideias complexas formam as ideias abstratas. Ideia abstrata, aqui, não representa a essência das coisas porque a essência é incognoscível.
  • Comparação: diferentemente de síntese ou associação, é colocando-se uma ideia ao lado da outra e comparando-as que se formam as relações, ou seja, as ideias que exprimem relações.

Nos livros posteriores, da mesma obra, Locke afirma que o homem não pode conhecer a essência das coisas, mas só a sua existência. Através de um raciocínio baseado no nexo causal pode-se conhecer a existência do mundo e de Deus. Do mundo porque, sendo passivos em nossas sensações, temos de admitir uma realidade distinta de nós que seja causa de nossas sensações; de Deus porque partindo do estudo dos seres finitos, devemos necessariamente concluir que existe uma causa universal, infinita.

ANÁLISE CRÍTICA DO PENSAMENTO DE LOCKE

Muito brilhante a concepção que Locke nos apresenta sobre o conhecimento. Não é muito difícil de concordarmos com sua teoria.

De fato, se o conhecimento fosse inato, todos teríamos uma espécie de conhecimento padrão, e não precisaríamos frequentar escolas a fim de despertá-los em nós. É muito difícil (ou impossível?) a possibilidade de conhecer algo sem a interferência dos sentidos, pois todas as “janelas” do nosso intelecto estão abertas neles.

Apesar de centralizar o conhecimento na experiência, Locke deixa bem claro que a capacidade de conhecer é inata. Reconhecemos a experiência como uma grande fonte de conhecimentos. É difícil admitir algum conhecimento independente dos sentidos. No entanto, deve haver algum fator a priori que não provenha da experiência, mas que provenha de forma intuitiva, por exemplo, espaço e tempo.

Da mesma forma, se a experiência fosse a única possibilidade de conhecimento, todos tenderíamos a uniformidade intelectual; no entanto há, por exemplo, pessoas que por mais que se dediquem a certo ramo de atividade, não conseguem muito progresso, tendo assim que mudar de ramo. Se fosse a experiência a única fonte de conhecimentos, todos que se propusessem: à biologia desenvolveriam a biologia, à física desenvolveriam a física, mas sabemos que não é assim.

CONCLUSÃO

O pensamento de Locke sobre o conhecimento foi uma grande contribuição para filósofos posteriores que se dedicaram à mesma temática. Por mais que as conclusões que se tenham chegado até hoje tenham uma grande validade, há ainda a necessidade de continuar-se investigando com empenho e dedicação. Se o conhecimento é algo que se constrói, esta construção é infinita afinal, a razão humana é um terreno que ainda tem muito a ser explorado.

BIBLIOGRAFIA

LOCKE, John. Ensaio Acerca do Entendimento Humano. Trad. Anoar Aiex. São Paulo: Editora Abril., 1978.

Por: Antonio Clerton Cordeiro
graduando em filosofia pela Unicap – Universidade Católica de Pernambuco

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