Guerras

Guerra do Vietnã

Na Guerra do Vietnã, opuseram-se os militares do sul (capitalistas e aliados dos EUA) ao Vietnã do Norte (socialista e aliado da URSS e China) e aos vietcongues (guerrilha socialista da Frente de Libertação Nacional, que luta pela anexação do território ao Vietnã do Norte).

A Guerra do Vietnã tem grande importância, por ser um conflito armado com imensas consequências e perdas humanas e também porque, no bojo da Guerra Fria, colocou à prova a supremacia dos Estados Unidos como potência militar hegemônica, já que foi a primeira guerra na qual os estadunidenses foram vencidos.

Antecedentes da Indochina

A história do Vietnã é permeada por lutas contra intervenções estrangeiras. Os vietnamitas foram dominados pelos chineses durante vários séculos. Durante o processo de expansão imperialista dos países europeus no século XIX, a Indochina, península localizada no Sudeste Asiático e formada por Vietnã, Laos e Camboja, foi ocupada pelos franceses, interessados no controle das riquezas minerais e agrícolas da região (como arroz, chá etc.). O controle da França durou até 1940, quando o expansionismo japonês se apoderou do território.

Para combater as intervenções estrangeiras, os vietnamitas passaram a se organizar em vários partidos a partir de 1930. O líder comunista Ho Chi Minh fundou, em 1941, um movimento chamado VietMinh (Liga Revolucionária para a Independência do Vietnã), que combatia o colonialismo e pregava a independência nacional.

Com a derrota japonesa na Segunda Guerra Mundial, o VietMinh, composto por forças nacionalistas e socialistas, conseguiu libertar o norte do país, onde declarou a independência da República Democrática do Vietnã (Vietnã do Norte), de cunho socialista e com capital na cidade de Hanói. A França, porém, não aceitou a independência vietnamita e deu início à Guerra da Indochina (1946-1954).

Mapa do Vietnã.
Península da Indochina no início da Guerra do Vietnã (1964).

Embora o sul tenha sido recuperado pela França, as tropas vietnamitas impuseram pesadas derrotas aos franceses, que se viram obrigados a negociar com os adversários durante a Conferência de Genebra, em 1954. A França reconheceu a independência da Indochina e sua divisão em três países (Vietnã, Camboja e Laos).

O Vietnã, por sua vez, foi separado em duas regiões: o Vietnã do Norte (orientado pelo socialismo e liderado por Ho Chi Minh) e o Vietnã do Sul (comandado pelo imperador Bao Dai, de orientação capitalista). Além disso, estabeleceu-se a realização de um plebiscito em 1956, segundo o qual os vietnamitas realizariam eleições livres para a reunificação do país.

No entanto, com a aproximação das votações, a região mostrava-se cada vez mais favorável à vitória do Norte socialista, comandado pelo VietMinh. Temerosos, os Estados Unidos decidiram cancelar o plebiscito e apoiar um golpe de estado liderado por Ngo Dinh Diem, que instituiu um regime ditatorial no Vietnã do Sul. Tal ação deu início aos conflitos na região.

O conflito

Ho Chi Minh acreditava que o Vietnã seria unificado sob a orientação dos socialistas. Após suspenderem a realização do plebiscito, os norte-americanos passaram a apoiar Ngo Dinh Diem, no Vietnã do Sul. O presidente estadunidense Eisenhower temia que outros países asiáticos seguissem o exemplo dos norte-vietnamitas e aderissem ao socialismo.

O novo governo do Vietnã do Sul proibiu as aldeias de elegerem seus representantes e retomou terras que haviam sido distribuídas aos camponeses durante os confrontos contra os invasores franceses.

O violento regime instalado por Ngo Dinh Diem gerou reações de nacionalistas e comunistas, responsáveis por formar, em 1960, um movimento de resistência chamado Frente Nacional de Libertação (FNL), integrado por guerrilheiros conhecidos como vietcongues, que recebiam apoio do Norte e de países como China e URSS. Os soldados vietcongues iniciaram, então, uma guerra de guerrilhas contra o governo do Sul, com o objetivo de reunificar o país.

Em 1961, com as crescentes tensões entre Vietnã do Norte e Vietnã do Sul, os Estados Unidos decidiram participar diretamente do conflito, quando o então presidente John Fitzgerald Kennedy (1917-1963) enviou militares para a região, em apoio a Ngo Dinh Diem.

Em 1964, Ngo Dinh Diem foi vítima de um golpe militar que culminou com sua morte. Com a entrega do governo de Saigon para uma junta militar, o governo estadunidense decidiu enviar cada vez mais soldados para o Vietnã.

Contando com tecnologias militares avançadas, armas sofisticadas e soldados bem treinados, os Estados Unidos entraram no conflito com a certeza de que obteriam uma rápida e incontestável vitória. Contudo, os vietnamitas conheciam bem o território e as florestas onde os combates se desenrolavam, tinham experiência em táticas de guerrilha e conhecimento de utilização de camuflagens. Para evitar confrontos desnecessários, os soldados vietcongues utilizavam túneis subterrâneos, pelos quais enviavam armas, munições, alimentos, medicamentos e homens para as áreas de combate.

Túneis usados na Guerra do Vietnã.
Os vietcongues construíram um complexo sistema de túneis que lhes possibilitava transportar armamentos, socorrer feridos, estocar munições e enviar tropas para os locais de combate.

Pressionados, os norte-americanos passaram a despejar nos territórios vietnamitas bombas de napalm (cuja explosão provocava incêndios, queimaduras e asfixia) e armas químicas, como o ”agente laranja” (bombas que destruíam as folhas das plantas, auxiliando na localização dos vietcongues), massacrando também populações civis. A utilização de tais armamentos trazia como consequências a destruição do ambiente e a proliferação de doenças entre a população local.

Foto da Guerra do Vietnã.
Avião estadunidense despejando “agente laranja” em área de floresta, durante a
Guerra do Vietnã.

Buscando destruir os vietcongues e suas trilhas ocultas, os Estados Unidos chegaram a bombardear países vizinhos, como o Laos e o Camboja, acusados de abrigar soldados inimigos.

Em 1969, as tropas alinhadas ao Vietnã do Sul já contavam com um efetivo de mais de 500 mil soldados norte-americanos, os quais, apesar da superioridade bélica, não conseguiram obter vitórias decisivas contra as tropas de vietcongues.

Além disso, a imprensa mundial – em especial a norte-americana – divulgava farto material em jornais, revistas e programas televisivos sobre as barbaridades cometidas pelas tropas estadunidenses. Imagens e vídeos de vietcongues executados, crianças fugindo de bombas de napalm e soldados estadunidenses sob efeito de drogas (como a heroína) tornavam-se cada vez mais comuns durante o período da guerra.

Consequência da Guerra do Vietnã.
Kim Phuc Phan Thi correndo da explosão de uma bomba de napalm atirada sobre a província de Tay Ninh.

Muitas famílias estadunidenses, impactadas pelas imagens, passaram a questionar o conflito. Alguns pais passaram a apoiar os filhos que fugiam do recrutamento militar. Simultaneamente, milhares de jovens organizavam atos públicos de protesto, marchando pelas ruas norte-americanas distribuindo flores e entoando o slogan make love, not war (“faça amor, não faça guerra”).

Naquele momento, diversos jovens estadunidenses conquistaram voz ativa, protestando contra o american way of life (modo estadunidense de viver): abandonaram valores tradicionais, tornando-se hippies e adeptos dos movimentos de contracultura.

Tanto a opinião pública nacional quanto a internacional passaram a condenar duramente a presença dos EUA no Vietnã, especialmente porque o país jamais declarou abertamente guerra ao Vietnã. Em 1969, houve o repatriamento de soldados estadunidenses que estavam no Vietnã, enquanto a paz já era negociada em Paris. Mesmo com o início das negociações, os EUA ainda invadiram o Camboja (1970) e o Laos (1971), bombardeando arrozais e provocando violentas manifestações de repúdio.

Em 1973, foi assinado o Acordo de Paris, que estabelecia a retirada das tropas norte-americanas do Vietnã. Sem o apoio militar dos EUA, o exército sul-vietnamita não teve condições para enfrentar os vietcongues, e o exército do norte foi derrotado pelos socialistas. Estes invadiram Saigon, em 1975 (que passou a se chamar Ho Chi Minh). Foram, então, realizadas eleições gerais em 1976 e o país foi reunificado com o nome de República Socialista do Vietnã, com capital em Hanói.

Consequências da guerra

Como explicar a derrota da maior potência militar global diante de um país do chamado Terceiro Mundo? As causas são variadas: grande pressão de grupos sociais e da militância pacifista global; repulsa gerada pelas reportagens veiculadas denunciando os massacres promovidos por soldados estadunidenses; emprego de táticas de guerrilha pelos vietcongues, contra as quais as tropas dos Estados Unidos não estavam preparadas e o sentimento generalizado de que a guerra era vazia e inútil.

Os vietnamitas lutaram por décadas por sua autonomia, conseguindo expulsar japoneses, franceses e, finalmente, estadunidenses. Com o fim do conflito, alcançaram a unidade e a liberdade do Vietnã, embora o país estivesse arrasado por causa das bombas de napalm e da utilização do agente laranja. Mais de 3 milhões de pessoas ficaram desempregadas, além de cerca de 1 milhão de soldados sul-vietnamitas sem ocupação.

Pelas ruas do Vietnã, circulavam milhares de mutilados, mendigos, órfãos e prostitutas. Grande parte da população precisou lidar com a fome, pois as terras, queimadas e envenenadas, produziam quantidades reduzidas de alimento. Milhares de vietnamitas fugiram rumo a países estrangeiros. As consequências para os Estados Unidos também foram desastrosas. Os gigantescos gastos com a guerra afetaram os investimentos em saúde e educação.

Internamente, os afrodescendentes exigiam a fraternidade, a igualdade e a democracia que os estadunidenses brancos vendiam ao mundo, já que correspondiam a 10% da população e contabilizaram 20% do total de mortos em combate, o que levou diversas organizações afro-americanas a denunciar o governo por promover o que alegavam ser uma silenciosa “limpeza étnica” no país.

Os estadunidenses perderam cerca de 50 mil soldados ao longo do conflito e arcaram com um prejuízo de 200 bilhões de dólares. Estima-se que o número de vietnamitas mortos seja de até 3 milhões.

Os soldados que combateram no Vietnã, ao retornarem ao país natal, eram recebidos como assassinos – ao contrário do que ocorria com veteranos de outras guerras, em geral recebidos como heróis da nação. Viciados em drogas pesadas (como heroína) e com graves perturbações psicológicas, não recebiam apoio ou tratamento. Marginalizados, vários deles cometeram suicídio.

Os vietnamitas mostraram ao mundo que armas e tecnologias avançadas não eram suficientes para vencer uma guerra. A derrota dos EUA deixou um saldo de milhares de mortos de ambas as partes, como jovens estadunidenses, crianças, idosos e trabalhadores vietnamitas.

Atualmente, o Vietnã adota um modelo político-econômico similar ao da China, ou seja, um regime de partido único com abertura econômica, inclusive com parcerias firmadas com os Estados Unidos.

Por: Wilson Teixeira Moutinho