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Gonçalves Dias

O poeta maranhense Gonçalves Dias (1823-1864) passou boa parte de sua formação em Portugal e foi o primeiro nome de destaque na poesia romântica brasileira.

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Partilhando dos ideais nacionais dos autores da revista Niterói, Gonçalves Dias sobressai-se pela qualidade de sua obra. Nela, há poemas em que o eu lírico exprime sua subjetividade, traço do Romantismo, assim como textos indianistas, calcados em pesquisas sobre o indígena brasileiro, em conformidade com o enaltecimento dos valores nacionais da época.

Lírica amorosa

Apesar de ser constantemente reconhecido como importante nome do indianismo romântico, Gonçalves Dias produziu outros tipos de poema, como aqueles de tema amoroso, como em “Se se morre de amor!”, em que o eu lírico busca compreender a expressão do amor.

Se se morre de amor! – Não, não se morre,
Quando é fascinação que nos surpreende
De ruidoso sarau entre os festejos;
Quando luzes, calor, orquestra e flores
Assomos de prazer nos raiam n’alma,
Que embelezada e solta em tal ambiente
o que ouve, e no que vê prazer alcança!

Por meio do ritmo marcante dos versos decassílabos, o eu lírico discorre sobre o amor, diferenciando-o do sentimento passageiro que pode surgir quando o homem se interessa apenas pela aparência externa da mulher de “simpáticas feições, cintura breve,/ Graciosa postura, porte airoso”. Esse sentimento ilusório, de acordo com o eu lírico, acaba junto ao final da música da orquestra.

Retrato de Gonçalves Dias.
Gonçalves Dias

Para ele, o amor é mais do que isso, “amor é vida; é ter constantemente/ Alma, sentidos, coração – abertos/ Ao grande, ao belo”. O poeta descreve as sensações que se criam diante desse amor grandioso, capaz de causar a morte, deixando claro tratar-se de amor idealizado, em que a amada aparece colocada em um patamar superior, desejada, mas temida, como é comum no Romantismo – “Segui-la, sem poder fitar seus olhos,/ Amá-la, sem ousar dizer que amamos,/ E, temendo roçar os seus vestidos,/ Arder por afogá-la em mil abraços:/ Isso é amor, e desse amor se morre!”.

Leia agora uma parte do poema “Leito de folhas verdes”, de Gonçalves Dias.

Por que tardas, Jatir, que tanto a custo
À voz do meu amor moves teus passos?
Da noite a viração, movendo as folhas,
Já nos cimos do bosque rumoreja.

Eu sob a copa da mangueira altiva
Nosso leito gentil cobri zelosa
Com mimoso tapiz de folhas brandas,
Onde o frouxo luar brinca entre flores.

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De acordo com Antonio Candido, o poema é “tentativa de adivinhar a psicologia amorosa da mulher indígena pelo truque de […] alterar apenas o ambiente e certos detalhes de uma espera sentimental”. Conforme a indígena espera pelo amado, que nunca chega, o tempo passa, e isso é percebido pela mudança dos elementos da natureza.

Por exemplo, as folhas usadas para cobrir o leito de amor terminam espalhadas pela brisa da manhã, depois de o eu lírico feminino ser tomado pela desilusão. A flor do tamarindo que aparece recém-aberta no início do poema “jaz entreaberta” no final, ou seja, está caída, quase morrendo, conforme o tempo passa e o amado não vem. Assim, a natureza apresenta elementos que expressam psicologicamente a espera da indígena.

Além disso, como lembra Antonio Candido, verbos de movimento – como mover, correr e ir – mostram o escoar das horas e, ao mesmo tempo, o doloroso aprendizado de que o amor não se realizará.

Indianista

A parte da obra de Gonçalves Dias que possui como tema o indígena é representativa do indianismo romântico brasileiro. Nela, há a preocupação em cantar os feitos do nativo. Isso acontece por meio da idealização do indígena, que se assemelha ao homem ideal do Romantismo medievalista da Europa. Assim, em vez de ser retratado como era, o nativo tem força física inimaginável e é detentor de valores estimados pelos europeus, como nobreza de caráter e honra.

O poema “I-Juca-Pirama”, publicado em 1851, é um dos textos indianistas de Gonçalves Dias. Formado por dez cantos, com ritmo marcante que revela a maestria do autor, apresenta a narração da prisão de I-Juca-Pirama por tribos inimigas, no intuito de realizar o ritual antropofágico, ou seja, de se entregar o corpo do inimigo, depois de morto, ao banquete da tribo, acreditando-se que, com isso, sua força de guerreiro seria absorvida pela tribo.

Ao pedir clemência, pensando no pai cego e desamparado, I-Juca-Pirama é considerado covarde pela tribo e pelo pai. Mas consegue resgatar sua honra, voltando para o sacrifício e lutando contra vários inimigos.

Leia o canto IV do poema. Sua leitura em voz alta permite perceber como seu ritmo lembra o das músicas indígenas, marcadas pelas batidas de tambor. O ritmo desse poema constrói-se pela metrificação – os versos têm cinco sílabas poéticas, marcadas por duas sílabas tônicas cada.

Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi:
Sou filho das selvas,
Nas selvas cresci;
Guerreiros, descendo
Da tribo Tupi.

Da tribo pujante,
Que agora anda errante
Por fado inconstante,
Guerreiros, nasci;
Sou bravo, sou forte,
Sou filho do Norte;
Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi.

Por: Wilson Teixeira Moutinho

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