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Teoria das Ideias

Um caminho para compreender a teoria das ideias de Platão é a metáfora da segunda navegação, utilizada pelo filósofo em seu diálogo Fédon.

Nesse texto, o filósofo afirma que a primeira navegação, alusão metafórica às pesquisas pré-socráticas, é realizada à vela, isto é, os primeiros filósofos não conseguem conferir às suas investigações a direção necessária à ultrapassagem do plano sensível, ao discernimento das causas profundas da realidade e dos princípios explicativos do conjunto do real.

A segunda navegação, proposta por Platão, processa-se a remo, ou seja, exige um esforço complexo e criterioso do logos no caminho para a contemplação do ser das coisas. Essa segunda navegação possibilita a passagem do sensível ao suprassensível, das aparências que recepcionamos pelos sentidos aos seres em si, conhecidos pela inteligência.

A teoria platônica das ideias, desenvolvida com sua segunda navegação, compreende a realidade em dois planos hierarquicamente articulados, o inteligível e o físico. A esfera inteligível é a causa do mundo sensível: as diversas coisas do plano sensível existem como reprodução imperfeita dos inteligíveis, os seres plenos, as ideias.

Os seres corruptíveis, que se transformam e perecem, existem por sua participação nas ideias e possuem um grau menor de realidade, comparativamente à plenitude do plano inteligível.

Entendendo a Teoria das Ideias

Para auxiliar no entendimento da teoria de Platão, utilizaremos um exemplo: a noção de beleza, tratada pelo filósofo em muitos de seus textos.

Observamos, ao nosso redor, muitas coisas belas: pessoas, paisagens naturais, objetos fabricados pelos seres humanos. O que há em comum entre esses diferentes seres que identificamos como belos, que nos permite reconhecer a sua beleza? Todos eles manifestam a beleza porque participam da ideia do belo.

Além dos seres sensíveis, há o belo em si, que não se oferece diretamente aos nossos sentidos e do qual procede a beleza de todas as coisas. As coisas belas deixam de sê-lo nas transformações do devir: uma escultura se deforma com o passar do tempo, a vegetação florida desaparece sob o fluxo das estações climáticas, um ser humano bonito tende ao perecimento.

Assim acontece porque os seres do devir constituem um nível inferior de realidade ou, no exemplo em questão, porque participam imperfeitamente da ideia de beleza, mas não são o belo em si.

O belo em si jamais se transforma, situa-se originariamente além das transformações do vir a ser; ele é pleno de realidade e pode ser conhecido somente pela razão, quer dizer, não se apreende pelos sentidos. A ideia do belo é, então, o princípio explicativo da beleza que encontramos na diversidade de coisas do mundo.

Teoria das Ideias
De acordo com a teoria das ideias de Platão, a realidade sensível existe por sua participação nas ideias. A beleza de uma paisagem, por exemplo, procede do belo em si.

A Ideia para Platão

O que significa, então, o termo ideia, no vocabulário filosófico de Platão? Convém sublinhar que a ideia, conforme a concepção filosófica platônica, é algo profundamente distinto dos sentidos que essa palavra receberia na cultura moderna. Especialmente na filosofia moderna, concebemos a ideia como uma representação mental, uma abstração procedente do pensamento humano, uma produção intelectual dos sujeitos humanos.

Em Platão, as ideias não são criações dos seres humanos: elas são os seres em si, que existem objetivamente, a despeito de serem conhecidos pelos seres humanos. As ideias são a realidade plena, caracterizando-se pela inteligibilidade, pela incorporeidade, pela imutabilidade e pela unidade.

As ideias são rigorosamente inteligíveis, podendo ser contempladas unicamente pelo pensamento; são incorpóreas, pois situam-se em uma dimensão metafísica essencialmente distinta do plano físico, sensível; são imutáveis, porque, em sua eternidade e incorporeidade, não pertencem ao movimento do devir; e são as unidades absolutas, das quais derivam as multiplicidades imperfeitas da esfera sensível.

Vale recordar que a complexa teoria das ideias delineia o dualismo ontológico presente no sistema filosófico de Platão. Para o platonismo, a totalidade do real é composta por níveis distintos de realidade, o plano dos seres em si, eternos, e o plano dos seres inseridos no devir, corruptíveis.

Em termos sucintos, constata-se que o plano das ideias é a causa do plano sensível: tudo o que existe na esfera sensível, desde os valores morais até os objetos fabricados pelos seres humanos, existe como derivação imperfeita da esfera das ideias.

Por: Wilson Teixeira Moutinho

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