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Cinismo

A origem do cinismo precede a época helenística, uma vez que a atitude filosófica cínica foi inaugurada no século V a.C., por Antístenes (444-365 a.C.). Admirador de Sócrates, esse filósofo recolheu a proposta socrática de forma bastante singular: renunciou ao modo de vida aristocrático e assumiu uma existência despojada, contestando abertamente os valores e as práticas sociais. Entretanto foi com seu discípulo, Diógenes de Sínope (404-323 a.C.), que a filosofia cínica tornou–se amplamente conhecida.

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Acerca de Diógenes, constam algumas narrativas reveladoras do conteúdo do cinismo. Um desses relatos afirma que esse filósofo habitualmente, em plena luz do dia, caminhava com uma lanterna por regiões movimentadas de Atenas, anunciando estar em busca do verdadeiro homem. Por que Diógenes circulava persistentemente entre diferentes seres humanos, buscando a autêntica humanidade? Quem era, afinal, o homem por ele procurado? Por que nenhum dos indivíduos encontrados era verdadeiramente um ser humano?

Na realidade, essa atitude de Diógenes contém uma denúncia radical à vida em sociedade. De acordo com seu ponto de vista, os seres humanos, arrebatados pelos valores, pelas normas e pelos costumes sociais, distanciaram-se de sua natureza propriamente humana. Perguntando pelo genuíno ser humano, o cínico criticava incisivamente o conjunto de convenções sociais que, conforme o seu ponto de vista, contrariam a natureza da humanidade.

Não se tratava simplesmente de recusar as instituições vigentes, propondo sua substituição por outras normas sociais, mas sim de uma absoluta rejeição da artificialidade imanente à vida em sociedade. Diógenes condenou a propriedade privada de bens, a valorização das riquezas materiais, o poder político, as relações familiares, os saberes intelectuais, ou seja, tudo aquilo que, na concepção do cinismo, afasta o ser humano de sua natureza.

Exemplar a esse respeito é outro suposto episódio da vida de Diógenes. Consta que o imperador Alexandre Magno recebeu notícias sobre o extravagante modo de vida desse cínico. Impressionado com as informações, Alexandre solicitou ser conduzido à sua presença e o encontrou descansando sob o sol. Diante dele, colocou-se à disposição para auxiliá-lo, perguntando sobre o desejo dele e sobre o que poderia lhe oferecer para satisfazê-lo. A resposta de Diógenes ao governante do Império resumiu a atitude filosófica cínica: “Afasta-te do meu sol”.

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Cinismo.

As atitudes atribuídas a Diógenes são congruentes com a recusa cínica da artificialidade da vida social. Consta que esse filósofo, coerentemente a seu desapego de bens materiais, morou, durante certo tempo, em um barril.

Sob o prisma cínico, as convenções sociais instituem um largo repertório de elementos supérfluos, que, contrariando a natureza humana, inviabilizam a felicidade dos seres humanos. O que é, então, a vida humana em conformidade com sua natureza? É o exercício contínuo da liberdade na realização das necessidades puramente animais dos seres humanos. Sendo assim, a autonomia e a felicidade dos seres humanos exigem a eliminação da artificialidade da existência social, reconduzindo a humanidade à sua plena natureza.

A etimologia da palavra cinismo revela plenamente a recusa dessa atitude filosófica aos valores fixados pela vida em sociedade. O termo cínico é proveniente do grego kynikos, cujo significado é “como um cão”. Sua utilização na nomeação desses filósofos destaca precisamente o relevo que estes concedem à natureza humana em sua animalidade, no sentido de que o indivíduo poderia levar uma vida sem bens materiais, utilizando, semelhante- mente a um cão, apenas o necessário à sobrevivência.

Dessa forma, o cinismo pode ser legitimamente definido como uma atitude anti-intelectual e, em sentido mais abrangente, como uma filosofia anticultural, à medida que rejeita radicalmente as variadas construções culturais dos seres humanos em sociedade. Por essa razão, muitos historiadores da filosofia não reconhecem o cinismo como uma escola filosófica, considerando-o somente como a defesa de um de- terminado modo de vida.

Alegam, para tanto, que a filosofia consiste justamente em um gênero cultural caracterizado pela elaboração de sofisticados sistemas teóricos que pretendem conhecer intelectualmente a totalidade do real ou, pelo menos, muitos de seus aspectos. Há, ainda, estudiosos que classificam o cinismo como uma corrente realmente filosófica, sob a justificativa de que a densidade da crítica social efetuada pelos cínicos implica um significativo leque de problematizações filosóficas.

Por: Wilson Teixeira Moutinho

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