Biografias

Chiquinha Gonzaga

Francisca Edwiges Neves Gonzaga, dita Chiquinha Gonzaga, compositora e pianista popular brasileira. Maior figura feminina da música popular brasileira, compôs 87 partituras de teatro musicado e quase 2 mil peças.

De família tradicional, Chiquinha Gonzaga enfrentou os preconceitos de uma sociedade moralista que não admitia a presença de uma mulher no mundo artístico. Além de artista talentosa, participou ativamente da campanha abolicionista, destinando a renda de suas músicas a associações antiescravocratas, e lutou pela Proclamação da República.

Biografia

O cenário musical atual conta com a presença de muitas figuras femininas: cantoras, compositoras e instrumentistas. A história das mulheres na música deve-se à trajetória de Chiquinha Gonzaga, que nasceu no Rio de Janeiro, em um século cujos costumes não condiziam com sua personalidade. Ela foi a figura feminina de maior destaque na música brasileira e pioneira na luta das liberdades no Brasil.

Seu pai foi um militar ilustre e sua mãe, filha de escrava. Teve como padrinho Duque de Caxias e foi educada pelos professores mais competentes do Rio de Janeiro para se tornar uma verdadeira dama da sociedade carioca, mas cresceu em um período em que o país passava por grandes transformações.

Retrato em preto e branco de de Chiquinha Gonzaga já idosa.
Chiquinha Gonzaga.

Aos 11 anos, compôs sua primeira obra, e, aos 16, casou-se pela primeira vez com um empresário escolhido por seu pai. Teve três filhos, mas o casamento durou pouco, pois sua dedicação ao piano era maior do que a que devotava a seu marido. Decidiu abandonar seu casamento ao se apaixonar pelo engenheiro João Batista de Carvalho e passou a viver com ele aos 18 anos – um escândalo na época, que resultou em um turbulento divórcio. Por causa das traições de seu segundo marido, resolveu se separar. Essas separações deram-se em um período em que a sociedade era rígida com a mulher, e ela perdeu a guarda dos filhos, só conseguindo permissão de ficar com o filho mais velho.

Sozinha, com um filho para criar e sem apoio familiar, só restou a ela viver do que sabia fazer de melhor, compor e tocar piano, uma ousadia inédita para a época, principalmente sendo praticada por uma mulher. Ingressou, na década de 1870, no grupo Choro Carioca e conquistou seu espaço no universo da boemia, então dominado pelos homens.

A partir daí, passou a militar a favor da abolição da escravatura, da proclamação da república e da defesa dos direitos da mulher, época em que ninguém cogitava a palavra feminismo. Chegou a vender suas partituras musicais de porta em porta e, com o dinheiro arrecadado, comprou a alforria de um escravo músico.

Ao perceber a exploração de seu trabalho, resolveu fundar, em 1917, a Sociedade Brasileira de Autores (SBAT), a primeira no país. A introdução de instrumentos populares, como o violão, nas apresentações, foi iniciativa dela, e também se deve a ela o fato de o piano cair no gosto popular. Em 1885, tornou-se a primeira maestrina brasileira e, em 1899, compôs a música que se tornaria a primeira marchinha carnavalesca da história: “Ó abre alas”.

Nascia um novo gênero musical, que daria uma nova personalidade ao carnaval brasileiro e o reconhecimento eterno a ela. Como maestrina, Chiquinha Gonzaga compôs 77 peças de teatro, de gêneros variados, e seu maior sucesso teatral foi Forrobodó, que chegou a ter cerca de 1500 apresentações seguidas após estrear.

Em 1914, sua obra conhecida como “Corta-jaca” repercutiu na política brasileira ao ser executada ao violão na residência oficial da presidência da república, por Nair de Tefé, amiga de Chiquinha Gonzaga e primeira-dama do Brasil na época, esposa do presidente Hermes da Fonseca. Pela primeira vez, uma canção popular foi executada na sede do governo. Para uns, foi considerada quebra de protocolo; para outros, a “alforria” da música popular brasileira.

Aos 52 anos, Chiquinha Gonzaga conheceu um jovem aprendiz de músico, de apenas 16 anos, e eles se apaixonaram. Viveu com ele em segredo até o final de sua vida, aos 87 anos.

Poucos músicos foram tão produtivos quanto ela, que transitou por vários estilos musicais, como choro, polca, samba e tango, e produziu mais de duas mil obras musicais. Em 2012, o dia 17 de outubro, dia de seu nascimento, foi oficializado como o Dia da MPB. Até hoje, ela é lembrada por ter sido uma mulher à frente de seu tempo e pela grande contribuição dada à música brasileira.

Por: Wilson Teixeira Moutinho