Geografia

Causas da Pobreza na África

Quando falamos da África, é muito comum surgir uma concepção estereotipada de que os países desse continente são pobres ou miseráveis. Para entendermos as reais causas e as consequências da miséria africana, é necessário refletir sobre o significado do termo pobreza.

Pobreza pode ser definida como estado de todo indivíduo cujo nível de renda ou consumo fica abaixo do essencial para suprir necessidades humanas básicas.

Os países africanos figuram entre os que apresentam menores valores de PIB nominal per capita do mundo, evidenciando os baixos índices econômicos dos países do continente. Quando, além de índices econômicos, são levados em consideração dados de qualidade de vida como os considerados pelo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), os países da África continuam entre os que apresentam os menores índices mundiais.

Lista de países classificados pelo IDH.
Os países com IDH abaixo de 0,5 (coloridos em laranja e vermelho no mapa) são considerados com baixo IDH, sendo o grupo de países com piores valores sociais do mundo.

A maior parte dos países classificados com baixo IDH pertence ao continente africano. Esses dados mostram que a pobreza na África não é um fenômeno pontual, mas que ocorre em grande parte do continente, principalmente na região subsaariana, onde estão localizados os países que mais sofreram com o processo de exploração colonial.

Os altos índices de pobreza de boa parte da população que habita a África não são resultado de uma explicação isolada. Os fatores que contribuem para o estabelecimento de um estado de pobreza conjuntural são múltiplos e estão relacionados às estruturas internas dos países africanos e aos diversos agentes externos que, de alguma maneira, influenciam estruturas sociais, políticas e econômicas nesse continente.

Mau gerenciamento da terra

Os países africanos apresentam, em geral, grande concentração de terras, um legado do Período Colonial, em que áreas mais férteis e com melhor produtividade agrícola eram distribuídas entre os colonizadores europeus. Com o fim do Período Colonial, não houve redistribuição dessas terras, que continuaram em posse da elite. Essa estrutura fez a maior parte da população rural africana ter acesso a menores áreas agricultáveis, com menor produtividade e solos mais pobres, deixando tal população em desvantagem.

Para ter ideia de como essa concentração de rendas ocorre, na África do Sul, por exemplo, cerca de 82% de todas as áreas agricultáveis estão concentradas nas mãos de descendentes de europeus. Esse sistema faz com que africanos, de fato, não possuam propriedade de grandes áreas de agricultura. Entre as alternativas que restam para a população rural desses países estão trabalhar como empregados na terra pertencente a outras pessoas ou utilizar terras menos produtivas, mesmo sem título de propriedade.

Mau uso dos recursos financeiros

Outro fator de impacto na pobreza da África é a má utilização de recursos financeiros de ajuda. Anualmente, uma quantidade bastante significativa é enviada ao continente por órgãos e organizações que colaboram no com- bate à pobreza. Apesar de os valores doados somarem mais de centenas de bilhões de dólares todos os anos, essas doações têm impacto pouco significativo a longo prazo.

Um dos grandes motivos do mau uso desses recursos envolve sistemas políticos em vigência no continente africano. Muitos países enfrentam regimes de governo não democráticos, com pouca transparência na utilização de seus recursos, o que abre margem para que valores doados não sejam necessariamente direcionados para os seus usos iniciais. A corrupção também tem impacto negativo no encaminhamento de ajuda a áreas real- mente necessitadas. O desvio de recursos financeiros, além de perpetuar a situação de pobreza dos países africanos, cria um clima de desconfiança junto aos doadores.

Recursos humanos

Com baixos níveis de educação, principalmente nas regiões rurais, os países africanos têm dificuldade na formação de recursos humanos que permitam fortalecer fontes de renda e propiciar mudanças na situação de pobreza.

Sem acesso à educação, populações mais jovens não conseguem ascensão social e econômica com relação às gerações precedentes, o que gera um ciclo de pobreza durante gerações.

Um dos grandes entraves do acesso à educação no continente africano, mesmo em países com melhores níveis de desenvolvimento (Egito e África do Sul, por exemplo), está relacionado à diversidade linguística. Em geral, a educação formal é realizada nas línguas coloniais, como francês e inglês.

Muitas vezes, as populações mais interiores possuem, como língua materna, línguas tradicionais ou dialetos que acabam impossibilitando o acesso à educação.

Pouca infraestrutura

As estratégias territoriais adotadas pelo sistema colonial africano não tiveram preocupação em estabelecer redes de conexão e mobilidade no continente. Na maioria dos países, essas redes se limitam a estradas férreas e rodovias que buscam apenas conectar regiões produtoras e áreas litorâneas, dificultando a integração territorial dos países africanos.

Além disso, o acesso a serviços de saúde e a distribuição de produtos são dificultados entre diferentes regiões internas africanas, que mesmo próximas não apresentam boa logística. Esse sistema perpetua a lógica de importações, aumentando a dependência de produtos externos e submetendo grande parte dos países africanos às lógicas do mercado internacional.

Nas cidades, a falta de infraestrutura marcada pelos baixos índices de saneamento básico, como instalação de redes de esgoto, acesso à água potável ou energia elétrica, cria condições que perpetuam o estado de pobreza das populações com menor poder aquisitivo.

Outros fatores de pobreza

Outros fatores conjunturais também podem ser considerados influentes nas altas taxas de pobreza do continente africano, como conflitos políticos e armados em diferentes regiões, que colocam grande parte da população em risco constante. Além disso, altas taxas de doenças como as transmitidas pela falta de infraestrutura sanitária (cólera, por exemplo) ou as sexualmente transmissíveis (HIV, por exemplo), contribuem para a perpetuação do estado de pobreza dos países africanos.

Por: Wilson Teixeira Moutinho

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