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As Cruzadas

Em 1095, na cidade francesa de Clermont, o papa Urbano II fez um discurso convocando os cristãos da Europa a marcharem em direção ao Oriente para combater os “infiéis” muçulmanos que dominavam aquela região, inclusive a cidade de Jerusalém, considerada santa pelos cristãos por se tratar do local no qual se encontrava o Santo Sepulcro, ou seja, o túmulo de Jesus Cristo.

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Nascia, assim, uma série de expedições militares e religiosas, que receberam o nome de Cruzadas e que acabaram se estendendo não apenas ao Oriente, mas também à península Ibérica e ao norte da África, já que estas regiões também se encontravam sob o domínio dos árabes muçulmanos desde o século VIII.

Observe-se que as Cruzadas tinham um aspecto de Guerra Santa, a exemplo da Jihad islâmica, pois sua intenção era combater os infiéis, o que, neste caso, representava combater aquele que não era católico e tudo em nome de Deus.

A adesão ao chamado do papa Urbano II foi grande, e isso se explica em grande parte pela religiosidade do homem medieval, aumentada com a crise que se desenrolava. A sociedade europeia buscava solucionar seus problemas por meio da religião. Contudo, para encontrarmos os fatores que geraram as Cruzadas é importante analisarmos o conjunto dos interesses que estiveram envolvidos no processo, além, é claro, da questão religiosa.

Causas das Cruzadas

Já foi dito que o crescimento demográfico exigia a canalização do excedente populacional europeu para outras áreas, e isso pode ser considerado um elemento incentivador para o início das Cruzadas. A nobreza via nas Cruzadas um caminho para a conquista de novas terras fora da Europa, o que serviria para dar novo fôlego ao sistema feudal.

Muitos mercadores das cidades italianas de Gênova e Veneza aderiram ao movimento, pois viam nele a possibilidade de reabertura do mar Mediterrâneo ao comércio com os ricos centros do Oriente.

Para a Igreja Católica, abria-se a possibilidade de expandir sua influência com a conquista de novos seguidores no Oriente, além de uma possível reunificação com a Igreja Ortodoxa, que havia sido criada em 1054 pelo Cisma do Oriente.

Para as camadas mais pobres e marginalizadas da população europeia, a expansão para o Oriente representava novas expectativas de sobrevivência, como trabalho, terras e fortuna.

Havia também um interesse externo à Europa: o Império Bizantino esperava que as Cruzadas pudessem ajudar a impedir o crescimento de forças muçulmanas que ameaçavam Constantinopla.

Contudo, não podemos perder de vista que o ponto de partida para as Cruzadas foi a questão religiosa. Tanto que a causa imediata do início das expedições foi a proibição, determinada pelos turcos muçulmanos, à peregrinação dos cristãos ao Santo Sepulcro, na cidade de Jerusalém. Até a metade do século XI, as peregrinações eram frequentes e permitidas pelos califas árabes, que lucravam com o comércio na região. Com o domínio dos turcos sobre o Oriente Médio, as peregrinações foram proibidas, fato que desencadeou a reação do Ocidente cristão.

As Cruzadas

Existiram várias Cruzadas em direção ao Oriente Médio. Costumamos dividi-las em oito Cruzadas oficiais e duas extraoficiais, conhecidas como Cruzada dos Mendigos e Cruzada das Crianças.

A Primeira Cruzada (1096-1099) foi a única que obteve sucesso em relação aos objetivos iniciais do movimento, pois os nobres que dela participaram conseguiram ocupar Jerusalém, bem como outras cidades da região, onde as possessões foram organizadas nos moldes do sistema feudal europeu. A conquista de Jerusalém pelos cristãos foi marcada por extrema violência. Cerca de dez mil muçulmanos foram mortos no templo da cidade, não escapando da carnificina nem mesmo mulheres e crianças.

Vestimenta dos soldados nas cruzadas.
Soldado cruzado em seu traje típico.

Em decorrência do sucesso alcançado pela Primeira Cruzada, surgiram ordens monásticas  que tinham por finalidade a proteção da cidade de Jerusalém, como a Ordem dos Cavaleiros Templários, ou ainda o atendimento a doentes e feridos, como a Ordem dos Hospitalários.

Ainda com relação à Primeira Cruzada, deve-se destacar o seu desdobramento no que se chamou de Cruzada dos Mendigos. Organizada por Pedro, o Eremita, e Gautier Sem-Vintém, era composta por aproximadamente 40.000 pessoas, na maioria pobres marginalizados das cidades europeias que buscavam alternativas de sobrevivência. Esses cruzados seguiram em direção a Constantinopla, sofrendo com a fome e doenças ao longo do percurso. Após receberem ajuda do imperador de Constantinopla, que temia assaltos em sua capital, os cruzados foram massacrados pelos turcos.

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A Segunda Cruzada (1147–1149), liderada pelos reis Luís VII, da França, e por Conrado III, do Sacro Império Romano-Germânico, foi organizada para expulsar os turcos muçulmanos que haviam reconquistado alguns dos territórios perdidos para os cristãos durante a Primeira Cruzada. Contudo, a Segunda Cruzada fracassou devido a divergências entre seus líderes.

Em 1187, Jerusalém foi reconquistada pelos muçulmanos através da ação militar dirigida pelo sultão Saladino. Isso fez com que fosse organizada a Terceira Cruzada (1189–1192), também conhecida como a “Cruzada dos Reis”, já que era liderada pelos reis Ricardo Coração de Leão (Inglaterra), Frederico Barba Ruiva (Sacro Império Romano-Germânico) e Felipe Augusto (França). A finalidade dessa Cruzada era reaver o domínio sobre Jerusalém, mas ela terminou com a assinatura de um acordo com o sultão Saladino, que permitia a peregrinação cristã a Jerusalém.

Na Quarta Cruzada (1202-1204) estiveram presentes interesses comerciais de mercadores da cidade de Veneza (Itália), ficando por isso conhecida como a “Cruzada Comercial”. Os cruzados investiram contra Constantinopla, sede do Império Bizantino e grande centro comercial, saqueando a cidade e matando milhares de pessoas. Em decorrência dessa Cruzada, Veneza assumiu o comando do comércio marítimo existente no Mediterrâneo, religando economicamente o Ocidente ao Oriente. Observe-se que a Quarta Cruzada desviou-se totalmente dos objetivos iniciais do movimento, pois nem sequer aproximou-se de Jerusalém.

Em 1212, foi organizada a Cruzada das Crianças, sustentada pela crença de que Jerusalém só poderia ser libertada dos muçulmanos pelas mãos das “almas puras”. Mesmo contra a vontade do papa Inocêncio III, milhares de crianças foram mandadas para Jerusalém e acabaram mortas ou vendidas como escravas nos mercados do Oriente.

Dirigida contra os muçulmanos do Egito, a Quinta Cruzada (1217–1221) fracassou totalmente. A Sexta Cruzada (1228–1229), comandada por Frederico II, imperador do Sacro Império Romano-Germânico, aproveitou-se de problemas internos no Império Turco e negociou a liberação de Jerusalém para os cristãos. Contudo, esse acordo não durou mais do que uma década.

A Sétima (1248–1250) e a Oitava Cruzadas (1270) foram dirigidas pelo rei francês Luís IX contra o Egito e o Norte da África, mas ambas fracassaram.

Mapa dos caminhos feitos pelas 8 cruzadas.
As Cruzadas contra o Oriente (1095-1270).

Consequências das Cruzadas

As Cruzadas fracassaram no plano militar, pois não se consumou a ocupação definitiva de Jerusalém. Por outro lado, foram grandes as modificações provocadas por elas na sociedade europeia da Baixa Idade Média.

Pode-se dizer que as Cruzadas representaram uma expansão europeia para além de seus limites. Na península Ibérica, por exemplo, a nobreza acabou por conquistar terras que estavam sob o domínio árabe.

Para as cidades italianas, as Cruzadas deixaram como consequência a reabertura do mar Mediterrâneo ao comércio com o Oriente. Isso foi possível com a reconquista de pontos que estavam sob o domínio árabe e bizantino desde o século VIII. Os interesses materiais foram sobrepostos aos da fé. Armas, marfim, ouro, prata, perfumes, tecidos de seda e as famosas especiarias (cravo, canela, gengibre, pimenta etc.), além de outros artigos de luxo, começavam a penetrar na Europa pelas mãos de comerciantes das cidades italianas de Gênova e Veneza, entre outras.

O comércio renascia nas pequenas cidades e vilas europeias, com novas práticas e novos costumes. Moedas, mercados, lucros, comércio e comerciantes: novas expressões e novas práticas que contrastavam com o mundo ruralizado e com comércio monetário do feudalismo.

A Igreja Católica, fortalecida num primeiro momento pelo sucesso da Primeira Cruzada, acabou assistindo ao fortalecimento de alguns reis europeus que se sobrepuseram à nobreza feudal e ao poder político que a Igreja de Roma exercia sobre a Europa.

Enfim, após as Cruzadas, o mundo feudal estava em desagregação.

Referências Bibliográficas:

FERREIRA, José Roberto Martins, História. São Paulo: FTD; 1997.
MORAES, José Geraldo. Caminho das Civilizações. São Paulo: Atual. 1994.

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